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Tecnologia

Há algum tempo, em 2014, alguns trabalhadores rurais de Lumby, na Columbia Britânica — 400 km ao norte da fronteira dos Estados Unidos — toparam com um artefato proveniente de balão bomba japonês de 70 anos atrás.

japanese_fire_balloon_moffet_custom-e95deda2012dbd3e1cf578f934c0caa6f94f727d-s400-c85Esta engenhoca faz parte das milhares de balão bomba lançados em direção à América do Norte durante os anos 40 como parte do plano secreto japonês de sabotagem. Até hoje, apenas algumas centenas destes dispositivos foram encontrados e a maioria destes ainda continuam desaparecidos.

Em algum ponto da Segunda Guerra Mundial, engenheiros japoneses encontraram uma corrente de ar que varria parte da costa do Japão em direção ao Oceano Pacífico — e então colocaram em prática a estratégia de enviar balões carregados com explosivos e bombas à costa americana.

O projeto — chamado Fugo — “criado para enviar balões carregando explosivos ou bombas desde o Japão para atear fogo às vastas florestas americanas. Esperava-se que o fogo criaria um rastro de destruição que minaria a moral dos civis no esforço de guerra americano,” descreve James M. Powles em um jornal sobre a Segunda Guerra Mundial no ano 2003. Os balões, ou “envelopes”, foram desenvolvidos pelo exército japonês e fabricados com papel leve feito à partir de cascas de árvores. Conectados à eles estavam bombas compostas por sensores, tubos de pólvora, espoletas e outros mecanismos de detonação que iam dos mais simples aos mais complexos.

Águas vivas no céu

“Os envelopes eram realmente impressionantes, feitos de centenas de pedaços de papel unidos com um tipo de cola extraída de tubérculos,”diz Marilee Schmit Nason do Anderson-Abruzzo Albuquerque International Balloon Museum no estado do Novo Mexico. “O sistema e controle era uma obra de arte.”

“Auschwitz” na Ásia – O Japão Imperial e sua macabra Unidade 731

Assim como a descrição feita por J. David Rodgers da Universidade de Ciência e Tecnologia do Missouri, os balões bomba “tinham 10 metros de diâmetro e podiam suspender 450 kg, mas a porção mortal de sua carga eram compostas por 15 kg de explosivo de fragmentação anti-pessoal, preso a uma espoleta de 17 metros que queimava por 82 minutos antes de iniciar a detonação.”

Uma vez no alto, alguns dispositivos incendiários criados pelos japoneses — contrabalançados por sacos de areia dispensáveis — flutuavam do Japão até a costa americana e Canadá. A viagem levava vários dias.

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“A distribuição dos balões era bem ampla,” diz Nason. Eles surgiam desde o norte do México até o Alasca, e do Havaí ao Michigan. “Quando lançados — em grupos — diziam que se pareciam com águas vivas flutuando no céu.

Michihiko Hachiya, e a bomba atômica de Hiroshima, 6 de agosto de 1945

Munições misteriosas

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Avistamentos de bombas flutuantes começaram a serem relatadas no oeste dos EUA no final de 1944. Em dezembro, trabalhadores de uma mina de carvão em Thermopolis, no estado de Wyoming, viram “um paraquedas no ar com luzes brilhantes, após ouvir um assobio estranho, ouviram uma explosão seguida de fumaça em um campo próximo a mina por volta de 18:15,” escreveu Powles.

Outra bomba foi vista poucos dias depois próximo à Kalispell, Montana. De acordo com Powles, “uma investigação feita por xerifes locais determinou que o objeto não era um paraquedas, mas um grande balão de papel com cordas conectadas e uma válvula de gás descartável, uma grande espoleta conectada à uma bomba incendiária e uma grande corda de borracha. O balão e seus pedaços foram levados à Butte, Montana, onde o FBI, Exército e Marinha examinaram tudo cuidadosamente. As autoridades determinaram que o balão possuía origem japonesa, mas como chegou até o estado de Montana e de onde havia saído ainda era um mistério.”

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Cientistas e engenheiros, mais tarde, conseguiram desvendar o quebra-cabeças. No fim das contas, os japoneses haviam lançado mais de 6.000 destas armas secretas. Centenas foram avistadas no ar ou encontradas no solo dentro dos EUA. Para evitar que os japoneses rastreassem os efeitos causados pelos balões, o governo americano pediu para que os noticiários e as empresas não publicassem ou disseminassem o caos com notícias sobre estes dispositivos. Com isso, é muito provavel que nunca se saiba a amplitude do alcance destes balões.

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Balões sendo alvejados por baterias anti-aéreas na costa dos Estados Unidos

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Há registros de um incidente trágico: Durante a primavera de 1945, escreve Powles, uma mulher grávida e seus cinco filhos foram mortos por “uma bomba de anti-pessoal de grande poder destrutivo despejada por um balão japonês” em Gearhart Mountain próximo a Bly, estado de Oregon. Este é o único registro de um incidente envolvendo mortes por balões bomba.

Outro balão bomba se prendeu a uma torre de alta tensão no estado de Washington, cortando a eletricidade da fábrica Hanford Engineer Works, onde os EUA estavam conduzindo um projeto secreto, enriquecendo urânio que seria aplicado em bombas nucleares.

A Espada de Stalingrado

Logo após a guerra, alguns incidentes com estas bombas foram registrados. O jornal Beatrice Daily Sun publicou que estas armas voadoras desprovidas de pilotos aterrissaram em sete cidades diferentes no Nebraska, incluindo Omaha. O jornal Winnipeg Tribune registrou que um balão bomba fora sido encontrado há 15 km de Detroit e outra próxima às corredeiras Grand Rapids.

Com o passar dos anos, os dispositivos foram aparecendo aqui e ali. Em novembro de 1953, uma balão bomba foi detonado pelo pessoal do exército em Edmonton, Alberta (Canadá) de acordo com o Brooklyn Daily Eagle. Em janeiro de 1955, o jornal Albuquerque Journal registrou que Força Aérea Americana havia descoberto mais uma no Alasca.

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Imagem mostra a corrente de ar e a extensão dos registros de balões bomba no continente norte americano

Em 1984, o jornal Santa Cruz Sentinel publicou que Bert Webber, um autor e pesquisador, havia localizado 45 balões bomba no Oregon, 37 no Alasca, 28 em Washington e 25 na Califórnia. Uma bomba caiu em Medford, Oregon, disse Webber. “Fez uma grande cratera no chão.”

O Sentinela registrou que uma bumba havia sido descoberta no sudoeste do Oregon em 1978.

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A bomba encontrada recentemente na Columbia Britânica — em outubro de 201 — “ficou enterrada no solo por 70 anos,” disse Henry Proce do Departamento de Polícia Montada ao jornal Canadian Press. “Teria sido muito perigoso examiná-la.”

Afinal, como eles lidam com estas situações? “Eles colocam C-4 em ambos os lados do dispositivo,” disse Proce, “e aí o explodem em milhares de pequenos pedaços.”

 

“a curved and narrow blade, which glittered not like the swords of the Franks, but was, on the contrary, of a dull blue colour, marked with ten millions of meandering lines…”.

[“uma lâmina curvada e estreita, que não brilhava como as espadas dos francos, mas foi, pelo contrário, de uma cor azul rústica, marcada com dez milhões de linhas sinuosas …”]

Foi com esta demonstração de armas entre os dois reis, que Sir Walter Scott´s, recriou a cena de outrubro de 1192, quando Ricardo “Coração de Leão” da Inglaterra e Saladino “O Sarraceno” chegaram ao fim da 3ª Cruzada, em seu romance histórico “The Talisman” (O Talismã). Neste sentido, Ricardo empunharia uma boa Espada inglesa, enquanto Saladino teria, em suas mãos uma cimitarra de aço de damasco.

Esta tecnologia ficou conhecida na Europa quando os Cruzados chegaram ao Oriente Médio, no começo do século XI. Eles descobriram que as espadas confeccionadas utilizando esta técnica podiam cortar uma pena em pleno ar, e ainda manterem-se impecavelmente afiadas mesmo após muitas batalhas.

A tecnologia do aço de Damasco intimidou os cruzados e fez com que ferreiros da Europa realizassem tentativas de reproduzir este material por meio da técnica de camadas alternadas de aço e ferro, dobrando e torcendo o metal durante todo o processo. Mas este padrão de técnica de soldagem já era utilizado por celtas, no século VI, Vikings do século XI, ferreiros japoneses do século XIII e não era capaz de oferecer o mesmo resultado das forjas sarracenas. Por esta razão, os ferreiros da Europa gravavam a lâmina ou cobriam a superfície da espada com filigranas (técnica que envolvia amassar o metal até virar uma fina camada) de prata ou cobre para imitar o aspecto das lâminas do aço de Damasco.

Aspecto "ondulado" das lâminas de Aço de Damasco.
Aspecto “ondulado” das lâminas de aço de Damasco.

 

Segundos alguns estudiosos, este tipo de experimento no desenvolvimento do material – realizado por medievais na tentativa de descobrir o processo de criação deste material – pode ser considerado como a origem da ciência dos materiais. Entretanto, estes “pesquisadores” medievos jamais conseguiram replicar este processo, cujos segredo terminou por se perder na História.

Através dos séculos – talvez ainda na época de Alexandre o Grande no quarto século antes de cristo – os ferreiros que desenvolviam as espadas, escudos e armaduras feitas deste material mantinham esta tecnologia em absoluto sigilo. Com o advento das armas de fogo, esta técnica foi perdida e nunca descoberta apesar dos esforços de homens como Pavel Anossoff, o metalúrgico russo, que conhecia o aço como “Bulat”.

Em 1841, Anossoff declarou: “Nossos soldados logo estarão armados com lâminas Bulat, nossos agricultores irão abrir o solo com enxadas bulat… O Bulat irá superar todo o aço usado nos dias de hoje para fabricar artigos com afiação especial e de resistência.”

No entanto, seus esforços ao longo da vida para cumprir esse sonho foram em vão.

Aço “Wootz” e as espadas Sarracenas

O termo sarraceno foi uma adaptação latina da palavra grega “sarakenoi” que, por sua vez, foi uma flexão da palavra árabe “sharquiyin” (“orientais”) e foi utilizada pelos cristãos medievais desde o século XIII como uma forma pejorativa de se referirem aos povos islâmicos que viviam nas regiões do Leste Europeu, Oriente Médio e África. Para entender melhor em que consiste a religiosidade islâmica, você pode acessar o site Paleonerd.com.br que, de forma descontraída trata acerca deste assunto. Também é possível conhecer uma pouco mais sobre o processo de invasões muçulmanas na Europa, a partir do texto “A Bombarda Turca”, que temos em nosso acervo.

Atualmente, os pesquisadores sabem que o verdadeiro (ou “oriental”) aço de damasco era constituído por uma matéria prima que os pesquisadores denominaram de “aço wootz”, o qual era formado por um grau excepcional de minério de ferro. Desta maneira, os intelectuais especulam estas armas teriam sido criadas pela primeira vez no Sul e Sudeste da Índia e Sri Lanka durante a primeira metade do século IV d.C.. O “wootz” era extraído a partir do minério de ferro e transformado com auxílio de um cadinho (objeto no qual o ferro era derretido), no qual o material era derretido, limpo de impurezas e recebia a adição de outros ingredientes que incluíam alta quantidade de carbono (aproximadamente 1,5%, segundo um cálculo baseado no peso do ferro, o qual costuma ter apenas 1% deste minério).

Para entender melhor um pouco sobre forma como este material é no processo de forja contemporâneo, você pode assistir ao seguinte vídeo:

A alta concentração de carbono é o elemento chave no processo de manufatura do aço de damasco, da mesma forma que o problema destas armas. Isto porque a alta concentração de carbono permite o aperfeiçoamento do corte desta lâmina e torna sua durabilidade maior, todavia controlar a quantidade, presente na mistura é QUASE IMPOSSÍVEL!

Pouco carbono resultaria em um ferro demasiado maleável para estes propósitos, mas, carbono demais daria início ao processo de fundição, que é inútil para a confecção de armas; se o processo não desse certo, resultaria em placas de cementite, que é extremamente frágil. Todavia, de alguma maneira os metalúrgicos islâmicos foram capazes de controlar a concentração deste material e fazer armas de combate fantásticas, mas toda esta técnica se perdeu em meados do século XVIII.

Não faz sentido o fato destes ferreiros terem “perdido” tal tecnologia tão útil e muitos pesquisadores tentativas de reencontrar esta técnica. Em artigo recente para a revista Nature o pesquisador da Universidade de Dresden, Peter Paufler, desenvolveu uma hipótese para explicar a mecânica por meio da qual o aço com alta concentração de carbono foi criado e por que motivo desapareceu. Para tanto, este pesquisador buscou auxílio da nanotecnologia como forma de entender melhor este processo.

Segundo artigo da National Geographic, ao colocar este material em análise com auxílio de um microscópio eletrônico, Paufler e seus colegas encontraram nanotubos de carbono nestas espadas. Estes nanotubos são muito fortes e estão presentes no aço mais suave das lâminas, tornando-as mais resistentes. Sobre Paufler afirma: “É um princípio geral da natureza. Materiais que são suaves podem ser fortalecidos com a inclusão de fios mais resistentes.”

Estrutura do Aço de Damasco onde é possível notar a existência dos nanotubos de carbono.
Estrutura do aço de Damasco onde é possível notar a existência dos nanotubos de carbono.

Para comprovar sua teoria, este pesquisador e sua equipe foram capazes de construir uma liga de aço mais poderosa, baseada na introdução de cementita, durante o processo de resfriamento – que é conhecido como têmpera. Entretanto outros pesquisadores permanecem céticos acerca de Paufler e sua equipe terem conseguido descobrir o segredo do aço de damasco. Como é o caso do especialista em metalurgia da Universidade Estadual do Iowa (EUA), John Verhoeven, o qual afirma que nanoestruturas tubulares podem ser encontradas também em espadas feitas com aço comum.

No denso artigo “The Key Role of Impurities in Ancient Damascus Steel Blades” (O papel central das impurezas nas antigas espadas de aço de Damasco) que escreveu junto com mestre em cutelaria e gerente geral aposentado da Nucor Steel Corporation para o site The Minerals, Metals and Materials Society (TMS), Verhoeven afirma que:

“…o lingote wootz teria que ter vindo de um depósito de minério que forneceu níveis significativos de determinados oligoelementos, nomeadamente, Cr, Mo, Nb, Mn, ou V. Essa idéia é consistente com a teoria de alguns autores que acreditam que as lâminas com bons padrões só foram produzidas a partir de lingotes wootz feitas no sul da Índia, aparentemente em torno de Hyderabad. Em segundo lugar […era necessário] o conhecimento anterior de que wootz lâminas Damasco com bons padrões são caracterizados por um nível de fósforo elevado.”

Característico padrão "orgânico" nas lâminas de aço de Damasco
Característico padrão “orgânico” nas lâminas de aço de Damasco

Para estes especialistas consideram pertinente a hipótese, na qual a produção deste metal teria sido interrompida, não pela perda da técnica, mas sim por causa do esgotamento da fonte do minério adequado para a produção destas armas. Quando foi encontrado um novo corpo de minério que apresentava as propriedades necessárias para a produção do aço de damasco, os ferreiros que conheciam o processo de extração e forja já teriam falecido, sem terem passado à frente o conhecimento aos seus aprendizes.

Os estudos das propriedades nanomateriais ainda estão nos primeiros passos de seu desenvolvimento e, provavelmente, ainda precisaremos esperar mais alguns anos até uma conclusão que seja reconhecida como um consenso entre os pesquisadores.

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1066 – Húskalar, Batalha de Hastings

‘O guerreiro anglo-saxão de Hastings talvez não seja tão diferente do “Tommy” britânico das trincheiras’ disse o fotógrafo Thom Atkinson. Na Batalha de Hastings, a escolha do soldado em termos de armamento era bem extensiva. Dentre as diversas batalhas nas quais estes guerreiros ferozes participaram, provavelmente a mais famosa é a de Hastings. Liderados por Harold Godwinson ou Haroldo II da Inglaterra, chefe dos ingleses, lutaram contra William II da Normandia, que comandava a coalizão dos franceses e normandos. Apesar da derrota sofrida contra os normandos, os húskarlar mostraram-se extremamente úteis em combate.

Guardas de Elite

Os húskarlar foram utilizados como guardas de elite pessoal dos vários nobres da Europa. Dentre os mais famosos corpos de guardas, está a elite militar de Canuto, rei da Inglaterra, que governou o país no século XII d.C. Através da Lex Castrensis, Canuto estabeleceu que sua guarda particular seria composta de guerreiros húskarlar. O guerreiro huskarl era um dos poucos que tinha o privilégio de permanecer no salão real nas festividades e comer na mesa do rei juntamente com ele. Mas, com os privilégios, vieram também as obrigações do dever: traição e ações consideradas graves eram punidas com o exílio ou a morte. Estes guerreiros eram submetidos a um código militar muito mais severo do que os seus companheiros de armas de patentes mais baixas. Até mesmo seus julgamentos eram realizados por um tribunal específico: o Huskarlesteffne, cujas decisões eram assistidas pelo próprio soberano.

Aqui neste kit podemos ver a forte presença da cota de malha utilizada até a chegada das armas de pólvora e o conhecido elmo nasal em forma de cuia com a haste para proteger o nariz do soldado.

1066 – Húskalar, Batalha de Hastings

1244 – Cavaleiro montado, Cerco de Jerusalém

O Cerco de Jerusalém de 1244 aconteceu durante a Sexta Cruzada, quando os Corásmios (a convite dos Aiúbidas) conquistaram a cidade sobre Frederico II da Germânia em 15 de julho de 1244.

Aqui já podemos notar o uso da maça medieval, uma evolução do primitivo porrete mas com uma cabeça de metal facetado. A maça foi inventada por volta de 12 000 a.C. e, rapidamente, tornou-se uma arma importante. Essas primeiras maças de madeira, com pedra sílex ou obsidiana encravadas, tornaram-se menos populares devido ao aprimoramento das armaduras de couro curtido que podiam absorver grande parte do impacto. Algumas maças tinham a cabeça inteira de pedra, mas eram muito mais pesadas e de difícil manejo. Maças eram muito utilizadas na idade do Bronze no Oriente Próximo.

A adaga vista aqui neste kit também, era um item multiuso, mas principalmente utilizado fora das batalhas como ferramenta de corte universal, tanto para a alimentação quanto para o corte de madeira fina e outros materiais mais simples.

1244 – Cavaleiro montado, Cerco de Jerusalém

1415 – Arqueiro combatente ou arqueiro de arco longo, Batalha de Azincourt

Batalha de Azincourt foi uma batalha decisiva ocorrida na Guerra dos Cem Anos. Acontecida em 25 de outubro de 1415 (Dia de São Crispim), no norte da França, resultou em uma das maiores vitórias inglesas durante a guerra.

Um detalhe muito importante nesta batalha foi o emprego dos arcos longos (na foto, o item de madeira clara com um adorno escuro no centro), estes que foram eficazmente utilizados pelos ingleses contra os franceses ao longo de séculos. O arco longo inglês pode ser considerado uma das armas mais letais e importantes da história. Foi usado principalmente na Idade Média, e era o maior causador de baixas se usado corretamente. No exército inglês o arco longo já se encontrava intrinsecamente ligado à sua cultura, pois os jovens aprendiam seu manuseio desde cedo para caçar e mais tarde, combater.

1415 – Arqueiro combatente ou arqueiro de arco longo, Batalha de Azincourt

1485 – ‘Homem de armas’ iorquino, Batalha de Bosworth Field

‘Homem de armas’ foi um termo usado desde os períodos da alta Idade Média até o Renascimento para descrever um soldado, quase sempre um guerreiro profissional no sentido de serem bem-treinados no uso de armas, que servia como um cavaleiro pesado totalmente armado. Também podia referir-se a cavaleiros ou nobres, e aos membros das suas comitivas ou mercenários. Os termos cavaleiro e homem de armas são muitas vezes usados como sinônimos, mas ao mesmo tempo todos os cavaleiros equipados para a guerra, certamente, eram homens de armas, mas nem todos os homens de armas eram cavaleiros.

As guerras eram responsabilidades exclusiva dos nobres, segundo a lógica do Feudalismo, portanto esses comandantes eram de famílias nobres, o que permitia a eles o acesso a equipamentos que para a época eram muito caros. A cavalaria era uma arma que criava espaço apenas para membros da nobreza, e isso perdurou até a Primeira Guerra Mundial onde os pilotos de aviões eram normalmente membros da cavalaria, algo visível pelo aspecto de sua indumentária, onde era normal o uso de botas e calças de montaria.

Estas armaduras, ao contrário do que se diz e do que muitos pensam, eram feitas para serem leves e permitirem com que o soldado pudesse se movimentar sem grandes problemas. Tal fato alegando que os soldados que sofriam quaisquer quedas de costas vestindo uma armadura destas o impediria de se levantar, são apenas boatos.

1485 – ‘Homem de armas’ iorquino, Batalha de Bosworth Field

1588 – Caliveiro miliciano, Tilbury

O Arcabuz é uma antiga arma de fogo portátil, espécie de bacamarte. Era chamada vulgarmente de espingarda nas crônicas portuguesas do século XVI. O Caliver (arma da foto) nada mais era do que um arcabuz improvisado, de menor porte e utilizado pelas milícias especialmente na Europa, sendo mais presente na Inglaterra. O Arcabuz e o Caliver foram os predecessores do mosquete, todos estes eram carregados diretamente pelo cano e possuíam o característico fecho de mecha para realizar a ignição da pólvora e assim, concluir o disparo.

Note também o Capacete Morrião ou chamado apenas por Morrião, o popular capacete de conquistador, usado entre os séculos XVI e XVII.

1588 – Caliveiro miliciano, Tilbury

1645 – Mosqueteiro do exército, Primeira Guerra Civil Inglesa

A Batalha de Naseby foi a batalha decisiva durante a Primeira Guerra Civil Inglesa, onde o exército do Rei Carlos I foi dizimado pelo Exército Novo dos cabeças redondas comandados por Sir Thomas Fairfax e Oliver Cromwell.

O Exército Novo foi formado em 1645 pelo Parlamento e dissolvido em 1660 após a Restauração. Era diferente dos demais exércitos à época, uma vez que foi concebido como uma força responsável pelo serviço em todo o país, ao invés de estar circunscrito a uma única área ou guarnição. Como tal, era constituído por soldados em tempo integral, ao invés da milícia usual à época. Além disso, possuía militares de carreira, não tendo assento em qualquer das Casas (dos Lordes ou dos Comuns) e, portanto, não eram ligados a nenhuma facção política ou religiosa entre os parlamentares.

Oliver Cromwell remodelou o exército e, a frente dele, venceu várias batalhas, os soldados passaram a ser promovidos com base na competência e não mais pelo nascimento em uma família de prestigio. Ou seja, o critério de nascimento foi substituído pelo de merecimento, este novo exército (New Model Army) venceu o exército do rei na Batalha de Naseby, que pôs fim à luta. O Rei Carlos Ι foi condenado à morte e executado. A república foi proclamada e Oliver Cromwell assumiu o governo do seu país.

É possível notar o cinto de carregadores (centro direito da foto), onde os pequenos cilindros de madeira carregavam pequenas quantidades específicas de pólvora para auxiliar no recarregamento ágil do mosquete após cada disparo. Também a bolsa de couro com biqueira, algo similar ao que mais tarde chamaríamos de cantil, o pequeno punhal para uso universal e o baralho, o conhecido jogo de cartas com figuras popularizado no sul da Europa à partir do século XIV.

1645 – Mosqueteiro do exército, Primeira Guerra Civil Inglesa

1709 – Sentinela, Batalha de Malplaquet

A Batalha de Malplaquet se deu no dia 11 de setembro de 1709 no marco da Guerra de Sucessão Espanhola. Tropas da França foram vencidas pelas tropas da Aliança – composta pela Áustria, Inglaterra e Holanda – comandadas pelo Duque de Marlborough e pelo Príncipe Eugênio de Saboya. Às 8 da manhã do dia 11 de setembro, o Duque de Marlboroug, à direita do Príncipe Eugênio, cujo exército constava de soldados imperiais e dinamarqueses, avançou para atacar pelo flanco, sem ser bem-sucedido. A infantaria prussiana e holandesa, comandada pelo Príncipe de Orange e o Barão Nagel, encontrou também uma intensa resistência francesa pelo flanco esquerdo.

Depois de serem rejeitados dois ataques, o Príncipe Eugênio dirigiu pessoalmente o terceiro. Suas tropas romperam as linhas francesas e as expulsaram do território de Malplaquet (França). Os aliados perderam 25.000 homens e os franceses sofreram 11.000 baixas e sofreram a derrota definitiva neste confronto. A Batalha de Malplaquet foi uma das batalhas mais sangrentas da Guerra de Sucessão Espanhola.

Aqui já é evidente o uso da baioneta, uma lâmina que podia ser instalada na ponta do cano do mosquete. Algo que se demonstra eficiente até os dias de hoje. A origem do uso da “baioneta” é incerto, mas há registros que alegam que esta arma era utilizada durante a caça, após um tiro mal-sucedido sobre o alvo, onde possibilitava ao caçador a desferir um golpe de lâmina sobre o animal à curta distância. Na França, a baioneta foi introduzida pelo General Jean Martinet e foi comumente utilizada na grande maioria dos exércitos europeus após a década de 1660.

Podemos ver o característico chapéu tricorne (três pontas) no topo à esquerda e uma pequena bíblia no canto inferior esquerdo.

1709 – Sentinela, Batalha de Malplaquet

1815 – Soldado raso, Batalha de Waterloo

O mosquete com pederneira modelo Brown Bess foi desenvolvido em 1722 e usado na época da expansão do Império Britânico. Adquiriu importância simbólica, pelo menos, tão importante quanto a sua importância física. Ele estava em uso há mais de cem anos, com muitas mudanças incrementais no seu design. Estas versões incluem o Long Land Pattern, Short Land Pattern, India Pattern, New Land Pattern Musket, Sea Service Musket e outros. Um soldado bem treinado podia efetuar quatro disparos dentro de um minuto utilizando um mosquete com pederneira.

A origem do nome “Brown Bess” ainda é incerto mas pode ser uma derivação do alemão ou holandês para “marrom” e “cano.” (Os primeiros ferreiros de armas aplicavam uma camada de verniz sobre o metal e a coronha de armas de fogo)

Um detalhe interessante é que neste kit pode-se notar a inclusão da caneca de estanho e o caderno de anotações. Também vale ressaltar a presença de kits de jogos para a distração como xadrez e damas. É visível também, mudança do chapéu Tricorne para o Chacó, esta espécie de quepe comprido com a insígnia em sua face frontal. O cantil veio a se tornar parte do equipamento padrão ao invés de cuias e copos para coletar água de fontes comuns ou rios e lagos. E por fim, o retorno dos calçados com cadarços.

1815 – Soldado raso, Batalha de Waterloo

1854 – Soldado raso da brigada de rifles, Batalha de Alma

A Batalha de Alma foi uma batalha da Guerra da Crimeia, travada entre o Império Russo e a coligação anglofrancootomana. Foi travada em 20 de setembro de 1854, na margem do Rio Alma, hoje em território da Ucrânia. Foi o primeiro grande confronto durante este conflito (1854 – 1856). A coligação aliada derrotou os russos, que perderam cerca de seis milhares de homens. É em memória desta batalha que uma das pontes de Paris recebeu o seu nome: a Ponte de Alma.

A importância da camuflagem já detinha uma certa atenção dentro do âmbito militar nesta época. Com a sofisticação dos rifles militares e sua precisão, a necessidade de o soldado permanecer oculto nos campos de batalha começara a aumentar exponencialmente.

1854 – Soldado raso da brigada de rifles, Batalha de Alma

1916 – Soldado raso, Batalha do Somme

Enquanto a Primeira Guerra Mundial foi a primeira guerra moderna, assim como ilustrado no grupo de itens abaixo, este ainda é considerado um kit primitivo. Juntamente com a máscara de gás, o soldado era equipado com uma espécie de “maça de trincheira”, algo que lembra uma arma medieval.

Durante a a Grande Guerra a camuflagem já era uma estratégia militar levada em conta por vários fatores, além da existência dos vôos de reconhecimento após a inclusão do avião como uma arma de guerra e também pela evolução dos rifles de precisão. Os sobrevoos eram usados para mapear as posições inimigas com o intuito de criar uma condição favorável para os rivais ao possibilitar cercos de artilharia, com isso, a camuflagem passou a ser parte essencial do estudo no desenvolvimento industrial dos novos uniformes militares.

O rifle presente neste kit é o Lee-Enfield, derivado do antigo Lee–Metford que já aplicava um novo método de ação de ferrolho. O Lee-Enfield foi utilizado pelo exército britânico durante as duas grandes guerras e entrou em serviço em 1895, permanecendo até 1957. Disparava de 20 a 30 vezes por minuto com um alcance de aproximadamente 500 metros.

O uso da pá de combate também era algo essencial na época devido à estratégia militar adotada por praticamente todas as nações na época, a guerra de trincheiras.

Nesta época também foi introduzida pela primeira vez o que era chamado de “Rações de Provisão”, que eram nada mais que comida empacotada para ser facilmente preparada e consumida pelas tropas no campo de batalha. Consistiam em três tipos, Ração Reserva, Ração de Trincheira e Ração de Emergência. O uso de rações de combate não era regra para todas as nações envolvidas na guerra, na época. Atualmente as rações de previsão recebem várias nomenclaturas dependendo de sua composição.

Assim como o amplo uso de lanternas portáteis na Segunda Guerra Mundial, algo relativamente novo para o ocidente naquela época eram as Dog Tags ou chapas de identificação. Elas foram introduzidas pelos chineses no século XIX e não demoraram a serem adotadas como instrumento de identificação por quase todas as nações algum tempo depois. A versão da Dog Tag da Primeira Guerra Mundial está logo acima da maça de trincheira, no centro esquerdo da imagem.

Outras inovações da época eram o kit de bandagens de primeiros socorros individual e o relógio de bolso.

1916 – Soldado raso, Batalha do Somme

1944 – Lance corporal, Brigada de Paraquedistas, Batalha de Arnhem

Batalha de Arnhem foi um grande combate travado entre as forças do Exército Alemão e das tropas Aliadas nas cidades holandesas de Arnhem, Oosterbeek, Wolfheze, Driel e no interior do país de 17 a 26 de setembro de 1944. Ela foi parte da Operação Market Garden, uma operação mal sucedida que aconteceu em parte dos territórios da Holanda e Alemanha e que tinha como objetivo principal de expulsar os alemães dos Países Baixos e garantir o avanço livre das tropas aliadas para dentro do território alemão. Ela também foi a maior operação envolvendo tropas aerotransportadas da história.

Nesta imagem notamos que a sofisticação e o número de itens dentro do equipamento militar já aumentara consideravelmente desde o kit do húskarlar da Batalha de Hastings. Para viabilizar um salto com o mínimo de peso possível, os paraquedistas necessitavam de um kit compacto. Sendo assim, foram desenvolvidos inúmeros instrumentos e itens menores que pudessem ser agrupados nas mochilas e bolsas com o objetivo de permitir que o soldado conseguisse saltar sem grandes complicações. Armas menores ou portáteis com coronha retrátil, calças repletas de bolsos e sistemas de fechos inteligentes criaram uma condição em que o equipamento pudesse ser rapidamente desatado do corpo do soldado permitindo uma maior mobilidade, e mesmo assim, os equipamentos de hoje se demonstram mais eficientes contando com apenas um ou dois fechos que se desconectados, liberam todo o equipamento carregado pelo soldado paraquedista.

A comida enlatada era algo amplamente utilizado durante a Segunda Guerra Mundial, uma vez que os soldados iriam percorrer grandes distâncias, isso criava a necessidade de alimentos duráveis para reduzir a necessidade do apoio logístico por parte do fornecimento de alimentos vindos de seus países de origem.

Uma grande mudança ocorrida nesta época foi o uso do chocolate como fonte de energia para os soldados, sendo ele incluído como parte íntegra do kit de rações.

1944 – Lance corporal, Brigada de Paraquedistas, Batalha de Arnhem

1982 – Royal Marine Commando, Guerra das Malvinas

A Guerra das Malvinas foi um conflito ocorrido nas Ilhas Malvinas (em inglês Falklands), Geórgia do Sul e Sandwich do Sul entre os dias 2 de abril e 14 de junho de 1982 pela soberania sobre estes arquipélagos austrais reivindicados em 1833 e dominados a partir de então pelo Reino Unido. Porém, a Argentina reclamou como parte integral e indivisível de seu território, considerando que elas encontram “ocupadas ilegalmente por uma potência invasora” e as incluem como partes da província da Terra do Fogo, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul.

O saldo final da guerra foi a recuperação do arquipélago pelo Reino Unido e a morte de 649 soldados argentinos, 255 britânicos e 3 civis das ilhas.

Aqui já é possível vermos o esquema de camuflagem moderno com padrões de formas e de cores derivadas do verde, e também os itens portáteis como câmera fotográfica e rádio.

1982 – Royal Marine Commando, Guerra das Malvinas

2014 – Sapador de apoio, Royal Engineers, Província de Helmland

A evolução da tecnologia que emergiu nesta série de fotografias foi um processo que recebeu um grande avanço no último século. O relógio de bolso hoje é à prova d’água e possui visor digital; o Lee-Enfield de ação de ferrolho foi substituído por carabinas com mira a laser; os coletes camuflados de Kevlar tomaram o lugar das túnicas de lã.

A sofisticação do equipamento do soldado é gigantesca se formos comparar a primeira e esta última fotografia. Passamos de um equipamento pesado e rígido para a mobilidade, para um armamento mais eficiente, preciso e resistente. Saímos da espada para o arco, mosquete e no final, o rifle de precisão que pode atingir o alvo a 1km de distância. Hoje temos uma preocupação maior em manter o soldado vivo do que empregar “buchas de canhão” no campo de batalha com o intuito de ganhar tempo antes de enviar a carga de cavalaria. Aprendemos o quão importante é manter o soldado oculto por camuflagem e a orientação por mapas em território hostil.

A pergunta que fica é: se nos últimos 1000 anos a evolução do armamento militar acelerou-se gradativamente no decorrer dos séculos, o que nos espera nos próximos 50 anos?

2014 – Sapador de apoio, Royal Engineers, Província de Helmland

Fotografias: Thom Atkinson

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A bombarda de Mehmed

Constantinopla, 29 de maio de 1453.

Pela primeira vez, em centenas de anos, a parede externa da grande muralha treme enfraquecida diante da onda de choque resultante do impacto de 300 kg de granito.

A 1.500 metros de distância jaz, envolta em fumaça, a Bombarda turca com suas dezesseis toneladas de bronze fundido e calibre de 635mm. Na boca de seu cano esfumaçado permanece a inscrição: “Ajude ó Deus. O Sultão Mohammed Jhan, filho de Murad. O trabalho de Kamina Ali, no mês de Rejeb. No ano de 868[1].”

A bombarda de Mehmed
A bombarda de Mehmed

No outro lado da massa de pedra e tijolos, o centro econômico e político do Império Romano se encontrava sob cerco, com sua população a admirar, horrorizada, o poder destrutivo e o brado avassalador de uma arma que jamais imaginaram existir. Sem a menor ideia de como reagir a tal tipo de ataque, tudo que lhes resta é ajoelhar em oração e aguardar que a bondade de seu deus intervenha a seu favor.

Neste ano o Ocidente tinha, pela primeira vez, contato com uma completamente nova forma de batalha, baseada no uso da pólvora.

Mehmed II se aproxima de Constantinopla
Mehmed II se aproxima de Constantinopla

O Império Romano do Oriente

De forma errônea. As pessoas costumam pensar que a história do Império Romano termina aproximadamente, quando as invasões germânicas terminam por conquistar a cidade de Roma. Contudo, este poderoso império já havia transposto sua capital muito antes de sofrer o ataque dos vândalos, em 476 d.C. sob ordens de Constantino I, o qual foi também responsável por retirar da ilegalidade os cristãos e estabelecer uma política mais tolerante com os seguidores desta religião – em uma caminho bem diferente de seu percussores. Fato que não só dava espaço à este grupo que crescia de forma impressionante, mas atendia a demanda, inclusive, de famílias de patrícios, que já haviam sidos convertidos nesta nova fé.

Esta reorganização do Império Romano foi resultado de uma série de fatores que marcaram um processo de crise (econômica, política e social) a partir do século I, quando Otávio Augusto minimizou a prática imperialista de expansão territorial e se dedicou a consolidar as fronteiras, em um período que ficou denominado como a Pax Romana. Fato que terminou por desencadear uma série crise da mão-de obra escrava que, por dar sustento ao ordenamento econômico romano, desencadeou um processo inflacionário de produtos e imóveis.

Além disso, a enorme corrupção e a luta entre generais pelo poder dividia espaço com a expansão da fé cristã por toda a região, enfraquecendo os pilares que sustentavam esta poderosa civilização. Por fim, o processo migratório das comunidades germânicas, a partir do século III, e sua evolução para uma sequência de invasões em meio aos séculos IV e V contribuíram para que o Império romano fosse dividido em Império Romano do Ocidente (com Capital em Roma) e Império Romano do Oriente – com capital estabelecida na antiga cidade grega de Bizâncio. Iniciativa tomada por Teodósio I, o Grande (379-395) e foi acompanhada do início da construção de uma enorme muralha.

Em meados do Século V, com a tomada de Roma, Constantinopla (nome então conferido à cidade pelo Imperador Constantino I – 306-337) foi transformada no grande centro econômico, político e cultural do que restou de um enorme império, que ia do Norte da Escócia até a região da Índia. Neste lugar, os romanos (pois ainda se definiam pelo termo latino romanoi) deram início a uma prática inovadora de associação entre poder político e religioso que ficou conhecida como cesaropapismo e serviu de base para toda a organização de poder da Era Medieval.

Baseada na produção agrícola em larga escala – com uma organização de trabalho diversa, que se pautava em camponeses livres, servos e escravos – os romanos souberam utilizar a favorável localização de sua capital como um eixo das rotas comerciais para desenvolver um efusivo comércio de tecidos, minérios, escravos, grãos, especiarias, pedras preciosas, rebanhos, entre outros. Cabe apontar um especial valor dado por eles ao comércio de azeite, que era utilizado como importante fonte de luz.

A constante presença de povos com as mais diversas etnias, os romanos desenvolveram um completamente novo estilo arquitetônico que miscigenava a arte greco-romana com culturas de povos orientais e temas que amalgamavam a religiosidade e política. Fato que deu origem à criação das Basílicas (palavra de origem grega que significa a “casa do rei”), além de enormes construções como o Aqueduto de Valente, a Basílica de Hagia Sophia e o Hypódromo que eram adornados de forma rica e cuidadosa com afrescos e mosaicos.

As muralhas de Constantinopla permaneceram intocáveis por cerca de 1000 anos, tanto que passou a figurar dentre as lendas populares como o resultado da organização de um poderoso império, ungido pela bondade de Deus.

Domínio Bizantino em 1452.
Domínio Bizantino em 1452.

 

As Muralhas de Teodósio II

Construída entre 412 e 447, esta obra foi fruto do trabalho de milhares de construtores godos e grupos “bárbaros” de diversos lugares, chegando a atingir mais de 6km de comprimento de uma defesa tripla, que incluía duas muralhas e um fosso com aproximadamente 20 metros de largura que contava com barricadas por toda sua extensão – pelas quais os inimigos deveriam passar sob intensa saraivada de flechas, lanças e balas lançadas por balestras.

Caso o adversário fosse capaz de transpor o fosso, precisaria atravessar uma faixa de área desprotegida com 15m para poder atingir a primeira linha de muralhas, a qual era composta por muros de 2m de largura, 8m de altura e provida com cerca de 80 torres de vigília, dispostas de maneira estratégica por toda sua extensão.

Havia um corredor aberto com cerca de 18m de largura os levaria em direção à última muralha que, por sua vez, contava com 5m de largura, 13m de altura e 100 torres de defesa que chegavam a ter 15m de altura. Este verdadeiro abatedouro era recoberto por pequenos cubos de pedras e tijolos que eram reforçados com linhas de tijolos pontiagudos. Por fim,as regiões costeiras eram dotadas de muralhas de 12m, que se estendiam por 13km, onde estavam situados os enormes portões denominados Porta Aurea – também chamados de Portões Dourados por alguns historiadores. Contudo, segundo os autores do site da biblioteca virtual do instituto Miguel de Cervantes, a magnitude desta construção resultava um preocupante problema, já que haviam apenas 8.000 homens disponíveis para realizar o patrulhamento e defesa da muralha, durante o ano de 1453.

De qualquer forma, na época da invasão dos exércitos muçulmanos, Constantinopla já não contava mais com a enorme frota para defender seu portão no estreito do “Chifre de Ouro”, o qual foi burlado por pelas tropas de Mehmed II de forma muito criativa. Os soldados realizaram o enorme esforço de carregar os barcos numa travessia terrestre pela região próxima à torre de Gálata e, com isso, dar a volta nas gigantes correntes que impediam sua entrada e adentrar novamente no estreito do Chifre de Ouro.

The-restored-Gate-of-Charisius-or-Adrianople-Gate-where-Sultan-Mehmed-II-entered-the-city.
O Portão restaurado de Charisius ou Portão de Adrianópolis , onde sultão Mehmed II entrou na cidade.
The-Second-Military-Gate-or-Gate-of-Belgrade
O segundo Portão Militar ou Portão de Belgrado
Theodosian-Walls
Seção da muralha de teodosio
Theodosianische_Landmauer_in_Istanbul
Seção da muralha de teodosio
Representação-esquemática-das-paredes-Theodosian-duplas-de-Constantinopla-e-do-fosso-exterior-adicionados-mais-tarde
Representação esquemática das paredes Theodosias duplas de Constantinopla e do fosso exterior adicionados mais tarde

A invasão à Constantinopla

Os motivos que levaram os membros do Império Otomano a agirem no intuito de conquistar esta cidade estão relacionados aos interesses pelo controle econômico, político e religioso desta região, entendida como uma das mais ricas de toda a região. Neste sentido, este grupo – que passava a agregar para si a definição de turcos – passava por um enorme processo de expansão territorial, por meio do qual haviam conquistado todas as terras a leste e oeste de Constantinopla, fato que fazia deste lugar o último reduto cristão do leste europeu.

Além disso, devemos ter em mente que o islã é uma religião por natureza expansionista, já que o conceito de jihad envolvia a busca por obter o máximo de tribos convertidas à sua crença por meio de diálogos diplomáticos constantes e, em último caso, por meio de uma expansão militarista. Contudo, a tolerância religiosa sempre foi uma grande marca de seus seguidores que, uma vez que conquistassem a região, permitiam a realização de cultos diferentes, em troca de taxa de impostos mais alta a serem pagas pelos grupos dominados. Como foi o caso do Califado de Córdoba, que agregava no interior de seus muros muçulmanos, judeus, cristãos, budistas e outros grupos religiosos menores.

Entretanto, o sultão turco Mehmed II tinha um enorme desafio à frente pois, além de precisar realizar o impossível (transpor muralhas que há mais de 1000 anos não eram vencidas) tinha necessidade de constituir uma imagem sobre si que fosse capaz de sobrepor a incredulidade conferida à sua juventude – já que tinha apenas 21 anos de idade na época – e levar consternação aos seus adversários.

Em artigo publicado na revista History Today, o professor adjunto em Estudos Otomanos da Universidade de Birmigham, e autor do livro Ottoman Warfare, 1500-1700, Rhoads Murphey ao procurar entender as diversas perspectivas existentes na época sobre a personalidade do jovem sultão. Autor compara documentos com fatos, como o documento endereçado à comunidade genovesa, na época da conquista, que oferecia privilégios na tentativa de obter auxílio de residentes de Constantinopla, com linguagem confidencial e inspiradora.

Este documento consiste em uma carta, enviada ao Duque de Veneza, em maio de 1471, na qual lhe é proposto o fim da guerra (em curso desde 1463) de maneira diplomática, por meio de demandas moderadas à Veneza, em troca de concessões otomanas. Neste documento, o sultão acenava com a devolução da ilha de Lemnos, em contrapartida ao pedido de evacuação dos territórios de “Modon “e “Coron”, situados no extremo sul do Peloponeso. Em análise do material, Murphey, por fim, afirma que Mehmed II, acenava com grande respeito pelo conhecimento. Algo que se fazia muito presente com respeito às técnicas manufatureitas de armamentos e armaduras, o qual se

Caracterizado como de ações categóricas e temperamento explosivo, este rapaz parecia (apesar de tudo) ser capaz de controlar tais características, e apresentar um discurso moderado e construtivo quando a situação assim exigia. Ademais, Mehmed II aparentava ser dotado de grande habilidade estratégica e recusava lançar seus exércitos em batalhas que não tivessem algum tipo de garantia da vitória.

Mehmed II por Fausto Zonaro
Mehmed II por Fausto Zonaro
Retrato do Sultão Mehmed II, pintado em 1479, pelo pintor italiano Gentile Bellini
Retrato do Sultão Mehmed II, pintado em 1479, pelo pintor italiano Gentile Bellini

De qualquer forma, rumores contribuíram para envolver este personagem histórico em uma névoa de mistério que o colocavam como um líder obcecado pela reputação de suas proezas militares e que ganhava ainda mais força quando sua vitória sobre o Império Bizantino passa a ser relacionada com uma profecia de Maomé a respeito da vitória muçulmana sobre o antigo reino cristão. Todavia, o sultão não fazia a menor questão de contradizer tais boatos e chegava, inclusive, a incentivar as perspectivas errôneas como maneira de confundir seus adversários. Neste sentido, como forma de incutir maior medo e insegurança, assim como de garantir sua vitória contra os cristãos, o sultão do Império Otomano decidiu criar uma arma poderosa; a Bombarda Turca.

Em um artigo científico para o site Muslim Heritage, o pesquisador sênior da Foundation for Science, Technology and Civilisation, Dr. Salim Ayduz, faz uma interessante análise sobre a bombarda de Mehmed II e afirma que este foi o resultado de trabalho de habilidosos engenheiros e arquitetos como Saruca Usta e Muslihidin Usta, além de contar até mesmo com Urbano – um romano que se revelava insatisfeito com o governo bizantino – para a elaboração deste complexo armamento.

Construído com moldes duplos, o canhão era composto por duas partes, feitas em bronze maciço, que eram rosqueadas para formar a maior Bombarda do mundo, cujas peças possibilitavam encaixes transversais cruzados para a inserção de alavancas que permitissem aos soldados girar os canos, de forma a rosquear o carregador de pólvora ao cano de disparo.

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A Bombarda Turca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Existem relatos da época que falam sobre o clima no dia do primeiro teste, em meio ao campo, quando todos foram avisados do enorme barulho que seria feito com o estouro da arma, para que nenhuma pessoa doente ou mulheres grávidas fossem surpreendidas pelo som, desavisados. Fato que aponta um segundo aspecto, de caráter psicológico, do uso desta arma como forma de intimidar os inimigos com seu enorme tamanho e estrondo realizado pelo disparo. Isto porque toda vez que era disparado, o enorme estrondo e a névoa de fumaça poderiam ser percebidos de longa distância. Algo que foi apontado pelo relato do cronista grego Kristovolous, que dedica suas palavras ao amedrontador rugido desta arma, capaz de fazer a terra tremer.

Caso haja interesse dos leitores, é possível vermos um vídeo que demonstra o teste realizado por um grupo de cientistas, para o programa Ancient Discoverys, com uma réplica do canhão cuja poderosa explosão gerava medo entre seus próprios atiradores – que temiam a fragmentação do cano de disparo – com a intensidade da detonação, que gerou a velocidade de 200m/s do projétil. Uma força que supera a velocidade das balas dos canhões modernos!

Conclusão

Segundo tudo que vimos até agora, podemos concluir que a superioridade estratégica de Mehmed II foi fundamental para a vitória contra os cristãos. Neste sentido, o poder bélico de um enorme exército, associado ao uso de uma arma com fantástico poder de destruição, não só serviram para as batalhas, mas contaram também como arma psicológica, capaz de incutir o terror entre soldados e moradores de Constantinopla.

Desta maneira, a cidade foi tomada em apenas oito semanas de batalhas, algo que para a época poderia ser considerado um tempo extremamente curto, já que os cercos em guerras costumavam levar diversos meses – até que os suprimentos básicos da cidade cercada chegassem ao fim. Fato que levou ao fim o último reduto cristão em meio aos domínios do Império Otomano e, ao mesmo tempo, apresentou ao Ocidente o impressionante poder de destruição de um completamente novo tipo de armamento.

Com isso, as armas de fogo viriam a ser introduzidas progressivamente nas práticas militares europeias e, durante o século XVI, seriam um fator crucial na conquista da América. Mas este é assunto para outro momento, nesta história militar.

A tumba do Sultão Fatih ("O Conquistador") Mehmed II, na cidade de Istambul.
A tumba do Sultão Fatih (“O Conquistador”) Mehmed II, na cidade de Istambul.
Moeda de bronze com o busto de Mehmed o Conquistador, 1480 D.C
Moeda de bronze com o busto de Mehmed o Conquistador, 1480 D.C

[1] Este ano corresponde ao calendário muçulmano.

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Novos aviões têm quantidades significativas de materiais compostos (não metais), peças que exigem técnicas sofisticadas de reparo. Airbus Group fechou uma parceria com a Unicamp (Universidade de Campinas) e o Consulado Francês em São Paulo para criar uma cadeira industrial que pesquisará o Comportamento Dinâmico de Estruturas Compostas.

Parte do Programa de Cátedras Franco-Brasileiras no Estado de São Paulo, a nova cadeira integrará a grade da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp e será coordenada pelo professor Dr. Alberto Luiz Serpa. A Dra. Ana Cristina Galucio, especialista em compósitos da Airbus Group Innovations, foi escolhida como pesquisadora associada da Unicamp para o programa até dezembro de 2015. Brasileira, Ana Cristina trabalha para a divisão desde 2006. A cadeira estudará o comportamento dinâmico de materiais compostos utilizados em estruturas aeroespaciais. O trabalho, único na América Latina, estimulará a pesquisa e desenvolvimento de projetos, além de qualificar estudantes e profissionais em uma das áreas mais avançadas da tecnologia aeronáutica, aplicável em aviões, helicópteros e satélites.

“O Airbus Group tem experiência comprovada em parcerias com universidades em todo o mundo. Esta nova cadeira irá estimular projetos e pesquisas de muito valor e faz parte de nossa contribuição contínua com o setor aeroespacial brasileiro, demonstrando nosso comprometimento com o País e o desenvolvimento industrial a longo prazo”, afirmou o diretor presidente do Airbus Group no Brasil, Bruno Gallard.

A Helibras, subsidiária brasileira da Airbus Helicopters, também está apoiando a ação, com foco na possibilidade de desenvolver novas tecnologias para a fabricação de helicópteros. “Apoiar um projeto como esse, em parceria com o Grupo, é um passo muito importante. Nós poderemos trabalhar com tecnologias que podem ser usadas em helicópteros e aviões Airbus”, explicou o presidente da Helibras, Eduardo Marson Ferreira.

A cadeira é uma iniciativa da Airbus Group Innovations, braço do grupo responsável pelo desenvolvimento de parcerias com escolas, universidades e centros de pesquisa mundialmente reconhecidos. A Airbus Group Innovations tem como missão apoiar o desenvolvimento das divisões do Grupo onde quer que estejam e a cadeira franco-brasileira na Unicamp ratifica isso no Brasil.

Imagem: Bernard and Company Composites

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