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Este artigo tem como propósito analisar um dos principais crimes cometidos pelo Japão Imperial na Segunda Guerra Mundial, o Canibalismo. Inicialmente será averiguado o conceito de Canibalismo, em seguida observado como ele acontecia em outros períodos da história, e ao final será examinada a questão do Canibalismo praticado pelos Japoneses na Guerra.

Conceito de Canibalismo 

Segundo o historiador Ronaldo Vainfas, canibalismo pode ser conceituado da seguinte forma: “Na Grécia Antiga, o ato de comer carne humana era denominado anthropophagía. Somente depois da descoberta da América, difundiu-se o termo canibalismo… o canibalismo ocorreria motivado pela necessidade, sendo parte da dietética indígena.”

Ronaldo Vainfas continua explicando que existem dois tipos de canibalismo, o exocanibalismo e o endocanibalismo, e a diferença entre eles, de acordo com o historiador é: “Entre os primeiros, os festins canibalescos faziam parte da guerra. O prisioneiro era conduzido à aldeia, onde, mais tarde, encontraria a morte em ritual marcado pela vingança e por demonstrações de coragem. O endocanibalismo, por sua vez, não se pautaria na vingança contra o inimigo, mas na ingestão da carne de amigos ou parentes já mortos… De todo o modo, na historiografia, o canibalismo é tratado de forma distinta. Enfatiza-se menos o significado dos ritos antropofágicos no universo simbólico das culturas nativas e mais a representação europeia do canibal, considerada como o extremo do barbarismo.

História do Canibalismo 

A História do Canibalismo está relacionada com a origem dos seres humanos, pesquisas feitas por arqueólogos indicam que os primeiros Homos tinham como prática o canibalismo. Este hábito não foi um método utilizado somente pelos primeiros seres humanos, não foi algo que aconteceu por seres ‘atrasados’, e que com o desenvolvimento da humanidade esses costumes acabaram. Ele seguiu com os homens em muitos momentos, em diferentes culturas e civilizações e por diversas razões..

A forma de canibalismo mais conhecida está relacionada com celebrações e homenagens para deuses, prática comum dos povos indígenas, porém está prática também foi usada no dia a dia por alguns grupos que precisavam por viver em situações difíceis, precisando de alimentos, como afirmam os historiadores americanos Daniel Diehl e Mark P. Donnelly: “quando não há outro alimento disponível, e a diferença entre a vida e a morte está na capacidade de superar as implicações morais contra o consumo de carne humana, em geral a moralidade é posta de lado”. Outros indivíduos consumiam a carne humana pelo prazer, como também afirmam os mesmos historiadores: “Existiram sociedades em que se consumiu carne humana pelo sabor”.

Canibalismo Indígena

Como citado anteriormente foi no contato entre os europeus e os índios americanos que surgiu o termo Canibalismo, e esse estranhamento de culturas entre os dois povos trouxe diferentes visões dos costumes desses povos tão distintos, como é explicado por Lira Neto: “para os nativos, a Eucaristia cristã é que parecia uma atroz barbaridade. Os astecas, por exemplo, que não hesitavam em se regalar do sangue que jorrava dos sacrifícios humanos, achavam repugnante o fato de o homem branco comer seu próprio Deus, na forma de uma hóstia sagrada”.

Contexto do Período

O Japão Imperial como uma nação bélica, enfrentando países adversários não começou com a Segunda Guerra Mundial. Os japoneses desde o século anterior, já se preparavam para um salto tecnológico, industrial e militar, no período conhecido como a Era Meiji.

A Era Meiji possibilitou os japoneses se desenvolverem militarmente, e se prepararem para o Imperialismo Europeu que acontecia no Continente Asiático e uma política expansionista na região. Esta por sua vez pode ser destacada pelos seguintes conflitos: Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-1895), Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Invasão na Manchúria (1931), e finalmente a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945).

Imagem do Jogo Total War : Shogun 2, retratando a Era Meiji: Soldados x Samurais (Guerra de Boshin)

A Segunda Guerra Mundial na Europa tem início com a invasão da Alemanha na Polônia no dia 1º de setembro de 1939, mas os conflitos nas regiões conhecidas como Extremo Oriente tiveram início alguns anos antes quando se iniciou a Segunda Guerra Sino-Japonesa, que só teve fim com o término da Segunda Guerra Mundial.

A política expansionista Japonesa que conduziu o Japão Imperial para a Segunda Guerra Mundial, não teve início com a Segunda Guerra Sino-Japonesa, e sim no momento que a Nação estabeleceu relações diplomáticas com os Países Europeus do Eixo. Em 1936, o País assinou com a Alemanha o Pacto Anticomintern, aliança contra a União Sovética, e em 1940 foi formalizado o Pacto Tripartite ou Pacto do Eixo, que tinha como integrantes Alemanha, Itália e Japão.

Propaganda sobre o Pacto entre as Nações do Eixo

O Pacto do Eixo teve como consequência um aumento na política expansionista do Japão que desencadeou diversos conflitos, não somente nos territórios disputados na China, mas em um conflito com as Potências Aliadas conquistando inicialmente algumas regiões Independentes e controladas pelas Nações Imperialistas, como também o ataque a Pearl Harbor (1941), que deu início a chamada Guerra no Pacífico.

O início do conflito da Segunda Guerra Sino-Japonesa entre Japoneses e Chineses, teve como marco o incidente na Ponte de Marco Polo, em 1945, com os japoneses conquistando diversos territórios na China, e os chineses resistindo como possível devido à superioridade das Forças Armadas Japonesas.

Expansão Japonesa até 1942

A Guerra no Pacifico, se tornou a segunda frente de batalha dos Japoneses. Em 1941, dois anos após o início do conflito na Europa, o Japão começou uma série de ataques por todo o Pacifico. O ataque à base naval de Pearl Harbor provocou a entrada dos EUA na Guerra, que até esse momento era um País Neutro, e o início da campanha do País na região. Nos próximos dias e meses ao ataque aos Estados Unidos, o Japão atacou diversos Países como as Filipinas, Malásia, Singapura, Hong Kong, Tailândia, Birmânia, além de pequenas ilhas, expandindo o seu controle para boa parte das regiões do Pacífico.

Ataque à base naval de Pearl Harbor (1941)

Canibalismo Japonês

O objeto deste artigo ainda é um tema muito pouco abordado pelos especialistas em Segunda Guerra Mundial, um dos principais pesquisadores sobre este assunto é Antony Beevor, autor do livro A Segunda Guerra Mundial, onde ele contextualiza essa questão sobre o Canibalismo Japonês.

A grande maioria dos conflitos bélicos contam com relatos de excessos em todos os períodos históricos. A Segunda Guerra Mundial possui inúmeros registros de crimes de guerra e violações da Convenção de Genebra orquestradas por quase todos os envolvidos.

Se tratando da antropofagia praticada pelo Império Japonês, estas violações ou crimes de guerra possuíam um agravante por não serem cometidas por pequenos grupos ou pessoas, mas como relata Antony Beevor, utilizadas como uma estratégia militar: “Pelos relatórios recolhidos mais tarde ficou claro que a prática do canibalismo disseminada entre os soldados japoneses na guerra da Ásia-Pacífico ia além de incidentes ao acaso cometidos por indivíduos ou pequenos grupos sujeitos a condições extremas. Os testemunhos indicam que o canibalismo era uma estratégia militar sistemática e organizada… A prática de tratar os prisioneiros como ‘gado humano’ não surgiu por um colapso na disciplina. Em geral, era dirigida pelos oficiais. Além dos habitantes locais, as vítimas de canibalismo incluíram soldados papuas, australianos, americanos e prisioneiros de guerra indianos… No final da guerra, os captores japoneses mantiveram os indianos vivos para esquartejá-los e comê-los um por um.

Soldados australianos posam com restos humanos recuperados de um acampamento japonês

Quanto às crueldades cometidas contra os indianos, o relato de um prisioneiro de Guerra chamado Havildar Changdi Ram, chama a atenção:

“… os japoneses começaram a selecionar prisioneiros, todos os dias um prisioneiro foi levado para fora e morto e comido pelos soldados. Eu pessoalmente vi isso acontecer e cerca de 100 prisioneiros foram comidos neste lugar pelos japoneses. O restante de nós foi levado para outro local, a 80 km de distância, onde 10 prisioneiros morreram de doença. Neste lugar, os japoneses voltaram a selecionar prisioneiros para comer. Os selecionados foram levados para uma cabana onde sua carne foi cortada de seus corpos enquanto eles estavam vivos e eles foram jogados em uma vala onde eles morreram mais tarde.”

A visão que o canibalismo japonês, ocorreu com o consentimento dos oficiais japoneses é retratada pelo pesquisador japonês Toshiyuki Tanaka: “Os documentos mostram claramente que o canibalismo foi praticado por todo um grupo de soldados japoneses, e, em alguns casos, eles não estavam nem morrendo de fome”. Tanaka relata que encontrou em arquivos australianos mais de 100 casos onde os japoneses consumiram carne humana, e em muitos desses casos com o objetivo de sentirem na pele (literalmente) o sabor da vitória.

No caso das Forças Armadas dos EUA, existe um grande nome na Política norte-americana que quase se transformou em mais uma das vitimas de canibalismo japonês ao saltar de seu avião durante um combate aéreo. A pessoa em questão é o ex-Presidente George H. W. Bush, que governou os EUA, de 1989 até 1993. Ele mesmo relatou o ocorrido em uma entrevista para CNN: “Eu puxei o cordão muito cedo. E o que aconteceu foi que bati minha cabeça na cauda do estabilizador horizontal do avião”.

George H. W. Bush: à esquerda aos 20 anos e à direita como Presidente dos EUA em exercício

Bush acabou caindo distante das tropas japonesas e seu erro possibilitou que ele sobrevivesse diferentemente dos seus companheiros de aviação que acabaram sendo capturados, e servindo de alimento para as tropas japonesas como relatado por militares japoneses no julgamento contra o Japão pelos crimes cometidos na Guerra: “Em um julgamento sobre a execução dos aviadores da Marinha do Estados Unidos realizado em agosto de 1946, doze militares japoneses, incluindo o general Yoshio Tachibana, foram réus em um processo de crimes de guerra. Quando perguntados sobre o paradeiro dos corpos dos oficiais americanos, os onze subordinados de Yoshio relataram “a ordem do chefe”: um prato feito das coxas e fígado de americanos com molho de soja e legumes.”

General Yoshio Tachibana

O grande número de relatos sobre o Canibalismo Japonês indica uma naturalidade em relação a essa atitude, e nesse aspecto a pesquisadora Hannah Arendt, explica em seu livro “Eichmann em Jerusalém” (Companhia das Letras, 1999) a expressão “banalidade do mal”, onde autora relata que os casos cometidos pelo Nazismo nos campos de concentração, poderiam ter acontecido pelo fato dos militares terem perdido a noção das atrocidades que fazem diariamente, o que poderia justificar o que foi feito. Nesse sentido, essa visão trazida por Arendt, também justificaria os atos cometidos pelos japoneses contra seus oponentes na Guerra.

Conclusão

O Canibalismo Japonês permaneceu por décadas intocado e quase nunca abordado, e isso deve-se aos governos participantes na Segunda Guerra Mundial. Os casos somente ressurgiram nas últimas décadas, quando iniciou-se uma série de análises de arquivos relacionados à Segunda Guerra Mundial revelados após anos de sigilo absoluto. O próprio Tribunal Militar como não lidava com essas questões, preferiu não incluir no Tribunal de Tóquio o Canibalismo como relatado por Antony Beevor: “Como o tema era deprimente demais para as famílias de soldados mortos na Guerra do Pacífico, os Aliados omitiram as informações sobre o assunto, e o canibalismo não constou do Tribunal de Crimes de Guerra de Tóquio, em 1946.”

Restos humanos apresentando lacerações encontrados em acampamento militar japonês

Não há como afirmar a inexistência de indivíduos que cometeram atos de canibalismo resultante da ausência ou indisponibilidade de alimento, mas em grande parte conclui-se que a prática do canibalismo constituía-se basicamente do intuito de estratégia militar.

Alguns pesquisadores acreditam que o Canibalismo praticado pelos japoneses tem relação com a cultura do País, como explica Chris Sayas: “Quase parece que o fato de que o canibalismo existiu dentro de vários reinos da instituição militar japonesa pode parecer uma tentativa dos Aliados ou mesmo uma história reescrita do pós-Guerra Mundial. No entanto, tais atos de brutalidade se manifestaram por causa do auge da cultura militar imperial japonesa, ou seja, por meio de um entendimento muito geral do código do guerreiro Bushido, se não da corrupção total dele. O fanatismo que permeou toda a cultura militar japonesa antes da guerra também se espalhou pela cultura japonesa, essencialmente formando a mentalidade de como os oficiais imperiais japoneses e os soldados viam seu trabalho como guerreiros. Comer o inimigo poderia até ser visto como uma espécie de processo de imbuir. Parece que sua compreensão do componente Lealdade do antigo código do Bushido do samurai significaria, essencialmente, não apenas fazer qualquer coisa para lutar pelo Imperador, mas também se comprometer com o próprio. percepção do que ele deve fazer pelo Império como um todo. Milhões de soldados japoneses entraram na guerra com essa mentalidade fanática e distorcida de lealdade ao imperador, certificando-se de que ela se tornasse um fator contribuinte na quantidade de soldados imperiais japoneses que agiriam, cometendo crimes brutais contra prisioneiros de guerra e civis.”

A visão de que o Japão tenta apagar este tema da história é criticada por algumas pessoas, como o presidente do sindicato dos veteranos de guerra da Austrália, Bruce Ruxton. Ele explica: “que o Japão ignorou esses fatos durante cinco décadas. Isso foi confirmado na pesquisa de Tanaka: ele tentou publicar diversas vezes o trabalho em seu país de origem, mas acabou sendo censurado com o argumento de que “se tratava de um tema sensível” para a população nipônica.”

As punições sofridas pelos japoneses em relação a esses fatos tiveram como condenações os crimes de assassinato e prevenção de enterro honroso. O general Yoshio Tachibana foi o oficial mais graduado a ser responsabilizado por esses crimes, sendo julgado pela morte de aviadores da Marinha dos EUA.

Bibliografia

BEEVOR. Antony. A Segunda Guerra Mundial.1. ed. – Rio de Janeiro :Record, 2015.

GILBERT, Martin. A Segunda Guerra Mundial: os 2.174 dias que mudaram o mundo. 1. ed. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014.

VAINFAS. Ronaldo. Dicionário Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

FERRARI, Wallacy. Disponível: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/incidente-em-chichijima-o-bizarro-canibalismo-japones-contra-americanos-na-segunda-guerra.phtml. Acessado: 23/01/2021

SANGUINO, Julieta. Disponível: https://culturacolectiva.com/adulto/el-canibalismo-de-los-soldados-japoneses-en-la-segunda-guerra-mundial. Acessado: 23/01/2021.

TORTAMANO, Caio. Disponível: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/os-casos-de-canibalismo-do-japao-durante-a-segunda-guerra.phtml. Acessado: 23/01/2021

Prof. Pedro Drummond

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