O Cerco de Baler para ser analisado, antes de tudo, precisa que haja o entendimento sobre a Colonização Espanhola na Ásia e o que é um Cerco militar.

Introdução

A História das Filipinas começou a ser contada em 1521, quando o português Fernão de Magalhães, a serviço da Coroa de Castela chegou ao território. Mas assim como aconteceu com outros territórios em relação às duas grandes potências da época (Espanha e Portugal),  somente em 1565 surgiu a primeira expedição colonizadora espanhola, feita por Miguel López de Legazpi, que se tornou o primeiro governador da região.

Mapa da Ásia

A região era de grande importância devido ao seu comércio com os chineses, mas não era um local de grande concentração de colonos, “na virada do século XVI para o século XVII, a população hispânica vivendo entre os muros da cidade de Manila, mal superava um milhar. Duas centenas eram soldados, pouco mais de 50 eram padres e freis das quatro ordens religiosas, além destes havia pelo menos 30 oficiais régios. Considerando a presença de famílias e serviçais, vemos que a região teve grande dificuldade em atrair colonos, principalmente pessoas interessadas em administrar atividades agrícolas no arquipélago. As poucas pessoas que arriscavam a travessia do Oceano Pacífico para fazer suas vidas dedicavam-se ao comércio”. (ROCHA, Carlos Guilherme. Expansão da Fé e Justiça: O Corpo Eclesiástico e o Governo das Ilhas Filipinas, 1565-1610. Tese (Doutorado) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2018). E a região de Manila era praticamente o local predominante onde se estabeleciam os colonos nos primeiros séculos da colonização.

A região foi colonizada pelos espanhóis por durante quatro séculos, quando em 1898, as Filipinas conseguiram sua independência da Espanha na Guerra Hispano-Americana¹, e será nesse contexto que será analisado o Cerco de Baler.

¹Em 1898 as Filipinas conseguiram sua independência em relação a Espanha, mas após esse acontecimento, os nativos tiveram que enfrentar outra grande nação pela sua independência, os EUA, que tinham feito um acordo com os espanhóis, o Tratado de Paris, onde os EUA pagariam 20 Milhões de Dólares como uma compensação financeira pela saída das Filipinas. EUA e Espanha estavam travando diversas lutas em territórios do Continente americano e asiático, e os norte-americanos vinham derrotando-os em diversas regiões e se estabelecendo como uma grande nação imperialista. Somente em 1946, após a Segunda Guerra Mundial, os EUA reconheceram a independência das Filipinas.

O Cerco

No aspecto militar, um cerco significa uma estratégia onde uma unidade militar ou uma edificação é cercada por um inimigo, com a finalidade de não permitir a fuga e a obtenção de suprimentos.

Baler está localizada na ilha de Luzon, e a mais de 200km de Manilla, Capital das Filipinas. A região foi escolhida em 1898, para receber um pelotão de mais de 50 soldados, devido a área ter sido um foco de disputas territoriais entre espanhóis e rebeldes locais.

Mapa das Filipinas

E durante um período, a chegada dos espanhóis trouxe uma relativa paz, mas que não foi duradoura. Em junho de 1898, um grupo armado que lutava pela Independência das Filipinas, atacaram os soldados espanhóis, que tiveram que se proteger na igreja de San Luis de Tolosa, de aproximadamente 300 de metros quadrados, e aquartelando quase 60 pessoas, entre militares e religiosos.

A igreja de San Luis de Tolosa a partir do momento do ataque filipino, acabaria se tornando o local que foi reconhecido como os últimos das Filipinas. Os espanhóis acabaram ficando cercado na igreja por 337 dias e o templo religioso acabou tendo diversas utilidades, como: embaixada, quartel, refeitório, banheiro e o túmulo de alguns soldados.

Igreja de Baler

Os soldados espanhóis, com todas as dificuldades que enfrentavam por viver em uma igreja, lutaram da melhor forma que podiam, acreditando sempre que a qualquer momento iriam chegar reforços. Enquanto os filipinos, que tinham conhecimento não só da situação vivida em Baler, mas de todos os fatos que estavam ocorrendo no País, esperavam que em poucos dias o cerco acabasse.

Em diversos momentos do Cerco, os filipinos alertavam os espanhóis sobre as derrotas dos espanhóis e sobre o fim do controle espanhol sobre as Filipinas, mas os oficiais que se encontravam no local, não acreditavam nos seus inimigos e indicavam que preferiam a morte à rendição.

Mas o grande problema que as tropas espanholas vinham enfrentando, não eram os soldados filipinos, mas sim as doenças. Devido o cerco, os espanhóis não tinham uma boa alimentação e encaravam diversas enfermidades, principalmente o beribéri, que é uma doença causada pela falta de alimentos frescos. No fim do cerco, tinham morrido mais de 10 soldados por doenças, entre eles o Capitão De las Morenas, comandante das tropas e o Tenente Alonso Zayas.

O Tenente Saturnino Martín Cerezo, que tinha assumido o comando após a morte do Capitão De las Morenas, mantinha as ideias do seu antecessor, e mesmo com as mortes por doenças, tentava manter os seus soldados com esperança e corajosos, para evitar dar algum indício sobre os fatos ocorridos dentro da igreja, principalmente em relação à morte do Capitão espanhol, aos seus adversários.

E essa coragem que os soldados espanhóis tinham, possibilitou que, após diversos meses de cerco um grupo de militares espanhóis, conseguissem furar o bloqueio filipino, queimar algumas casas usadas por eles ,e consequentemente, permitiu a coleta de vegetais e frutas ao redor dessa área.

Em todo esse período, algumas notícias desencontradas sobre o que acontecia em Baler chegavam ao Governo das Filipinas e Espanha. Durante todo o período do cerco, oficiais espanhóis foram a Baler tentar convencer os soldados sitiados que a Guerra tinha acabado e que esse território não pertencia mais aos espanhóis. Porém, muitas dessas missões não conseguiam convencer aqueles que estavam na Igreja de San Luis de Tolosa, somente a última delas teve êxito.

O Tenente Martín Cerezo só foi convencido que as notícias eram verdadeiras, quando folheando os jornais que tinham sido trazidos nas missões enviadas pelo governo espanhol, encontrou uma notícia de que um amigo oficial estava sendo designado para a cidade espanhola de Málaga, informação essa que somente o Tenente e poucos amigos desse oficial sabiam do interesse de ir para essa cidade.

Conclusão

Quase um ano depois os espanhóis aceitaram se render. Das mais de 50 pessoas que entraram na Igreja, um pouco mais de 30 sobreviveram. Após a rendição, os soldados espanhóis que participaram do Cerco de Baler foram repatriados para Barcelona, onde foram recebidos como heróis.

Sobreviventes do Cerco de Baler em Barcelona.

Entre os diversos elogios recebidos, estão os feitos pela Rainha Regente Espanhola María Cristina e por Emilio Aguinaldo, presidente da Primeira República das Filipinas, “os consideraria credores da admiração do mundo, pela coragem, perseverança e heroísmo daquele punhado de homens, que isolados, sem esperança de qualquer ajuda, defenderam sua bandeira por espaço de um ano, realizando uma epopéia tão gloriosa e tão típica do valor dos filhos de El Cid e Pelayo”.

O Tenente Martín Cerezo,  último comandante do Cerco de Baler, publicou anos depois um livro de memórias, (SATURNINO, Martin Cerezo. Embaixo do Ouro e do Vermelho: O Cerco de Baler), onde deu a sua versão sobre os fatos:

“Me costaría un poco explicarlo, principalmente, creo que por desconfianza y obstinación. Luego, también por cierto tipo de autosugestión de que no debemos, por el motivo que sea, rendirnos por entusiasmo nacional, sin duda, influida por la atractiva ilusión de la gloria y por el sufrimiento y el tesoro del sacrificio y del heroísmo y que, entregándonos, estaríamos poniendo fin indigno a todo”.

Nos últimos anos, as homenagens em relação ao Cerco de Baler aconteceram através dos Governos das Filipinas e da Espanha. Na área cultural, o tema foi retratado na TV e em filmes. O filme mais recente sobre o tema é, 1898: Os Últimos das Filipinas, disponível em plataformas de streaming.

Capa do Filme que retrata o Cerco de Baler

As homenagens em relação ao Governo das Filipinas aconteceram em 2003, quando o Congresso do País aceitou a proposta do Senador Edgardo Angara, de declarar o dia 30 de Junho o dia da Amizade Hispano-Filipino. O dia 30 de junho foi escolhido devido o decreto do Presidente Aguinaldo, pelo qual os integrantes do Cerco de Baler eram considerados heróis e não prisioneiros de guerra.

A Lei da República nº 9.187, de 05 de Fevereiro de 2003 estabelece o seguinte na sua introdução:

“Un 30 de junio, el presidente Emilio Aguinaldo ensalzó a los soldados españoles sitiados en la iglesia de Baler por su lealtad y su caballerosa valentía. Para honrar este memorable episodio, es de justicia que se declare dicho día como fiesta nacional, de manera que se recuerde el acto de benevolencia que ha asentado los cimientos de unas mejores relaciones entre Filipinas y España.

[..] El treinta de junio de cada año queda pues declarado como el Día de la Amistad Hispano-Filipina, para conmemorar los vínculos culturales e históricos, la amistad y la cooperación entre Filipinas y España. Se declara por tanto fiesta especial de carácter laborable en todo el país, y fiesta especial no laborable en la provincia de Aurora.”

O Congresso dos Deputados da Espanha, em sintonia com a declaração feita com o Congresso das Filipinas, aprovou no dia 20 de Junho de 2011 uma declaração institucional em comemoração ao Dia da Amizade Hispano-Filipina, declarando o seguinte:

“Em um dia como hoje há 112 anos, o Presidente do Governo Revolucionário das Filipinas, General Emilio Aguinaldo, promulgou um decreto no qual a coragem de cinquenta e quatro militares espanhóis que se refugiaram na Igreja de Baler por mais de onze meses mostrando grande coragem e lealdade. O Governo das Filipinas considerou estes soldados amigos das Filipinas – e não prisioneiros de guerra – e ao mesmo tempo lhes foi concedido salvo-conduto para o seu regresso à Espanha.”

O Cerco de Baler é um dos acontecimentos que demonstram o fim do Império Espanhol pelo Mundo e a importância do evento para a história da Espanha, assim como, para os envolvidos, foi comprovada durante os últimos anos, com todos os eventos que aconteceram neste século XXI.

Pedro Drummond

Autor Pedro Drummond

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