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Este artigo tem como objetivo, identificar os campos de concentração existentes no Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial, os motivos para sua existência e como era a vida das pessoas que viveram nesses locais.

Conceito de Campo de Concentração

Quando é tratado como tema o termo Campos de Concentração, inicialmente é preciso identificar o que está sendo analisado. O termo Campos de Concentração ficou estereotipado como um dos símbolos da Alemanha Nazista, porém, segundo Hannah Arendt, no seu livro Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo e totalitarismo, o nome é usado pela primeira vez no “início do século XX, na Guerra dos Bôeres, na África do Sul”. Na visão da autora, os campos de concentração não foram criados pelos regimes totalitários, contudo, se difundiram com maior rapidez durante esses governos nos anos 30 e 40 do século XX.

Conceitualmente, a pesquisadora Priscila Perazzo, no seu livro, “Prisioneiros da Guerra: os “Súditos do Eixo” nos campos de concentração brasileiros (1942-1945)”, identifica Campos de Concentração como: “aquele mecanismo de caráter autoritário que visa afastar do meio social todo aquele cidadão perigoso à ordem de segurança nacional num ambiente em que o governo possa manter o controle absoluto”

Hannah Arendt, no mesmo livro citado anteriormente, explica que o termo Campos de Concentração pode ser dividido em três formas diferentes de campos: “Primeiro, aquele destinado aos grupos condenados ao trabalho forçado, que viviam em relativa liberdade, cujas sentenças são limitadas. Segundo, aqueles campos de concentração em que os homens eram explorados ao máximo em sua força de trabalho, quando o índice de mortalidade é muito alto. Terceiro, aqueles campos de aniquilação ou extermínio nos quais os internos eram sistematicamente exterminados pela fome e pelo abandono.”

Arendt analisa que essas três formas de Campos de Concentração podem ser consideradas da seguinte forma: a primeira seria o “limbo que são aquelas formas relativamente benignas que já foram comuns mesmo em países não totalitários, destinados a afastar da sociedade todo tipo de elementos indesejáveis”. A segunda forma seria o “purgatório”, que podem ser identificados como os campos de trabalho forçado; e a terceira forma seriam conhecidos como “inferno, é representado por aquele tipo de campo que os nazistas aperfeiçoaram e onde toda a vida era organizada, completa e sistematicamente de modo a causar o maior tormento possível”.

Na Alemanha, os campos de concentração começaram a ser criados no início do Governo de Hitler, e seguindo o conceito de Arendt, são encontrados dois tipos de campos, o que ela considera a segunda forma, utilizado majoritariamente, antes e no início da Segunda Guerra Mundial, e a terceira forma, utilizado em grande parte no meio para o final da Guerra.

No Brasil, os Campos de Concentração tiveram um aumento considerável, principalmente no governo de Getúlio Vargas, quando o País declarou Guerra ao Eixo em 1942, porém, anteriormente, no período conhecido como República Velha, existiram alguns Campos de Concentração na região Nordeste do País, com o objetivo de não permitir que os habitantes das regiões de seca migrassem para as Capitais dos Estados da região.

Campo de Concentração no Nordeste para população que desejava emigrar para Capital devido a seca no início do Século XX

Para a pesquisadora Priscila Perazzo, os campos de concentração no Brasil estariam dentro das categorias mais leves, conhecida como “limbo”, segundo a análise de Arendt.

Contexto do Período

Durante esse período, o Brasil tinha na presidência Getúlio Vargas, que chegou ao poder em 1930. Nesse período, o Brasil teve um grande crescimento nas relações comerciais com a Alemanha, e se tornou o principal parceiro político e econômico dos EUA.

Na década de 1930, o Brasil teve em alguns integrantes do seu governo, principalmente os Militares, uma admiração pelas Forças Armadas da Alemanha, o que levou diversos pesquisadores a explicarem esse período como uma “Política de Barganha”, chegando a citar a possibilidade de o Brasil poder se aliar a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

Porém, por toda a relação que o Brasil tinha com os EUA, o apoio de setores importantes do governo e as medidas tomadas por Vargas, praticamente indicavam que a nação brasileira iria apoiar os EUA na Segunda Guerra Mundial e, consequentemente, os Aliados.

Essa visão em relação aos EUA é observada através das atitudes tomadas por Vargas antes mesmo da declaração de Guerra feita pelo Brasil, como as Leis Nacionalistas, que culminou na proibição do Partido Nazista no Brasil e a solicitação de mudança de Embaixador no Brasil em 1938. Muitas dessas posturas são tomadas no início do Estado Novo, quando ainda nem a Segunda Guerra Mundial tinha iniciado.

Campos de Concentração no Brasil

Os Campos de Concentração criados no Governo Vargas, durante o período da declaração de Guerra do Brasil ao Eixo, até o fim da Segunda Guerra Mundial, tinha como objetivo prender imigrantes alemães, italianos e japoneses, com a razão de que eles tinham envolvimento em atividades associadas ao Nazi-Fascismo, e considerados nessas condições como prisioneiros de Guerra.

A relação do Brasil com esses imigrantes foi conturbada desde o início. Muitos europeus quando chegaram ao Brasil, traziam ao governo brasileiro a esperança de desenvolver o País.

Neste momento, existia no Brasil e em boa parte do Mundo, um crescimento das ideias sobre a Eugenia, e esses imigrantes, inicialmente, eram bem recebidos, mas com o passar do tempo, alguns desses imigrantes que não possuíam boas condições financeiras, começaram a trabalhar nas indústrias, e, como no Brasil as leis trabalhistas só foram criadas no início da década de 1930, muitos desses estrangeiros eram vistos como desordeiros, pois o governo os associa às reivindicações sociais e políticas.

Em 1924, foi criado o DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) e, desde seus primeiros anos, o órgão já vigiava esses imigrantes, que tinham como caraterísticas manifestarem-se em busca de melhores condições políticas e sociais.

Após o início da Segunda Guerra Mundial, o DOPS começou a se preocupar mais com esses imigrantes, principalmente os alemães, e o motivo para o aumento dessa preocupação foi à descoberta de uma rede de espionagem alemã no País, como é dito pela pesquisadora Priscila Perazzo, “Eram duas grandes redes, organizadas pela própria embaixada alemã, principalmente a partir de 1940… A rede de espionagem nazista no Brasil tinha uma cúpula, com pessoas infiltradas em empresas e no alto escalão de bancos. Esses espiões assinavam a ficha do partido nazista”.

Reunião de membros do Partido Nazista no Brasil antes da Segunda Guerra Mundial

A finalidade dessa rede de espionagem era coletar informações que poderiam contribuir para o esforço de guerra alemão e, durante esse período o DOPS tinha uma grande investigação sobre esses grupos, como detalha a pesquisadora Perazzo, “de 1938 a 1942, a polícia brasileira sabia quem eram e onde estavam todos os membros da rede de espionagem, mas só observava”, porém essa atitude só mudou após a declaração de Guerra do Brasil à Alemanha, quando “no primeiro semestre de 1942, o DOPS desbaratou a rede e prendeu seus membros em delegacias. No segundo semestre, esses prisioneiros foram encaminhados para campos de concentração”, como ressaltou Perazzo.

Durante esse período, o Brasil criou diversos campos de concentração,  mas o número correto e os Estados onde foram construídos, é ainda motivo de divergência entre os especialistas. Entretanto, todos garantem que foram acima de 10, espalhados por todo o Brasil.

O modelo de campos de concentração utilizado no Brasil para aprisionar cidadãos nascidos nos países integrantes ao Eixo, não era exclusivo do País. Diversos países da América do Sul, México e os EUA também mantinham uma mesma estrutura para concentrar esse grupamento de pessoas. No Brasil, essas pessoas ficaram conhecidas como “Súditos do Eixo”.

Com a declaração de Guerra feita pelo Brasil os “Súditos do Eixo” não perderam somente a sua liberdade, mas boa parte dos direitos que tinham no Brasil, como é ilustrado pelo pesquisador João Zanellato e Renan Gonçalves: “os elementos considerados estrangeiros presentes em seu território precisavam ser combatidos. Alemães, italianos e japoneses tiveram todas as suas práticas culturais, políticas, econômicas e costumes impedidos. Perseguições, detenções, confinamentos foram práticas comuns em relação a estes grupos, naquele período, por serem considerados inimigos de guerra e perigosos à segurança nacional.”

Quadro na Delegacia de Polícia de São Lourenço do Sul – RS

O governo brasileiro também impôs medidas severas a esses estrangeiros decretando a lei 4.166, de 11 de março de 1942, determinando que “os bens e direitos dos súditos alemães, japoneses e italianos, pessoas físicas ou jurídicas, respondem pelo prejuízo que, para, os bens e direitos do Estado Brasileiro, e para a vida, os bens e os direitos das pessoas físicas ou jurídicas brasileiras, domiciliadas ou residentes no Brasil, resultaram, ou resultarem, de atos de agressão praticados pela Alemanha, pelo Japão ou pela Itália.”

Nesse sentido, Perazzo destaca “além daqueles que foram internados e sofreram todas as formas de repressão e confinamento, outras medidas contra imigrantes e descendentes dos países do Eixo foram tomadas pelo governo Vargas. Por medida de segurança nacional, os indivíduos estrangeiros residentes em zonas litorâneas foram afastados para o interior do país. Esses alemães, italianos e japoneses, mesmo não sendo presos e mandados para campos ou detidos pela polícia, tiveram suas liberdades cerceadas, sua locomoção restringida, caracterizando assim outra forma de repressão promovida pelas autoridades governamentais.”

Notícia de Jornal, sobre a remoção dos “Súditos do Eixo” do litoral para o interior

Em relação aos Campos de Concentração, cada um deles tinha suas próprias características, até porque os campos carregavam as especificidades dos Estados onde eles estavam. Nesse sentido, a pesquisadora Perazzo destaca algumas dessas particularidades “no Pará foram reunidos imigrantes japoneses com alemães suspeitos de espionagem ou de propaganda nazista; em Pernambuco, a repressão visou um determinado grupo que não representava a comunidade alemã do Estado e nem chegou a atingir de forma generalizada o corpo de funcionários das empresas da Companhia de Tecidos Paulista, de propriedade da família Lundgren, grupo sueco de origem alemã. Em São Paulo, tripulantes de navios foram concentrados e confinados, organizando-se uma comunidade de características e interesses homogêneos. Na Ilha das Flores e na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, alemães e italianos condenados ou não por crimes de guerra permaneceram com os presos comuns brasileiros. No sul do país, a comunidade teuto-brasileira foi atingida e rotulada com a expressão “súditos do Eixo”, aplicada até mesmo a brasileiros descendentes de alemães, que chegavam a ser presos por causa de questões culturais (língua, tradições, etc.), enquanto no norte do país esses fatores estavam arrefecidos. Em Minas Gerais, tripulantes da marinha de guerra alemã constituíram o único campo efetivo para prisioneiros de guerra de que se tem notícia no Brasil”.

Campo de Concentração Tomé de Açu (PA)

O Campo de Concentração de Pouso Alegre, em Minas Gerais, foi o único que recebeu tripulantes da marinha alemã, capturados no litoral brasileiro por uma esquadra norte-americana e os prisioneiros enviados para o Brasil, onde ficaram presos 62 alemães, como explica o pesquisador Sérgio Gustavo Couto Rodrigues: “42 eram da Marinha Mercante e 20 da Marinha de Guerra (Kriegsmarine). Ao todo, eram 14 oficiais, 13 suboficiais e 35 marinheiros.”

A pesquisadora Perazzo, contudo, indica certas semelhanças entre os Campos de Concentração de uma forma geral, “cada estabelecimento, os alojamentos, em geral precários, eram parecidos; satisfatória, a alimentação era complementada pelas encomendas enviadas pelas famílias. Embora houvesse vigilância, existia certa liberdade de locomoção dentro dos limites dos campos ou das cidades onde estavam localizados. Os internos recebiam correspondência e encomendas, sempre censuradas… Os estabelecimentos foram inspecionados pela Cruz Vermelha Internacional e pelos membros das missões diplomáticas que representavam seus interesses.”

Conclusão

Campos de Concentração no Brasil acabaram sendo uma realidade no País, mesmo não se podendo comparar com os campos existentes na Europa, durante o regime Nazista. Eles existiram, alguns antes da Segunda Guerra Mundial, mas durante a Guerra houve um aumento no número de campos, e esse crescimento serviu para um propósito, aprisionar todos aqueles nascidos nos Países que eram integrantes do Eixo e vistos como uma ameaça a Nação.

O Governo Vargas vivia sob o Estado Novo, e nesse período, houve um crescimento de uma política nacionalista, onde imigrantes sofreram diversas restrições impostas por novas leis brasileiras, escolas com origem estrangeira não puderam mais ensinar suas línguas maternas, clubes de futebol foram obrigados a mudar de nome e as relações culturais desses povos foram estremecidas durante essa fase.

A criação de Campos de Concentração no Brasil foi uma medida tomada pelo governo em um contexto de atestar um total afastamento de qualquer relação com algum País integrante do Eixo e buscar uma maior confiança dos Países Aliados, principalmente dos EUA.

Os “Súditos do Eixo” ficaram aprisionados nos campos de concentração até o final da Segunda Guerra Mundial. Depois que conseguiram sua libertação muitos ficaram desempregados e passando por dificuldades financeiras durante a sua vida, pois foram estigmatizados como Nazifascistas.

Para compreender melhor em relação ao conteúdo sobre os Soldados da Borracha: Os soldados esquecidos do Brasil na Segunda Guerra Mundial, ou sobre a Participação da FEB na Rendição Alemã em Fornovo di Taro, você pode navegar por este link ou pelas categorias do site.

Prof. Pedro Drummond

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