Este artigo tem como finalidade, analisar o papel da FEB no teatro de operações da Itália e, principalmente, a rendição das tropas alemães em Fornovo di Taro aos brasileiros.

Introdução

A Segunda Guerra Mundial teve início em 1939, quando os alemães depois de terem desrespeitado o Tratado de Versalhes (1919), e conquistado diversos territórios como, Renânia (Zona Desmilitarizada desde a Primeira Guerra Mundial), Sudetos (Tchecoslováquia), Áustria, invadem a Polônia, eclodindo um processo de declarações de Guerra que desencadeou o início do Conflito.

No início da Segunda Guerra Mundial, grande parte dos países que compunham o Continente Americano mantiveram-se neutros no conflito. Muitas das nações americanas aproveitaram a guerra para vender seus produtos aos países integrantes que estavam em combate, e algumas das declarações de guerra feitas pelos países americanos, tem como motivação, ataques a navios mercantes.

No caso do Brasil, o País declarou guerra em agosto de 1942, após diversos navios brasileiros serem afundados pela Alemanha na costa brasileira. Após o ataque aos navios brasileiros, Getúlio Vargas, Presidente do Brasil, começa a sofrer uma grande pressão de boa parte da população para que o País declarasse guerra ao Eixo, o que acabou acontecendo.

O estopim para entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial foram os navios afundados pelos alemães, mas a participação no conflito envolveu diversas questões econômicas, comerciais, políticas e estratégicas. Durante toda a década de 1930, o Brasil teve um grande crescimento comercial com a Alemanha, o que provocou um grande receio por parte principalmente dos EUA, de que os brasileiros poderiam se aliar ao Eixo. Esse temor é observado por alguns pesquisadores, através da possibilidade de existir um possível plano de invasão dos EUA ao território brasileiro.

Entretanto, essa visão de uma possível aliança do Brasil com o Eixo, existe devido a dois aspectos: o crescimento comercial do País com os alemães e de uma pequena parte dos integrantes do governo serem simpatizantes, principalmente ao exército da Alemanha.

A relação do Brasil com os EUA vinha desde o fim da Primeira Guerra Mundial, quando os EUA se tornaram o principal parceiro político e comercial dos brasileiros.  Durante o Governo Vargas, por mais que houvesse um crescimento nas relações com a Alemanha, a principal parceria com os EUA dificilmente seria abalada, e consequentemente, essa hipótese de participação do Brasil do lado do Eixo, seria muito difícil de acontecer.

Após o início da Guerra, essa hipótese foi totalmente descartada quando o Brasil e os EUA acertaram alguns acordos, onde o Brasil autorizava os EUA utilizarem bases navais e marinhas em território nacional, e os EUA aprovaram o financiamento para a construção da Companha Siderúrgica Nacional (CSN) e, posteriormente da Companhia do Vale do Rio Doce (CVRD).

Com o rompimento das relações do Brasil com o Eixo e, posteriormente, com a declaração de Guerra, as discussões no Brasil ocorreram sobre a possibilidade do envio de tropas para o conflito. Isso acabou acontecendo quando o Brasil criou (1943) e enviou (1944) para a Itália a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que consistia na ida de 25.000 homens para o Teatro de Operações no Mediterrâneo. O Brasil destacou para a Guerra uma Divisão de Infantaria (conhecida como 1ª DIE, 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária), uma Esquadrilha de Observação (1º ELO), e um Esquadrão de Caças da FAB (1ºGAvC).

Embarque da FEB para o Teatro de Operações na Itália

No Teatro de Operações, a FEB se juntou ao IV Corpo do Exército dos Estados Unidos, que integrava o V Exército dos EUA, com o objetivo de libertar a Itália do exército Eixo, derrotar os alemães e sua Linha Gótica, linha de defesa alemã feita na Itália, e não permitir o deslocamento das tropas alemãs para outros Países da Europa. Nesse contexto, o Brasil teve seus objetivos conquistados e grandes vitórias no conflito, como as tomadas de Monte Castelo e Montese e a rendição da tropa alemã em Fornovo di Taro.

Linha Gótica

Conflito em Fornovo di Taro

O contexto em que aconteceu a rendição em Fornovo di Taro, é um período de final de conflito na Itália para o Brasil. Na data que ocorreu a rendição, a FEB já tinha conquistado Monte Castelo (21 de Fevereiro de 1945), Montese (14 de Abril de 1945) e diversos outros territórios, antes que a rendição das tropas alemãs em Fornovo di Taro, acontecesse em 30 de Abril de 1945, poucos meses antes da volta dos primeiros soldados para o Brasil (18 de Julho de 1945).

Mapa das Cidades Italianas onde a FEB combateu

A ida das tropas brasileiras para a região de Fornovo di Taro, ocorre quando o General Mark Clark define os objetivos da Operação Grapeshot ou Ofensiva da Primavera, que consistia em derrotar as tropas do Eixo que estavam estabelecidas no Vale do Pó, antes que eles pudessem fugir para fora da Itália.

Os oficiais brasileiros tinham recebido uma mensagem do IV Corpo de Exército dos EUA, informando a “presença de cerca de 2 mil homens e 40 blindados” e era necessário uma ação rápida para evitar o deslocamento das tropas inimigas.

O Coronel Nelson de Melo então seguiu com: “duas baterias de Artilharia, uma Companhia de Engenharia e uma Companhia de Tanques nesta posição atuando sobre Fornovo, nas direções de Montecchio (I Batalhão do 6º Regimento de Infantaria), San Michelle (II Batalhão do 6º Regimento de Infantaria), Bosconcello (III Batalhão do 6º Regimento de Infantaria), e tendo o lado oeste protegido pelo Esquadrão de Reconhecimento

No dia 26 de Abril de 1945, nas proximidades da região, as tropas brasileiras estabeleceram contanto com as tropas inimigas e iniciaram os ataques. No dia seguinte, uma figura central na rendição entrou em ação, o padre de Neviano di Rossi, Dom Alessandro Cavalli, que se voluntariou para mediar à rendição das tropas alemãs, desejando evitar mais derramamento de sangue.

Logo que os acordos firmados entre o padre e os oficiais brasileiros acontecessem, no dia 27 de Junho, o “vigário percorreu 6 km a pé por estradas e colinas, até chegar ao comando inimigo estacionado em Respício. Avisou sobre o cerco das forças brasileiras e usou de todos os argumentos possíveis e imagináveis para mostrar aos alemães que eles não tinham alternativa a não ser a rendição.”

Após muitas discussões, as tropas do Eixo aceitaram receber as condições impostas pelas tropas brasileiras, o documento foi “escrito em italiano pelo padre, era um apelo ao bom senso das tropas cercadas, já sem munição e sem meios de reação: “para poupar sacrifícios inúteis de vidas, intimo-vos a render-vos incondicionalmente ao comando das tropas regulares do Exército Brasileiro, que estão prontas para vos atacar. Estais completamente cercados e impossibilitados de qualquer retirada. Quem vos intima é o comandante da vanguarda da Divisão brasileira que vos cerca. Aguardo dentro do prazo de duas horas a resposta do presente ultimato.””¹

“¹Nelson de Mello, Coronel Comandante do 6º Regimento de Infantaria.”

– 28 de Junho de 1945Retirado do Livro A FEB pelo seu Comandante, do Marechal Mascarenhas de Moraes

Porem, inicialmente, as tropas brasileiras não receberam nenhuma resposta dos alemães, e as batalhas aconteceram por todo dia 28, e somente no final do dia os primeiros procedimentos para a rendição começaram a acontecer, quando o Major Kuhn compareceu no Posto de Comando Brasileiro, portando uma bandeira branca. No início das tratativas, o Major Alemão foi questionado pelo Major Carlos Gross, Comandante do 1º Batalhão do 6º RI, sobre os motivos para a rendição, o Major respondeu: “Meu comandante disse que a guerra está perdida, que temos muitos feridos sem atendimento, que estamos gastando os últimos cartuchos para sustentar o fogo nesse momento e não temos comida. Queremos aproveitar a oportunidade de nos render aos brasileiros, porque sabemos que seremos bem tratados”.

A única exigência das tropas inimigas era que os feridos deveriam ser cuidados, o que foi aceito de imediato pelos oficiais brasileiros. No local e horário acordados, começaram a chegar “13 ambulâncias inimigas repletas de feridos, que foram tratados e evacuados para Modena…. cerca de 80 inimigos feridos, alguns em estado grave.”

O resto do contingente se apresentou nos locais determinados, sendo “a maioria da 148ª DI, além de integrantes da 90ª Divisão Panzergrenadier e de italianos da Divisão Bersaglieri … Os soldados alemães, em grandes filas, depuseram as armas, observados pelos pracinhas brasileiros…. Totalizando cerca de 14.779 homens, 4.000 cavalos, 2.500 viaturas, 80 canhões de diversos calibres foram entregues durante a rendição… Enormes pilhas de armamentos e munição se formaram… Os comandantes das Divisões que se renderam ficaram por último, com a finalidade de manter a decisão de que todos se entregassem, pois havia dissidentes que não concordavam com a capitulação.”

Armas entregues pelos alemães após a rendição em Fornovo

Finalmente, nos dias 29 e 30 de abril, os últimos oficiais alemães se renderam, “após supervisionar todos os procedimentos e dando por encerrada a rendição das tropas alemãs e italianas, o primeiro comandante a se entregar foi o General Mário Carloni, com seus 18 oficiais do Estado-Maior. No dia 30, foi a vez da rendição do comandante da divisão alemã com os 31 oficiais de seu estado-maior. O General Otto Fretter Pico foi entregue ao General Falconiére da Cunha para ser conduzido até a presença do General Mascarenhas de Moraes e, posteriormente, seguir para Florença.”.

General Otto Fretter Pico se entregando à FEB.

A rendição provocou a captura de 15.000 soldados das tropas inimigas, e diversos elogios a FEB, como o feito pelo General Mark Clark, Comandante do V Exército de Campanha, “Foi magnífico o final de uma atuação magnífica”.

Conclusão

O Brasil na Segunda Guerra Mundial teve uma grande participação no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Em algumas ocasiões, as tropas brasileiras foram protagonistas, como no caso da Rendição das tropas em Fornovo di Taro, o que permitiu uma valorização das tropas brasileiras perante as grandes potências envolvidas no conflito.

Essa visão foi reconhecida pelos principais comandantes que tinham sob sua responsabilidade as tropas brasileiras, como o General Crittemberg que opinou o seguinte sobre a FEB, após a Segunda Guerra Mundial: “Estou orgulhoso de haver tido a 1ª Divisão de Infantaria da FEB como parte do IV Corpo na Itália. Os feitos da FEB durante a Campanha terão um lugar proeminente quando for escrita a História da Segunda Guerra Mundial”.

O general Mark Clark, Comandante do V Exército Americano, se dirigiu ao General Mascarenhas de Moraes, através de uma carta, onde ele deixava claro a sua opinião em relação às tropas brasileiras: “A FEB, sob o seu comando, teve uma parte importante na longa campanha, agora felizmente terminada. O seu ataque para NW entre a 1ª Divisão Blindada e a 92ª DI foi uma contribuição vital para a nossa vitória. Tive o privilégio de ter a FEB como parte do 15º Grupo de Exércitos”.

Os acontecimentos em Fornovo di Taro e em outras regiões, esclarecem os motivos das opiniões dos Comandantes Americanos, pois por mais que o Teatro de Operações na Itália não fosse um dos mais relevantes da Segunda Guerra Mundial, as tropas do Eixo, principalmente alemãs, não eram totalmente despreparadas e sem experiência.

A 90ª Divisão Panzergrenadier, que teve diversos membros se rendendo em Fornovo di Taro, era uma Divisão, onde muitos dos seus membros tinham participado da Campanha do Norte da Áfria (Afrika Korps). A mesma coisa aconteceu com a 148ª Divisão de Infantaria, que tinha alguns de seus membros, como o General Pico, que tinha participado da Invasão à Polônia e as Campanhas na França e na Rússia.

A relevância dos fatos em Fornovo di Taro, é observada também pelo fato de uma Divisão inteira ter se rendido, o que na época do acontecido era muito difícil de acontecer, principalmente no Teatro de Operações italiano.

Porém, por todos esses fatos, batalhas e reconhecimentos externos, no qual as tropas brasileiras conseguiram, a FEB quando voltou ao Brasil não teve o devido reconhecimento. Assim que as tropas chegaram ao País, a FEB foi dissolvida e muitos soldados ficaram sem assistência e com dificuldades de reintegrar-se a sociedade. Os oficiais das Forças Armadas Brasileiras ainda tiveram certa relevância em diversos episódios da Política Brasileira, como a derrubada de Getúlio Vargas do poder (1945) e outros acontecimentos políticos nos anos seguintes.

Pedro Drummond

Autor Pedro Drummond

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