Preservados por mais de um século, geleiras dos Alpes Italianos derretem lentamente e revelam os horrores da Grande Guerra.

“Saudações do Passo de Cercena: Aqui chove muito e a neve cobre os picos mais altos. Nós rezamos por paz, mas o mau tempo, a altitude... Trarão a paz apenas com nossa morte.”
A primeira guerra fria foi travada durante a Primeira Guerra.
Tropas Austro-Húngaras se enfrentaram em altitudes de até 3.600 metros em temperaturas congelantes de até -30º C na chamada "Guerra Bianca", ou Guerra Branca, batizada assim devido ao seu cenário invernal. Nunca antes estas batalhas haviam sido travadas em tais condições meterológicas, em picos tão elevados levando soldados ao máximo de sua resistência.
Este derretimento intenso começou em meados de 2004, quando alguns soldados italianos revelaram-se da imensidão branca. Em quase todo verão, o derretimento do gelo trouxe à tona uma grande quantidade de corpos — mais de 80 até agora.
E agora, um século depois, o aquecimento global fez o passado ressurgir trazendo consigo suas relíquias e corpos de suas tumbas nas profundezas geladas.
A Itália entrou na guerra à partir de 23 de Maio de 1915, do lado dos Aliados. Seu objetivo, cercado por um fervor nacionalista, era anexar várias regiões — particularmente aquelas também já habitadas por italianos — controladas pelo Império Austro-Húngaro.
Em Peio, no Alto-Trentino, norte da Itália, a sensação é de que a guerra nunca chegou ao fim. Mas de certa forma não acabou mesmo, graças ao gelo e sua capacidade de preservação. Peio já foi o vilarejo mais alto do Império Austro-Húngaro e tinha um assento reservado para um pouco conhecido, mas importante acontecimento histórico durante a Grande Guerra.
Soldados lutaram e pereceram ao longo de toda a fronteira, do Trentino ao Adriático, durante os três anos seguintes. A chamada Guerra Branca talvez tenha sido o fato mais memorável naquela região entre 1915-18, com uma série de impossíveis — e alguns inúteis — ataques relâmpago, incursões, feitos atléticos, e milagres da engenharia militar.
Combatendo em condições brutais, italianos e austro-húngaros em cumes de altitude similar, abriram estradas, cavaram túneis, construíram teleféricos, passaram quilômetros de linhas telefônicas, e transportaram toneladas de material à grandes altitudes para prover suporte e condições de combate, mas também para as necessidades diárias de milhares de soldados que passavam o ano todo em altitudes onde apenas pastores, caçadores de cervos selvagens, e alpinistas se atreveram a desbravar. Como boa parte da linha de frente entre a fronteira da Itália com o Império Austro-Húngaro localizava-se em locais pouco mais de 2.000 metros de altitude, novos tipos de estratégias militares tiveram de ser desenvolvidas. Os italianos já possuíam suas tropas especialistas em montanha - os soldados Alpini com seus famosos chapéus de penacho - mas os Austro-Húngaros precisaram criar algo equivalente - os Kaiserschützen.
Apesar da guerra em si ter sido desastrosa, os efeitos das armas e chuva de artilharia durante sobre os soldados da Guerra Branca não eram nada se comparados à força da natureza. Para ambos os lados, o pior inimigo era o clima, que levou à morte mais homens do que o próprio combate. A tais altitudes, a temperatura podia cair para 30º Celcius, e a "morte branca" — morte por avalanche — levou milhares de vidas. Atualmente, muitos soldados são encontrados despontando de cabeça para baixo em geleiras em processo de derretimento, indicando que uma avalanche tenha possivelmente os varrido do cume para a encosta das montanhas.

Pequenas vilas compostas por abrigos simples foram construídas, embora os oficiais sempre permanecessem em velhos abrigos de montanha, alguns até tinham pianos e gramofones em seu interior. Em Marmolada, a maior montanha na cadeia das Dolomitas, o Corpo de Engenheiros das Forças Armadas Austríacas construíram uma "cidade de gelo" — um completo de túneis, dormitórios, e estoques entalhados nas entranhas dos glaciares.
"Em arquivos da época, e em diários de guerra—sejam eles austríacos ou italianos— encontramos histórias sobre as grandes dificuldades causadas pela falta de sono, as tormentas, e as avalanches," diz Stegano Morosini, um pesquisador da Universidade de Milão e autor de um livro sobre a história do alpinismo italiano.
"O inimigo ficou em segundo plano. De fato, o verdadeiro adversário era a própria natureza."

Marco Balbi, fundador e presidente da Sociedade Histórica da Guerra Branca, diz que apenas um-terço dos 150.000 homens que morreram nas linhas de frente alpinas foram vítimas de batalhas. O restante foi varrido por avalanches, deslizamentos, gangrena, e doenças causadas pelo frio extremo.
A luta nas linhas de frente
“Cavento! Como a Torre de Babel surgindo das profundezas geladas. Ao seu redor queima o fogo selvagem de um inimigo cheio de orgulho. Ao alto você desponta, Corno di Cavento, como um grito de guerra à covardia!”
A maior parte dos combates mais críticos aconteceram sobre os 3.370 metros de altitude do Corno di Cavento. As encostas da face Leste da montanha elevavam-se ao longo da geleira Vedretta di lares. A Oeste, sua face aponta e se estende direto para dentro do vale.
Após a primeira ofensiva dos Soldados Alpini—a divisão de montanha do exército italiano—em abril de 1916, Corno de Cavento tornou-se a linha de frente da defesa austríaca.
Em fevereiro de 1917, o Tenente Kaiserjäger Felix Hecht von Eleda, um soldado fervoroso de 23 anos nascido em Vienna, assumiu o comando da guarnição. Seu objetivo era reforçar as defesas e direcionar a artilharia pesada. De acordo com suas ordens, "cavadores" do Corpo de Engenheiros de Combate das Forças Austro-Húngaras, auxiliados por prisioneiros Russos, removeram rochas utilizando explosivos e cavaram um túnel que os levaria direto ao cume da montanha.

O trabalho era simplesmente dilacerante: A neve era capaz de destruir semanas de trabalho, os prisioneiros russos escapavam, e muitos soldados austro-húngaros despencavam exaustos pelo frio ou muitas vezes se feriam com minas antipessoal. Com temperaturas beirando zero, missões utilizando patrulhas de reconhecimento noturno eram ambas uma aventura e também uma grande tortura.
Adicionado a tensão estava a antecipação do combate com os "Tigres," a forma com que os austro-húngaros chamavam os soldados Alpini. Hecht escreve em seu diário que a artilharia inimiga o amedrontava, ele as vezes conseguia avistar seus uniformes brancos contra a neve.
Em 15 de junho de 1917, aproximadamente 1.500 Alpini atacaram Corno di Cavento de três lados diferentes, desalojando a maioria da guarnição de Hecht. O tenente foi morto ao sair da segurança de sua trincheira para tentar persuadir seus soldados a não fugirem.
Um dos assassinos—O capitão italiano Fabrizio Battanta, conhecido como "O Bandido de Cavento"—encontrou o diário de Hecht e o levou consigo. (No qual foi mais tarde decifrado, traduzido e publicado. Atualmente, o original encontra-se em um museu em Spiazzo.) O corpo de Hecht, provavelmente jogado em uma fenda, nunca foi encontrado.

Este é um túnel descoberto em Punta Linke escondido por detrás de uma pequena e velha cabana de montanha, há quase 2.000 metros acima de uma pequena cidade montanhesa chamada Peio. Maurizio Vicenzi, um guia de montanha local encontrou esta caverna natural no gelo repleta de armamentos e objetos sobre sua superfície — capacetes de aço, capas de feno para sapatos, caixas de munição — e percebeu que havia uma estrutura por debaixo. Com amigos vindos da cidade de Peio, todos entusiastas da Grande Guerra, iniciaria-se então uma grande investigação na área. O time chegou ao local dois verões depois, e juntos escavaram por de trás da cabana — uma estação de teleféricos que servia como ponto logistico às tropas.

No interior da cabana existe um motor movido a querosene (Motor Sendling Alemão), fabricado em Munique, desmontado pelos austríacos após o término do conflito, e agora, restaurado.
História Saqueada
Após a partida das tropas, os glaciares ficaram desertos novamente. As únicas pessoas que aventuraram-se eram "saqueadores" — pessoas que subiam as montanhas para coletar materiais remanescentes da guerra, na grande maioria metal, para vender em busca alguns trocados.


E graças ao aquecimento global, relíquias da guerra continuam a emergir das profundezas geladas dos Alpes Italianos.

Baixas de inverno
O degelo está revelando mais do que artefatos. Cadáveres - soldados desconhecidos, vítimas de batalhas ou de disparos aleatórios, uma avalanche, um passo descuidado - estão sendo libertos de suas tumbas geladas.

Fontes: National Geographic, The Telegraph, The Italian Tribune,
