Suíça e a neutralidade na Segunda Guerra Mundial

Cercada por territórios do Eixo, a Suíça manteve a neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial — e isso sempre levantou suspeitas e debates. O texto apresenta as explicações mais discutidas, do fator militar e geográfico aos interesses econômicos, comerciais e diplomáticos que tornariam mais vantajoso manter o país neutro do que ocupá-lo.

Este artigo tem como finalidade analisar o papel da Suíça no contexto da Segunda Guerra Mundial, verificando os motivos para a neutralidade do país na guerra e por que Hitler preferiu não invadir a região.

A Suíça é um país considerado neutro há dois séculos, desde 1815, quando foi criado o Congresso de Viena. Este congresso teve o objetivo de reorganizar o continente europeu devido às conquistas de Napoleão Bonaparte. Desde esse período, a neutralidade da Suíça foi mantida, mesmo sendo ameaçada com diversos conflitos, como as duas guerras mundiais.


Mapa da Europa na Segunda Guerra Mundial com a Suíça cercada por territórios do Eixo
Mapa da Europa na Segunda Guerra Mundial: a Suíça aparece no centro do continente, cercada por territórios controlados ou alinhados ao Eixo, o que ajuda a entender por que sua não-invasão sempre gerou questionamentos.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha tinha como objetivo a expansão territorial, conceitualmente conhecida por “espaço vital” (Lebensraum), onde era necessário integrar as comunidades alemãs. Para a realização desse plano, as Forças Armadas Alemãs colocaram em prática uma tática militar chamada de Blitzkrieg (“guerra-relâmpago”).

A Blitzkrieg consistia em um ataque rápido e coordenado, usando a Luftwaffe (aviação), os Panzer (tanques) e a Wehrmacht (infantaria), gerando um grande avanço das tropas alemãs e conquistando boa parte do lado ocidental da Europa (veja o mapa acima).

Essas vitórias foram possíveis, em boa parte, graças ao acordo diplomático feito entre URSS e Alemanha antes do início dos conflitos, chamado de Pacto Molotov-Ribbentrop (Viatcheslav Molotov e Joachim von Ribbentrop – diplomatas das respectivas nações). Esse pacto baseava-se num acordo de não agressão entre as nações.


Mapa do front russo durante a Segunda Guerra Mundial
Frente oriental: o contexto URSS–Alemanha e o Pacto Molotov-Ribbentrop ajudam a entender decisões estratégicas no início do conflito e as prioridades militares alemãs.

Com as grandes conquistas realizadas pelas Forças Armadas Alemãs sobre o continente europeu, houve sempre o questionamento sobre o porquê a Suíça não havia sido invadida.

Em relação à geografia local, existiriam justificativas para a Suíça ser invadida, devido ao forte nacionalismo existente no momento em que se iniciou a Segunda Guerra Mundial e às fortes influências sofridas na região, pelas diversas nações.

Uma dessas influências é a língua falada nas regiões, devido a um grande número de pessoas que, reconhecidamente, têm ancestrais nesses países, como as regiões ao norte e centro, onde existem muitas marcas culturais da Alemanha, as terras ao sul pela Itália e a oeste pela França.


Mapa da Suíça com overlays de línguas e dialetos
Línguas e regiões: o território suíço reúne influências culturais e linguísticas de países vizinhos — alemão, francês e italiano — de forma bem marcada no mapa.

Quanto à indagação sobre os motivos que levaram a Suíça não ter sido invadida, ainda hoje existem diversos pontos de interrogação, até porque, durante a guerra, diversos planos não foram colocados em ação.

Um deles era uma suposta invasão na Suíça, chamada de Operação Tannenbaum (“árvore de Natal” em alemão), que tinha sido finalizada no ano de 1940. A conquista dessa região aconteceria através de “11 divisões alemãs, que invadiriam pelo norte e 15 divisões italianas, que chegariam pelo sul”. Esse plano nunca foi posto em prática.

Diversas teorias tentam explicar a neutralidade suíça na guerra. Uma delas entende que as Forças Armadas Alemãs teriam um grande problema em invadir a Suíça, devido à impossibilidade de a Luftwaffe e os Panzer conseguirem sobrevoar e atravessar os Alpes suíços.

Alguns pesquisadores do assunto acreditam que os motivos estariam relacionados ao aspecto militar e que os alemães teriam um alto custo em uma guerra nessa região, devido à população suíça ter uma cultura de porte de arma para todos os cidadãos. Acreditava-se que qualquer homem suíço poderia ser um soldado disposto a enfrentar as Forças Armadas da Alemanha.


Cartaz de propaganda relacionado à neutralidade armada
Neutralidade armada: a preparação civil e a ideia de defesa nacional aparecem com frequência em material visual do período e ajudam a explicar uma parte do argumento “militar”.

Essa visão, cada dia mais, está sendo questionada devido ao entendimento da grandeza que as Forças Armadas da Alemanha tinham, como uma das melhores forças do mundo e devido à superioridade que um militar tem sobre um cidadão comum, como era o suíço.

Nesse sentido, os motivos envolvidos para a Alemanha não invadir a Suíça estariam relacionados aos aspectos: econômicos, comerciais e diplomáticos.

Atualmente, os motivos que possibilitam uma melhor explicação para o fato da Suíça não ter sido invadida é que essa nação seria mais útil se mantivesse sua neutralidade. Essa visão surge através do reconhecimento de que a Suíça seria um local seguro para a manutenção das transações comerciais e financeiras existentes durante a guerra.

No período da guerra, havia a necessidade de conservar as relações comerciais e financeiras entre as nações para a continuidade do conflito, como a comercialização de matérias-primas e produtos industrializados.

A Suíça, devido a sua neutralidade, assim como outras nações que mantinham a mesma postura, ainda servia como local para espionagem e diplomacia entre as nações envolvidas e de refúgio para pessoas que fugiam da guerra.


Barras de ouro relacionadas a transações durante a Segunda Guerra Mundial
Ouro e finanças: a neutralidade suíça também é analisada pela perspectiva de transações, bancos e fluxos de ativos durante a guerra.

Entretanto, devido à diversidade de culturas dentro do seu território, ambos os lados que lutaram na guerra conseguiram se beneficiar de uma certa forma dessa neutralidade, o que também ocorreu na maioria das nações neutras (Suécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Andorra, Liechtenstein, Suíça e Vaticano) durante todo o período que durou o conflito.

Em relação a esse ponto de vista, alguns pesquisadores analisam que a Alemanha não invadiu a Suíça devido a diversos benefícios financeiros obtidos pelos alemães, através dos bancos suíços, como a utilização do dinheiro confiscado dos judeus alemães e enviado aos bancos da região. Essa visão acontece, porque os grandes bancos suíços, em sua maioria, têm sedes em Zurique, local de origem alemã.

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