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Japão Imperial

Há algum tempo, em 2014, alguns trabalhadores rurais de Lumby, na Columbia Britânica — 400 km ao norte da fronteira dos Estados Unidos — toparam com um artefato proveniente de balão bomba japonês de 70 anos atrás.

japanese_fire_balloon_moffet_custom-e95deda2012dbd3e1cf578f934c0caa6f94f727d-s400-c85Esta engenhoca faz parte das milhares de balão bomba lançados em direção à América do Norte durante os anos 40 como parte do plano secreto japonês de sabotagem. Até hoje, apenas algumas centenas destes dispositivos foram encontrados e a maioria destes ainda continuam desaparecidos.

Em algum ponto da Segunda Guerra Mundial, engenheiros japoneses encontraram uma corrente de ar que varria parte da costa do Japão em direção ao Oceano Pacífico — e então colocaram em prática a estratégia de enviar balões carregados com explosivos e bombas à costa americana.

O projeto — chamado Fugo — “criado para enviar balões carregando explosivos ou bombas desde o Japão para atear fogo às vastas florestas americanas. Esperava-se que o fogo criaria um rastro de destruição que minaria a moral dos civis no esforço de guerra americano,” descreve James M. Powles em um jornal sobre a Segunda Guerra Mundial no ano 2003. Os balões, ou “envelopes”, foram desenvolvidos pelo exército japonês e fabricados com papel leve feito à partir de cascas de árvores. Conectados à eles estavam bombas compostas por sensores, tubos de pólvora, espoletas e outros mecanismos de detonação que iam dos mais simples aos mais complexos.

Águas vivas no céu

“Os envelopes eram realmente impressionantes, feitos de centenas de pedaços de papel unidos com um tipo de cola extraída de tubérculos,”diz Marilee Schmit Nason do Anderson-Abruzzo Albuquerque International Balloon Museum no estado do Novo Mexico. “O sistema e controle era uma obra de arte.”

“Auschwitz” na Ásia – O Japão Imperial e sua macabra Unidade 731

Assim como a descrição feita por J. David Rodgers da Universidade de Ciência e Tecnologia do Missouri, os balões bomba “tinham 10 metros de diâmetro e podiam suspender 450 kg, mas a porção mortal de sua carga eram compostas por 15 kg de explosivo de fragmentação anti-pessoal, preso a uma espoleta de 17 metros que queimava por 82 minutos antes de iniciar a detonação.”

Uma vez no alto, alguns dispositivos incendiários criados pelos japoneses — contrabalançados por sacos de areia dispensáveis — flutuavam do Japão até a costa americana e Canadá. A viagem levava vários dias.

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“A distribuição dos balões era bem ampla,” diz Nason. Eles surgiam desde o norte do México até o Alasca, e do Havaí ao Michigan. “Quando lançados — em grupos — diziam que se pareciam com águas vivas flutuando no céu.

Michihiko Hachiya, e a bomba atômica de Hiroshima, 6 de agosto de 1945

Munições misteriosas

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Avistamentos de bombas flutuantes começaram a serem relatadas no oeste dos EUA no final de 1944. Em dezembro, trabalhadores de uma mina de carvão em Thermopolis, no estado de Wyoming, viram “um paraquedas no ar com luzes brilhantes, após ouvir um assobio estranho, ouviram uma explosão seguida de fumaça em um campo próximo a mina por volta de 18:15,” escreveu Powles.

Outra bomba foi vista poucos dias depois próximo à Kalispell, Montana. De acordo com Powles, “uma investigação feita por xerifes locais determinou que o objeto não era um paraquedas, mas um grande balão de papel com cordas conectadas e uma válvula de gás descartável, uma grande espoleta conectada à uma bomba incendiária e uma grande corda de borracha. O balão e seus pedaços foram levados à Butte, Montana, onde o FBI, Exército e Marinha examinaram tudo cuidadosamente. As autoridades determinaram que o balão possuía origem japonesa, mas como chegou até o estado de Montana e de onde havia saído ainda era um mistério.”

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Cientistas e engenheiros, mais tarde, conseguiram desvendar o quebra-cabeças. No fim das contas, os japoneses haviam lançado mais de 6.000 destas armas secretas. Centenas foram avistadas no ar ou encontradas no solo dentro dos EUA. Para evitar que os japoneses rastreassem os efeitos causados pelos balões, o governo americano pediu para que os noticiários e as empresas não publicassem ou disseminassem o caos com notícias sobre estes dispositivos. Com isso, é muito provavel que nunca se saiba a amplitude do alcance destes balões.

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Balões sendo alvejados por baterias anti-aéreas na costa dos Estados Unidos

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Há registros de um incidente trágico: Durante a primavera de 1945, escreve Powles, uma mulher grávida e seus cinco filhos foram mortos por “uma bomba de anti-pessoal de grande poder destrutivo despejada por um balão japonês” em Gearhart Mountain próximo a Bly, estado de Oregon. Este é o único registro de um incidente envolvendo mortes por balões bomba.

Outro balão bomba se prendeu a uma torre de alta tensão no estado de Washington, cortando a eletricidade da fábrica Hanford Engineer Works, onde os EUA estavam conduzindo um projeto secreto, enriquecendo urânio que seria aplicado em bombas nucleares.

A Espada de Stalingrado

Logo após a guerra, alguns incidentes com estas bombas foram registrados. O jornal Beatrice Daily Sun publicou que estas armas voadoras desprovidas de pilotos aterrissaram em sete cidades diferentes no Nebraska, incluindo Omaha. O jornal Winnipeg Tribune registrou que um balão bomba fora sido encontrado há 15 km de Detroit e outra próxima às corredeiras Grand Rapids.

Com o passar dos anos, os dispositivos foram aparecendo aqui e ali. Em novembro de 1953, uma balão bomba foi detonado pelo pessoal do exército em Edmonton, Alberta (Canadá) de acordo com o Brooklyn Daily Eagle. Em janeiro de 1955, o jornal Albuquerque Journal registrou que Força Aérea Americana havia descoberto mais uma no Alasca.

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Imagem mostra a corrente de ar e a extensão dos registros de balões bomba no continente norte americano

Em 1984, o jornal Santa Cruz Sentinel publicou que Bert Webber, um autor e pesquisador, havia localizado 45 balões bomba no Oregon, 37 no Alasca, 28 em Washington e 25 na Califórnia. Uma bomba caiu em Medford, Oregon, disse Webber. “Fez uma grande cratera no chão.”

O Sentinela registrou que uma bumba havia sido descoberta no sudoeste do Oregon em 1978.

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A bomba encontrada recentemente na Columbia Britânica — em outubro de 201 — “ficou enterrada no solo por 70 anos,” disse Henry Proce do Departamento de Polícia Montada ao jornal Canadian Press. “Teria sido muito perigoso examiná-la.”

Afinal, como eles lidam com estas situações? “Eles colocam C-4 em ambos os lados do dispositivo,” disse Proce, “e aí o explodem em milhares de pequenos pedaços.”

 

O Mitsubishi A6M Zero era o rei dos céus no pacífico até meados de 1942/43 quando a USAAF introduziu o Grumman F6F Hellcat e o Vought F4U Corsair nos céus do pacífico criando um novo panorama de adversários à altura do Zero japonês.

Fuga desesperada!

Saburo Sakai
Saburo Sakai

Para onde quer que eu olhasse, só via caças, longos rastros de fumaça, explosões e chamas. Perdi muito tempo a olhar. Porjéteis tracejantes despejaram-se diretamente sob minha asa e, instintivamente, puxei o manche para a esquerda fazendo um rolamento para trás, a fim de atacar o avião pela traseira e disparei uma rajada. Errei. Ele mergulhou, saindo do meu alcance tão rapidamente que eu não podia acompanhá-lo. Equivoquei-me por se deixar surpreender e, com igual veemência, amaldiçoei meu olho esquerdo, que deixava quase metade da minha área de visão no escuro. O mais depressa que pude, desembaracei-me das tiras do pára-quedas, para me deixar livres os movimentos, de modo que eu pudesse compensar a perda de visão lateral.

E olhei sem rapidamente; havia pelo menos meia dúzia de Hellcats atrás de mim, tentando tomar posição de tiro. Eu podia ver o brilho de suas asas quando abriram fogo. Fiz outro rolamento para a esquerda – depressa! – e os tracejantes passaram sem me atingir. Os seis caças passaram perto das minhas asas e subiram para a direita. Desta vez, não! Comprimi o afogador e fiz um rolamento para trás e para a direita, indo atrás dos seis caças à velocidade que o Zero me podia dar. Olhei à retaguarda – não havia nenhum caça a perseguir-me. Um deles seria meu, e lá fui! Aproximei-me rapidamente do avião que estava mais próximo. A uns 50 metros de distância, abri fogo de canhão contra ele, observando que, depois de os projéteis penetrarem a fuselagem do avião inimigo, surgiam clarões e fumaça dentro da cabine; no instante seguinte, o Hellcat guinou loucamente e inclinou-se para um lado, soltando um rolo de fumaça que a cada instante aumentava.

Grumman F6F Hellcat
Grumman F6F Hellcat
Grumman F6F Hellcat
Grumman F6F Hellcat

Porém, havia mais caças atrás de mim! De repente, já não tinha mais forças para lutar contra eles. O cansaço me envolveu inteiramente. Nos velhos tempos, em Lae, ainda teria saído com o Zero atrás deles. Mas agora, parecia que meu vigor se esgotara, eu não queria lutar. Mergulhei e fugi. Naquelas condições, combater os Hellcats seria suicídio. Um pequeno erro, o menor atraso no movimento do manche ou da barra do leme…e seria o fim. Queria mais tempo para recuperar o fôlego, e livrar-me da tontura repentina, resultante, sem dúvida, da tentativa de ver com apenas um olho tanto quanto com dois (Sakai havia perdido a visão do olho direito e ferido todo o lado esquerdo de seu corpo ao ser atingido por uma metralhadora de cauda durante um combate aéreo contra americanos em 1942, quando seu avião foi alvejado arremessando estilhaços de vidro do canopy sobre seu rosto); eu sabia que não podia lutar. Fugi para o norte, usando o overboost para escapar. Os Hellcats me deixaram e foram em busca de novas presas.

No óculos, o resultado do ataque que o deixou cego do olho direito
No óculos, o resultado do ataque que o deixou cego do olho direito

Sobrevoei lentamente o norte de Iwo Jima, respirando profundamente e tentando relaxar. Passada a tontura, voltei para a área de batalha. A luta terminara. Ainda havia Zeros e Hellcats no céu, mas muito afastados uns dos outros, tentando reunir-se aos respectivos grupos. À frente e à direita, avistei 15 Zeros voando em formação e aproximei-me para reunir-me a eles. Entrei sob a formação e…

Hellcats de novo! Agora eu compreendia a razão porque o cirurgião protestara com tanto afinco contra meu retorno ao combate. Com apenas um olho, minha visão estava muito deficiente. Escapavam-me, à distância, os detalhes que orientam a identificação. Somente quando as estrelas brancas nas asas azuis se tornaram nítidas é que percebi meu erro. Não perdi tempo em combater o medo que tomou conta de mim. Fiz um rolamento para a esquerda e, depois, uma curva fechada, mergulhando para ganhar velocidade, esperando que os pilotos inimigos não me tivessem visto. Não tive essa sorte, a formação de Hellcats se desfez e partiram em minha perseguição. Que podia eu fazer? Parecia que não teria chance alguma de escapar.

Saburo Sakai, provavelmente durante a Guerra Sino-Japonesa
Saburo Sakai, provavelmente durante a Guerra Sino-Japonesa

Agora eu percebia a velocidade desses novos caças. Em segundos, tão velozes eram, estavam já próximos. Era inútil continuar fugindo… Retornei, numa curva fechada. A manobra espantou os pilotos inimigos ao me verem subir, em sua direção numa espiral. Fiquei surpreso: eles não se separaram. O caça da frente respondeu com idêntica espiral, acompanhando com perfeição minha manobra. Tornei a entrar em espiral, desta vez aproximando-me mais. Os caças adversários recusaram-se a ceder um palmo sequer. Isto era novidade. Um Airacobra ou um P40 teriam se perdido na tentativa de acompanhar-me assim. Nem mesmo um Wildcat poderia manter-se em espiral, durante tanto tempo, contra o Zero. Mas estes novos Hellcats eram os aviões mais manobráveis que já havia encontrado. Saí da espiral e caí numa armadilha. Os 15 caças saíram de suas espirais e formaram uma longa coluna e, no momento seguinte, encontrei-me a circular dentro de um gigantesco anel formado por 15 aviões inimigos. Por todos os lados, só asas largas com suas estrelas brancas. Se algum dia um piloto se viu cercado, no ar, por todos os lados, fui eu.

Mas não deram muito tempo para pensar na minha desgraça. Quatro Hellcats deixaram o círculo e mergulharam contra mim. Eles estavam com sede de combate. Saí facilmente do caminho com um rolamento e eles passaram por mim, descontrolados. Mas o que eu julgara ser apenas um simples rolamento, me colocara contra vários outros caças. Um segundo quarteto de aviões saiu do anel, bem atrás de mim.

Avião que Sakai pilotava, o famoso Mitsubishi A6M Zero.
Avião que Sakai pilotava, o famoso Mitsubishi A6M Zero.

Fugi. Obriguei o motor a dar-me toda a potência possível e pus-me fora do alcance das armas do inimigo, por instantes. Os quatro aviões que me perseguiam, não me preocupavam; era o primeiro quarteto. Eu estava certo. Eles saíram do mergulho e logo se colocaram acima de mim, mergulhando para outros disparos. Meti o pé direito na barra do leme, desviando o Zero para a esquerda, fazendo um rolamento fechado. Luzes cintilantes apareceram debaixo da minha asa direita e um Hellcat caiu.

Saí do rolamento numa curva fechada. O segundo Hellcat estava a uns 700 metros atrás de mim, com suas asas já pontilhadas de chamas amarelas das suas metralhadoras. Certifiquei-me, então, de uma coisa que me poderia favorecer: os pilotos inimigos eram tão inexperientes quanto os meus aviadores… e isso talvez me salvasse a vida.

O segundo caça continuava a aproximar-se enchendo o céu de balas traçantes, mas sem me atingir. Não pare! – berrei. Vamos, gaste toda a munição; você será uma preocupação a menos. Tornei a fazer uma curva e fugi, com o Hellcat aproximando-se rapidamente. Quando ele estava a uns 300 metros atrás de mim, fiz um rolamento para a esquerda e o Hellcat passou por baixo ainda disparando no vazio. Perdi a paciência: porque fugir de um piloto tão canhestro? Sem pensar, fiz o rolamento para trás e fiquei na sua cauda. À distância de 50 metros, disparei o canhão. Em vão. Eu não corrigira a glissagem causada pela curva abrupta que fiz. E, de repente, não me importava mais com o que acontecesse com o caça à minha frente… outro vinha atrás de mim, disparando sem cessar. Outro rolamento para a esquerda – manobra que não falhava nunca. O Hellcat passou barulhentamente, seguido dos dois outros aparelhos do quarteto.

Saburo Sakai Zero Combate F6F Hellcat

Mais quatro aviões estavam quase acima de mim, prontos para mergulhar. Às vezes, a gente tem de atacar para se defender. Entrei numa subida vertical diretamente sob os quatro caças. Os pilotos inclinavam as asas de um lado para outro tentando encontrar-me. Não tinha tempo de dispersá-los. Três Hellcats vieram contra mim, da direita e, por pouco escapei os seus traçantes ao fugir com o mesmo rolamento para a esquerda.

Os caças haviam reconstituído o seu grande anel. Qualquer movimento que eu fizesse para escapar, atrairia vários Hellcats de diferentes direções. Fiquei a circular no meio do anel, à procura de uma saída. Eles não pretendiam deixar-me escapar, um após outro, os caças abandonaram o círculo e vieram contra mim, disparando no curso da aproximação. Não me lembro de quantas vezes os caças me atacaram, nem quantos rolamentos fiz. Eu estava encharcado de suor, que me corria pelo rosto e praguejava quando o líquido salgado me caía no olho esquerdo… Não tinha mãos para esfregá-lo, para remover o sal, para tentar ver.

Saburo Sakai demonstra sua manobra
Saburo Sakai demonstra sua manobra

Eu estava cada vez mais cansado. Não sabia como escapar ao cerco. Mas era evidente que estes pilotos não eram tão bons quanto os aviões que tinham nas mãos. Uma voz parecia sussurrar me meu ouvido, repetindo sempre as mesmas palavras… velocidade… mantenha a velocidade… aqueça o motos, queime-o, mantenha a velocidade!… continue fazendo rolamentos… não pare de fazer rolamentos. Meu braço começava a ficar dormente com os rolamentos, a fim de escapar aos traçantes dos Hellcats. Se eu diminuísse a velocidade por um instante sequer, ao guinar para a esquerda, seria o fim. Mas durante quanto tempo poderia manter a velocidade necessária, nos rolamentos, para escapar?

Tenho de continuar fazendo rolamentos! Enquanto os Hellcats mantivessem intacto o anel que formaram, somente um caça de cada vez poderia atacar-me e eu não temia escapar a qualquer avião que, sozinho, viesse ao meu encontro. Os projéteis traçantes passavam perto, mas tinham de atingir-me com precisão para me derrubar. Não importava que passassem a 100 metros ou a 10 centímetros de distância. O que importava é que não me atingissem.

Fiz o rolamento. Manche todo para a direita.
Aí vem outro!
Rolamento rápido. O mar e o horizonte rodando como loucos.
Glisse! Outro! Puxa, esse passou perto!
Traçantes brilhantes, cintilantes, faiscantes.
Sempre sob a asa.
Mantenha a velocidade!
Rolamento para a esquerda.
Rolamento.
Meu braço! Mal posso senti-lo, está todo dormente!

Se qualquer dos pilotos dos Hellcats tivesse escolhido uma aproximação diferente para fazer a passagem de tiro ou se concentrado na pontaria, é certo que teria me derrubado. Mas, em momento algum, os pilotos inimigos apontaram para onde meu avião estava indo. Se um dos caças tivesse despejado as seus traçantes no espaço vazio, à minha frente, para o lado em que eu fazia sempre os rolamentos, isto é, para a esquerda, teria acertado todas. Mas os aviadores têm um peculiaridade. Adotam estranha psicologia. Excetuando aqueles raros que se sobressaem e se transformam em grandes ases, 99% dos pilotos apegam-se à formula que aprenderam na escola. Treine-os para seguir certo padrão e, aconteça o que acontecer, eles jamais pensarão em sair dele, quando numa batalha de vida ou morte.

Sakai comenta seu ataque a um B-17 durante a Campanha das Filipinas em 1942/43
Sakai comenta seu ataque a um B-17 durante a Campanha das Filipinas em 1942/43

Assim, aquela contenda se resumia num teste de resistência entre a reserva de combustível dos Hellcats e a força de meu braço, para permitir os golpes de fuga no momento certo. Se esgotasse o combustível dos Hellcats, eles teriam de retornar aos seus porta-aviões.

Olhei o indicador de velocidade do ar. Quase 560 Km/h, o melhor que um Zero podia dar.

Precisa de resistência não só para o braço. O caça também tinha seus limites. Eu temia pelas asas, pois elas estavam se dobrando muito sob a violência das repetidas manobras que vinha aplicando para escapar. Havia o risco de fadiga do material que, se se verificasse, poderia fazer com que se soltassem as asas do Zero, mas eu tinha de continuar voando, de forçar o avião nos rolamentos evasivos ou aceitar a morte.

O altímetro estava no zero e o oceano, logo abaixo do meu avião. Mantenha as asas levantadas, Sakai, ou elas acabarão por bater numa onda. Onde começara a luta? A 4.200m de altitude. Mais de 4 Km de glissagens e rolamentos para escapar aos traçantes, descendo cada vez mais. Agora, não tinha mais altitude alguma. Mas os Hellcats não podiam mais fazer suas corridas de tiro como antes. Não podiam mergulhar, pois não lhes sobraria espaço para sair do mergulho. Eles tentariam outra coisa, o que me dava alguns momentos. Segurei o manche com a mão esquerda, sacudi a direita com força. Doeu.
Tudo doía, e a dormência era cada vez maior.

Lá vêm eles, saindo do anel. Estão cautelosos, agora, receosos do que eu possa fazer de repente. Será difícil sair do caminho? Glisse para a esquerda, cuidado… os traçantes. Elas fazem levantar borrifos de água e espuma. Aí vem outro. Quantas vezes me atacaram? Perdi a conta. Quando é que desistirão? O combustível deles DEVE estar acabando!

Mas eu não podia mais rolar direito. Meus braços começavam a ceder à fadiga. Não tinha mais tato. Em vez de um movimento de rolamento rápido e fechado, o Zero fez um curva oval, malfeita, que aumentava a cada manobra. Os Hellcats perceberam o que se passava e forçaram os ataques, agora mais arrojados. Suas passagens eram tão rápidas, que eu mal podia respirar. Não conseguiria manter esse ritmo por mais tempo. Tenho que escapar! Saí de outro rolamento para a esquerda, empurrei a barra do leme à esquerda e puxei o manche todo para a esquerda. O Zero respondeu com firmeza e eu atirei contra um caça, para abrir caminho, e subi. Os Hellcats ficaram por instantes confusos e saíram, a seguir, em minha perseguição. Procurei escapar, mergulhando e voltei à superfície do mar.

Metade dos aviões formaram uma barreira acima de mim, enquanto os outros, a vomitar balas, vinham à minha retaguarda. Os Hellcats eram velozes demais. Em poucos segundos, eu estava ao alcance de suas balas. Continuei rápido para a direita, sem parar, forçando o Zero, que sacudia a cada manobra. À esquerda, esguichos de água pontilhavam o mar, marcando os pontos em que batiam os traçantes, que por pouco não me acertavam.

Saburo Sakai e Hiroyoshi Nishizawa, dois dos maiores ases japoneses. Saburo terminou a guerra com 64 vitórias enquanto Nishizawa terminou com 36
Saburo Sakai e Hiroyoshi Nishizawa, dois dos maiores ases japoneses. Saburo terminou a guerra com 64 vitórias enquanto Nishizawa com 36

Eles recusavam-se a desistir. Os caças que estavam acima de mim saíram em minha perseguição tentando antecipar-se aos meus movimentos, nos mergulhos que faziam, enquanto que, os que deslizavam atrás de mim não paravam de disparar. Mal podendo mover pernas e braços, parecia-me difícil escapar. Eu continuava voando baixo e seria apenas questão de minutos, quando eu seria lento em acionar o manche. Por que esperar pelo abraço da morte, correndo como um covarde? Puxei o manche todo para trás, as mãos quase tocando o estômago. O Zero subiu ruidosamente e, a apenas 100m à minha frente, estava o Hellcat com o piloto, à minha procura. Os caças que vinham atrás de mim já se preparavam para atacar de novo. Não importava o número deles. Só queria aquele caça. O Hellcat tremeu loucamente para fugir. Agora! Apertei o gatilho, numa rajada de traçantes. Meus braços estavam dormentes demais. O Zero vibrou todo e o Hellcat rolou abruptamente e subiu, em fuga.

O loop ajudara. Os outros caças sobrevoavam o local, confusos. Tornei a subir para fugir. Os Hellcats estavam atrás de mim. Os idiotas estavam disparando de uma distância de 500m. Desperdicem a munição, vamos, desperdicem-na, gritei. Mas eles eram tão velozes! Os traçantes passaram perto das minhas asas e eu rolei desesperadamente.

Iwo Jima apareceu de repente lá embaixo. Sacudi as asas, esperando que os artilheiros em terra vissem as marcas vermelhas. Foi um erro, a manobra reduziu-me a velocidade e os Hellcats estavam novamente em cima de mim. Onde estava o fogo antiaéreo? O que estava acontecendo com os homens na ilha? Atirem, idiotas, vamos!

Iwo irrompeu em chamas. Clarões cortavam a ilha. Eles estavam disparando todos os canhões, vomitando traçantes para o alto. As explosões sacudiram o Zero. Rolos de fumaça apareceram no ar, no meio dos Hellcats. Eles fizeram uma curva fechada e mergulharam para sair do alcance das armas.

Eu continuava à toda. Apavorado, não parava de olhar para trás, temeroso de que eles voltassem, de que, a qualquer momento, seus traçantes me varassem a carlinga e me jogassem no chão. Passei por Iwo Jima, empurrei o afogador, forçando ao avião a voar mais depressa, encaminhando-me rapidamente para uma gigantesca nuvem cúmulos, bem no alto. Não me importavam as correntes de ar, só queria escapar daqueles caças e mergulhei nela a grande velocidade.

Um punho tremendo pareceu agarrar o Zero e sacudi-lo em todas as direções. Não havia nada a não ser clarões vívidos dos relâmpagos. Depois, trevas. Perdera o controle. O Zero mergulhou e empinou-se. Ele estava de cabeça para baixo, caindo; rolou depois sobre as asas e começou a subir de ré. Consegui sair. A tempestade que varria o interior da nuvem cuspiu o Zero com uma sacudidela violenta. Eu estava de cabeça para baixo e recuperei o controle a menos de 500 metros. Bem aos sul, vislumbrei os 15 Hellcats voltando para seu porta-aviões. Era inacreditável que tudo tivesse terminado e que eu ainda estivesse vivo. Desejava desesperadamente aterrissar; sentir terra firme sob os pés…

Sakai nos deixou em 22 de setembro de 2000, com 84 anos.
Sakai nos deixou em 22 de setembro de 2000, com 84 anos.

Fonte: A vida no front

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O USS Bush recebeu este nome em homenagem ao primeiro mariner americano morto em combate, o Tenente William Sharp Bush, em agosto de 1812.

USS Bush
USS Bush

Este destróier, da classe Fletcher, recebeu a incumbência de servir como alerta antecipado dentro do anel de navios que protegiam a frota americana de desembarque na área de Okinawa. Os japoneses lançaram mais de 600 aeronaves de todos os tipos contra a frota americana sendo que 230 destes eram kamikazes.

Navios de diversos tipos foram dispostos em linha avançada para dar suporte à invasão; as patrulhas aéreas de combate não participavam pois tinham que dar suporte ao desembarque, estávamos abandonados à própria sorte.

Entre 03 e 05 de abril de 1945 foi um período crítico na qual fomos atacados diversas vezes por aviões suicidas japoneses. Conseguimos abater vários deles sem sofrer grandes danos, mas a nossa sorte iria chegar ao fim.

Nas primeiras horas de 06 de abril sofremos novos ataques kamikazes. No período de 02:45 a 03:45hs, o USS Bush colocou 4 diferentes alvos (aviões) sob fogo, um dos quais foi provavelmente abatido pela nossa antiaérea. Este avião, que voava a 1.800m quando começou a ser alvejado, continuou aparentemente em vôo nivelado por um tempo curto até que mergulhou e passou sobre o navio. Durante o seu mergulho ele emitia um som agudo, como se estivesse fora de controle.

O radar captou novamente o alvo à medida que se afastava e perdeu o sinal quando este estava a uma distancia de 8km. Pouco depois, cerca de 04:00hs, foi avistada uma luz sobre a água, mas o contato foi perdido. Estávamos impossibilitados de investigar devido a presença de outro avião inimigo na vizinhança. Por volta das 08:00hs o radar SG captou um alvo a cerca de 27km ao norte e que parecia ser um submarino na superfície ou um alvo na superfície em grande velocidade. Nosso navio virou para o norte em grande velocidade a fim de conduzir uma busca, assumindo que o alvo era um submarino que submergiu. O resultado foi negativo e, após uma revisão dos dados, concluiu-se que a ocorrência fora um fenômeno do tempo.

Pouco depois do meio-dia o radar captou o sinal de vários aviões inimigos a cerca de 55km, vindo do norte e aproximando-se rapidamente. Todos assumiram seus postos de combate imediatamente. Cinco minutos depois o radar captou uma segunda leva e dez minutos depois mais dois grupos adicionais, todos inicialmente à mesma distância. 4222429_f248

Os alvos foram designados como Alvos 1, 2, 3 e 4 pelo Comando da Força-Tarefa 51. Ao USS Bush foi designado a interceptação do Alvo 1, enquanto 4 outros aviões foram passados para o destróier Cassin Young.

Conseguimos abater dois Vals japoneses às 14:55hs. O Alvo 2 foi alcançado pelo fogo antiaéreo às 15:00hs, quando tomavam o rumo oeste. Outros aviões que estavam sendo controlados pelos navios piquetes a leste vinham desta direção; ao mesmo tempo aviões amigos e inimigos estavam nas proximidades, houve alguns engajamentos de combate aéreo.

A bateria de 5 pol. tinha acabado de atirar contra o Alvo 3 e o barco virou a esquerda rumo à oeste. Por volta das 15:13hs um avião inimigo solitário foi assinalado voando muito baixo em um ângulo morto sobre as águas e rumando em direção ao nosso navio. Visto que o navio estava virando a esquerda, o leme foi solicitado ao máximo e a velocidade aumentada para 27 nós, para assim tentar evitar o ataque que vinha a estibordo. A bateria de 5 pol. abriu fogo contra o alvo a uma distância de 6km. O avião empregava táticas de rolamento, subia e mergulhava, combinando os movimentos como se escalasse as ondas.

Evidentemente não era um piloto novato e, com bastante habilidade, foi se aproximando do navio. Sua altitude variava entre 3 e 10 metros acima da água. Nesta altura, todas as baterias começaram a atirar na cadência máxima e, a despeito do fogo pesado e da aparente acurácia dos canhões de 5 pol. e 40mm, o avião continuou se aproximando. Parecia impossível sobreviver à muralha de fogo de nossas baterias.

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A6M Zero em mergulho.

A uma distância de 1.800m, quando parecia provável um ataque suicida, o leme do navio foi todo virado para a direita. O avião, um torpedeiro do tipo “Jill” que carregava uma enorme bomba ou torpedo, mudou de curso girando para a direita no mesmo instante e as 15:15hs chocou-se, numa terrificante explosão, contra o deck superior de estibordo, entre as chaminés No.1 e 2. A bomba ou torpedo aparentemente explodiu na sala de máquinas Nº 1.

Para se ter uma idéia da força da explosão, uma parte da caldeira, pesando mais de 1 tonelada, voou no ar e atingiu a antena SC-2, destruindo toda a torre. A placa de blindagem e a placa corta-fogo da casa de máquinas saltaram com a explosão causando a inundação da área ao redor. O barco inclinou cerca de 10º para frente.

Quatro homens conseguiram escapar apesar de severamente queimados, oito homens da sala de máquinas Nº 2 também conseguiram escapar. Provavelmente todos aqueles que estavam na sala de máquinas Nº 1 foram mortos imediatamente. Os montantes dos tubos de torpedo foram arremessados para os lados. O deck, sobre a estrutura a estibordo até o anteparo dos canhões de 40mm, foi literalmente pelos ares. Todas as antenas de rádio e do radar SC-2 foram destruídas.

Devido ao sufocante vapor que escapava das caldeiras e dos canos arrebentados, apenas algumas poucas áreas da explosão estavam em chamas. Além de um rombo enorme abaixo da linha d´água. A destruição chegou às galerias, enfermaria, almoxarifado, oficina de reparos, sala de rádio e lavanderia, todos esses compartimentos foram demolidos.

A energia elétrica foi restaurada assim que o gerador Diesel passou a funcionar. Ele forneceu energia por um curto espaço de tempo até que a inundação foi se espalhando e chegou a sala dos geradores, causando o seu colapso e a completa falta de energia.

Durante o espaço de tempo em que houve energia, o controle de danos foi capaz de se reportar e transmitir a informação para outros barcos, antes que a explosão deixasse o rádio morto. Esta transmissão foi ouvida por diversos navios como se verificaria mais tarde.

As torres No. 2, 3 e 4 dos canhões de 5 pol. foram atiradas para fora dos trilhos e ficaram bloqueados. As torres dos canhões No. 43 e 44 de 40mm ficaram inutilizadas pela explosão.

A inundação dos porões da frente foi isolada e controlada, e uma bomba manual foi usada para retirar a água da sala do gerador, que pouco depois foi posto em condições de uso. Os equipamentos pesados do deck superior foram removidos para aliviar o peso. O guindaste foi atirado à água, os torpedos e as provisões sobre a superestrutura a frente da chaminé No.1, as cargas de profundidade e os destroços que podiam ser removidos a mão foram atirados para fora do navio. As munições para os canhões de 5 pol. foram retiradas dos paióis e atiradas por sobre a murada.

Nos sentimos um pouco mais seguros ao saber que uma patrulha de 4 dos nossos aviões passaram a nos dar cobertura.

Os poucos focos de chamas no navio foram rapidamente apagados com água. Os feridos foram tratados na sala de comando e na popa. Um levantamento cuidadoso dos danos indicava que o navio podia ser salvo. Decidiu-se então que aguardaríamos os barcos de resgate e que uma patrulha aérea ficaria nas imediações. Como o avião atingiu o meio do navio, acreditava-se que o máximo que poderia acontecer era ele dividir-se ao meio, com as duas partes permanecendo a superfície. Tentativas de enviar uma mensagem para o navio canhoneiro e patrulha LCS 64 não obtiveram sucesso. Ele estava ciente dos informes do ataque dos aviões antes de ter acontecido o impacto, mas não sabia sobre o drama que passávamos.

Por volta das 16:35hs o destróier USS Colhoun aproximou-se vindo da posição avançada de alerta Nº 2 para dar assistência. Todos, quase simultaneamente, notaram que nossos caças de cobertura partiram, o que nos deixou apreensivos.

Ao mesmo tempo que o Colhoum aproximava-se, cerca de 10 a 15 aviões inimigos surgiram no céu e ficaram observando a uma distância entre 10km e 15km além do nível das nuvens. O Colhoun enviou uma mensagem visual de que se aproximaria mais assim que os aviões inimigos deixassem a área. Ele começou a atirar em alguns dos alvos. O LCS 64 foi observado aproximando-se de sudeste e enviou uma mensagem visual perguntando se o Bush estava em dificuldades e se precisávamos de ajuda.

Nakajimas em formação
Nakajimas em formação

Enviamos uma resposta visual afirmativa para que se aproximasse e recolhesse os feridos e o pessoal desnecessário. A mensagem foi enviada através do LCS 64 para ser re-transmitida ao Colhoun e depois para a comando da Força-Tarefa 51 informando que o navio podia ser salvo e que necessitávamos de ajuda de dois rebocadores.

Às 16:55hs o LCS 64 fez uma aproximação para ficar ao lado mas assim que alinhamos dois aviões japoneses do tipo Vals começaram a circular sobre os barcos observando e, obviamente, preparando-se para o ataque. O LCS 64 recebeu então ordem para afastar-se para melhor proteger-se. O Colhoun começou a atirar contra um grupo de aviões vindos do leste.

Para prevenir a perda desnecessária de vidas, uma ordem foi dada a todo o pessoal do castelo de proa (aproximadamente 150 homens) para que pulassem para os lados assim que fossemos atacados por algum avião suicida. Havia um número suficiente de cordas amarradas as muradas que permitiam o retorno ao navio assim que acabassem os ataques.

Cerca de 17:00hs os dois Vals previamente mencionados mergulharam e um deles se dirigiu ao Bush vindo de estibordo. Os canhões de 40mm de estibordo começaram a atirar contra este alvo fazendo com que ele desviasse e passasse por trás. O avião ficou circulando na vizinhança do Colhoun a cerca de 8 km de distância a sudeste do Bush e então mergulhou contra o navio, atingindo-o no meio.

USS Colhoun DD-801 após ser atingido por um ataque kamikaze
USS Colhoun DD-801 após ser atingido por um ataque kamikaze

O avião japonês pareceu continuar voando após o impacto contra o Colhoun até que seus destroços caíram ao mar e notamos, com preocupação, que havia entre 15 a 20 aviões inimigos sobrevoando nossa área. Senti o coração pesar pelo Colhoun pois havíamos sofrido ataque semelhante de um kamikaze.

Às 17:15hs, um grupo formado por três aviões inimigos, provavelmente caças Zero, começaram a circular diretamente sobre o nosso navio, entrando e saindo das nuvens. Às 17:25hs um dos três caças saiu da formação e posicionou-se contra o Sol, que já estava se pondo a frente do nosso navio. Ele fez uma ligeira curva e começou a picar em um ângulo de 25-30 graus à frente, atirando na medida em que se aproximava. O canhão de 40mm de proa colocou-o sob fogo e o pessoal que estava no castelo de proa começou a descer para os lados e para o mar. O caça japonês cruzou da proa para estibordo, inclinou sua asa esquerda e as 17:30hs mergulhou em cheio sobre o navio, errando por pouco a ponte e se chocando contra o costado lateral do deck principal entre a chaminé No.1 e 2 iniciando um enorme incêndio. O impacto cortou o navio, que foi dividido em dois, provavelmente apenas o fundo e a quilha permaneciam unidos. O pessoal começou a retornar ao barco ao mesmo temo em que o serviço de reparos tentava extinguir o incêndio, usando as duas únicas mangueiras que ainda funcionavam. Não havia como passar de um lado para o outro do navio.

Cerca de 10 a 15 minutos mais tarde, um segundo avião (também um Zero) do grupo que estava circulando acima se destacou e iniciou um mergulho vindo de estibordo, oscilando durante a sua trajetória e atirando também. Os canhões de 20 e 40mm começaram a atirar contra ele e registraram alguns impactos. No último minuto ele saiu do mergulho e passou sobre o meio do navio, a cerca de 20 metros. O avião tomou alguma distância antes de ganhar altura, fazendo uma curva e se dirigindo para frente do navio. O canhão de 40mm da frente o colocou sob cerrado fogo. Ele voava baixo e, às 17:45hs, chocou-se contra a ponte, justamente sobre o deck principal e próximo ao canhão de 5 pol. da torre No.2 e do posto de comando, iniciando um enorme incêndio.

Os feridos que estavam sendo tratados na ponte foram mortos ou queimaram até a morte. O controle de incêndio direcionou suas mangueiras da frente para a área central do navio, mas foi impossível continuar pois as munições restantes de 5 pol. e 40mm começaram a explodir. Possivelmente este avião carregava uma quantidade extra de gasolina, com propósito incendiário, pois toda a área do castelo de proa foi envolvido pelas chamas.

Esta área foi abandonada e a ação concentrou-se em retirar os feridos. Neste justo momento o Colhoun foi atingido por um segundo avião suicida. Todos estes ataques foram efetuados com destreza e determinação. Os japoneses certamente estavam utilizando pilotos mais experientes em comparação com aqueles que encontramos nas Filipinas, onde também sofremos diversos ataques.

Exemplo de ataque Kamikaze ao USS Essex durante a Batalha das Filipinas em 25 de novembro de 1944.

 
A metade posterior do navio foi estabilizada e era esperado a qualquer momento que o barco se partisse em dois; ainda assim acreditávamos que ambas as partes podiam ser salvas. Esperávamos que o fogo na proa fosse se consumir por si só.

Outro avião inimigo voando na direção leste foi avistado circulando sobre os navios, observando os acontecimentos e, de repente, mergulhou sobre o Colhoun, o atingindo. Começou a escurecer e os aviões inimigos ainda eram visíveis. O LCS 64 evidentemente partira em direção sul visto que não havia sinal dele.

Às 18:30hs um balanço descomunal agitou nosso navio. Um barulho agudo de metal retorcido foi ouvido logo após o balanço. O navio começou a cavar pelo meio, a proa inclinou 15 graus em relação a popa. Quando a vibração passou o ângulo aumentou, até que atingiu 35o, foi dada então ordem para abandonar o navio. O comandante foi o último a sair.

Aparentemente a vibração e o movimento do motor de estibordo causou o afundamento da parte posterior e afetou a flutuação da parte anterior já danificada. O barco continuou a inclinar-se até que a proa e a popa formaram um ângulo reto, afundando na posição aproximada de latitude 27-16o N e longitude 127-48o oeste. O sentimento nesta hora não foi de medo mas sim de completo desamparo pela perda do nosso navio e pelas circunstâncias que o caracterizaram.

Os náufragos formaram pequenos grupos na água e embora estivesse escurecendo, isto era uma vantagem, visto que a escuridão nos protegia dos aviões japoneses que de outra forma iriam atacar e atirar nos sobreviventes.

A temperatura da água estava por volta de 20 graus celsius, mas parecia mais fria. O mar começou gradualmente a ficar pesado e continuou assim até as 22:00hs quando começou a serenar novamente. As ondas oscilavam por volta de 3 metros e a espuma branca quebrava a crista a cada passagem.

Cada grupo tinha a sua cota de problemas para superar e sobreviver. Os feridos foram assistidos na medida do possível. Muitos estavam exaustos na tentativa de manter a cabeça acima da água. Muitos engoliram água salgada e começaram a passar mal. Apesar dos esforços dos oficiais e dos homens em cada balsa para ajudar aos outros e levantar o moral, alguns homens começaram a ficar histéricos e violentos.

Apesar de muitos estarem vestindo o colete salva-vidas e parecerem em muitos casos fisicamente bem, vários deles simplesmente tiraram seus coletes e nadaram em direção a escuridão e ao seu fim. É difícil acreditar que nessa circunstância muitos homens iriam perder a vida nadando atrás de uma miragem ou o que eles imaginavam ser os barcos de resgate. Trinta e três homens se perderam desta forma.

Os sobreviventes, na água, ouviram em três diferentes ocasiões aviões que passavam pela área. O Comando da Força-Tarefa fez repetidas tentativas de entrar em contato com o LCS 64 e as 21:00hs eles conseguiram e passaram as coordenadas da área onde ocorreu o último contato. Aí iniciou-se o resgate dos náufragos, às 21:30hs.

Outros navios de patrulha: LCS 24, LCS 36, LCS 40, o rebocador USS Pakana e o patrulha PCE 855 chegaram na área um pouco mais tarde. Os sobreviventes que estavam nas balsas passaram a atirar com a pistola de sinalização para serem localizados pelos navios de socorro. Alguns homens, no afã de serem salvos, largaram prematuramente de seus grupos e nadaram em direção aos barcos de socorro, perdendo as forças no caminho e afogando-se.

Os barcos de socorro trabalhavam na completa escuridão, visto que aviões inimigos ainda circulavam pela região e a luz poderia atrai-los. Mesmo depois de resgatados, doze homens morreram após içados a bordo. O LCS 36 resgatou 42 sobreviventes e 7 mortos, o LCS 64 resgatou 89, o LCS 24 resgatou 37, o USS Pakana resgatou 40 sobreviventes e 3 mortos e o PCE 855 17 sobreviventes.

Os feridos graves foram transferidos para os navios-hospital no dia seguinte, os demais foram desembarcados em Okinawa.

De uma tripulação de 320 homens, 88 pereceram neste ataque fatal.

 

Fonte: Traduzido por Wolfgang Garlipp do livro USS Bush – DD529 a world war II Fletcher Cla

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