Segunda Guerra Mundial

Um cidadão o norte da Alemanha encontrou o equivalente a €45,000 em ouro da era Nazista – mas irá embolsar apenas uma parte deste achado.

O sonho de todo caçador de tesouros se tornou realidade para Florian Bautsch no último mês de outubro quando ele encontrou 207 moedas de ouro da era da Alemanha de Hitler em Lüneburg.

Bausch estava explorando antigos locais de sepultamento na cidade que fica ao sul de Hamburgo quando topou com a primeira peça em ouro.

 

Após uma busca mais aprofundada no local, debaixo de folhagens ele encontrou mais moedas, Bautsch fez uma pesquisa local e entrou em contato com arqueólogos locais.

Durante duas semanas eles escavaram, desenterrando 207 moedas de ouro – que acumulavam um valor em torno de 45.000 euros.

Os arqueólogos também encontraram reminiscências de cera e dois carimbos com estampas em no formato da conhecida suástica, águia imperial e também um outro escrito: “Reichsbank Berlin 244”.

O achado foi exibido no Museu de Lüneburg na terça feira – e causou um considerável espanto entre os experts, de acordo com o arqueólogo de Lüneburg Edgar Ring.

Moedas de ouro nazista

Apesar do valor das moedas, Bautsch está permitido a receber apenas uma pequena quantia deste montante como sendo o responsável pelo achado – mas explicou honestamente ao dizer que o que foi mais importante para ele foi o conhecimento científico que adquiriu ao contar com o apoio dos profissionais que o ajudaram.

Um golpe de sorte

No entanto, achados similares foram feitos no passado, quase todos sem contexto arqueológico, sendo feitos por detectores de metal ilegais que frequentemente destruíam pistas cruciais sobre a origin das moedas.

O fato de que este achado foi feito por alguém tão bem informado foi um golpe de sorte, disse o arqueólogo do estado da Baixa Saxônia, Henning Hassmann.

Isso significa que o achado pode ser datado ao período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial.

 

As moedas foram originalmente colocadas em dois recipientes separados, onde permanecem apenas os carimbos atualmente.

Foram enterrados em aproximadamente um metro de profundidade, ao redor das raízes de uma árvore – mas espalhados na área onde a árvore removida mais tarde.

Dentre as moedas, 128 possuíam relevos Belgas, enquanto outras 74 da França e 12 da Itália. As últimas três possuíam relevos Austro-Húngaros.

Todas possuem o diâmetro de 21mm e pesam em torno de 6,45 gramas, num total de 1,4kg, e muitas foram cunhadas entre 1850 e 1910 – com a mais velha datando de 1831.

Análises químicas da cera encontrada mostram que as moedas foram embaladas em algum período entre 1940 e 1950.

Ring disse que este ouro certamente pertencia ao Banco Central do Reich (Reichsbank) e fazia parte de uma coleção de moedas roubadas.

De acordo com Hassmann, as moedas podem ter sido cunhadas com o objetivo de serem edições comemorativas limitadas, à serem usadas como forma de investimento aos bancos e investidores privados.

Fonte: The Local

 

 

 

 

Herói de guerra e democrata, o brigadeiro Rui Moreira Lima soube posicionar-se nos melhores e piores momentos das Forças Armadas

Rui Moreira Lima em fotografia de 1953, no Rio de Janeiro. O militar ganhou condecorações por sua participação na Segunda Guerra Mundial e foi torturado por se opor ao regime ditatorial de 1964. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)
Rui Moreira Lima em fotografia de 1953, no Rio de Janeiro. O militar ganhou condecorações por sua participação na Segunda Guerra Mundial e foi torturado por se opor ao regime ditatorial de 1964. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)

“Sê um patriota verdadeiro e não te esqueças de que a força somente deve ser empregada a serviço do Direito”. Boa parte das gerações militares contemporâneas, bem como setores políticos e acadêmicos, parecem desconhecer o real significado destas palavras atualmente.

Escritas em 1939 pelo juiz de direito Bento Moreira Lima numa carta para seu filho, o cadete Rui Moreira Lima, que aos 20 anos ingressava na Força Aérea Brasileira (FAB), elas parecem ter servido como uma declaração de princípios que nortearia a vida do futuro brigadeiro.
Poucos anos depois, Rui Moreira Lima seria um herói de guerra. Com outros jovens aviadores brasileiros, todos voluntários, integrou o grupo de aviação da FAB, o “Senta Púa”, unidade que recebeu uma das mais altas condecorações americanas em reconhecimento pela bravura de seus membros. Ao final da Segunda Guerra, sua folha de serviços computava 94 missões, pelas quais ganhou as mais altas condecorações militares do Brasil, da França e dos Estados Unidos.
Sempre que podia, declamava com sabor de poesia a carta recebida de seu pai. Em um dos trechos, ela aconselhava: “Obediência a seus superiores, lealdade aos teus companheiros, dignidade no desempenho do que te for confiado, atitudes justas e nunca arbitrárias”. Nada mais válido nos tempos da Guerra Fria pra lá de quente que se iniciaria em 1947. O debate em que esteve imerso o jovem oficial trazia não somente o desafio de edificar uma nação, mas principalmente o de construir e defender uma democracia. Patriota, democrata e nacionalista, Rui Moreira Lima teve uma discreta empatia à esquerda, e uma identificação sem militância com o PSB (Partido Socialista Brasileiro), agremiação que tinha entre seus membros militares históricos, compromissados com a democracia e a nação, como o almirante Herculino Cascardo (1900-1967) e o general Miguel Costa (1885-1959).

Ataque a comboio em 1945, em foto realizada pelo próprio Rui Moreira Lima. O militar participou de 94 missões no conflito e costumava declamar trechos de uma carta que recebeu do pai em 1939. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)
Ataque a comboio em 1945, em foto realizada pelo próprio Rui Moreira Lima. O militar participou de 94 missões no conflito e costumava declamar trechos de uma carta que recebeu do pai em 1939. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)

Nos anos 1950 e 1960, atuou na defesa da legalidade democrática e em causas nacionalistas, como a do Petróleo é Nosso. Na polarização entre grupos políticos e ideológicos dentro da própria FAB, condenou tentativas golpistas – como a de abortar a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek (1956) e as Revoltas de Jacareacanga (1956) e Aragarças (1959) – e apoiou a posse de João Goulart por ocasião da renúncia de Jânio Quadros (1961). “O soldado não conspira contra as instituições a que jurou fidelidade. Se o fizer, trai seus companheiros e pode desgraçar a nação”, escreveu o pai.

A chegada de 1964 encontrou o militar no comando da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, a mais poderosa unidade de combate da FAB no período, cuja tradição ele ajudou a forjar como piloto-de-caça nos campos de batalha italianos. Rui Moreira Lima acompanhava com preocupação os desdobramentos golpistas e lamentava a imobilidade do governo em reagir naquilo que era o princípio basilar das Forças Armadas: a hierarquia e a disciplina. Reprimiu com rigor tentativas de envolver os comandados em aventuras, chegando a prender alguns de seus jovens oficiais. Em reação à movimentação das tropas do general Mourão, em março de 1964, sobrevoou em um rasante a coluna golpista já próxima de Areal (RJ), cuja tropa foi tomada por pânico. Na volta à unidade, confabulou com seus superiores que os rebelados poderiam ser dissolvidos em um ataque de precisão, sem maiores baixas. Mas só tomaria essa iniciativa se recebesse ordens para tanto. Diante do posicionamento do presidente João Goulart em não resistir e partir para o exílio, deu-se por encerrada qualquer possibilidade de reação.
Jango assiste, em 1963, à demonstração da FAB, com a presença de Rui Moreira Lima, à sua esquerda. O militar se pôs em defesa da ordem democrática e da manutenção da legalidade nos momentos de ruptura. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)
Jango assiste, em 1963, à demonstração da FAB, com a presença de Rui Moreira Lima, à sua esquerda. O militar se pôs em defesa da ordem democrática e da manutenção da legalidade nos momentos de ruptura. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)

Ali estava encerrada sua carreira militar, bruscamente interrompida. Antes, porém, teve ainda um ato de resistência: só aceitou passar o comando da Base Aérea se fossem cumpridas todas as formalidades, postura que constrangeu seus algozes. “A honra é, para ele [o militar], um imperativo e nunca deve ser mal compreendida”. Pouco depois, Rui Moreira Lima foi preso em casa e teve de responder a três inquéritos policiais militares. Amargou um total de 153 dias no cárcere. Em uma das prisões, nos anos 1970, chegou a ser torturado. Diante do quadro de vilania que caracterizou o regime militar, qualificou de infame e covarde a figura do torturador – que, portanto, não deveria ser contemplado com a anistia. Visão compartilhada com o pai: “O soldado nunca deve ser um delator, senão quando isso importar a salvação da pátria. Espionar os companheiros, denunciá-los, visando a interesses próprios, é infâmia, e o soldado deve ser digno”.

Inegavelmente a pátria estava em perigo, e o campo de batalha passou a ser outro para o então coronel. A perseguição foi uma constante para as centenas de cassados, entre oficiais e praças das Forças Armadas e das Polícias Militares. Todos os aviadores, por portarias secretas, foram proibidos de voar. Por convicção, não aderiu à opção de resistência armada ao regime militar: decidiu combater a ditadura na ação política. Foi um dos que ergueram a bandeira pela anistia ampla, geral e irrestrita. Ao lado do brigadeiro Francisco Teixeira e de outros oficiais, Rui Moreira Lima foi um dos fundadores da Adnam (Associação Democrática e Nacionalista dos Militares). A anistia saiu em 1979, mesmo ano em que faleceu seu pai. Mas ela veio restrita em relação aos militares cassados, inclusive o brigadeiro, a despeito de sua folha de serviços.
Acima, recebe pedido de desculpas por meio do ministro da Justiça, em 2011. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)
Acima, recebe pedido de desculpas por meio do ministro da Justiça, em 2011. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)

À frente da Adnam, continuou intervindo na agenda política com o objetivo de aprofundar a democracia e a construção de um efetivo estado de direito. Buscava não só a ampliação da anistia como a reintegração, mas também a  reincorporação dos militares cassados. Em outra frente de luta, preocupava-se com a memória e a história. Escreveu Senta Púa e Diário de Guerra, e contribuiu com depoimentos em livros, teses e documentários. Por sua intervenção direta, o acervo da Adnam foi entregue para a guarda do Cedem – Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Em seus últimos anos, através de uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) patrocinada pela Adnam e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), contestou a anistia aos torturadores e apoiou com entusiasmo a formação da Comissão Nacional da Verdade, em 2012. Segundo ele, a CNV era um instrumento necessário para aproximar os militares e a sociedade civil, e não pode ser considerada expressão de revanchismo, mas sim de justiça e de um necessário resgate da história. Inclusive a sua história.

Já com mais de 90 anos, não se furtou a outras polêmicas. Em 2012, subscreveu pela Adnam o manifesto “Aos Brasileiros”, confrontando um manifesto de golpistas elaborado por militares da reserva do Clube Militar. No ano seguinte patrocinou a “Carta do Rio de Janeiro”, documento endereçado à Presidência da República com vistas a equacionar em definitivo a questão de uma anistia ampla para os militares cassados e perseguidos após o golpe.

Só depois de seu falecimento, em fins de 2013, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma ação reparatória reconhecendo seus direitos. Não viveu, portanto, para ver o epílogo de uma longa trajetória militar e política: a promoção à patente de tenente-brigadeiro, último posto da Força Aérea. A FAB o dignificara já no enterro, com toque de silêncio e voos rasantes de aviões de caça da unidade Senta Púa. A homenagem ao oficial cassado seria um passo importante para a decisão posterior do STF.
Reconhecimento ainda mais cheio de significado, particularmente para os cadetes da Academia da Força Aérea, seria se a instituição de ensino reverenciasse Rui Moreira Lima em um dos painéis de sua ampla entrada onde constam pronunciamentos de várias personalidades civis e militares. Como texto, o ensinamento da carta de Bento Moreira Lima, um conselho que retrata a vida do filho ao mesmo tempo em que serve de lição aos militares e cadetes das novas gerações: “O povo desarmado merece o respeito das Forças Armadas. Estas não devem esquecer que é este povo que deve inspirá-las nos momentos graves e decisivos”.

 

Paulo Ribeiro da Cunha é professor de Teoria Política na Universidade Estadual Paulista e autor de Militares e militância: uma relação dialeticamente conflituosa (Editora Unesp/Fapesp, 2014).
Saiba Mais
BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942 -1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995.
FERRAZ, Francisco César. Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2005.
SODRÉ, Nelson Werneck. História Militar do Brasil. Rio de Janeiro/ São Paulo: Ed. Civilização Brasileira/ Expressão Popular, 2010 [1965].

 

Documentários
Senta a Pua! (Erik de Castro, 1999)
A Cobra Fumou (Erik de Castro, 2003)
O Brasil na Batalha do Atlântico (Erik de Castro, 2012)

 

Internet
Carta de Bento Moreira Lima a Rui Moreira Lima: http://bit.ly/1I5lKCi

Adolf Hitler mencionou o bombardeiro Heinkel He 177 Greif (Grifo) pela primeira vez a seu alto comando em 1 de fevereiro de 1943.

Em diálogo com o Generaloberst (Coronel) Hans Jeschonnek, o chefe de gabinete da Luftwaffe, como parte de uma reunião sobre tanques e aviões, o Führer disse:

“Eu não preciso dizer mais de uma vez que: eu considero todo o modelo 177 um equívoco por que já foi comprovado durante a Grande Guerra que usar dois motores em um eixo é algo de extrema dificuldade, e que gerara uma série de problemas recorrentes.”

Talvez o He 177 não tenha sido o grande erro de de Hitler – existe uma lista vasta de candidatos –  mas foi um erro total do time de engenheiros de aeronaves da Ernst Heinkel e da Luftwaffe. Ele é a personificação da falha durante os tempos em que a Alemanha tentava se armar com bombardeiros de longo alcance.

O desenvolvimento era secreto e foi classificado como “plano de bombardeiro pesado”. A promessa era criar uma aeronave de performance superior à qualquer aeronave no mundo (na época), armado com duas toneladas de bombas para atingir alvos em até 2300 km dentro do território inimigo a uma velocidade de 360 kph. Ele permitiria que a Luftwaffe chegasse aos comboios aliados no Atlântico e instalações soviéticas além dos Montes Urais.

Protótipo do bombardeiro pesado Heinkel He 177 V5 em vôo, 1942/43. Foto da marinha americana.
Protótipo do bombardeiro pesado Heinkel He 177 V5 em vôo, 1942/43. Foto da marinha americana.

Ao invés de melhorar a força ofensiva da Luftwaffe, o He 177 ficou conhecido pelas falhas estruturais, problemas de motor (incluíndo frequentes problemas de aquecimento e incêndios nos motores) e no geral a falta de confiabilidade. A superfície da cauda teve de ser redesenhada e alargada. Haviam problemas constantes não apenas com os motores gêmeos mas com o complexo sistema de hélices de quatro pás de quatro metros e meio por oito polegadas de espessura.

Especificações e grandes expectativas

Desenvolvido no início de 1939, o He 177 foi desenhado mediante a uma especificação do Ministério de Aviação Alemão, que solicitava um bombardeiro pesado com capacidade para duas toneladas de bombas. Enquanto ainda estava se preparando para seu primeiro vôo, o Generaloberst Ernst Udet, talvez um dos pilotos mais famosos da Luftwaffe, decretou que todos os aviões de combate alemães deveriam ter a capacidade de efetuar bombardeios de mergulho da mesma forma que faziam os Junkers Ju 87 Stuka. Jeschonnek (seu sucessor) continuou esta política após a morte de Udet em 1941. Esta nova regra, que era impossível para um bombardeio pesado, criou a necessidade da engenharia de motores gêmeos que se tornaram o coração de todos os problemas do Grifo.

Os motores foram colocados em duas nacelas tornando-o um avião quadrimotor – ou algo parecido. O conceito foi criado em cima dos motores Daimler Benz DB 606, que somavam dois DB 601A-1/B-1 invertidos de 1350 cavalos de potência cada, instalados lado a lado com cilindros internos quase verticais, formando um W. Os motores estavam fadados ao superaquecimento e incêndios durante o vôo eram quase certos. Seis dos oito aviões originalmente criados foram perdidos, a maioria por problemas de incêndio, e muitos dos 35 primeiros (produzidos inicialmente pela Arado) também tiveram o mesmo destino.

O protótipo He 177V-1 fez seu vôo inaugural em 9 de novembro de 1939, pelo Tenente Carl Francke, chefe do Centro de Testes de Rechlin. O vôo terminou abruptamente após 12 minutos de superaquecimento nos motores. Fracke elogiou a manobrabilidade mas reclamou da vibração nos eixos propulsores, superfícies inadequadas na cauda, e a trepidação constante que afetava a posição dos profundores, algo de perigo extremo.

Manutenção nos motores problemáticos de um He 177. Foto Bundesarchive
Manutenção nos motores problemáticos de um He 177. Foto Bundesarchive

Este era o começo de uma longa série de incêndios, acidentes e quedas. Em junho de 1942, o inspetor da Luftwaffe, o Marechal de Campo Erhard Milch e o Ministro de Armamento, Albert Speer visitavam a base por um outro propósito e viram, por acaso, o novo He 177 decolar com o compartimento de bombas lotado. Após sumir do campo de visão, quando estava há 150 metros (500 pés) de altitude o Grifo guinou abruptamente e deslizou de lado em direção ao solo, matando todos que estavam à bordo. Só após este ocorrido, Milch veio a ser informado sobre outros acidentes fatais que não eram de seu conhecimento até então.

No livro The Rise and Fall of the Luftwaffe, a biografia de Milch, o autor David Irving escreve sobre o Reichsmarschall Hermann Göring reclamando da regra de Jeschonnek à respeito dos aviões com capacidade para bombardeio de mergulho. “É uma idiotice sem tamanho criar bombardeiros quadrimotores pesados com capacidade de mergulho,” disse Göring. “Se eu tivesse sido informado sobre isso à tempo, eu teria dito logo de início: que tipo de maluquice é essa?” Mas o projeto já havia sido enviado, e, como disse Göring, “agora já está aí, temos que engolir.”

Irving cita a crítica de Milch, “Para que serve o melhor avião do mundo se ele desmonta enquanto no ar?”

Mudanças nas configurações

Enquanto os motores eram constantemente redesenhados no He 177, novas versões do bombardeiro foram criadas, e que mais tarde foram também modificadas. Armeiros da linha de frente em Stalingrado, que receberam meia-dúzia de He 177A usados como transporte, instalaram canhões BK-5 anti-carro de 50mm debaixo do nariz. Uma outra tentativa para instalar canhões de 70mm criou novos problemas aerodinâmicos e foram cancelados após cinco He 177A-3/R-5 receberem as armas.

He 177A  em um mergulho raso. O He 177 foi desenhado para possuir a capacidade de efetuar bombardeios de mergulho, uma solicitação ridícula para um bombardeiro quadrimotor. Foto: Bundesarchiv
He 177A em um mergulho raso. O He 177 foi desenhado para possuir a capacidade de efetuar bombardeios de mergulho, uma solicitação ridícula para um bombardeiro quadrimotor. Foto: Bundesarchiv

Nenhuma das mudanças criaram grandes avanços mediante aos problemas do He 177, incluíndo uma grande tendência a guinadas nas decolagens. “Isqueiro voador” era o apelido dado ao Grifo pelos homens da Luftwaffe.

Até a interrupção das linhas de produção de todas as aeronaves que não fossem caças ocorrida em outubro de 1944, a Heinkel e a Arado produziram aproximadamente 1100 He 177s, incluíndo outros 826 exemplares do modelo He 177A-5, que foi amplamente melhorado se comparado a versões anteriores. A utilidade do bombardeiro nunca foi acreditada. Em uma ocasião, Göring assistiu catorze aeronaves decolarem em missões de ataque a Londres. Treze decolaram. Oito retornaram imediatamente com superaquecimento nos motores, um caiu em algum lugar e apenas quatro conseguiram completar seus objetivos, mas nenhum foi derrubado.

 

O He 177 foi o maior avião alemão operado sobre a Inglaterra durante a guerra.

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O arqueólogo de aeronaves Julian Evan-Hart escavou o local de queda de um He 177 que foi derrubado por um De Havilland Mosquito da Força Aérea Real em 1944 próximo à cidade de Saffron.

Michail Gavrilov
Michail Gavrilov

Em 30 Abril 1942 o Tenente russo Michail Gavrilov já era um piloto experiente. Havia participado de várias missões utilizando aeronaves Ilyushin IL-2 Sturmovik, e abatido várias aeronaves alemãs. Condecorado por bravura em batalhas aéreas, tinha apenas 26 anos de idade, casado e com 1 filho.

As aeronaves Ilyushin IL-2 Sturmovik e seus pilotos tiveram uma participação memorável na Segunda Guerra Mundial, sendo cruciais para conter os avanços alemães no front soviético. Durante a Segunda Guerra foram fabricados mais de 36.000 IL-2, tornando-o o modelo de avião mais produzido da história.

Ilyushin IL-2 Sturmovik, orgulho da aviação russa da Segunda Guerra
Ilyushin IL-2 Sturmovik, orgulho da aviação russa da Segunda Guerra
E aquele Abril de 1942 foi um dia comum no front soviético, novamente vencido pelos Sturmovik IL-2 e seus corajosos pilotos, que abateram 36 aviões alemães, e perderam apenas 9. Em 3 de abril de 1942 um grupo de 4 caças IL-2, no qual Gavrilov não era o líder, foi atacado por 3 aviões da Luftwaffe. Os aviões alemães derrubaram o líder e Gavrilov tomou a liderança do grupo. O combate durou 20 minutos, no qual Gavrilov com êxito confrontou e atacou estes aviões alemães com seu IL-2, ao mesmo tempo sendo observado do solo pelo coronel Ivanov e um grupo de pilotos. Estes mesmos pilotos que posteriormente enviaram uma “carta de plena admiração pela coragem e valentia do Tenente Gavrilov” ao comandante. Por aquele combate, Gavrilov foi agraciado por valentia e bravura em batalha com a medalha da “Ordem do Estandarte Vermelho”.
Porém, posteriormente em uma destas missões, o paradeiro do piloto permaneceu envolta em mistério durante décadas. O IL-2 de Gavrilov, após reportar uma situação de ataque a um acampamento inimigo na região de Demyannsk, simplesmente desapareceu. Os restos da aeronave nunca foram encontrados. Em Abril de 2010, um grupo de militar de sondagem que trabalhava na região encontrou um caça russo “enterrado” em um pântano , e após vários dias de escavação esclareceu mais um fragmento da História da Segunda Guerra Mundial:  O IL-2 de Gavrilov e seus restos mortais, extremamente bem conservados após 68 anos de espera.
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O Tenente Gavrilov ainda vestia sua Farda, Capacete e Botas de batalha, mas não estava com sua Identificação, Arma, Pára-quedas e nem Relógio, o que significa que o avião foi encontrado logo após abatido e saqueado.
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A identificação do Tenente foi feita pelo Código do avião, Número de Série do motor e pelo fato de estar ocupando a cabine do piloto da aeronave.
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O potente motor depois de limpo. Perfeito estado de conservação
O potente motor depois de limpo. Perfeito estado de conservação
Hoje supõe-se que ao atacar o acampamento inimigo, o IL-2 de Gavrilov foi atingido por uma bateria anti-aérea, obrigando-o a fazer um pouso forçado.

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A resposta se Gavrilov morreu durante o pouso ou se foi executado em solo pelos alemães será dada pelos peritos. Um triste fim para um bravo piloto
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O caso de Gavrilov não foi o único. Em 2008 o piloto Boris Lazarev foi encontrado em sua aeronave durante sondagens de uma empresa de Topografia. Os pântanos europeus possuem alta concentração de Tanino, que inibem a proliferação de bactérias. Por isto os corpos são naturalmente “mumificados”, permanecendo intactos durante centenas de anos.
Retirado do fundo do pântano 68 anos após o acidente que o vitimou.
Retirado do fundo do pântano 68 anos após o acidente que o vitimou.

 

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Quando ouvimos relatos de batalhas longas e mortíferas como a Segunda Guerra Mundial, é normal ter uma sensação ruim. No entanto, não importa o que aprendamos sobre a guerra, é difícil realmente imaginar o que as pessoas que passaram por ela enfrentaram. Esses diários nos dão uma noção breve do que é estar em meio a um grande conflito entre nações.

10. Michihiko Hachiya, Hiroshima, 6 de agosto de 1945

diario-segunda-guerra-mundial-10 Em 6 de agosto de 1945, uma bomba atômica foi detonada diretamente sobre Hiroshima, no Japão, matando imediatamente cerca de um quarto da população da cidade e expondo o restante a níveis perigosos de radiação. Um funcionário de hospital chamado Michihiko Hachiya estava deitado em sua casa no momento da explosão, a cerca de 1,5 km do centro da detonação. O calor queimou sua roupa e criou graves queimaduras no seu corpo. Seu diário, publicado em 1955, narra suas experiências naquele dia.

“Nós começamos, mas depois de 20 ou 30 passos, eu tive que parar. Minha respiração ficou curta, meu coração batia forte, e minhas pernas cederam sob mim. Uma sede avassaladora me tomou e eu implorei a Yaeko-san para me encontrar um pouco de água. Mas não havia água para ser encontrada. Depois de um tempo, minha força voltou um pouco e fomos capazes de seguir em frente. Eu ainda estava nu e, embora eu não sentisse nem um pouco de vergonha, eu estava perturbado ao perceber que a modéstia tinha me abandonado… Nosso progresso para o hospital foi interminavelmente lento, até que, finalmente, as minhas pernas, duras de sangue seco, se recusaram a me levar mais longe. A força, mesmo a vontade, de ir em frente me abandonou, então eu disse a minha esposa, que estava quase tão gravemente ferida quanto eu, para ir sozinha. Ela se opôs a isso, mas não havia escolha. Ela tinha que ir em frente e tentar encontrar alguém para voltar por mim”.

9. Zygmunt Klukowski, Szczebrzeszyn, 21 de outubro de 1942

diario-segunda-guerra-mundial-9 Em 20 de janeiro de 1942, 15 altos funcionários nazistas fizeram uma conferência para discutir a implementação de uma “Solução Final” para obliterar o povo judeu. Demorou mais nove meses para o genocídio alcançar a pacata cidade de Szczebrzeszyn, no sudeste da Polônia. Zygmunt Klukowski, o médico-chefe de um pequeno hospital local, fez anotações sobre o horror que presenciou.

“De manhã cedo até tarde da noite assistimos eventos indescritíveis. Soldados armados da SS, gendarmes e a ‘polícia azul’ correram pela cidade à procura de judeus. Judeus foram reunidos no mercado. Judeus foram retirados de suas casas, celeiros, adegas, sótãos e outros esconderijos. Tiros foram ouvidos durante todo o dia. Às vezes, granadas de mão foram jogadas nos porões. Judeus foram espancados e chutados; não fazia diferença se eram homens, mulheres ou crianças pequenas. Todos os judeus serão abatidos. Entre 400 e 500 foram mortos. Poloneses foram forçados a começar a cavar sepulturas no cemitério judaico. A partir de informações que eu recebi, cerca de 2.000 pessoas estão se escondendo. Os judeus presos foram colocados em um trem na estação ferroviária para serem transferidos para um local desconhecido. Foi um dia terrível, eu não posso descrever tudo o que aconteceu. Você não pode imaginar a barbárie dos alemães. Estou completamente acabado e não consigo me encontrar”.

8. Lena Mukhina, Leningrado, 3 de janeiro de 1942

Lena Mukhina Leningrado 3 de janeiro de 1942Dependendo da fonte, estima-se que entre 7 a 20 milhões de civis russos morreram como resultado direto da Segunda Guerra Mundial. Em Leningrado, 750.000 pessoas morreram de fome durante o estado de sítio mantido pelos alemães por mais de dois anos, de setembro de 1941 a janeiro de 1944. Lena Mukhina, de 17 anos, escreveu sobre o Cerco a Leningrado logo no seu início. Conforme o tempo se passou, os moradores foram obrigados a comer ratos, gatos, terra e cola. Houve relatos generalizados de canibalismo.

“Estamos morrendo como moscas aqui por causa da fome, mas ontem Stalin deu mais um jantar em Moscou, em honra ao [Secretário do Exterior britânico, Anthony] Eden. Isso é ultrajante. Eles enchem a barriga lá, enquanto nós nem sequer ganhamos um pedaço de pão. Eles brincam de anfitrião em todos os tipos de recepções brilhantes, enquanto nós vivemos como homens das cavernas, como toupeiras cegas”.

7. Felix Landau, Drohobych, 12 de julho de 1941

diario-segunda-guerra-mundial-7 Felix Landau era um membro da SS alemã. Durante a guerra, ele passou a maior parte do tempo servindo no Einsatzkommando, um esquadrão da morte encarregado de exterminar judeus, ciganos, intelectuais poloneses e uma série de outros grupos. Seu notável diário detalha seus crimes terríveis. Abaixo, confira um relato de suas ações na cidade de Drohobych, no oeste da Ucrânia. Vale notar que, depois da guerra, Landau conseguiu escapar da captura até 1959, quando foi levado a julgamento e condenado à prisão perpétua. Ele foi libertado por “bom comportamento” em 1971 e morreu em 1983.

“Às 6:00 da manhã de repente eu fui acordado de um sono profundo. Reportar para uma execução. Tudo bem, então eu vou brincar de carrasco e, em seguida, coveiro, porque não. Não é estranho, você ama batalha e, em seguida, tem que atirar em pessoas indefesas. Vinte e três tiveram de ser baleados, entre eles duas mulheres. Eles são inacreditáveis. Eles até mesmo se recusam a aceitar um copo de água de nós. Eu fui designado artilheiro e tive que atirar em qualquer fugitivo. Nós dirigimos um quilômetro ao longo da estrada fora da cidade e, em seguida, viramos para a direita em uma floresta. Havia apenas seis de nós naquele momento e tivemos que encontrar um local adequado para atirar [nos fugitivos] e enterrá-los. Depois de alguns minutos, encontramos um lugar. Os candidatos à morte receberam pás para cavar a sua própria sepultura. Dois deles estavam chorando. Os outros certamente têm uma coragem incrível. Que diabos se passa pelas suas mentes durante esses momentos? Eu acho que cada um deles abriga uma pequena esperança de que de alguma forma não será morto. Os candidatos à morte são organizados em três turnos, já que não há muitos túmulos. Estranhamente, estou completamente impassível*. Sem piedade, nada. Esse é o jeito que é e, em seguida, está tudo acabado. Meu coração bate um pouco mais rápido quando involuntariamente eu recordo os sentimentos e pensamentos que eu tive quando eu estava em uma situação similar”.

*No sentido de não estar sentindo nenhuma emoção.

6. Leslie Skinner, noroeste da Europa, 4 de agosto de 1944

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O diário do Capitão Leslie Skinner documenta suas experiências do conflito imediatamente após os desembarques do Dia D. Skinner não era um soldado de combate, mas sim um padre servindo como capelão do exército. Conhecido como “Padre Skinner”, seu trabalho era proporcionar conforto espiritual e realizar últimos sacramentos. A parte mais angustiante da sua função envolvia recuperar os corpos dos mortos para dar-lhes um enterro apropriado.

“A pé, localizei tanques. Apenas cinzas e metal queimado no tanque de Birkett. Procurei nas cinzas e encontrei restos de ossos pélvicos. Em outros tanques três corpos ainda dentro. Não foi possível remover os corpos, após muita dificuldade – negócio desagradável – doente”.

“Trabalho temeroso pegar pedaços e remontá-los para a identificação e colocá-los em cobertores para o enterro. Sem infantaria para ajudar. O líder do esquadrão me ofereceu alguns homens para ajudar. Recusei. Quanto menos homens que vivem e lutam em tanques tiverem a ver com este lado das coisas, melhor. Meu trabalho. Este foi mais do que normalmente doente. Realmente indutor de vômitos”.

5. David Koker, Holanda, 4 de fevereiro de 1944

diario-segunda-guerra-mundial-5 Enquanto os sobreviventes do Holocausto escreveram uma série de memórias, apenas alguns diários foram recuperados a partir dos campos de concentração. Um deles foi escrito por David Koker, um estudante holandês de ascendência judaica que foi enviado para o Camp Vught no sul da Holanda em fevereiro de 1943. Enquanto a maioria dos prisioneiros do campo de concentração não podia manter um diário, David fez amizade com o gerente do local e sua esposa, o que significa que tinha privilégios. O trecho abaixo descreve Heinrich Himmler, o chefe da SS e um dos principais arquitetos do Holocausto. Himmler visitou Vught em fevereiro de 1944, dando a Koker uma visão inédita do homem responsável por perseguir seu povo.

“Um pequeno homem frágil de aparência insignificante, com um rosto bastante bem-humorado. Boné de pala alto, bigode e óculos pequenos. Eu penso: se você quiser rastrear toda a miséria e horror para apenas uma pessoa, teria que ser ele. Em torno dele, um monte de companheiros com rostos cansados. Homens muito grandes, fortemente vestidos, eles seguem para qualquer canto que ele se vire, como um enxame de moscas, trocando de lugar entre si (eles não ficam parados por nem um momento), movendo-se como um único conjunto. Passa uma impressão fatalmente alarmante. Eles olham para todos os lados sem encontrar nada para se concentrar”.

4. George Orwell, Londres, 15 de setembro de 1940

diario-segunda-guerra-mundial-4Durante a guerra, o famoso escritor George Orwell estava entre os 8,6 milhões de habitantes de Londres. Além de sua obra literária, ele manteve um diário detalhado de suas experiências durante a guerra. O diário é recheado principalmente com discussões políticas, mas de vez em quando possui um relato de ataques aéreos, como o de setembro de 1940, quando a RAF lutava pelo controle dos céus sobre o sul da Inglaterra durante a Batalha da Grã-Bretanha. As pessoas comemoravam quando um avião alemão caia, por medo de que Hitler invadisse a Inglaterra.

“Esta manhã, pela primeira vez, vi um avião abatido. Ele caiu lentamente das nuvens, nariz à frente, como um pássaro baleado lá no alto. Um júbilo formidável entre as pessoas assistindo, pontuado momento sim, momento não com a pergunta: ‘Tem certeza que é alemão?’. Tão intrigantes são as instruções dadas, e tantos os tipos de avião, que ninguém sequer sabe quais são os aviões alemães e quais são os nossos. Meu único teste é que, se um bombardeiro é visto sobre Londres, deve ser alemão, enquanto que um caça é mais provável de ser nosso”.

3. “Ginger”, Pearl Harbor, 7 de dezembro de 1941

diario-segunda-guerra-mundial-3O bombardeio de Pearl Harbor por forças japonesas tornou dois conflitos regionais existentes na Europa e na China em uma Guerra Mundial. Voltado para a base naval norte-americana na costa sul de Oahu na ilha do Havaí, o ataque surpresa deixou 2.403 americanos mortos e foi o catalisador para os Estados Unidos entrarem na guerra. A área de Pearl Harbor não se restringia a militares, no entanto, mas também era habitada por famílias e ilhéus. O trecho de diário abaixo foi escrito por uma menina de 17 anos conhecida como “Ginger”.

“Fui acordada às oito horas da manhã por uma explosão em Pearl Harbor. Levantei-me pensando que algo emocionante provavelmente estava acontecendo por lá. Mal sabia eu! Quando cheguei à cozinha toda a família, excluindo Pop, estava olhando para o Arsenal de Marinha. Ele estava sendo consumido por fumaça preta e mais explosões espantosas… Então eu fiquei extremamente preocupada, assim como todos nós. Mamãe e eu saímos na varanda da frente para dar uma olhada melhor e três aviões passaram zumbindo sobre nossas cabeças, tão perto de nós que poderíamos lhes ter tocado. Eles tinham círculos vermelhos em suas asas. Logo entendemos! Nesse momento as bombas começaram a cair por todo o Hickam. Ficamos nas janelas, não sabendo mais o que fazer, e observamos o fogo trabalhar. Era exatamente como os cinejornais da Europa, só que pior. Vimos um monte de soldados correndo em nossa direção a partir do quartel e, em seguida, uma linha de bombas caiu atrás deles, levando todos para o chão. Fomos inundados em uma nuvem de poeira e tivemos que correr fechar todas as janelas. Enquanto isso, um grupo de soldados tinha entrado em nossa garagem para se esconder. Eles foram totalmente tomados de surpresa e muitos deles não tinham sequer uma arma ou qualquer coisa”.

2. Wilhelm Hoffman, Stalingrado, 29 de julho de 1942

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As batalhas mais importantes e sangrentas da Segunda Guerra Mundial foram travadas na Frente Oriental. Uma delas foi a de Stalingrado, onde um banho de sangue de cinco meses virou a maré em favor da União Soviética. No entanto, antes dos alemães levarem a guerra até essa cidade, eles tinham tidp vitória após vitória e estavam confiantes de que poderiam conquistar a Rússia, como bem expressou Wilhelm Hoffman, um soldado da 94ª Divisão de Infantaria do Sexto Exército alemão:

“O comandante da companhia diz que as tropas russas estão completamente quebradas, e não podem aguentar por mais tempo. Chegar a Volga e tomar Stalingrado não é tão difícil para nós. O Fuhrer sabe qual o ponto fraco dos russos. A vitória não está longe”.

Isso foi em julho. Em dezembro, os alemães é que estavam cercados. Nesse ponto, o diário de Hoffman se torna pessimista sobre as chances de vitória. O relato de 26 de dezembro de 1942 está em contraste gritante com a sua atitude durante o verão:

“Os cavalos já foram comidos. Eu comeria um gato; eles dizem que sua carne também é saborosa. Os soldados parecem cadáveres ou lunáticos, à procura de algo para colocar em suas bocas. Eles já não se cobrem dos ataques russos; não têm a força para caminhar, correr e se esconder. Maldita seja esta guerra!”.

Hoffman morreu em Stalingrado, embora não saibamos exatamente como ou quando.

1. Hayashi Ichizo, Japão, 21 de março de 1945

diario-segunda-guerra-mundial-1No imaginário popular, os pilotos kamikazes japoneses eram todos fanáticos imperialistas ansiosos para se sacrificar por seu país. Oficialmente, é dito que todos se voluntariaram, mas a realidade é que muitos foram essencialmente forçados a cumprir esse papel, como foi o caso do estudante japonês Hayashi Ichizo, chamado pelo exército em 1943 com a idade de 21 anos. Se você acha que ele era muito jovem para se candidatar à morte, saiba que nem sequer era o mais novo entre os kamikazes, título que coube a Yukio Araki, na foto acima segurando seu cachorro, que tinha apenas 17 anos. Em seu diário, Hayashi relatou como foi ser designado para servir como um piloto suicida:

“Para ser honesto, eu não posso dizer que o desejo de morrer pelo imperador é genuíno, que vem do meu coração. No entanto, é decidido por mim que eu morra para o imperador. Não vou ter medo do momento da minha morte. Mas eu estou com medo de como o medo da morte vai perturbar a minha vida… Mesmo para uma vida curta, há muitas memórias. Para alguém que teve uma vida boa, é muito difícil se separar dela. Mas cheguei a um ponto de não retorno. Eu devo mergulhar em um navio inimigo. À medida que a preparação para a decolagem se aproxima, sinto uma forte pressão sobre mim. Eu não acho que eu posso encarar a morte… Eu tentei o meu melhor para escapar em vão. Então, agora que eu não tenho escolha, eu devo ir valentemente”.

Sua missão suicida foi concluída em 12 de abril de 1945, cinco meses antes da rendição do Japão.

Fonte: Hyperscience

O Mitsubishi A6M Zero era o rei dos céus no pacífico até meados de 1942/43 quando a USAAF introduziu o Grumman F6F Hellcat e o Vought F4U Corsair nos céus do pacífico criando um novo panorama de adversários à altura do Zero japonês.

Fuga desesperada!

Saburo Sakai
Saburo Sakai

Para onde quer que eu olhasse, só via caças, longos rastros de fumaça, explosões e chamas. Perdi muito tempo a olhar. Porjéteis tracejantes despejaram-se diretamente sob minha asa e, instintivamente, puxei o manche para a esquerda fazendo um rolamento para trás, a fim de atacar o avião pela traseira e disparei uma rajada. Errei. Ele mergulhou, saindo do meu alcance tão rapidamente que eu não podia acompanhá-lo. Equivoquei-me por se deixar surpreender e, com igual veemência, amaldiçoei meu olho esquerdo, que deixava quase metade da minha área de visão no escuro. O mais depressa que pude, desembaracei-me das tiras do pára-quedas, para me deixar livres os movimentos, de modo que eu pudesse compensar a perda de visão lateral.

E olhei sem rapidamente; havia pelo menos meia dúzia de Hellcats atrás de mim, tentando tomar posição de tiro. Eu podia ver o brilho de suas asas quando abriram fogo. Fiz outro rolamento para a esquerda – depressa! – e os tracejantes passaram sem me atingir. Os seis caças passaram perto das minhas asas e subiram para a direita. Desta vez, não! Comprimi o afogador e fiz um rolamento para trás e para a direita, indo atrás dos seis caças à velocidade que o Zero me podia dar. Olhei à retaguarda – não havia nenhum caça a perseguir-me. Um deles seria meu, e lá fui! Aproximei-me rapidamente do avião que estava mais próximo. A uns 50 metros de distância, abri fogo de canhão contra ele, observando que, depois de os projéteis penetrarem a fuselagem do avião inimigo, surgiam clarões e fumaça dentro da cabine; no instante seguinte, o Hellcat guinou loucamente e inclinou-se para um lado, soltando um rolo de fumaça que a cada instante aumentava.

Grumman F6F Hellcat
Grumman F6F Hellcat
Grumman F6F Hellcat
Grumman F6F Hellcat

Porém, havia mais caças atrás de mim! De repente, já não tinha mais forças para lutar contra eles. O cansaço me envolveu inteiramente. Nos velhos tempos, em Lae, ainda teria saído com o Zero atrás deles. Mas agora, parecia que meu vigor se esgotara, eu não queria lutar. Mergulhei e fugi. Naquelas condições, combater os Hellcats seria suicídio. Um pequeno erro, o menor atraso no movimento do manche ou da barra do leme…e seria o fim. Queria mais tempo para recuperar o fôlego, e livrar-me da tontura repentina, resultante, sem dúvida, da tentativa de ver com apenas um olho tanto quanto com dois (Sakai havia perdido a visão do olho direito e ferido todo o lado esquerdo de seu corpo ao ser atingido por uma metralhadora de cauda durante um combate aéreo contra americanos em 1942, quando seu avião foi alvejado arremessando estilhaços de vidro do canopy sobre seu rosto); eu sabia que não podia lutar. Fugi para o norte, usando o overboost para escapar. Os Hellcats me deixaram e foram em busca de novas presas.

No óculos, o resultado do ataque que o deixou cego do olho direito
No óculos, o resultado do ataque que o deixou cego do olho direito

Sobrevoei lentamente o norte de Iwo Jima, respirando profundamente e tentando relaxar. Passada a tontura, voltei para a área de batalha. A luta terminara. Ainda havia Zeros e Hellcats no céu, mas muito afastados uns dos outros, tentando reunir-se aos respectivos grupos. À frente e à direita, avistei 15 Zeros voando em formação e aproximei-me para reunir-me a eles. Entrei sob a formação e…

Hellcats de novo! Agora eu compreendia a razão porque o cirurgião protestara com tanto afinco contra meu retorno ao combate. Com apenas um olho, minha visão estava muito deficiente. Escapavam-me, à distância, os detalhes que orientam a identificação. Somente quando as estrelas brancas nas asas azuis se tornaram nítidas é que percebi meu erro. Não perdi tempo em combater o medo que tomou conta de mim. Fiz um rolamento para a esquerda e, depois, uma curva fechada, mergulhando para ganhar velocidade, esperando que os pilotos inimigos não me tivessem visto. Não tive essa sorte, a formação de Hellcats se desfez e partiram em minha perseguição. Que podia eu fazer? Parecia que não teria chance alguma de escapar.

Saburo Sakai, provavelmente durante a Guerra Sino-Japonesa
Saburo Sakai, provavelmente durante a Guerra Sino-Japonesa

Agora eu percebia a velocidade desses novos caças. Em segundos, tão velozes eram, estavam já próximos. Era inútil continuar fugindo… Retornei, numa curva fechada. A manobra espantou os pilotos inimigos ao me verem subir, em sua direção numa espiral. Fiquei surpreso: eles não se separaram. O caça da frente respondeu com idêntica espiral, acompanhando com perfeição minha manobra. Tornei a entrar em espiral, desta vez aproximando-me mais. Os caças adversários recusaram-se a ceder um palmo sequer. Isto era novidade. Um Airacobra ou um P40 teriam se perdido na tentativa de acompanhar-me assim. Nem mesmo um Wildcat poderia manter-se em espiral, durante tanto tempo, contra o Zero. Mas estes novos Hellcats eram os aviões mais manobráveis que já havia encontrado. Saí da espiral e caí numa armadilha. Os 15 caças saíram de suas espirais e formaram uma longa coluna e, no momento seguinte, encontrei-me a circular dentro de um gigantesco anel formado por 15 aviões inimigos. Por todos os lados, só asas largas com suas estrelas brancas. Se algum dia um piloto se viu cercado, no ar, por todos os lados, fui eu.

Mas não deram muito tempo para pensar na minha desgraça. Quatro Hellcats deixaram o círculo e mergulharam contra mim. Eles estavam com sede de combate. Saí facilmente do caminho com um rolamento e eles passaram por mim, descontrolados. Mas o que eu julgara ser apenas um simples rolamento, me colocara contra vários outros caças. Um segundo quarteto de aviões saiu do anel, bem atrás de mim.

Avião que Sakai pilotava, o famoso Mitsubishi A6M Zero.
Avião que Sakai pilotava, o famoso Mitsubishi A6M Zero.

Fugi. Obriguei o motor a dar-me toda a potência possível e pus-me fora do alcance das armas do inimigo, por instantes. Os quatro aviões que me perseguiam, não me preocupavam; era o primeiro quarteto. Eu estava certo. Eles saíram do mergulho e logo se colocaram acima de mim, mergulhando para outros disparos. Meti o pé direito na barra do leme, desviando o Zero para a esquerda, fazendo um rolamento fechado. Luzes cintilantes apareceram debaixo da minha asa direita e um Hellcat caiu.

Saí do rolamento numa curva fechada. O segundo Hellcat estava a uns 700 metros atrás de mim, com suas asas já pontilhadas de chamas amarelas das suas metralhadoras. Certifiquei-me, então, de uma coisa que me poderia favorecer: os pilotos inimigos eram tão inexperientes quanto os meus aviadores… e isso talvez me salvasse a vida.

O segundo caça continuava a aproximar-se enchendo o céu de balas traçantes, mas sem me atingir. Não pare! – berrei. Vamos, gaste toda a munição; você será uma preocupação a menos. Tornei a fazer uma curva e fugi, com o Hellcat aproximando-se rapidamente. Quando ele estava a uns 300 metros atrás de mim, fiz um rolamento para a esquerda e o Hellcat passou por baixo ainda disparando no vazio. Perdi a paciência: porque fugir de um piloto tão canhestro? Sem pensar, fiz o rolamento para trás e fiquei na sua cauda. À distância de 50 metros, disparei o canhão. Em vão. Eu não corrigira a glissagem causada pela curva abrupta que fiz. E, de repente, não me importava mais com o que acontecesse com o caça à minha frente… outro vinha atrás de mim, disparando sem cessar. Outro rolamento para a esquerda – manobra que não falhava nunca. O Hellcat passou barulhentamente, seguido dos dois outros aparelhos do quarteto.

Saburo Sakai Zero Combate F6F Hellcat

Mais quatro aviões estavam quase acima de mim, prontos para mergulhar. Às vezes, a gente tem de atacar para se defender. Entrei numa subida vertical diretamente sob os quatro caças. Os pilotos inclinavam as asas de um lado para outro tentando encontrar-me. Não tinha tempo de dispersá-los. Três Hellcats vieram contra mim, da direita e, por pouco escapei os seus traçantes ao fugir com o mesmo rolamento para a esquerda.

Os caças haviam reconstituído o seu grande anel. Qualquer movimento que eu fizesse para escapar, atrairia vários Hellcats de diferentes direções. Fiquei a circular no meio do anel, à procura de uma saída. Eles não pretendiam deixar-me escapar, um após outro, os caças abandonaram o círculo e vieram contra mim, disparando no curso da aproximação. Não me lembro de quantas vezes os caças me atacaram, nem quantos rolamentos fiz. Eu estava encharcado de suor, que me corria pelo rosto e praguejava quando o líquido salgado me caía no olho esquerdo… Não tinha mãos para esfregá-lo, para remover o sal, para tentar ver.

Saburo Sakai demonstra sua manobra
Saburo Sakai demonstra sua manobra

Eu estava cada vez mais cansado. Não sabia como escapar ao cerco. Mas era evidente que estes pilotos não eram tão bons quanto os aviões que tinham nas mãos. Uma voz parecia sussurrar me meu ouvido, repetindo sempre as mesmas palavras… velocidade… mantenha a velocidade… aqueça o motos, queime-o, mantenha a velocidade!… continue fazendo rolamentos… não pare de fazer rolamentos. Meu braço começava a ficar dormente com os rolamentos, a fim de escapar aos traçantes dos Hellcats. Se eu diminuísse a velocidade por um instante sequer, ao guinar para a esquerda, seria o fim. Mas durante quanto tempo poderia manter a velocidade necessária, nos rolamentos, para escapar?

Tenho de continuar fazendo rolamentos! Enquanto os Hellcats mantivessem intacto o anel que formaram, somente um caça de cada vez poderia atacar-me e eu não temia escapar a qualquer avião que, sozinho, viesse ao meu encontro. Os projéteis traçantes passavam perto, mas tinham de atingir-me com precisão para me derrubar. Não importava que passassem a 100 metros ou a 10 centímetros de distância. O que importava é que não me atingissem.

Fiz o rolamento. Manche todo para a direita.
Aí vem outro!
Rolamento rápido. O mar e o horizonte rodando como loucos.
Glisse! Outro! Puxa, esse passou perto!
Traçantes brilhantes, cintilantes, faiscantes.
Sempre sob a asa.
Mantenha a velocidade!
Rolamento para a esquerda.
Rolamento.
Meu braço! Mal posso senti-lo, está todo dormente!

Se qualquer dos pilotos dos Hellcats tivesse escolhido uma aproximação diferente para fazer a passagem de tiro ou se concentrado na pontaria, é certo que teria me derrubado. Mas, em momento algum, os pilotos inimigos apontaram para onde meu avião estava indo. Se um dos caças tivesse despejado as seus traçantes no espaço vazio, à minha frente, para o lado em que eu fazia sempre os rolamentos, isto é, para a esquerda, teria acertado todas. Mas os aviadores têm um peculiaridade. Adotam estranha psicologia. Excetuando aqueles raros que se sobressaem e se transformam em grandes ases, 99% dos pilotos apegam-se à formula que aprenderam na escola. Treine-os para seguir certo padrão e, aconteça o que acontecer, eles jamais pensarão em sair dele, quando numa batalha de vida ou morte.

Sakai comenta seu ataque a um B-17 durante a Campanha das Filipinas em 1942/43
Sakai comenta seu ataque a um B-17 durante a Campanha das Filipinas em 1942/43

Assim, aquela contenda se resumia num teste de resistência entre a reserva de combustível dos Hellcats e a força de meu braço, para permitir os golpes de fuga no momento certo. Se esgotasse o combustível dos Hellcats, eles teriam de retornar aos seus porta-aviões.

Olhei o indicador de velocidade do ar. Quase 560 Km/h, o melhor que um Zero podia dar.

Precisa de resistência não só para o braço. O caça também tinha seus limites. Eu temia pelas asas, pois elas estavam se dobrando muito sob a violência das repetidas manobras que vinha aplicando para escapar. Havia o risco de fadiga do material que, se se verificasse, poderia fazer com que se soltassem as asas do Zero, mas eu tinha de continuar voando, de forçar o avião nos rolamentos evasivos ou aceitar a morte.

O altímetro estava no zero e o oceano, logo abaixo do meu avião. Mantenha as asas levantadas, Sakai, ou elas acabarão por bater numa onda. Onde começara a luta? A 4.200m de altitude. Mais de 4 Km de glissagens e rolamentos para escapar aos traçantes, descendo cada vez mais. Agora, não tinha mais altitude alguma. Mas os Hellcats não podiam mais fazer suas corridas de tiro como antes. Não podiam mergulhar, pois não lhes sobraria espaço para sair do mergulho. Eles tentariam outra coisa, o que me dava alguns momentos. Segurei o manche com a mão esquerda, sacudi a direita com força. Doeu.
Tudo doía, e a dormência era cada vez maior.

Lá vêm eles, saindo do anel. Estão cautelosos, agora, receosos do que eu possa fazer de repente. Será difícil sair do caminho? Glisse para a esquerda, cuidado… os traçantes. Elas fazem levantar borrifos de água e espuma. Aí vem outro. Quantas vezes me atacaram? Perdi a conta. Quando é que desistirão? O combustível deles DEVE estar acabando!

Mas eu não podia mais rolar direito. Meus braços começavam a ceder à fadiga. Não tinha mais tato. Em vez de um movimento de rolamento rápido e fechado, o Zero fez um curva oval, malfeita, que aumentava a cada manobra. Os Hellcats perceberam o que se passava e forçaram os ataques, agora mais arrojados. Suas passagens eram tão rápidas, que eu mal podia respirar. Não conseguiria manter esse ritmo por mais tempo. Tenho que escapar! Saí de outro rolamento para a esquerda, empurrei a barra do leme à esquerda e puxei o manche todo para a esquerda. O Zero respondeu com firmeza e eu atirei contra um caça, para abrir caminho, e subi. Os Hellcats ficaram por instantes confusos e saíram, a seguir, em minha perseguição. Procurei escapar, mergulhando e voltei à superfície do mar.

Metade dos aviões formaram uma barreira acima de mim, enquanto os outros, a vomitar balas, vinham à minha retaguarda. Os Hellcats eram velozes demais. Em poucos segundos, eu estava ao alcance de suas balas. Continuei rápido para a direita, sem parar, forçando o Zero, que sacudia a cada manobra. À esquerda, esguichos de água pontilhavam o mar, marcando os pontos em que batiam os traçantes, que por pouco não me acertavam.

Saburo Sakai e Hiroyoshi Nishizawa, dois dos maiores ases japoneses. Saburo terminou a guerra com 64 vitórias enquanto Nishizawa terminou com 36
Saburo Sakai e Hiroyoshi Nishizawa, dois dos maiores ases japoneses. Saburo terminou a guerra com 64 vitórias enquanto Nishizawa com 36

Eles recusavam-se a desistir. Os caças que estavam acima de mim saíram em minha perseguição tentando antecipar-se aos meus movimentos, nos mergulhos que faziam, enquanto que, os que deslizavam atrás de mim não paravam de disparar. Mal podendo mover pernas e braços, parecia-me difícil escapar. Eu continuava voando baixo e seria apenas questão de minutos, quando eu seria lento em acionar o manche. Por que esperar pelo abraço da morte, correndo como um covarde? Puxei o manche todo para trás, as mãos quase tocando o estômago. O Zero subiu ruidosamente e, a apenas 100m à minha frente, estava o Hellcat com o piloto, à minha procura. Os caças que vinham atrás de mim já se preparavam para atacar de novo. Não importava o número deles. Só queria aquele caça. O Hellcat tremeu loucamente para fugir. Agora! Apertei o gatilho, numa rajada de traçantes. Meus braços estavam dormentes demais. O Zero vibrou todo e o Hellcat rolou abruptamente e subiu, em fuga.

O loop ajudara. Os outros caças sobrevoavam o local, confusos. Tornei a subir para fugir. Os Hellcats estavam atrás de mim. Os idiotas estavam disparando de uma distância de 500m. Desperdicem a munição, vamos, desperdicem-na, gritei. Mas eles eram tão velozes! Os traçantes passaram perto das minhas asas e eu rolei desesperadamente.

Iwo Jima apareceu de repente lá embaixo. Sacudi as asas, esperando que os artilheiros em terra vissem as marcas vermelhas. Foi um erro, a manobra reduziu-me a velocidade e os Hellcats estavam novamente em cima de mim. Onde estava o fogo antiaéreo? O que estava acontecendo com os homens na ilha? Atirem, idiotas, vamos!

Iwo irrompeu em chamas. Clarões cortavam a ilha. Eles estavam disparando todos os canhões, vomitando traçantes para o alto. As explosões sacudiram o Zero. Rolos de fumaça apareceram no ar, no meio dos Hellcats. Eles fizeram uma curva fechada e mergulharam para sair do alcance das armas.

Eu continuava à toda. Apavorado, não parava de olhar para trás, temeroso de que eles voltassem, de que, a qualquer momento, seus traçantes me varassem a carlinga e me jogassem no chão. Passei por Iwo Jima, empurrei o afogador, forçando ao avião a voar mais depressa, encaminhando-me rapidamente para uma gigantesca nuvem cúmulos, bem no alto. Não me importavam as correntes de ar, só queria escapar daqueles caças e mergulhei nela a grande velocidade.

Um punho tremendo pareceu agarrar o Zero e sacudi-lo em todas as direções. Não havia nada a não ser clarões vívidos dos relâmpagos. Depois, trevas. Perdera o controle. O Zero mergulhou e empinou-se. Ele estava de cabeça para baixo, caindo; rolou depois sobre as asas e começou a subir de ré. Consegui sair. A tempestade que varria o interior da nuvem cuspiu o Zero com uma sacudidela violenta. Eu estava de cabeça para baixo e recuperei o controle a menos de 500 metros. Bem aos sul, vislumbrei os 15 Hellcats voltando para seu porta-aviões. Era inacreditável que tudo tivesse terminado e que eu ainda estivesse vivo. Desejava desesperadamente aterrissar; sentir terra firme sob os pés…

Sakai nos deixou em 22 de setembro de 2000, com 84 anos.
Sakai nos deixou em 22 de setembro de 2000, com 84 anos.

Fonte: A vida no front

Artilharia da FEB em Monte Castello
José Dequech
Sargento Auxiliar José Dequech

Na madrugada do dia 2 para o dia 3 de dezembro de 1944 o Sargento Auxiliar José Dequech estava recolhido ao seu abrigo quando começou a ouvir os sons da batalha ecoando a distância. Pouco tempo depois um oficial percorreu seu abrigo acordando todos para que ocupassem suas posições de tiro, pois “muita gente nossa estava morrendo”.[1] Dequech prontamente atendeu a ordem e ordenou aos seus homens a tomada de posição e aguardou, pacientemente, os comandos da Central de Tiro. Aquela madrugada ficaria marcada em muitos homens integrantes da Força Expedicionária Brasileira que estavam lutando na Itália naquele gelado outono de 1944.

Dequech, natural do Paraná, era Sargento Auxiliar da Companhia de Obuses do 11º Regimento de Infantaria da FEB. Havia se incorporado a tropa ainda em 1943 quando foi convocado e se juntou ao então 3º Regimento de Artilharia Montada com sede em Curitiba. Lá aprendeu a ser um homem da artilharia e com todo orgulho entendeu o seu dever. No início de junho cabos e soldados receberam a ordem de que se deslocariam até Pindamonhangaba como parte da transferência para o Rio de Janeiro a fim de integrarem a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária. Dequech lembra que, naquela manhã do dia 24 de junho, enquanto marchava pela Avenida 7 de Setembro em direção a Estação Ferroviária, em Curitiba, seu irmão o acompanhava, pela calçada. Emocionado e com problemas cardíacos acabou por sentar-se na calçada e acompanhar a passagem de seu irmão ao longe. Com um lenço branco despedia-se do seu irmão de sangue que em breve engrossaria as fileiras do exército brasileiro na Itália.

Uma companhia do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.
Uma companhia do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.

O grupo permaneceu em Pindamonhangaba até 17 de julho quando foi transferido para a Vila Militar, no Rio de Janeiro. Dali a pouco foi efetuado um chamamento de homens e uma lista divulgada: nova companhia de obuses seria montada para completar o claro do 11º Regimento de Infantaria. A companhia original havia seguindo junto com o 6º Regimento de Infantaria para a Itália, em 2 de julho de 1944, quando partiu o primeiro escalão da FEB para o teatro de operações. Dequech não fazia parte da lista, mas para acompanhar um querido amigo trocou com outro sargento que havia sido designado. José Dequech estava com a passagem garantida para a Itália.

Na Artilharia cada peça ou obus é comandada por um sargento; duas peças se juntam numa seção comandada por um tenente e quatro peças formam um conjunto sob o comando de um capitão. O obus é uma arma diferente do canhão: ele dispara em trajetórias obliquas ou parabólicas e seu objetivo primordial é bombardear uma área com salvas seguidas que acabam caindo em pontos próximos. Uma bateria de obuses pode varrer uma pequena área em média a 18 km de distância. As companhias de Obuses dos regimentos de Infantaria da FEB utilizavam o obus Howitzer M3 de 105 mm que tinham alcance máximo de 6 mil metros. Quando estivesse em solo italiano, as baterias de José estariam a cerca de 3 mil metros da linha de frente.

Artilharia da FEB na Itália, em treinamento - 1944/1945. Foto escaneada do livro "Cinqüenta Anos Depois da Volta"
Artilharia da FEB na Itália, em treinamento – 1944/1945. Foto escaneada do livro “Cinqüenta Anos Depois da Volta”

Ao ser designado para a companhia de obuses do 11º RI, Dequech teve de aprender os maneirismos do infante. Mas isso não deixou ser orgulho de artilheiro de lado: conta que ao término dos exercícios de educação física do regimento os artilheiros entoavam a canção da artilharia pelos quatro campos do campo de treinamento de Gericinó.

Em 20 de setembro de 1944 aporta no porto do Rio de Janeiro os transportes de tropas General Mann e General Meiggs a fim de levar a Itália o 2º e o 3º escalões da Força Expedicionária Brasileira. José Dequech embarcou no General Meiggs e atravessou o Atlântico em 15 dias, aportando em Napóles em 6 de outubro de 1944. Transferidos para um campo de treinamento, estes homens permaneceram a espera de material e, posteriormente, em treinamento até o final do mês de novembro, quando receberam ordem de deslocar-se. A ordem geral de substituição ocorreu em 21 de novembro.[2]

A partir de 26 de novembro o comandante do IV Corpo de Exército decidiu empregar ofensivamente todo o 1º DIE ampliando, conseqüentemente, o setor brasileiro. O Marechal Mascarenhas de Moraes também recebeu ordens de tomar o comando global de sua divisão bem como liberdade de ação total. A Força Expedicionária Brasileira ficou responsável por um setor de 15 quilômetros, além de montar nova ofensiva para a tomada de Monte Castello – Monte della Torraccia e Castelnuovo. A data estabelecida foi 29 de novembro e o ataque seria de inteira responsabilidade da 1º DIE.

Mapa simplificado com parte da Campanha da FEB na Itália.
Mapa simplificado com parte da Campanha da FEB na Itália.

A companhia de Obuses do 11º RI teria seu batismo de fogo na noite de 28 de novembro, quando deslocou-se em direção ao Monte Castelo. Seu objetivo era dar cobertura ao ataque de 29 de novembro. De acordo com Dequech “com muita dificuldade, as nossas viaturas arrastavam os obuses pelos caminhos escarpados e lamacentos que levavam as posições nas alturas de Paroncella, de onde atiraríamos sobre o castelo. No caminho, as granadas de artilharia que iam e vinham já silibavam sobre as nossas cabeças”.[3] A madrugada foi de intenso trabalho para construir a posição de tiro.

Pracinhas em marcha rumo a Monte Castello
Pracinhas em marcha rumo a Monte Castello

Para o ataque foi designado um grupamento de três batalhões brasileiros ( I/1º RI, 3º/11º RI e 3º/6º RI) com apoio de três grupos de artilharia (dois brasileiros e um Norte-Americano) sob o comando do Gen. Zenóbio da Costa. Porém, as condições climáticas não favoreceram o ataque. Chovia muito e o céu encoberto não permitiu o uso de apoio aéreo. O ataque se iniciou às 7 horas. Por volta das 12 horas as tropas bateram em retirada, assoladas por 185 pesadas baixas. Durante os dias de 29 e 30 as últimas unidades do 2º e 3º escalão da FEB chegaram ao Vale do Reno.

Na noite do dia 2 de dezembro o batalhão do Major Jacy Guimarães do 11º RI deveria tomar posição em frente ao castelo. A substituição de tropas causou o que ainda hoje é conhecido como a debandada do I Batalhão. Dequech dedicou algumas páginas de suas memórias a este acontecimento até porque esteve indiretamente envolvido. Na madrugada de 3 de dezembro o sargento é acordado por oficiais ordenando que os praças tomassem posição de tiro. Havia pedidos de artilharia vindos do I batalhão comandado pelo Major Jacy. Dequech conta que uma das companhias do I Batalhão havia sido surpreendida por uma patrulha alemã e que no restante da noite as tropas foram fustigadas por artilharia e morteiros alemães, o que causou a ordem de retraimento do batalhão dada pelo Major. O acontecimento ainda está por ser desvendado: o relatório de Jacy indica que, de fato, houve combate entre alemães e brasileiros embora soldados afirmem que não existiu combate efetivo além de uma grande confusão e pânico que se instalaram na área do I Batalhão. A inexperiência de uma tropa não acostumada ao combate aliada a inexperiência dos superiores causara grande confusão na linha de combate. Inexperiência ou não, naquela noite Dequech aguardou até o amanhecer as ordens de tiro enquanto acompanhava o desenrolar dos acontecimentos que chegavam através das noticias até sua companhia.

Dequech viu a guerra de perto: presenciou a situação de pobreza do povo italiano, repartiu sua ração com civis e recebeu muita artilharia alemã na cabeça. A companhia de Obuses do 11º RI acompanhou o regimento em toda a sua estada pela Itália. Estava presente na tomada final de Monte Castelo em 21 de fevereiro de 1945 além da batalha por Montese. Dequech retorna ao Brasil em setembro de 1945, exatamente 1 ano após deixar a terra natal em direção ao Teatro de Oper
ações da Itália.

[1] DEQUECH, José. Nós estivemos Lá. Legião Paranaense do Expedicionário: Curitiba, 1994. p. 52
[2] BRAYNER, Marechal Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1968 p. 237
[3] DEQUECH, op. cit. p. 48

Fonte: Blog Memórias do Front

Jipe da FEB transportando feridos em combate para o hospital. Acervo do OCIAA, NARA II, Maryland, EUA.
Dennison de Oliveira em Maryland, EUA.
Dennison de Oliveira em Maryland, EUA.

Episódio obscuro da história, a internação de cerca de 250 pacientes brasileiros em hospitais dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial vem à tona por meio do historiador Dennison de Oliveira, que acaba de lançar pela editora Juruá o livro Aliança Brasil-EUA – Nova História do Brasil na Segunda Guerra Mundial. O capítulo “Pacientes brasileiros internados nos EUA” trata do que o autor considera uma das faces mais trágicas da documentação a que teve acesso nos Arquivos Nacionais dos EUA em Maryland. Negligenciados pelo governo do Brasil, os feridos de guerra brasileiros recebiam daquele país resgate e atenção médica.

“Sabe-se que começa nesse momento uma das etapas mais importantes do processo de reintegração social do ex-combatente, que é sua recuperação e reabilitação motora e/ou sensorial. É lamentável que essa etapa tenha sido conduzida de forma tão inadequada e mesmo desrespeitosa para com aqueles que sacrificaram em prol da pátria sua saúde e felicidade no exercício do serviço militar em tempo de guerra”, afirma Oliveira. Em entrevista ao blog de HCS-Manguinhos, ele conta como foi o trabalho de pesquisa e o que descobriu.

Sabe-se quantos brasileiros foram levados para tratamento nos EUA na Segunda Guerra?

O que dispomos, ainda hoje, são estimativas. Numa anotação rascunhada, anexa à História da Força Expedicionária Brasileira que o comando do Exército dos EUA no Brasil redigiu ao final da guerra, lê-se que teriam sido 776 os pacientes brasileiros evacuados da Itália para o Brasil, dos quais “pequeno número” teria antes passado por hospitais militares dos Estados Unidos. Com base nas pesquisas que realizei nos Arquivos Nacionais estadunidenses em setembro de 2014, estimo que cerca de 250 pacientes brasileiros foram internados em diferentes hospitais mantidos pelas forças armadas dos EUA naquele país durante a Segunda Guerra Mundial.

Onde eles foram resgatados?

Uma vez removidos dos hospitais militares por toda frente de batalha da Campanha da Itália, seguiam para o porto de Nápoles. De lá eram embarcados em navios-hospitais até os EUA, onde eram internados em três diferentes hospitais militares, especializados respectivamente em doenças psiquiátricas, fraturas e amputações.

Amputado não identificado da FEB. Acervo do OCIAA, NARA II, Maryland, EUA.
Amputado não identificado da FEB. Acervo do OCIAA, NARA II, Maryland, EUA.

Por que foram levados para os EUA e não para o Brasil?

Os pacientes removidos para os EUA eram os casos mais sérios que demandavam tratamento especializado, àquela época não disponível no Brasil. Os termos e condições que deveriam presidir a escolha dos pacientes a serem removidos para os EUA, a maneira pela qual seriam tratados, quando e de que forma deveriam ser repatriados jamais foram formalmente acordadas entre as autoridades do Brasil e dos EUA. Estas questões de importância fundamental para a saúde, o futuro e a felicidade dos veteranos de guerra brasileiros deveriam ter sido formalizadas numa resolução a ser emitida pela Comissão Conjunta de Defesa Brasil-EUA, com sede em Washington. Esta  comissão e sua congênere no Brasil, a Comissão Militar Conjunta Brasil-EUA, com sede no Rio de Janeiro, foram tema de meu projeto de pesquisa de pós-doutorado, que motivou viagem de estudos aos EUA. No decorrer da pesquisa ficou claro que jamais foi assinado tal acordo, dando, na prática, carta branca às autoridades militares dos EUA para decidirem a respeito do destino dos pacientes brasileiros, incluíndo  se deveriam ou não seguir para tratamento naquele país. Em contraste, já em 1942 as autoridades militares dos EUA formalizaram, através de uma resolução baixada pela comissão em Washington, a forma pela qual funcionariam as enfermarias e hospitais de campanha que haviam instalado em cidades brasileiras como Natal, Belém e Recife. Esses estabelecimentos médicos destinavam-se a atender feridos e doentes estadunidenses, tanto oriundos do pessoal militar que trabalhava nas bases aéreas e navais mantidas pelos EUA no Brasil, quanto das tripulações  de aeronaves que faziam a ponte aérea com a África, uma ligação de importância vital para a logística dos países Aliados então em luta contra as potências do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial.

Ferido da FEB não identificado. Acervo do OCIAA, NARA II, Maryland, EUA.
Ferido da FEB não identificado. Acervo do OCIAA, NARA II, Maryland, EUA.

Qual foi a postura das autoridades brasileiras em relação aos pacientes internados nos EUA?

A lista de irresponsabilidades, descasos e omissões é tão grande que seria mais fácil falar o que o Brasil fez pelos seus ex-combatentes internados em hospitais dos EUA: quase nada. Veteranos de guerra de ambos os sexos (combatentes e enfermeiras) demandando internamento hospitalar começaram a chegar aos EUA no final de 1944 pegando de surpresa os membros brasileiros da comissão em Washington que, inicialmente, nada podiam fazer por eles. Todos os pacientes careciam de roupas íntimas, uniformes, intérpretes, médicos e enfermeiras brasileiros, próteses e membros artificiais permanentes e soldos para pagarem pequenas despesas.

Com muito custo e depois de um tempo considerável conseguiu-se do Ministério da Guerra no Brasil o atendimento, tardio e parcial, de algumas dessas demandas. A demora em enviar uniformes do Brasil para os internos em hospitais dos EUA significou que eles passariam todo o tempo vestindo pijamas. Isso os impedia de sair do hospital para participar dos passeios  e visitas a locais de lazer que lhes eram oferecidos pela Cruz Vermelha estadunidense e certamente os expunha a sentimentos como vexame e tédio, além de ser fonte de ressentimento.

Também jamais foram-lhes enviadas as medalhas por terem se ferido em combate ou se distinguido em ações de guerra, e nem mesmo os distintivos nacionais que teriam sido importantes para elevar seu moral. Os poucos membros brasileiros da comissão conjunta em Washington se esforçavam em visitar seus compatriotas internados, mas parece claro que sua atuação como intérpretes foi claramente insuficiente. Só a muito custo se conseguiu o envio do Brasil de médicos para fazer a triagem de pacientes para os hospitais dos EUA e para acompanhá-los de volta ao Brasil. As enfermeiras jamais foram enviadas, apesar dos repetidos protestos contra a má atuação dos enfermeiros brasileiros no trato com os internados. A situação nesse aspecto era tão ruim que a enfermeira Heloisa Villar, internada num hospital dos EUA para se recuperar de doença adquirida em campanha, resolveu voluntariamente permanecer nos EUA para ajudar a atender os pacientes brasileiros após receber alta.

Das 72 “enfermeiras” enviadas pela FEB, apenas cinco tinham formação na área. Acervo do OCIAA, NARA II, Maryland, EUA.
Das 72 “enfermeiras” enviadas pela FEB, apenas cinco tinham formação na área. Acervo do OCIAA, NARA II, Maryland, EUA.

A questão dos soldos também foi fonte de problemas, sendo pagos tardiamente, impedindo durante muito tempo os  pacientes de realizarem pequenas despesas do seu interesse. Nesse aspecto quem mais sofreu foram os subtenentes brasileiros. Deles eram cobradas diárias nos navios hospitais dos EUA com se fossem oficiais, prática adotada na hierarquia militar dos EUA. Contudo, de acordo com a hierarquia brasileira, eles deveriam receber vencimentos correspondentes aos soldos pagos aos praças, o que certamente representou mais uma fonte de conflito para as autoridades militares do Brasil resolverem nos EUA.

Mas nada se compara à angústia pela qual passaram os mutilados de guerra, que dependiam de próteses e membros artificiais para suas atividades diárias. Não havia garantias de que o governo brasileiro iria pagar por isso quando deixassem os hospitais dos EUA de volta ao Brasil. A própria volta ao Brasil não foi garantida pelo governo Vargas. Muitos meses após o fim da Segunda Guerra Mundial ainda haviam dezenas de pacientes brasileiros obrigados a viver como exilados em hospitais dos EUA, face à indiferença do governo para com o seu destino. Foi somente apelando por carta diretamente à filha de Vargas que os últimos sessenta internos brasileiros conseguiram afinal voltar à pátria em fins de 1945.

Como os EUA lidaram com a situação?

Na ausência de qualquer acordo formal, as autoridades estadunidenses se esforçaram em oferecer aos pacientes brasileiros rigorosamente o mesmo tratamento que dedicavam aos seus próprios internados.

Aliás, se não fosse pela atenção e cuidado que dedicaram aos brasileiros, provavelmente todos eles teriam morrido de frio. É um alívio, mas também um constrangimento, constatar na documentação pesquisada o cuidado que as autoridades dos EUA no Recife dedicaram aos enfermeiros brasileiros em trânsito para hospitais daquele país. Percebendo que os uniformes brasileiros eram claramente insuficientes para suportar o inverno em Nova York, se apressaram em retirar dos seus próprios estoques as roupas e agasalhos que foram fornecidos ao pessoal médico. Como resultado, médicos, enfermeiros e pacientes brasileiros nos EUA ficaram a maior parte do tempo usando fardamentos do exército norte-americano, o que certamente foi mais uma fonte de vexames e conflitos para todos eles.

Autoridades de Washington comunicavam aos seus colegas brasileiros as necessidades dos compatriotas feridos e doentes em diversos hospitais dos EUA. Estes, por sua vez, apelavam ao Ministério da Guerra para verem atendidas pelo menos as necessidades mais essenciais dos internados, obtendo nessa missão sucesso apenas relativo. Não cabe dúvida sobre nossa dívida de gratidão para com as autoridades dos EUA nessa questão. Se tivessem se mostrado indiferentes, nossos doentes e feridos de guerra teriam sofrido ainda mais, de forma cruel e desnecessária.

Jipe da FEB transportando feridos em combate para o hospital. Acervo do OCIAA, NARA II, Maryland, EUA.
Jipe da FEB transportando feridos em combate para o hospital. Acervo do OCIAA, NARA II, Maryland, EUA.

Qual a importância desse episódio no contexto do livro?

O que se pode concluir das evidências colhidas pela pesquisa que deu origem a esse livro é que o entendimento da história dos veteranos e veteranas de guerra da FEB em seu processo de reinserção social começa no tratamento que receberam nos hospitais militares estadunidenses durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Do grau de sucesso desse tratamento é que se entende o maior ou menor êxito do processo de reintegração social desses ex-combatentes na vida civil no pós-guerra. Esse episódio  tem também muito a nos ensinar sobre a história das relações internacionais militares do Exército Brasileiro. É de se esperar que, no futuro, mais eventos, episódios e personagens envolvidos com o tema se tornem objeto de pesquisa dos historiadores.

Dennison de Oliveira também publicou pela Editora Juruá os livros “Os Soldados Brasileiros de Hitler” (2008), “Os soldados alemães de Vargas” (2008), “O Tunel do Tempo: um estudo de História e Audiovisual” (2010) e “História e Audiovisual no Brasil do Século XXI” (2011). Leia sobre o livro Aliança Brasil-EUA – Nova História do Brasil na Segunda Guerra Mundial no site da editora Juruá.

Fotos: Acervo do OCIAA / National Archives and Records Administration II 

Colaborou: André Felipe Cândido da Silva 

Leia em HCS-Manguinhos:

Cytrynowicz, Roney. A serviço da pátria: a mobilização das enfermeiras no Brasil durante a Segunda Guerra MundialHist. cienc. saude-Manguinhos, Jun 2000, vol.7, no.1

Campos, André Luiz Vieira de. Combatendo nazistas e mosquitos: militares norte-americanos no Nordeste brasileiro (1941-45)Hist. cienc. saude-Manguinhos, Fev 1999, vol.5, no.3

Campos, André Luiz Vieira de. Olhares sobre a Segunda Guerra Mundial no BrasilHist. cienc. saude-Manguinhos, Dez 2001, vol.8, no.3

Fonte: Revista HCSM.

Soldado alemão opera o StG 44
Soldado alemão opera o StG 44

Se você realmente se interessa pela história da Segunda Guerra Mundial, isto vai ser um estouro em sua cabeça. O vídeo abaixo mostra membros militantes da Síria que lutam contra o regime de Bashar Al-Assad ao encontrar um container repleto de rifles. O membro rebelde que postou o vídeo alega erroneamente que encontraram 5.000 rifles AK-47. NÃO! Aparentemente eles tropeçaram numa pilha de relíquias alemãs da Segunda Guerra Mundial, um container cheio de rifles de assalto StG 44 (Sturmgewehr 44).

Como uma quantidade tão grande destas belezas da engenharia da Alemanha Nazista foi acabar nas mãos de militantes no Oriente Médio? Ninguém sabe, mas provavelmente foram vendidas ao governo sírio durante a Segunda Guerra. Talvez possam ter sido adquiridas no mercado negro.

A probabilidade é de que estes rifles serão usados pelos rebeldes, ou destruídos. O máximo que podemos chegar de possuir uma arma dessas no Brasil é um numero negativo, já que aqui o porte de armas é proibido.

Rebeldes manuseiam o rifle alemão
Rebeldes manuseiam o rifle alemão

 

O primeiro rifle de assalto da história e o pai da AK-47

No início da Segunda Guerra Mundial, as tropas alemãs estavam equipadas com os antigos Mauser K98k, e uma variedade de submetralhadoras leves e médias.

Logo, com a evolução da guerra estas armas se provaram não tão eficientes aos esforços alemães. Algumas submetralhadoras ainda possuíam um grande poder de fogo mas um alcance inferior. Enquanto estas dificuldades eram presentes, a Alemanha entrava em guerra com a União Soviética e alguns destes problemas tiveram de ser resolvidos mediante a ameaça das armas soviéticas como o SVT-40 e a PPSh-41, com alto poder de fogo e alcance entre curto e médio. Além de tudo a indústria bélica alemã ainda tinha problemas no desenvolvimento em escala industrial de algumas armas como o Gewehr 41, um novo rifle semi-automático introduzido em 1941.

Grandes esforços foram adotados para banir de vez as sub-metralhadoras da forças armadas, no entanto o recuo dos disparos de 7.92mm dos Mauser limitavam a precisão durante disparos automáticos.

Haenel_Mkb_42(H)
O Haenel MKb 42 (H), o precursor do MP 43/44.
MKb 42W (Walther)
MKb 42W (Walther)

A solução seria criar um armamento intermediário de baixa manutenção e alto poder de fogo, com alcance médio. Muitos protótipos foram testados entre 1941 e 1944, sem sucesso devido a problemas de manutenção, alcance, confiabilidade e precisão. Muitos destes programas foram cancelados pelo próprio Hitler em sua escalada para o desenvolvimento do rifle. Com a urgência imediata do armamento, nos anos posteriores à bateria de protótipos foi então instaurado um período final de avaliação de vários protótipos num espaço de tempo que duraria até 6 meses. Neste meio tempo muitos testes foram feitos até que foi criada a MP43 (Maschinenpistole 43) sendo incorporada como uma atualização das metralhadoras existentes e presentes nas forças armadas alemãs na época.

Hitler inspeciona os protótipos de rifle de assalto em 1944.
Hitler inspeciona os protótipos de rifle de assalto em 1944.

 

Hitler então, avaliando as situações no front leste, solicitou que o novo rifle recebesse atualizações. Algum tempo depois Hitler teve a oportunidade de testar a nova atualização chamada de MP44. Muito impressionado, ele renomeou o armamento o chamando de “Sturmgewehr,” em que a tradução seria “Rifle de Assalto”, daí então o nome StG 44 ou Sturmgewehr 44.

História operacional do STG 44.

Vislumbrando o combate pela primeira vez no fronte leste, o STG 44 foi empregado pra funcionar como contra medida sobre os russos equipados com as metralhadoras PPS e PPSh-41. Enquanto o StG 44 possuía um alcance mais curto que o rifle Karabiner 98k, ele era mais eficiente em custo alcance e tinha uma alcance maior do que ambas as armas soviéticas. No entanto, o emprego padrão do StG 44 baseava-se no modo semi-automático, e era altamente preciso no modo automático por possuir uma baixa cadência de tiro. Em uso em ambos os fronts no final da guerra, o StG 44 também provou ser eficiente ao prover ótimo desempenho no lugar das metralhadoras anteriores.

Soldados alemães da 1ª Divisão Ski armados com StG 44 avançam na regi!ao de Prypiat, Ucrânia, 1942.
Soldados alemães da 1ª Divisão Ski armados com StG 44 avançam na regi!ao de Prypiat, Ucrânia, 1942.

O primeiro rifle de assalto da história chegou muito tarde no conflito para ter um efeito significativo nos resultados da guerra pelo lado alemão, mas ele pavimentou o caminho para uma árvore genealógica de armas modernas que incluem rifles famosos como a AK-47 e o M16. Após a Segunda Guerra Mundial, o StG 44 foi arma padrão do Exército Nacional da Alemanha Oriental até ser substituído pela AK-47. A Polícia Civil da Alemanha Oriental usou o rifle até 1962. No geral, a União Soviética exportou StG 44 a seus estados incluíndo a Checoslováquia e Iugoslávia, também foram exportados para guerrilhas e grupos insurgentes aliados dos soviéticos. Em casos posteriores, o StG 44 foi fornecido a organizações como a Organização para Liberação da Palestina e o Hezbollah. Forças americanas também confiscaram os StG 44 de milícias armadas iraquianas.

 

 

"Vamos apenas considerar que eu fui das forças especiais e já está de bom tamanho" disse ele.

“Quando a Segunda Guerra acabou eu tinha 23 anos e já tinha visto coisas horríveis o suficiente para lembrar a vida toda,” disse o ator.

Lee, que morreu no dia 7 de junho no Hospital de Londres aos 93 anos, havia já muito festejado como ícone do cinema mas o ator – que falava várias línguas – também era membro do SAS durante a Segunda Guerra Mundial.

Nascido em 1922 em Belgravia filho de uma illustre figura da realeza italiana, modelo da Chanel e um coronel de exército, Lee foi educado em casa antes de se juntar à Força Aérea Real em 1940.

Antes da Inglaterra se juntar ao conflito, o então garoto de 18 anos já havia trabalhado ao lado dos finlandeses na Guerra de Inverno contra os russos como voluntário em 1939.

Lee foi integrado ao precursor do SAS, conhecido como Longe range Desert Group (LRDG – Grupo de Longo Alcande do Deserto), no norte da África em 1941. Inúmeros registros mostram seus feitos atrás das linhas inimigas, destruindo aeródromos da Luftwaffe, até que foi remanejado ao exército e servido juntamente com o Regimento Gurkha.

Long Range Desert Patrol
Long Range Desert Patrol

“Eu era incorporado no SAS de tempos em tempos mas somos proibidos – antes, hoje, e no futuro – de discutir ou expor quaisquer operações específicas. Digamos que eu já estive nas Forças Especiais e já está de bom tamanho. As pessoas podem fazer as análises que quiserem em cima disso,” disse ele em 2011.

Como tarefa de um oficial de inteligência no 260º Esquadrão da RAF, ele frequentemente prevenia pequenos motins depois que as tropas – frustradas com a falta de notícias do fronte leste – ameaçavam iniciar para quebrar a hierarquia.

Long range Desert Group (LRDG)
Long range Desert Group (LRDG)

Seguindo seu trabalho com o LRDG, e levando em consideração seus skills em línguas que gerava impressões favoráveis a oficiais de alta patente, ele foi integrado ao Departamento Executivo de Operações Especiais, conduzindo missões de reconhecimento na Europa ocupada e rastreando criminosos nazistas.

“Eram nos dados dossiês sobre o que eles haviam feito nos ordenando a encontrá-los, interrogá-los o máximo que podíamos e após isso entregá-los à autoridades apropriadas.”

Lee no cinema

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Como resultado, Lee, que quase morreu duas vezes durante a guerra, foi apelidado de Duque ou Espião, sendo testemunha do desfecho devastador dos campos de concentração em primeira mão.

“Nós vimos estes campos. Alguns haviam sido evacuados. Alguns não,” disse ele em 2009.

No entanto, ele raramente falava sobre suas experiências durante a guerra, ao final de sua vida ele descrevia seu testemunho como sendo algo de “horror real e muito sangue.”

“Eu vi coisas tenebrosas, horríveis, sem dizer uma palavra,” disse ele a um entrevistador, explicando como o terror em filmes “não me afeta muito.”

Christopher Lee SAS

“Eu vi muitas pessoas morrerem na minha frente – tantos que de fato eu me tornei uma pessoa mais dura em relação a isso. Tendo visto o pior que o ser humano pode fazer para outro, os resultados de torturas, mutilações e ver alguém ser explodido em pedaços por bombas e artilharia, você desenvolve um certo tipo de bloqueio. Mas você precisa, você era obrigado a se tornar alguém assim automaticamente. Caso contrário nós nunca teríamos vencido.

Curiosidades:

O perfurar da lâmina
Christopher Lee como Saruman em o Senhor dos Anéis: As Duas Torres
Christopher Lee como Saruman em o Senhor dos Anéis as Duas Torres

Enquanto alguns podem apenas tentar adivinhar o tipo de situações secretas em que Lee se deparou durante seu trabalho pelo SAS, um incidente envolvendo as filmagens do Senhor dos Anéis dá um insight do tipo de ação que ele viu. E uma cena reservada para a versão estendida do Retorno do Rei, Grima Wormtongue esfaqueia Saruman pelas costas. O diretor Peter Jackson estava orientando os atores em como efetuar a cena, quando algo inesperado aconteceu. Christopher Lee perguntou a Jackson se ele sabia qual era o som de alguém sendo esfaqueado pelas costas. Ele então disse: “Porque eu sei.”

Christopher Lee Saruman SAS
Bastidores das gravações de O Senhor dos Anéis: As Duas Torres

De acordo com Peter Jackson, Christopher Lee então iniciou uma explicação sobre “algumas missões secretas da Segunda Guerra Mundial,” entretanto, como sempre, ele escondia os detalhes. Jackson queria que ele gritasse quando fosse esfaqueado. Lee explicou que quando você é esfaqueado, “o fôlego escapa pela perfuração da lâmina, para fora do seu pulmão,” e assim deu uma boa noção de como isso realmente soaria – mais como um grito abafado, ou curto.

Metaleiro

Algo que não deixa de ser interessante, é que Lee, além de ser um grande ator, falar várias línguas e ter sido membro do SAS, ele ainda também foi metaleiro e lançou alguns álbums.

Fonte: The Telegraph

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