O artigo tem como objetivo explicar o fracasso que foi a Missão Militar de Paz da ONU no Congo em 1961, exemplificado no Cerco de Jadotville.

A região de Jadotville é hoje conhecida como Likasi, e fica na República do Congo, conhecida como Léopoldville (Congo Belga para diferenciar do Congo Francês).

O Congo era colonizado por três Países Imperialistas europeus (Bélgica, França e Portugal). O Congo Belga, desde o final do século XIX, foi propriedade particular do Rei Leopoldo II, até sua morte. O Congo Francês, assim como a Bélgica, controlava a região desde o final do século XIX, enquanto os portugueses tinham o controle sobre o Continente, desde o período da expansão marítima no século XV. A Conferência de Berlim¹ (1885) ratificou toda a divisão territorial da região entre os três países.

¹ Congresso organizado  em Berlim pelo Chanceler do Império Alemão, Otto von Bismarck, com o objetivo de regulamentar as novas ocupações do territórios Africanos, após a unificação da Itália e Alemanha em 1870-1871.

Divisão do Continente Africano pelas Potências Imperialista Europeias após a Conferência de Berlim

O controle do continente africano pelos europeus aconteceu até a metade do século XX, quando boa parte dos países africanos conquistou sua Independência após a Segunda Guerra Mundial. Posteriormente a essa conquista, os países que obtiveram a sua independência se viram envolvidos no contexto da Guerra Fria. E será justamente nesse período de Guerra Fria que acontecerá o Cerco de Jadotville.

O Congo conseguiu sua independência em 1960, e como na maioria dos Países africanos que obtiveram sua independência, se encontrava em uma crise institucional. No ano da sua independência foi criado a República Democrática do Congo e Patrice Lumumba, que tinha o apoio da URSS, foi eleito primeiro-ministro congolense. Porém Moise Tshombe, governador da província de Katanga, que era um político anticomunista e que tinha apoio de grupos capitalistas, rompeu com o governo nacional e criou a província autônoma de Katanga, rica em recursos minerais, como diamantes, estanho e cobre, e desejada por grandes exploradores de minério.

Com a Guerra Civil instalada, foi necessária a intervenção da ONU e com a aprovação do Conselho de Segurança, foi criado a Operação das Nações Unidas no Congo (ONUC), que enviou tropas de PAZ para o local.

Região de Jadotville

O Secretário-Geral da ONU, Dag Hjalmar Agne Carl Hammarskjöld, nomeou Conor O’Brien, diplomata irlandês, como seu representante no Congo, e que enviou como uma das principais tropas para a região de Jadotville, a Companhia A do 35º Batalhão de Infantaria do Exército Irlandês, liderada pelo comandante Pat Quinlan.

As tropas irlandesas enviadas para o Congo eram compostas por militares de pouca idade e pouca experiência e “estavam armados com modernos rifles FN FAL (há fontes que indicam que eles usavam velhos rifles Lee Enfield da Primeira Guerra Mundial). No entanto, grande parte de seu equipamento era da Segunda Guerra, como metralhadoras Vickers refrigeradas a água, morteiros de 60 mm e uma metralhadora leve Bren.” Além do mais, os katanganeses, não tinham uma boa visão da ONU, e consideravam as Forças de Paz como invasoras.

E em uma situação que até hoje não foi explicada, pouco antes da Companhia A chegar a Jadotville, duas outras Companhias de forças da ONU, uma sueca e uma irlandesa, foram retirados da cidade, deixando-os praticamente sozinhos e isolados no local.

A situação começou a se complicar para as tropas da ONU em Jadotville, quando na capital de Katanga (Elisabethville) se iniciou um confronto entre as tropas da ONUC e as forças katanganesas, desencadeando  um processo de medidas tomadas pelos katanganeses,  entre elas a tomada da ponte que ligava Jadotville à capital Elisabethville, resultando no isolamento dos irlandeses em Jadotville, e posteriormente no conflito.

Conflito

O comandante Quinlan, compreendendo que a situação não era muito pacifica e que o local onde estavam era muito vulnerável, tentou diminuir a exposição das suas tropas e começou a organizar um perímetro defensivo em torno de sua base, determinando que fossem feitas trincheiras, e que houvesse o armazenamento de água e, ainda, e que os seus homens estivessem sempre com as armas carregadas o dia inteiro.

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O Comandante Pat Quinlan, na extrema esquerda, posando com os soldados da Companhia em Elisabethville, Congo, antes do cerco

No cerco de Jadotville as tropas de katanganeses, apoiadas por mercenários europeus, eram bem superiores aos da ONU.

“O que inicialmente parecia uma missão simples terminou numa luta encarniçada, colocando os irlandeses contra um inimigo mais bem armado e numericamente muito maior. A força katanganesa, de 3.000 homens (conforme a fonte, variando de 3.000 a 5.000), era composta na maior parte por guerreiros da tribo Luba apoiados por mercenários belgas, franceses e rodesianos. Era comandada por Faulques, ex-coronel do exército francês e paraquedista da Legião Estrangeira contratado por Tshombe. Os homens de Faulques estavam equipados com armamento leve e pesado, que incluía morteiros de 81 mm e um canhão francês de 75 mm. Também contavam com o apoio aéreo de um jato de treinamento Fouga Magister armado com metralhadoras e bombas.”

A batalha que se iniciou, durou menos de uma semana, mas durante esse período os katanganses atacaram e foram derrotados diversas vezes. Com o passar dos dias, as tropas da ONU começaram a ficar sem munição, comida e água e como os reforços e suprimentos não conseguiam chegar à derrota era iminente.

As forças da ONU até tentaram socorrer a Companhia A, com tropas suecas, irlandesas e indianas, mas como os katanganses tinham tomado o controle da ponte que ligava Jadotville, era impossível por vias terrestres a chegada de reforços e suprimentos, e por vias aéreas o fogo dos locais era muito grande. Na única tentativa que houve de ajuda, o resultado foi longe do imaginado, impossibilitando qualquer tentativa de apoio aéreo. Diante desse panorama o Comandante Quinlan se via obrigado a se render.

Pouco antes de o Comandante Quinlan se render o Secretário Geral da ONU, Hammarskjöld foi a Katanga para tentar discutir um cessar-fogo com Tshombe. Entretanto  Hammarskjöld nunca chegou ao seu destino, pois o avião em que viajava, caiu quando se aproximava do aeroporto, matando quase toda a tripulação. Segundo as autoridades locais o acidente ocorreu por erro do piloto, mas a ONU nunca aceitou essa conclusão. Até hoje, a morte de Hammarskjöld continua sendo um dos grandes mistérios da ONU.

Com a morte de Hammarskjöld, um cessar-fogo nunca ocorreu, e o Comandante Quinlan foi forçado a se render, devido às circunstâncias que a sua Companhia estava. O saldo da batalha foi: “as forças katanganesas sofreram pesadas perdas, com 200 a 300 mortos, incluindo 30 mercenários, e entre 300 e 1.000 feridos, os números variam conforme a fonte. A Companhia A não sofreu nenhuma fatalidade e teve apenas cinco homens feridos.”

Os irlandeses em relação à rendição estavam receosos por suas vidas depois das perdas que provocaram aos adversários, mas ficaram presos somente cinco semanas, que foi o tempo necessário para a ONU negociar a libertação da Companhia.

Conclusão

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Após a libertação da Companhia, os soldados voltaram para a Irlanda e mesmo tendo enfrentado uma força muito superior e resistido ao máximo, os Irlandeses quando voltaram não foram bem recebidos. Os motivos para tal situação não são conhecidos, mas especula-se que o ocorrido no Congo pode ter causado vergonha pela rendição para alguns integrantes do governo ou para ocultar erros políticos cometidos.

A falta de reconhecimento às tropas de Jadotville provocou uma insatisfação aos soldados que lá estiveram. O reconhecimento a Companhia A só chegou décadas mais tarde, quando em 2005, criou-se um marco comemorativo reconhecendo-a no antigo quartel de Custume em Athlone, Irlanda. Em 2016, o governo irlandês conferiu uma Citação Presidencial de Unidade à Companhia A, e em outubro de 2017, foi feita uma placa em homenagem ao Comandante Quinlan no Condado de Kerry, sua terra natal. Oito sobreviventes receberam medalhas especiais em Athlone também em 2017.

O cerco de Jadotville foi reproduzido no livro Heroes of Jadotville: The Soldiers’ Story, de Rose Doyle, em 2006, e em 2016 foi lançado o livro Siege at Jadotville: The Irish Army’s Forgotten Battle, de Declan Power, que originou o filme The Siege of Jadotville, disponível em plataformas de streaming.

Capa do Livro e Filme

“Jadotville foi varrido para debaixo do tapete”, diz o autor e especialista militar Declan Power, em cujo livro, Siege at Jadotville , o novo filme é baseado. “Quem estava lá sentiu que não podia falar sobre isso. Havia vergonha associada a isso. Os homens deveriam ter sido heróis. Em vez disso, foram submetidos a humilhação e, em alguns casos, abuso por seu envolvimento. ”

Michael Kennedy autor do livro, Irlanda, as Nações Unidas e o Congo: A História Diplomática e Militar forneceu algumas informações para o roteiro do filme. Disse: “Quinlan e seus homens ajudaram a moldar a reputação da Irlanda hoje em fornecer soldados de paz das Nações Unidas bem treinados, respeitados e, acima de tudo, resilientes. Em Jadotville, os irlandeses, com uma pequena unidade sob liderança muito competente, resistiram a uma força muito maior, endurecida pela batalha, e mostraram sua capacidade e profissionalismo na primeira missão de manutenção da paz da Irlanda. Agora eles podem finalmente ser honrados.”

Nos últimos anos com a ajuda de livros e filmes, os acontecimentos sobre os soldados irlandeses vieram à tona, e a história sobre o assunto está levando a novas interpretações,  provocando novos questionamentos. Mas o principal deles é: O Cerco de Jadotville foi uma história de vergonha ou de heróis irlandeses?

Pedro Drummond

Autor Pedro Drummond

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