Tags Postes tagueados com "Itália"

Itália

Relato do correspondente Joel Silveira sobre a conquista do monte italiano realizada pela FEB, em fevereiro de 1945.

cm_montecastelo_11

Na véspera do dia 21 eu havia pedido um jipe ao Major Souza Júnior, encarregado dos correspondentes, para ir a Nápoles esperar o quarto escalão de tropas brasileiras que chegaria no dia 23. O major, então, me perguntou:

– Você prefere esperar o escalão ou uma coisa melhor?

A “coisa melhor” era a ofensiva brasileira do dia 21 sobre o Monte Castelo. Manhã cedo, no QG recuado, fomos avisados de que a nossa artilharia abrira fogo cerrado, naquela noite, contra posições defensivas inimigas nas montanhas que há três meses nos barravam o caminho. Tomamos um café apressado, enchemos os bolsos de chocolate e chicle, e soltamos nossas viaturas até o QG avançado. Os jipes necessários já esperavam os correspondentes, e cada qual subia no seu e procurou, na frente, o melhor lugar para uma observação total da luta. Creio que a sorte me protegeu, que meu jipe andou mais depressa, não sei: o certo é que tomei de assalto o PO avançado do General Cordeiro de Faria e lá me instalei por todo o dia. Eram 8h da manhã quando o general me cedeu seu lugar diante da luneta binocular e me disse:

O brasileiro que aprendeu a guerrear na guerra

– Começamos a atacar às 6 da manhã. As tropas em ofensiva constituem o 1º Regimento de Infantaria, o Sampaio. Os seus três batalhões avançam na seguinte ordem: o 1º comandado pelo Major Olívio Godim de Uzeda, segue pela esquerda; o 2º comandado pelo Major Sizeno Sarmento, vai pelo centro; e o 3º, comandado pelo Tenente Coronel Emílio Rodrigues Franklin, partirá da direita. Nossa intenção é envolver todo o morro e, em coordenação com a ofensiva americana que já conquistou Belvedere, arrancá-lo das mãos nazistas até o fim da tarde de hoje.

posto-de-observac3a7c3a3o-monte-castelo-ao-fundo
Vejo, através da luneta, os nossos pracinhas agachados lá na frente, grupos aqui e ali rastejando na direção do cume de onde atiram, com suas curtas e sinistras gargalhadas, as terríveis “lurdinhas” alemãs. Agora mesmo um deles encostou-se num pedaço de muro destruído e aponta sua Thompson para qualquer lugar lá em cima. 24_fab-na-segunda-guerra-p47-em-voo-de-combateOs morteiros nazistas rebentam nas faldas do sul, mas nossa artilharia reinicia seu canhoneio sistemático e certeiro, como fizera toda à noite. Escuto os silvos das granadas sobre nós, vejo-as explodirem lá adiante, numa coroa de fumaça que cai sobre o Castelo como uma auréola de chumbo. Uma de nossas baterias parece que perdeu a mira, e seis tiros caem muito aquém, quase num determinado setor brasileiro.
O General Cordeiro dá ordens secas e rápidas, e durante alguns minutos seus ajudantes-de-ordens procuram, através dos cinco telefones de campanha e dos dois rádios, localizar o canhão amalucado. Finalmente o Capitão Durval de Alvarenga Souto Maior, comandante da 1ª Bateria do 1º Grupo, descobre que o canhão pertence à sua unidade. Há uma ordem rápida pelo rádio, e os tiros agora estão perfeitamente ajustados no eficiente conjunto de toda a artilharia. À esquerda, sobre posições americanas além de Belvedere, cinco ou seis Thunderbolts descem em picada, rápidos como um peso despencado de cima, e metralham impiedosamente os nazistas em defensiva.

Marcas do Nazismo em fazendas do interior de São Paulo

Posição-da-artilharia-da-FEB-nas-proximidades-de-Monte-Castelo-em-1945
Quando cheguei ao Posto de Observação do General Cordeiro, duas ou três horas depois de iniciada a ofensiva, a situação era mais ou menos esta: os batalhões avançaram, com exceção do 2º, comandado pelo Major Sizeno, que partiria às 11h 35min de Gaggio Montano. Os nazistas tentavam impedir a progressão dos brasileiros com um fogo concentrado de morteiros. Eu sabia que a conquista de Castelo só seria efetuada depois que os americanos, que partiram de Belvedere, houvessem se apoderado de Toraccia, um pico que, atrás, dominava certa parte do morro sobre o qual avançavam nossos homens.

cm_montecastelo_09

O ataque americano, que começara na noite anterior, estava sendo efetuado por toda uma divisão especializada, a 10ª de Montanha, recentemente chegada a este setor. Naquele momento, 10 da manhã, os norte-americanos se encontravam em determinado ponto além de Menzacona, meio caminho entre Belvedere e Toraccia. Menzacona ficara em poder de um dos batalhões de brasileiros, com o qual os americanos haviam-se encontrado pela manhã. Então a ofensiva combinada, no lado direito, tomou o seguinte aspecto: os brasileiros deixaram alguns homens em Menzacona e seguiram em direção a Castelo, pela esquerda e comandados pelo Major Uzeda: os americanos foram à frente, em direção a Toraccia.

Monte-Castelo
Daí por diante, os acontecimentos se sucederam nesta ordem, conforme me dizem os quase indecifráveis apontamentos que fui tomando às carreiras, entre uma olhada de binóculo e uma informação dos rádios:

– Ao meio dia, o General Clark, comandante da frente italiana, o General Truscott, comandante do V Exército, o General Crittenberger e o comandante-chefe das forças aéreas do Mediterrâneo estiveram em visita ao General Mascarenhas de Moraes, no seu posto de observação precisamente três quilômetros à direita do PO do General Cordeiro.

– Às 12h 30min, o Major Uzeda, que avança pela esquerda, pede proteção de artilharia para que possa alcançar um ponto na sua frente, e o General Cordeiro ordena às baterias: “Cinco rajadas de morteiro sobre 813.”

José Dequech: À serviço da artilharia da FEB

– Às 13h 55min, um dos batalhões avisa que foram avistados reforços alemães que começam a chegar a Castelo. Ao lado direito, o Coronel Franklin está detido com o seu 3º Batalhão. O Major Uzeda previne pelo rádio que tentará envolver Castelo pela esquerda.

– Às 14h 20min, o Major Uzeda avisa que vai atacar 920, penúltimo ponto antes da crista de Castelo. Pede mais tiro ao General Cordeiro, que transmite, através de seus auxiliares (o Coronel Miranda Correia e o Capitão Souto Maior são dois deles), ordens às baterias. O Major Uzeda se encontra precisamente a cinco quilômetros do PO, tendo realizado já uma progressão de dois quilômetros. O diálogo entre Alma I, Alma II e Alma III (observadores junto aos batalhões) e Lata I, Lata II e Lata III (oficiais de ligação em plena luta) se repete de minuto a minuto.

img1337
– Às 15h, o Major Uzeda se encontra firme em 930, mas neutralizado por metralhadoras alemãs. Seu objetivo final será 977, ou seja, o cume de Castelo, onde tenciona chegar depois das 16h 30min. Fica combinado então que, às 16h 20min, quando seu batalhão iniciar a definitiva marcha sobre a crista de Castelo, toda a artilharia divisionária concentrará seus fogos sobre as faldas e o cume do monte. Estamos disparando com canhões de 105, 155 mm e morteiros.

– Às 15h 5min, escuto do General Cordeiro que, até aquele instante, calculava já ter gasto uns 8 milhões de cruzeiros de munição com os disparos da sua artilharia.

– Às 15h 30min o Major Uzeda diz pelo rádio: “Meus homens estão prontos para atacar.” Olho pelo binóculo que me emprestou o Coronel Miranda Correia e vejo, lá em cima, no 930, os soldados em formação de ataque, esparsos pelos pequenos vales e deitados na pouca neve que o sol ainda não conseguira mandar embora.

Entre 15h 30min e 15h 50min há uma relativa calma: somente os morteiros nazistas, os aviões mergulhando nas faldas de Toraccia e um teco-teco brasileiro, plácido como uma asa estendida, que navega solitário sobre o campo de luta. O PO do General Cordeiro de Faria fica localizado numa elevação de terreno – lá embaixo, é o vale que nos separa de Castelo, e aqui atrás, seiscentos metros distante, está localizado um dos grupos de nossa artilharia. Quando suas peças disparam, há um violento estremecimento de toda a casa, e xícaras e copos trepidam na mesa com um barulho cristalino. Os paisanos que aqui residiam, neste chalé amarelo, foram expulsos pela guerra e parece que não tiveram tempo de levar suas coisas. Os móveis estão intactos, há litogravuras nas paredes, um Cristo desalentado e pálido, fotografias de cavalheiros fardados e senhoras em trajes de inverno. Num dos cantos da sala onde o general colocou sua luneta, descubro um ricordo nuziale cercado por uma moldura dourada. Ali se recorda que, no dia 11 de dezembro de 1927, numa igreja de Bolonha, se consorciaram Dino Bettochi e Caterina Cionni. Uma paz distante.

Monte Castello atualmente.
Monte Castello atualmente.

– Às 16h 3min o Coronel Franklin informa pelo rádio que seus homens ocuparam Fornelo, à direita de Castelo e próximo ao seu cume. Tratava-se de um ponto forte inimigo, eriçado de metralhadoras, que foi dominado pelos nossos soldados. Fornelo foi um dos pontos em que foram barrados, em novembro e dezembro últimos, os anteriores ataques brasileiros contra a montanha tão cruel. Continua progredindo o batalhão do Coronel Franklin.

– Sem dúvida alguma, o instante mais sensacional de toda a luta do dia 21 aconteceu às 16h 20min, quando toda a artilharia divisionária concentrou seus fogos sobre Castelo. Já havia lá fora qualquer coisa da noite, e os obuses explodiam em chamas altas, que o binóculo me mostra, tão próximas e reais.

As faldas do monte estão cavadas e lá em cima o cume ficou transformado numa cratera de vulcão em erupção. O Major Uzeda avança protegido pela função dos tiros de fuligem, e nossas metralhadoras estão trabalhando ativamente. Aqui dentro, ninguém diz nada. O general colocou definitivamente os olhos na luneta, e seus dedos – vejo bem – alisam automaticamente um pedaço da mesa. O Coronel Correia diz num fiapo de voz:

– Todo mundo está andando…

– Às 17h 40min os homens do Major Uzeda alcançam Esperança, outro ponte forte nazista no setor 930.

– Às 17h 45min o General Cordeiro de Faria afasta-se das lunetas, vira-se para mim e diz: “Praticamente Castelo está conquistado.” Chegam também informações sobre a situação dos americanos: eles não conseguiram ainda tomar Toraccia, e o avanço brasileiro sobre Castelo terá que ser feito com aquela estratégica posição ainda em mãos dos nazistas.

– Às 17h 50min a voz do Coronel Franklin vem, forte pelo rádio: “Estou no cume do Castelo.” E pede fogos de artilharia sobre pontos inimigos além do monte. “Castelo é nosso”, diz-me o general. Mais três minutos, e as baterias estão canhoneando Caselina, Serra e Bela Vista. Os nazistas respondem com morteiros. Mas nada mais adiantaria, porque, como me diria no dia seguinte o Coronel Franklin, “estamos em Castelo e ninguém mais nos tira daqui.”

cm_montese_091

img767
São mais de sete da noite quando seguimos, eu e o fotógrafo Horácio, pela estrada deserta e fria a caminho do nosso jipe que ficou distante. Nossa artilharia continua incansável. O Castelo está bem a nossa frente, mas é agora uma coleção de faldas amansadas. Já não nos domina com suas casamatas, já não vigia implacável nossos caminhos e estradas, já não nos persegue com seus mil olhos nazistas. É um morro brasileiro, e amanhã estarei lá em cima, junto com os pracinhas vitoriosos, passeando pela sua arrogância domada.

O Capitão Vernom Walters canta com os 'Pracinhas' o Hino Brasileiro
O Capitão Vernom Walters canta com os ‘Pracinhas’ o Hino Brasileiro
Inaugurado ao pé do Monte Castello em 21/06/2001, o Monumento ai Caduti Brasiliani, projetado pela brasileira Mary Vieira, homenageia os soldados brasileiros mortos na Itália. Um dos arcos brancos aponta para a terra e simboliza a morte, ao passo que o outro aponta para o céu, isto é, para a transcendência que as mortes dos soldados significaram. Ademais, na concepção do monumento, a escultora Mary Vieira imaginou o movimento contínuo do sol que, ao meio-dia, projeta sobre o solo uma cruz, símbolizando o heroísmo brasileiro.
Inaugurado ao pé do Monte Castello em 21/06/2001, o Monumento ai Caduti Brasiliani, projetado pela brasileira Mary Vieira, homenageia os soldados brasileiros mortos na Itália.
Um dos arcos brancos aponta para a terra e simboliza a morte, ao passo que o outro aponta para o céu, isto é, para a transcendência que as mortes dos soldados significaram.
Ademais, na concepção do monumento, a escultora Mary Vieira imaginou o movimento contínuo do sol que, ao meio-dia, projeta sobre o solo uma cruz, símbolizando o heroísmo brasileiro.

 

______________

Fonte deste artigo: História de Pracinha – Joel Silveira – Edições de Ouro

Fonte na internet: Grandes Guerras

Restos de soldados habsburguêses encontrados em 2004
As geleiras dos Alpes Italianos estão derretendo, revelando lentamente e os horrores da Grande Guerra preservados por quase um século.
Tropas italianas em suas trincheiras, Capitão Berni é o soldado logo à frente. Foto retirada do livro 'Il Capitano Sepolto nei Ghiacci'
Tropas italianas em suas trincheiras, Capitão Berni é o soldado logo à frente. Foto retirada do livro ‘Il Capitano Sepolto nei Ghiacci’

À primeira vista, Peio é um pequeno resort para esquiadores como muitos outros no norte da Itália. No inverno ele é muito popular entre os italianos de classe média, assim como para o crescente número de turistas russos. No verão, sem a neve, há muitas trilhas no Parque Nacional Stelvio que fica na mesma região. Possui um spa, lojas que vendem dúzias de diferentes tipos de grappa. Um teleférico foi inaugurado anos atrás, e um estacionamento de com vários andares acaba de ser concluído.

Mas em Peio, lembranças do passado da região nunca ficam no limbo. Subindo pela vila e, passando por um pequeno museu da Primeira Guerra Mundial à esquerda, você chega à velha Igreja de São Rocco, construída no século XV com seu cemitério austro-húngaro e uma placa ordenando “massimo rispetto”. Aqui, em um dia de sol em setembro de 2013, 500 pessoas estiveram presentes no funeral de dois soldados que caíram em batalha no mês de maio de 1918.

Em Peio, parece que a Grande Guerra nunca acabou. Um senso bem real que ainda sobrevive, graças ao gelo que o preserva. Peio uma vez foi a vila mais alta dentro do território do Império Austro-Húngaro, e tinha uma vista bem abrangente do conflito chamado de Guerra Branca.

Funeral em Peio, 2012, dois soldados que caíram na Batalha de Presena, maio de 1918.
Funeral em Peio, 2012, dois soldados que caíram na Batalha de Presena, maio de 1918.

Em 1914, Trentino – província onde fica Peio – e os arredores do sul do Tirol era onde estavam os domínios de Habsburgo. A Itália, recém unificada e sem suas fronteiras delimitadas, ainda possuía “terras sem dono” em maio de 1915. Com objetivo de recapturá-las, o país entrou na guerra no lado dos aliados. À esta altura o conflito já estava em meio a grandes batalhas no fronte ocidental e oriental; agora com um terceiro fronte aberto. O território começava nos Alpes Julianos, onde a Itália compartilha fronteiras com a Eslovênia no leste, e ia até os pés Monte Ortler próximo à Suiça mais ao oeste – em torno de 250 km.

Como muitas partes do fronte ficavam acima dos 2000 metros, um novo tipo de combate teve de ser desenvolvido. Os italianos já tinham especialistas em montanhas – os Alpini e seus famosos chapéus adornados com penas – mas os austríacos tiveram de se igualar e criaram os Kaiserschützen. Eles receberam suporte da artilharia e engenheiros para construir os abrigos e a infraestrutura alpina, incluíndo trincheiras cavadas no gelo e sistemas de cabos rudimentares para transportar homens e munições aos picos.

Jovem soldado Alpini em seu uniforme
Jovem soldado Alpini em seu uniforme

Nas décadas que se seguiram após o armistício, o mundo começou um processo de aquecimento gradativo e as geleiras recuaram, revelando os traços mortais da Guerra Branca. O material que, no início dos anos 90, começou a surgir das montanhas ficou incrivelmente preservado. Incluíndo uma carta de amor endereçada a Maria, que nunca foi enviada, e um poema a um “amigo dos meus longos dias” escrito nas páginas do diário de um soldado austríaco.

A linha de frente entre as forças aliadas e as forças austríacas vistas de Punta Linke, 1918.
A linha de frente entre as forças aliadas e as forças austríacas vistas de Punta Linke, 1918.

Os corpos, quando surgiram, estavam sempre mumificados. Os dois soldados que morreram no glacial de Presena e foram enterrados em setembro de 2013, eram louros de olhos azuis, austríacos entre 17 e 18 anos. Eles foram enterrados por seus camaradas, apesar do frio intenso, dos pés a cabeça em uma fenda. Ambos possuíam marcas de ferimentos por disparos em seus crânios. Um deles ainda possuía uma colher em uma de suas grevas (caneleiras) – uma prática comum entre soldados que iam de trincheira em trincheira e tiravam comida das cuias comuns. Quando Franco Nicolis do Escritório Arqueológico da capital provincial, Trento, os viu, ele disse, “o que veio em mente foi as mães destes jovens. Parecem que morreram ontem pois saíram do gelo da mesma forma que entraram”. E provavelmente as mães destes soldados nunca souberam o destino de seus filhos.

Acessório de escalada utilizado pelos soldados
Acessório de escalada utilizado pelos soldados

Um dos fatos mais horríveis sobre a Guerra Branca foi de que ambos os Alpini e os Kaiserschützen, recrutaram moradores locais como guias, pois estes conheciam as montanhas como a palma da mão. O que também significava que eles conheciam uns aos outros.

A guerra obrigava as pessoas a romperem a lealdade familiar. “Existem muitas histórias de pessoas que ouviam vozes de um irmão ou primo no meio da batalha,” disse Nicoli.

Para ambos os lados o pior inimigo era o clima, que matou mais do que as batalhas. Em tais altitudes, a temperatura podia cair para -30 graus celsius, e a “morte branca” – morte por avalanche – levara milhares de vidas.

 

Restos de soldados encontrados no Glacial de Presena.
Restos de soldados encontrados no Glacial de Presena.

O povo de Peio viveu estas histórias por que ao contrário de habitantes de outras vilas na linha de frente, eles permaneceram lá, enterrados na neve. “O imperador decretou que esta vila não deveria ser evacuada,” disse Angelo Dalpez, prefeito de Peio. “Sendo a vila mais alta do império, isso era simbólico – um exemplo ao restante.” Elas forneceram carregadores e suprimentos de comida. Tratavam os feridos, enterravam os mortos, e testemunharam a mudança em sua antiga paisagem (os bombardeios de artilharia rebaixaram o pico de uma montanha, a San Matteo, em 20 metros).

Em 1919 o tratado de Saint-German-en-Laye deu a região de Trentino à Itália. “Nunca houve um conflito,” disse Nicolis. “Nenhuma revolução. Foi uma transição tranquila.” As pessoas daqui sempre se sentiram autônomas em suas regiões montanhosas próximas à fronteira, e sob um novo consenso o governo italiano os concedeu um certo grau de autonomia. Eles bebiam grappa, comiam knödel e falavam italiano (que era uma das 12 línguas do império), mas eles nunca esqueceram sua história. Muitos de seus parentes lutaram do lado de Habsburgo, e quando so soldados surgiram em meio ao gelo, eles os consideraram como sendo seus bisavós ou tataravós.

Isso ficou claro em 2004, quando Maurizio Vicenzi, um guia alpinista local e o diretor do Museu de Guerra de Peio, que teve parentes lutando do lado austríaco, topou com os restos mumificados de três soldados habsburguêses pendurados de ponta cabeça no lado externo de um muro de gelo próximo ao San matteo – à 3700 metros de altitude, local de uma das batalhas de maior altitude da história. Os três estavam desarmados e possuíam bandagens em seus bolsos, sugerindo que eles deviam ser maqueiros que morreram na última batalha pela montanha, em 3 de setembro de 1918. Quando um patologista obteve permissão para estudar um dos corpos, para tentar entender o processo de mumificação, houveram vários comentários pela cidade de que “os mortos estavam sendo profanados”.

Restos de soldados hapsburgos encontrados em 2004
Restos de soldados habsburguêses encontrados em 2004
Restos de soldados hapsburgos encontrados em 2004
Restos de soldados habsburguêses encontrados em 2004
Restos de soldados hapsburgos encontrados em 2004
Restos de soldados habsburguêses encontrados em 2004

Os três agora estão sepultados em um cemitério em San Rocco próximos aos dois do Glacial de Presena, sob cinco lápides sem marcações.

O Túnel de Punta Linke

Em 2005 Vicenzi começou a explorar um local chamado Punta Linke, quase 2000 metros acima de Peio. Ele encontrou uma gruta natural no gelo e material espalhado sobre sua superfície – capacetes de metal, fitas de couro, caixas de munição – e percebeu que havia uma estrutura logo abaixo. Com amigos vindos de Peio, todos grandes entusiastas da Grande Guerra, eles a investigaram. O grupo de Nicolis chegou ao local dois verões depois, e juntos eles escavaram a cabana de madeira – que era uma estação de um dos teleféricos que serviam para enviar suprimentos às tropas.

A cabana foi construída sobre o pico de Punta Linke, e atrás dela havia um túnel com aproximadamente 50 metros que cruzava o pico de um lado a outro. Quando o grupo encontrou o túnel, que possui a altura de um homem adulto, ele estava coberto de gelo que foi removido com o uso de grandes ventiladores. Durante a guerra, caixas de madeira trazidas pelo teleférico eram transportadas pelo túnel para serem lançadas na parte final de sua jornada – um impressionante penhasco de 1200 metros de altitude – usando cabos soltos através do glacial até a linha de frente. Ao lado da saída do túnel há uma janela que permitia ver as caixas em sua rota até a linha de frente.

O túnel cavado por soldados austríacos atrás da estação do teleférico em Punta Linke.
O túnel cavado por soldados austríacos atrás da estação do teleférico em Punta Linke.

Dentro da cabana existe um pequeno motor fabricado em Munique, destruído pelos austríacos que já estavam de saída com o fim da guerra e que agora se encontra restaurado. Dos documentos que estavam nas paredes, os arqueólogos deixaram apenas 3 deles intactos no lugar onde estavam: instruções escritas à mão para operar o motor, uma página de um jornal ilustrado, Wiener Bilder, mostrando os Vienenses em fila para comprar comida – Viena que em 1916 passava por uma temporada de pobreza devido à queda do império – e um cartão postal endereçado a um cirurgião do corpo de engenheiros, Georg Kristof, enviado por sua esposa que vivia na Boêmia. O cartão mostra uma mulher dormindo tranquilamente e está assinado, em tcheco, “sua amada esquecida”.

Em seu laboratório em Trento, Nicolis e seu colega Nicola Cappellozza mostram a carta de amor escrita para Maria, encontrada numa caixa de cartas que aguardavam postagem, em Punta Cadini (5000 metros de altitude), e datava de 1918. (Os arqueólogos não queriam revelar o conteúdo da carta até que conseguissem traçar o paradeiro da família de Maria.) “Talvez as hostilidades tenham terminado antes que estas cartas fossem enviadas,” diz Nicolis. Outras incluem fragmentos de papel impresso em cirílico. Os turistas russos que visitam Peio anualmente não devem saber disto, mas outros russos já estiveram lá antes deles – prisioneiros trazidos do fronte leste e usados como transportadores, ou colocados para trabalhar tecendo as galochas de palha para proteger os pés dos austríacos da gangrena.

Documentos presos às paredes pelos soldados no teleférico de Punta Linke.
Documentos presos às paredes pelos soldados no teleférico de Punta Linke.

Mais de 80 soldados que caíram em batalha durante a Guerra Branca ressurgiram nas últimas décadas. E certamente há mais por vir. Entre eles ainda há um corpo que continua muito a eludir os resgatantes – o de Arnaldo Berni, o capitão de 24 anos que liderou os italianos em sua conquista do Monte San Matteo em 13 de agosto de 1918. A história de Berni ilustra a tragédia de uma guerra onde, como o historiador britânico Mark Thompson explica em seu livro de 2008, A Guerra branca, “Proezas hercúleas geraram ganhos territoriais, e ninguém lá embaixo deu muita importância”.

Um rifle austríaco (provavelmente um Steyr-Mannlicher M1888) encontrando após o derretimento parcial da geleira.
Um rifle austríaco (provavelmente um Steyr-Mannlicher M1888) encontrando após o derretimento parcial da geleira.

Após sua vitória, em uma carta que provavelmente deve ter se perdido, Berni reclamava da cobertura da mídia. “Há uma breve e confusa descrição sobre nossa batalha, que de fato foi brilhante e implicou em pouquíssimas baixas entre nossos soldados… Os jornalistas não vem até aqui, a estas grandes altitudes para vislumbrar as grandes façanhas conquistadas por nossos bravos soldados.” Berni morreu três semanas depois, quando os austríacos – à caminho de capturar o Monte San Matteo – desferiram uma salva de artilharia sobre a fenda onde ele se abrigava. Dois meses depois, os italianos enfrentaram uma grande ofensiva austro-húngara sobre Vittorio Veneto, na planície veneziana, e a guerra acabara logo após este ocorrido.

Devem ter havido muitas tentativas para encontrar o corpo de Berni ao passar dos anos. Primeiro por seus próprios homens, depois por sua devota irmã, Margherita, que após muito tempo do fim da guerra fazia peregrinações anuais para as montanhas, e finalmente por Vicenzi, Cappellozza e outros que em 2009 desceram na fenda onde o herói certamente encarou a morte. Eles não encontraram pistas dele, mas Cappellozza nunca esqueceu a experiência. “Por longos períodos de caminhada, nós conseguíamos andar somente para os lados. Lembro-me das cores do gelo – os azuis, os violetas.”

Dentro do Museu de Guerra de Peio
Dentro do Museu de Guerra de Peio

No verão de 2013, logo após o degelo da neve, o grupo de Nicoli fez os últimos ajustes na restauração da estação de Punta Linke. Nos próximos verões, trilheiros intrépidos poderão visitar este singelo monumento e, como ele diz, “sentir o cheiro da guerra.” As vezes, Nicolis tenta olhar para Punta Linke através da janela para enxergar a montanha da mesma forma que os soldados o faziam. Soldados como Kristof, que veio dos cantos longínquos do império, deve ter se mistificado no esforço deste inóspito ambiente selvagem.

Em ambos os lados seja o italiano e ou o austro-húngaro, ele acredita que as montanhas significavam para eles a morte certa, antes de fazer qualquer relação com a beleza alpina. “A neve é um aviso de morte,” diz Giuseppe Ungaretti, o poeta de guerra italiano, num poema que escreveu em 1917. Mas o prefeito de Peio tem uma visão diferente das coisas. No funeral do par de Presena, três hinos foram tocados – o italiano, o austríaco e o Ode á Alegria de Beethoven. “Pessoas combateram aqui,” disse ele, “eram Europeus fora de seu tempo.”

Fonte: The Telegraph

Artilharia da FEB em Monte Castello
José Dequech
Sargento Auxiliar José Dequech

Na madrugada do dia 2 para o dia 3 de dezembro de 1944 o Sargento Auxiliar José Dequech estava recolhido ao seu abrigo quando começou a ouvir os sons da batalha ecoando a distância. Pouco tempo depois um oficial percorreu seu abrigo acordando todos para que ocupassem suas posições de tiro, pois “muita gente nossa estava morrendo”.[1] Dequech prontamente atendeu a ordem e ordenou aos seus homens a tomada de posição e aguardou, pacientemente, os comandos da Central de Tiro. Aquela madrugada ficaria marcada em muitos homens integrantes da Força Expedicionária Brasileira que estavam lutando na Itália naquele gelado outono de 1944.

Dequech, natural do Paraná, era Sargento Auxiliar da Companhia de Obuses do 11º Regimento de Infantaria da FEB. Havia se incorporado a tropa ainda em 1943 quando foi convocado e se juntou ao então 3º Regimento de Artilharia Montada com sede em Curitiba. Lá aprendeu a ser um homem da artilharia e com todo orgulho entendeu o seu dever. No início de junho cabos e soldados receberam a ordem de que se deslocariam até Pindamonhangaba como parte da transferência para o Rio de Janeiro a fim de integrarem a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária. Dequech lembra que, naquela manhã do dia 24 de junho, enquanto marchava pela Avenida 7 de Setembro em direção a Estação Ferroviária, em Curitiba, seu irmão o acompanhava, pela calçada. Emocionado e com problemas cardíacos acabou por sentar-se na calçada e acompanhar a passagem de seu irmão ao longe. Com um lenço branco despedia-se do seu irmão de sangue que em breve engrossaria as fileiras do exército brasileiro na Itália.

Uma companhia do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.
Uma companhia do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.

O grupo permaneceu em Pindamonhangaba até 17 de julho quando foi transferido para a Vila Militar, no Rio de Janeiro. Dali a pouco foi efetuado um chamamento de homens e uma lista divulgada: nova companhia de obuses seria montada para completar o claro do 11º Regimento de Infantaria. A companhia original havia seguindo junto com o 6º Regimento de Infantaria para a Itália, em 2 de julho de 1944, quando partiu o primeiro escalão da FEB para o teatro de operações. Dequech não fazia parte da lista, mas para acompanhar um querido amigo trocou com outro sargento que havia sido designado. José Dequech estava com a passagem garantida para a Itália.

Na Artilharia cada peça ou obus é comandada por um sargento; duas peças se juntam numa seção comandada por um tenente e quatro peças formam um conjunto sob o comando de um capitão. O obus é uma arma diferente do canhão: ele dispara em trajetórias obliquas ou parabólicas e seu objetivo primordial é bombardear uma área com salvas seguidas que acabam caindo em pontos próximos. Uma bateria de obuses pode varrer uma pequena área em média a 18 km de distância. As companhias de Obuses dos regimentos de Infantaria da FEB utilizavam o obus Howitzer M3 de 105 mm que tinham alcance máximo de 6 mil metros. Quando estivesse em solo italiano, as baterias de José estariam a cerca de 3 mil metros da linha de frente.

Artilharia da FEB na Itália, em treinamento - 1944/1945. Foto escaneada do livro "Cinqüenta Anos Depois da Volta"
Artilharia da FEB na Itália, em treinamento – 1944/1945. Foto escaneada do livro “Cinqüenta Anos Depois da Volta”

Ao ser designado para a companhia de obuses do 11º RI, Dequech teve de aprender os maneirismos do infante. Mas isso não deixou ser orgulho de artilheiro de lado: conta que ao término dos exercícios de educação física do regimento os artilheiros entoavam a canção da artilharia pelos quatro campos do campo de treinamento de Gericinó.

Em 20 de setembro de 1944 aporta no porto do Rio de Janeiro os transportes de tropas General Mann e General Meiggs a fim de levar a Itália o 2º e o 3º escalões da Força Expedicionária Brasileira. José Dequech embarcou no General Meiggs e atravessou o Atlântico em 15 dias, aportando em Napóles em 6 de outubro de 1944. Transferidos para um campo de treinamento, estes homens permaneceram a espera de material e, posteriormente, em treinamento até o final do mês de novembro, quando receberam ordem de deslocar-se. A ordem geral de substituição ocorreu em 21 de novembro.[2]

A partir de 26 de novembro o comandante do IV Corpo de Exército decidiu empregar ofensivamente todo o 1º DIE ampliando, conseqüentemente, o setor brasileiro. O Marechal Mascarenhas de Moraes também recebeu ordens de tomar o comando global de sua divisão bem como liberdade de ação total. A Força Expedicionária Brasileira ficou responsável por um setor de 15 quilômetros, além de montar nova ofensiva para a tomada de Monte Castello – Monte della Torraccia e Castelnuovo. A data estabelecida foi 29 de novembro e o ataque seria de inteira responsabilidade da 1º DIE.

Mapa simplificado com parte da Campanha da FEB na Itália.
Mapa simplificado com parte da Campanha da FEB na Itália.

A companhia de Obuses do 11º RI teria seu batismo de fogo na noite de 28 de novembro, quando deslocou-se em direção ao Monte Castelo. Seu objetivo era dar cobertura ao ataque de 29 de novembro. De acordo com Dequech “com muita dificuldade, as nossas viaturas arrastavam os obuses pelos caminhos escarpados e lamacentos que levavam as posições nas alturas de Paroncella, de onde atiraríamos sobre o castelo. No caminho, as granadas de artilharia que iam e vinham já silibavam sobre as nossas cabeças”.[3] A madrugada foi de intenso trabalho para construir a posição de tiro.

Pracinhas em marcha rumo a Monte Castello
Pracinhas em marcha rumo a Monte Castello

Para o ataque foi designado um grupamento de três batalhões brasileiros ( I/1º RI, 3º/11º RI e 3º/6º RI) com apoio de três grupos de artilharia (dois brasileiros e um Norte-Americano) sob o comando do Gen. Zenóbio da Costa. Porém, as condições climáticas não favoreceram o ataque. Chovia muito e o céu encoberto não permitiu o uso de apoio aéreo. O ataque se iniciou às 7 horas. Por volta das 12 horas as tropas bateram em retirada, assoladas por 185 pesadas baixas. Durante os dias de 29 e 30 as últimas unidades do 2º e 3º escalão da FEB chegaram ao Vale do Reno.

Na noite do dia 2 de dezembro o batalhão do Major Jacy Guimarães do 11º RI deveria tomar posição em frente ao castelo. A substituição de tropas causou o que ainda hoje é conhecido como a debandada do I Batalhão. Dequech dedicou algumas páginas de suas memórias a este acontecimento até porque esteve indiretamente envolvido. Na madrugada de 3 de dezembro o sargento é acordado por oficiais ordenando que os praças tomassem posição de tiro. Havia pedidos de artilharia vindos do I batalhão comandado pelo Major Jacy. Dequech conta que uma das companhias do I Batalhão havia sido surpreendida por uma patrulha alemã e que no restante da noite as tropas foram fustigadas por artilharia e morteiros alemães, o que causou a ordem de retraimento do batalhão dada pelo Major. O acontecimento ainda está por ser desvendado: o relatório de Jacy indica que, de fato, houve combate entre alemães e brasileiros embora soldados afirmem que não existiu combate efetivo além de uma grande confusão e pânico que se instalaram na área do I Batalhão. A inexperiência de uma tropa não acostumada ao combate aliada a inexperiência dos superiores causara grande confusão na linha de combate. Inexperiência ou não, naquela noite Dequech aguardou até o amanhecer as ordens de tiro enquanto acompanhava o desenrolar dos acontecimentos que chegavam através das noticias até sua companhia.

Dequech viu a guerra de perto: presenciou a situação de pobreza do povo italiano, repartiu sua ração com civis e recebeu muita artilharia alemã na cabeça. A companhia de Obuses do 11º RI acompanhou o regimento em toda a sua estada pela Itália. Estava presente na tomada final de Monte Castelo em 21 de fevereiro de 1945 além da batalha por Montese. Dequech retorna ao Brasil em setembro de 1945, exatamente 1 ano após deixar a terra natal em direção ao Teatro de Oper
ações da Itália.

[1] DEQUECH, José. Nós estivemos Lá. Legião Paranaense do Expedicionário: Curitiba, 1994. p. 52
[2] BRAYNER, Marechal Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1968 p. 237
[3] DEQUECH, op. cit. p. 48

Fonte: Blog Memórias do Front

por -
0 3704

Treze de agosto de 1944. O 8º Exército Britânico ocupa Florença, Itália. Mais ao noroeste da França os aliados finalmente conseguiram invadir a Normandia. Enquanto isso, em algum lugar no sul da Toscana, um soldado escreve uma mensagem em código e a esconde dentro de uma cápsula de munição. Em 2015, alguém, encontrou-a e a decifrou. Era o fim de uma história absurdamente hilária.

Muitas pessoas em toda a Europa dedicam seu tempo livre para procurar artefatos da Primeira e da Segunda Guerra em antigos campos de batalha – uma prática que não é bem vinda pelos arqueólogos e associações de veteranos. De fato, esta prática é ilegal em alguns países. Ainda assim, equipados com detectores de metal e outros equipamentos de rastreio, estes caras adentram nas florestas para encontrar qualquer coisa que julguem ter valor, de tags de identificação até capacetes e metralhadoras ou tanques e aviões, até mesmo complexos de estruturas fortificadas da era da Alemanha Nazista. Para alguns é um hobby – e algumas vezes bem lucrativo.

Mensagens secretas escondidas

Desta vez, um time de italianos fãs de detectores de metais encontraram algumas pequenas relíquias em algum lugar no sul da Toscana. Como esta insignia do 372º Regimento de Infantaria da 83ª Divisão de Infantaria, que aparentemente nunca combateu na Itália mas estava sendo carregado por um soldado com as iniciais D.M.

Insígnia

Foi um bom achado, mas nada fora do comum. Poucos dias depois eles voltaram ao mesmo local e encontraram isto:

Projétil

Uma cápsula com o projétil invertido. isso sim é interessante. Então o caçador de relíquias voltou para casa para revelar o que havia encontrado, um pedaço de papel:

Cápsula com mensagem

Mensagem secreta

Era uma mensagem secreta! Aparentemente, era uma prática comum que começou na Primeira Guerra Mundial:

[…] o exército usava cápsula para esconder mensagens codificadas (para equipamentos decriptadores, por exemplo) ou códigos decifráveis para as próprias unidades ou localizações de posições, sejam inimigas ou não, na forma de códigos.

O projétil foi removido da cápsula e a pólvora dispensada. Então eles escondiam a nota dentro da câmara vazia. Já que munição poderia ser encontrada em qualquer lugar do campo de batalha, estes objetos eram de fácil ocultação, ao se misturarem com o restante da munição No caso de captura elas eram de fácil descarte ao arremessá-las para longe.

Mas então o que esta mensagem secreta quer dizer? Um outro post de outro fórum alega ter a resposta:

Meu avô serviu na Itália, e eu herdei todo o seu equipamento. Ele guardou todos os seus livros de códigos, então eu dei uma checada. Aqui vai a tradução da mensagem:

O código QM era usado pelo oficial incumbido de coordenar as forças de um objetivo em particular. Isto é o status de uma carta contendo ordens que era endereçadas ao oficial.

Os 5 códigos querem dizer o seguinte, da esquerda para a direita e de cima para baixo:

ELES – JOGAM – GRANADAS – NÓS – PUXAMOS – OS – PINOS – E – JOGAMOS – DE VOLTA

O código final logo no rodapé diz:

NOTIFICAR REFORÇOS E AGUARDAR – DESNECESSÁRIO

Alemães confusos

Mas algo está errado, o inimigo estava arremessando granadas com os pinos de segurança ainda presos sobre os soldados aliados, e estes mesmos estavam jogando de volta com os pinos de segurança removidos? Como isto faz sentido?

Se o conteúdo da mensagem era realmente verdade, a real razão talvez seja por que algumas granadas italianas (tipo L) possuíam dois pinos de segurança para arma-las, assim como mostra esta imagem:

granada italiana

Mas por que os soldados italianos não removiam o segundo pino? A única explicação lógica é de que os soldados não eram italianos. Eram alemães.

A maioria das forças italianas já não estavam mais em combate à esta altura da guerra. Em 3 de setembro de 1943, o Rei Victor Emanuel III e o Primeiro Ministro Pietro Badoglio assinaram a rendição incondicional em Cassibile. Algumas tropas italianas permaneceram leais a Mussolini e continuaram combatendo os aliados. Os alemães confiscaram todo o aparato de guerra italiano também, incluindo as granadas.

Por volta de 13 de agosto de 1944, com Roma e Florença nas mãos dos aliados, poucos soldados italianos ainda continuavam no campo de batalha. E esta é a única explicação lógica para esta situação absurda descrita na mensagem codificada: Estas granadas provavelmente estavam nas mãos dos soldados alemães que não estavam familiarizados com o equipamento italiano, arremessando-as com o segundo pino de segurança ainda preso e as vendo serem arremessadas de volta sobre eles alguns segundos depois, prontas para fazê-los em pedaços.

Os reforços eram desnecessários, realmente.

 

RANDOM POSTS

0 659
Dietrich von Choltitz foi um militar do exército alemão durante o tempo que esteve em combate durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais....