Idade Moderna

1066 – Húskalar, Batalha de Hastings

‘O guerreiro anglo-saxão de Hastings talvez não seja tão diferente do “Tommy” britânico das trincheiras’ disse o fotógrafo Thom Atkinson. Na Batalha de Hastings, a escolha do soldado em termos de armamento era bem extensiva. Dentre as diversas batalhas nas quais estes guerreiros ferozes participaram, provavelmente a mais famosa é a de Hastings. Liderados por Harold Godwinson ou Haroldo II da Inglaterra, chefe dos ingleses, lutaram contra William II da Normandia, que comandava a coalizão dos franceses e normandos. Apesar da derrota sofrida contra os normandos, os húskarlar mostraram-se extremamente úteis em combate.

Guardas de Elite

Os húskarlar foram utilizados como guardas de elite pessoal dos vários nobres da Europa. Dentre os mais famosos corpos de guardas, está a elite militar de Canuto, rei da Inglaterra, que governou o país no século XII d.C. Através da Lex Castrensis, Canuto estabeleceu que sua guarda particular seria composta de guerreiros húskarlar. O guerreiro huskarl era um dos poucos que tinha o privilégio de permanecer no salão real nas festividades e comer na mesa do rei juntamente com ele. Mas, com os privilégios, vieram também as obrigações do dever: traição e ações consideradas graves eram punidas com o exílio ou a morte. Estes guerreiros eram submetidos a um código militar muito mais severo do que os seus companheiros de armas de patentes mais baixas. Até mesmo seus julgamentos eram realizados por um tribunal específico: o Huskarlesteffne, cujas decisões eram assistidas pelo próprio soberano.

Aqui neste kit podemos ver a forte presença da cota de malha utilizada até a chegada das armas de pólvora e o conhecido elmo nasal em forma de cuia com a haste para proteger o nariz do soldado.

1066 – Húskalar, Batalha de Hastings

1244 – Cavaleiro montado, Cerco de Jerusalém

O Cerco de Jerusalém de 1244 aconteceu durante a Sexta Cruzada, quando os Corásmios (a convite dos Aiúbidas) conquistaram a cidade sobre Frederico II da Germânia em 15 de julho de 1244.

Aqui já podemos notar o uso da maça medieval, uma evolução do primitivo porrete mas com uma cabeça de metal facetado. A maça foi inventada por volta de 12 000 a.C. e, rapidamente, tornou-se uma arma importante. Essas primeiras maças de madeira, com pedra sílex ou obsidiana encravadas, tornaram-se menos populares devido ao aprimoramento das armaduras de couro curtido que podiam absorver grande parte do impacto. Algumas maças tinham a cabeça inteira de pedra, mas eram muito mais pesadas e de difícil manejo. Maças eram muito utilizadas na idade do Bronze no Oriente Próximo.

A adaga vista aqui neste kit também, era um item multiuso, mas principalmente utilizado fora das batalhas como ferramenta de corte universal, tanto para a alimentação quanto para o corte de madeira fina e outros materiais mais simples.

1244 – Cavaleiro montado, Cerco de Jerusalém

1415 – Arqueiro combatente ou arqueiro de arco longo, Batalha de Azincourt

Batalha de Azincourt foi uma batalha decisiva ocorrida na Guerra dos Cem Anos. Acontecida em 25 de outubro de 1415 (Dia de São Crispim), no norte da França, resultou em uma das maiores vitórias inglesas durante a guerra.

Um detalhe muito importante nesta batalha foi o emprego dos arcos longos (na foto, o item de madeira clara com um adorno escuro no centro), estes que foram eficazmente utilizados pelos ingleses contra os franceses ao longo de séculos. O arco longo inglês pode ser considerado uma das armas mais letais e importantes da história. Foi usado principalmente na Idade Média, e era o maior causador de baixas se usado corretamente. No exército inglês o arco longo já se encontrava intrinsecamente ligado à sua cultura, pois os jovens aprendiam seu manuseio desde cedo para caçar e mais tarde, combater.

1415 – Arqueiro combatente ou arqueiro de arco longo, Batalha de Azincourt

1485 – ‘Homem de armas’ iorquino, Batalha de Bosworth Field

‘Homem de armas’ foi um termo usado desde os períodos da alta Idade Média até o Renascimento para descrever um soldado, quase sempre um guerreiro profissional no sentido de serem bem-treinados no uso de armas, que servia como um cavaleiro pesado totalmente armado. Também podia referir-se a cavaleiros ou nobres, e aos membros das suas comitivas ou mercenários. Os termos cavaleiro e homem de armas são muitas vezes usados como sinônimos, mas ao mesmo tempo todos os cavaleiros equipados para a guerra, certamente, eram homens de armas, mas nem todos os homens de armas eram cavaleiros.

As guerras eram responsabilidades exclusiva dos nobres, segundo a lógica do Feudalismo, portanto esses comandantes eram de famílias nobres, o que permitia a eles o acesso a equipamentos que para a época eram muito caros. A cavalaria era uma arma que criava espaço apenas para membros da nobreza, e isso perdurou até a Primeira Guerra Mundial onde os pilotos de aviões eram normalmente membros da cavalaria, algo visível pelo aspecto de sua indumentária, onde era normal o uso de botas e calças de montaria.

Estas armaduras, ao contrário do que se diz e do que muitos pensam, eram feitas para serem leves e permitirem com que o soldado pudesse se movimentar sem grandes problemas. Tal fato alegando que os soldados que sofriam quaisquer quedas de costas vestindo uma armadura destas o impediria de se levantar, são apenas boatos.

1485 – ‘Homem de armas’ iorquino, Batalha de Bosworth Field

1588 – Caliveiro miliciano, Tilbury

O Arcabuz é uma antiga arma de fogo portátil, espécie de bacamarte. Era chamada vulgarmente de espingarda nas crônicas portuguesas do século XVI. O Caliver (arma da foto) nada mais era do que um arcabuz improvisado, de menor porte e utilizado pelas milícias especialmente na Europa, sendo mais presente na Inglaterra. O Arcabuz e o Caliver foram os predecessores do mosquete, todos estes eram carregados diretamente pelo cano e possuíam o característico fecho de mecha para realizar a ignição da pólvora e assim, concluir o disparo.

Note também o Capacete Morrião ou chamado apenas por Morrião, o popular capacete de conquistador, usado entre os séculos XVI e XVII.

1588 – Caliveiro miliciano, Tilbury

1645 – Mosqueteiro do exército, Primeira Guerra Civil Inglesa

A Batalha de Naseby foi a batalha decisiva durante a Primeira Guerra Civil Inglesa, onde o exército do Rei Carlos I foi dizimado pelo Exército Novo dos cabeças redondas comandados por Sir Thomas Fairfax e Oliver Cromwell.

O Exército Novo foi formado em 1645 pelo Parlamento e dissolvido em 1660 após a Restauração. Era diferente dos demais exércitos à época, uma vez que foi concebido como uma força responsável pelo serviço em todo o país, ao invés de estar circunscrito a uma única área ou guarnição. Como tal, era constituído por soldados em tempo integral, ao invés da milícia usual à época. Além disso, possuía militares de carreira, não tendo assento em qualquer das Casas (dos Lordes ou dos Comuns) e, portanto, não eram ligados a nenhuma facção política ou religiosa entre os parlamentares.

Oliver Cromwell remodelou o exército e, a frente dele, venceu várias batalhas, os soldados passaram a ser promovidos com base na competência e não mais pelo nascimento em uma família de prestigio. Ou seja, o critério de nascimento foi substituído pelo de merecimento, este novo exército (New Model Army) venceu o exército do rei na Batalha de Naseby, que pôs fim à luta. O Rei Carlos Ι foi condenado à morte e executado. A república foi proclamada e Oliver Cromwell assumiu o governo do seu país.

É possível notar o cinto de carregadores (centro direito da foto), onde os pequenos cilindros de madeira carregavam pequenas quantidades específicas de pólvora para auxiliar no recarregamento ágil do mosquete após cada disparo. Também a bolsa de couro com biqueira, algo similar ao que mais tarde chamaríamos de cantil, o pequeno punhal para uso universal e o baralho, o conhecido jogo de cartas com figuras popularizado no sul da Europa à partir do século XIV.

1645 – Mosqueteiro do exército, Primeira Guerra Civil Inglesa

1709 – Sentinela, Batalha de Malplaquet

A Batalha de Malplaquet se deu no dia 11 de setembro de 1709 no marco da Guerra de Sucessão Espanhola. Tropas da França foram vencidas pelas tropas da Aliança – composta pela Áustria, Inglaterra e Holanda – comandadas pelo Duque de Marlborough e pelo Príncipe Eugênio de Saboya. Às 8 da manhã do dia 11 de setembro, o Duque de Marlboroug, à direita do Príncipe Eugênio, cujo exército constava de soldados imperiais e dinamarqueses, avançou para atacar pelo flanco, sem ser bem-sucedido. A infantaria prussiana e holandesa, comandada pelo Príncipe de Orange e o Barão Nagel, encontrou também uma intensa resistência francesa pelo flanco esquerdo.

Depois de serem rejeitados dois ataques, o Príncipe Eugênio dirigiu pessoalmente o terceiro. Suas tropas romperam as linhas francesas e as expulsaram do território de Malplaquet (França). Os aliados perderam 25.000 homens e os franceses sofreram 11.000 baixas e sofreram a derrota definitiva neste confronto. A Batalha de Malplaquet foi uma das batalhas mais sangrentas da Guerra de Sucessão Espanhola.

Aqui já é evidente o uso da baioneta, uma lâmina que podia ser instalada na ponta do cano do mosquete. Algo que se demonstra eficiente até os dias de hoje. A origem do uso da “baioneta” é incerto, mas há registros que alegam que esta arma era utilizada durante a caça, após um tiro mal-sucedido sobre o alvo, onde possibilitava ao caçador a desferir um golpe de lâmina sobre o animal à curta distância. Na França, a baioneta foi introduzida pelo General Jean Martinet e foi comumente utilizada na grande maioria dos exércitos europeus após a década de 1660.

Podemos ver o característico chapéu tricorne (três pontas) no topo à esquerda e uma pequena bíblia no canto inferior esquerdo.

1709 – Sentinela, Batalha de Malplaquet

1815 – Soldado raso, Batalha de Waterloo

O mosquete com pederneira modelo Brown Bess foi desenvolvido em 1722 e usado na época da expansão do Império Britânico. Adquiriu importância simbólica, pelo menos, tão importante quanto a sua importância física. Ele estava em uso há mais de cem anos, com muitas mudanças incrementais no seu design. Estas versões incluem o Long Land Pattern, Short Land Pattern, India Pattern, New Land Pattern Musket, Sea Service Musket e outros. Um soldado bem treinado podia efetuar quatro disparos dentro de um minuto utilizando um mosquete com pederneira.

A origem do nome “Brown Bess” ainda é incerto mas pode ser uma derivação do alemão ou holandês para “marrom” e “cano.” (Os primeiros ferreiros de armas aplicavam uma camada de verniz sobre o metal e a coronha de armas de fogo)

Um detalhe interessante é que neste kit pode-se notar a inclusão da caneca de estanho e o caderno de anotações. Também vale ressaltar a presença de kits de jogos para a distração como xadrez e damas. É visível também, mudança do chapéu Tricorne para o Chacó, esta espécie de quepe comprido com a insígnia em sua face frontal. O cantil veio a se tornar parte do equipamento padrão ao invés de cuias e copos para coletar água de fontes comuns ou rios e lagos. E por fim, o retorno dos calçados com cadarços.

1815 – Soldado raso, Batalha de Waterloo

1854 – Soldado raso da brigada de rifles, Batalha de Alma

A Batalha de Alma foi uma batalha da Guerra da Crimeia, travada entre o Império Russo e a coligação anglofrancootomana. Foi travada em 20 de setembro de 1854, na margem do Rio Alma, hoje em território da Ucrânia. Foi o primeiro grande confronto durante este conflito (1854 – 1856). A coligação aliada derrotou os russos, que perderam cerca de seis milhares de homens. É em memória desta batalha que uma das pontes de Paris recebeu o seu nome: a Ponte de Alma.

A importância da camuflagem já detinha uma certa atenção dentro do âmbito militar nesta época. Com a sofisticação dos rifles militares e sua precisão, a necessidade de o soldado permanecer oculto nos campos de batalha começara a aumentar exponencialmente.

1854 – Soldado raso da brigada de rifles, Batalha de Alma

1916 – Soldado raso, Batalha do Somme

Enquanto a Primeira Guerra Mundial foi a primeira guerra moderna, assim como ilustrado no grupo de itens abaixo, este ainda é considerado um kit primitivo. Juntamente com a máscara de gás, o soldado era equipado com uma espécie de “maça de trincheira”, algo que lembra uma arma medieval.

Durante a a Grande Guerra a camuflagem já era uma estratégia militar levada em conta por vários fatores, além da existência dos vôos de reconhecimento após a inclusão do avião como uma arma de guerra e também pela evolução dos rifles de precisão. Os sobrevoos eram usados para mapear as posições inimigas com o intuito de criar uma condição favorável para os rivais ao possibilitar cercos de artilharia, com isso, a camuflagem passou a ser parte essencial do estudo no desenvolvimento industrial dos novos uniformes militares.

O rifle presente neste kit é o Lee-Enfield, derivado do antigo Lee–Metford que já aplicava um novo método de ação de ferrolho. O Lee-Enfield foi utilizado pelo exército britânico durante as duas grandes guerras e entrou em serviço em 1895, permanecendo até 1957. Disparava de 20 a 30 vezes por minuto com um alcance de aproximadamente 500 metros.

O uso da pá de combate também era algo essencial na época devido à estratégia militar adotada por praticamente todas as nações na época, a guerra de trincheiras.

Nesta época também foi introduzida pela primeira vez o que era chamado de “Rações de Provisão”, que eram nada mais que comida empacotada para ser facilmente preparada e consumida pelas tropas no campo de batalha. Consistiam em três tipos, Ração Reserva, Ração de Trincheira e Ração de Emergência. O uso de rações de combate não era regra para todas as nações envolvidas na guerra, na época. Atualmente as rações de previsão recebem várias nomenclaturas dependendo de sua composição.

Assim como o amplo uso de lanternas portáteis na Segunda Guerra Mundial, algo relativamente novo para o ocidente naquela época eram as Dog Tags ou chapas de identificação. Elas foram introduzidas pelos chineses no século XIX e não demoraram a serem adotadas como instrumento de identificação por quase todas as nações algum tempo depois. A versão da Dog Tag da Primeira Guerra Mundial está logo acima da maça de trincheira, no centro esquerdo da imagem.

Outras inovações da época eram o kit de bandagens de primeiros socorros individual e o relógio de bolso.

1916 – Soldado raso, Batalha do Somme

1944 – Lance corporal, Brigada de Paraquedistas, Batalha de Arnhem

Batalha de Arnhem foi um grande combate travado entre as forças do Exército Alemão e das tropas Aliadas nas cidades holandesas de Arnhem, Oosterbeek, Wolfheze, Driel e no interior do país de 17 a 26 de setembro de 1944. Ela foi parte da Operação Market Garden, uma operação mal sucedida que aconteceu em parte dos territórios da Holanda e Alemanha e que tinha como objetivo principal de expulsar os alemães dos Países Baixos e garantir o avanço livre das tropas aliadas para dentro do território alemão. Ela também foi a maior operação envolvendo tropas aerotransportadas da história.

Nesta imagem notamos que a sofisticação e o número de itens dentro do equipamento militar já aumentara consideravelmente desde o kit do húskarlar da Batalha de Hastings. Para viabilizar um salto com o mínimo de peso possível, os paraquedistas necessitavam de um kit compacto. Sendo assim, foram desenvolvidos inúmeros instrumentos e itens menores que pudessem ser agrupados nas mochilas e bolsas com o objetivo de permitir que o soldado conseguisse saltar sem grandes complicações. Armas menores ou portáteis com coronha retrátil, calças repletas de bolsos e sistemas de fechos inteligentes criaram uma condição em que o equipamento pudesse ser rapidamente desatado do corpo do soldado permitindo uma maior mobilidade, e mesmo assim, os equipamentos de hoje se demonstram mais eficientes contando com apenas um ou dois fechos que se desconectados, liberam todo o equipamento carregado pelo soldado paraquedista.

A comida enlatada era algo amplamente utilizado durante a Segunda Guerra Mundial, uma vez que os soldados iriam percorrer grandes distâncias, isso criava a necessidade de alimentos duráveis para reduzir a necessidade do apoio logístico por parte do fornecimento de alimentos vindos de seus países de origem.

Uma grande mudança ocorrida nesta época foi o uso do chocolate como fonte de energia para os soldados, sendo ele incluído como parte íntegra do kit de rações.

1944 – Lance corporal, Brigada de Paraquedistas, Batalha de Arnhem

1982 – Royal Marine Commando, Guerra das Malvinas

A Guerra das Malvinas foi um conflito ocorrido nas Ilhas Malvinas (em inglês Falklands), Geórgia do Sul e Sandwich do Sul entre os dias 2 de abril e 14 de junho de 1982 pela soberania sobre estes arquipélagos austrais reivindicados em 1833 e dominados a partir de então pelo Reino Unido. Porém, a Argentina reclamou como parte integral e indivisível de seu território, considerando que elas encontram “ocupadas ilegalmente por uma potência invasora” e as incluem como partes da província da Terra do Fogo, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul.

O saldo final da guerra foi a recuperação do arquipélago pelo Reino Unido e a morte de 649 soldados argentinos, 255 britânicos e 3 civis das ilhas.

Aqui já é possível vermos o esquema de camuflagem moderno com padrões de formas e de cores derivadas do verde, e também os itens portáteis como câmera fotográfica e rádio.

1982 – Royal Marine Commando, Guerra das Malvinas

2014 – Sapador de apoio, Royal Engineers, Província de Helmland

A evolução da tecnologia que emergiu nesta série de fotografias foi um processo que recebeu um grande avanço no último século. O relógio de bolso hoje é à prova d’água e possui visor digital; o Lee-Enfield de ação de ferrolho foi substituído por carabinas com mira a laser; os coletes camuflados de Kevlar tomaram o lugar das túnicas de lã.

A sofisticação do equipamento do soldado é gigantesca se formos comparar a primeira e esta última fotografia. Passamos de um equipamento pesado e rígido para a mobilidade, para um armamento mais eficiente, preciso e resistente. Saímos da espada para o arco, mosquete e no final, o rifle de precisão que pode atingir o alvo a 1km de distância. Hoje temos uma preocupação maior em manter o soldado vivo do que empregar “buchas de canhão” no campo de batalha com o intuito de ganhar tempo antes de enviar a carga de cavalaria. Aprendemos o quão importante é manter o soldado oculto por camuflagem e a orientação por mapas em território hostil.

A pergunta que fica é: se nos últimos 1000 anos a evolução do armamento militar acelerou-se gradativamente no decorrer dos séculos, o que nos espera nos próximos 50 anos?

2014 – Sapador de apoio, Royal Engineers, Província de Helmland

Fotografias: Thom Atkinson

por -
0 433
Soldados saqueiam casa de camponeses na Guerra dos Trinta Anos: pintura de Sebastian Vrancx
A 9 de julho de 1578, nasceu o imperador Ferdinando, na Áustria. Obstinado pelo catolicismo, acabou sendo um dos protagonistas da Guerra dos Trinta Anos, juntamente com o soberano protestante Frederico 5°.

Natural de Graz, na Áustria, Ferdinando foi educado num colégio jesuíta em Ingolstadt, no sul da Alemanha. Em 1617, tornou-se rei da Boêmia, e, no ano seguinte, da Hungria. Em 1619, sucedeu ao imperador Matthias à frente do Sacro Império Romano de Nação Germânica.

Ferdinando casou-se com Maria Ana, da Baviera. Apelidado “Imperador da Contrarreforma”, foi radical inimigo dos protestantes. Seu objetivo era impor o absolutismo católico romano em seus domínios.

No chamado Sacro Império Romano do Ocidente, um dos reis alemães era eleito pelos príncipes e bispos, sendo coroado pelo papa como Imperador da Cristandade. Todos os outros reis deviam respeitá-lo como tal. Mas com a Reforma protestante, instalou-se um conflito entre os príncipes eleitores.

Na Boêmia, os grupos protestantes se rebelaram contra o imperador católico, construíram uma igreja evangélica num reduto católico e entronizaram o príncipe eleitor calvinista Frederico 5º, que estendia seu poder até o Palatinado e era o chefe da União Protestante contra os católicos.

Guerra dos Trinta Anos

Os principais adversários eram, do lado católico, Ferdinando 2º, e do lado protestante, Frederico 5º. O recém-coroado Ferdinando mandou as tropas de seu aliado, o duque Maximiliano da Baviera, para a Boêmia. Era a eclosão da Guerra dos Trinta Anos, o primeiro grande conflito europeu. Na primeira batalha, Maximiliano conseguiu controlar os revoltosos rapidamente.

Frederico do Palatinado teve que fugir. Em Praga, o imperador vingou-se dos revoltosos com a execução pública de 27 nobres, líderes do levante. Para reprimir a insatisfação popular, enviou para a Boêmia tropas comandadas por Albrecht von Wallenstein, um comandante alemão sedento de guerra.

Na década de 1620, parecia que Wallenstein iria impor a paz na Boêmia, mas então outros países europeus entraram no conflito. Os holandeses invadiram a Renânia para enfrentar os exércitos da Espanha e dos Habsburgos, comandados pelo poderoso general Spinosa. Em 1626, uma força dinamarquesa comandada pelo monarca Cristiano 4º invadiu a Alemanha pelo norte, para apoiar os protestantes.

Wallenstein ofereceu-se a Ferdinando 2º para expulsar os dinamarqueses, com um exército organizado por conta própria – e teve sucesso. Como prêmio, tornou-se príncipe imperial. Em 1630, o exército do influente rei sueco protestante Gustavo Adolfo 2º (1611–1632) invadiu o norte da Alemanha e avançou para a Renânia e a Baviera no ano seguinte. As tropas comandadas por Ferdinando 2º conseguiram expulsá-lo.

Diplomacia

Os protestantes alemães procuraram soluções pacíficas para o conflito, o que culminou no chamado Acordo de Paz de Praga, de 30 de maio de 1635. Esse acordo, porém, foi de pouca duração. A França e a Espanha intervieram, desencadeando mais uma série de lutas, que só terminaram em 1648, com a Paz de Vestfália, na qual foi reconhecida a liberdade religiosa dos calvinistas e dos demais protestantes.

Ferdinando 2º casou-se pela segunda vez com Eleonora Gonzaga de Mântua, em 1622, morrendo em Viena em 15 de fevereiro de 1637. Além das razões religiosas, entretanto, outros motivos haviam levado à guerra, inclusive disputas sucessórias e territoriais, bem como questões comerciais.

Europa após a Paz de Vestfália
Europa após a Paz de Vestfália (Wikipedia)

Fonte: Deutsche Welle,

por -
0 2791

Dezembro de 1812

Pés trôpegos cambaleiam sobre a neve fofa, acompanhados pelo desesperado resfôlego de milhares de pulmões exasperados, movidos somente pela adrenalina da luta por sobreviver. O exército de mais de meio milhão de soldados, que antes fora denominado como a Grande Armada (Grande Armée) napoleônica, segue uma longa caminhada na vã tentativa de fugir das doenças, fome e da certeza iminente da morte por hipotermia. Este foi o resultado da tática de enfrentamento russa contra o ataque destruidor das tropas francesas, a qual ficou conhecida como “Terra Arrasada”.

Mas que motivos teriam levado tais potências do século XIX a se enfrentarem desta maneira?

O Bloqueio Continental (1806)

No ano de 1806, após a inquestionável derrota francesa na Batalha marítima de Trafalgar, Napoleão decidiu estabelecer o que ficou conhecido como o Bloqueio Continental à Inglaterra, com objetivo de neutralizar o poderio econômico deste rival ao privá-lo de manter relações comerciais com o mercado europeu, ao promover a ameaça de invasão à qualquer país que tivesse a ousadia de ignorar suas ordens.  Esta tática se tornou efetiva após a derrota dos exércitos da quarta e quinta Coligações – entre os anos de 1807 e 1809 – de forma a determinar o poder invencível da ágil mobilidade dos exércitos franceses em terra e culminou na adesão russa, por meio do Tratado de Tilsit.

Fuga da Família Real ao Brasil.
Fuga da Família Real ao Brasil.

Entretanto, a incapacidade francesa em suprir as necessidades deste mercado de proporções continentais resultou em uma profunda crise econômica por todos os países participantes do bloqueio. Tal fato levou Portugal, em 1808, a desobedecer às ordens do então Imperador Napoleão e sofrer a tão temida invasão de seu território, enquanto a família real portuguesa seguia a caminho da colônia brasileira, acompanhada por uma escolta de navios ingleses.

Caricatura atribuída ao inglês George Moutard Woodward, de novembro de 1807, que satiriza a situação dos dois países, em meio ao Bloqueio Continental.
Caricatura atribuída ao inglês George Moutard Woodward, de novembro de 1807, que satiriza a situação dos dois países, em meio ao Bloqueio Continental.

A partir de então, Napoleão passou a ter de lidar com diversos grupos insurretos que encontraram na estratégia de guerrilha, uma forma eficiente de se colocarem contra as imposições do império francês – muitas vezes com apoio militar e econômico dos britânicos. Isto porque, nenhum dos dois grandes impérios se daria por feliz com menos que uma vitória total sobre seu adversário.

Com isso, passa a ter um sentido bem claro o fato de Alexandre I, da Rússia, ter decidido romper com o Tratado de Tilsit no ano de 1812, assim como a prepotente reação de Napoleão que, ao decidir impor rápida rendição ao império russo, almejava uma forma de legitimar sua autoridade sobre o território europeu como um líder que agia de forma benevolente com seus adversários. Contudo, Napoleão tinha uma crença tão forte em uma rápida vitória, que pareceu não levar em consideração a possibilidade de um conflito de longa duração em território inimigo; algo que foi decisivo em sua derrota.

As Invasões Napoleônicas

Em julho de 1812, Napoleão pôs em marcha um exército com aproximadamente 600.000 homens, 50.000 cavalos e carroças carregadas com suprimentos previsto para trinta dias, tomado pela certeza de obter a rendição adversária em apenas vinte dias. Entretanto, para seguir com a tática responsável por suas vitórias pela Europa central – baseada na rápida movimentação de seus exércitos por todo o front – era necessário um terreno estável e com boa rede de estradas, além de boas áreas cultivadas para obter alimentos de maneira prática, já que as carroças de suprimentos não eram capazes de acompanhar a velocidade de movimentação da infantaria.

Todavia, a estratégia de Napoleão, além de não considerar as péssimas condições das estreitas estradas russas e a pobre agricultura nos campos que cercavam o espaço, subestimou a capacidade de observação do veterano russo, General Kutuzov (1745-1813). Com 68 anos, este militar serviu na batalha da Criméia e foi fundamental na obtenção da vitória cossaca na Guerra Russo-Turca, na Moldávia – de onde guardava a amarga lembrança de um olho inutilizado em batalha – além de ter sido capaz de promover retirada de seu exército intacto em meio a conhecida Batalha de Ulm (1905), em Dürrenstein.

Império Napoleônico
Império Napoleônico

Consciente da superioridade numérica e militar de seus inimigos, Kutuzov decidiu aplicar um complexo sistema de batalhas, acompanhadas de retiradas estratégicas. Denominado “Terra Arrasada” este sistema consistiu em incendiar os campos e contaminar as fontes de água durante o processo de retração do front de batalha, atraindo seus adversários em direção ao interior do país. Três meses depois, Napoleão encontrou Moscou incendiada, após inconclusiva a inconclusiva batalha de Borodino, com cerca de 200.000 homens mortos ou hospitalizados, devido doenças e exaustão. O rigoroso inverno chegou e levou Napoleão a bater em desesperada retirada, com os russos ao seu encalço e relatos de soldados revelavam os horrores sofridos por esta fatigada multidão, acossada pelo frio, fome, tifo, infestações de piolhos e diarreia em acampamentos precários que favoreciam a contaminação pelas fezes destes milhões de homens.

A teoria da alteração da estrutura do microcristalino no chumbo

Neste ponto, nos deparamos com a inusitada hipótese desenvolvida pelos autores do livro “Os Botões de Napoleão” (2003) que, na introdução de seu trabalho, apontam uma teoria que sugere que o fato dos botões dos uniformes dos destacamentos napoleônicos serem feitos em estanho poderia ter contribuído para o enorme número de mortos neste processo de retirada. Isto porque o estanho, a partir dos -30ºC, sofre um processo de transição alotrópica – ou seja, passa por mudanças no ordenamento de sua microestrutura cristalina – de forma a se transformar em pó, como é possível vermos no timelapse gravado pela equipe da periodictabe.ru.

Ademais a curiosidade desta possibilidade, os próprios autores questionam esta possibilidade pois este processo resulta razoavelmente lento, inclusive nas extremas temperaturas atingidas em meio ao inverno russo. Tanto que o processo apresentado no vídeo levou cerca de vinte horas a uma temperatura controlada de -40ºC. Teoria que é uma vez mais enfraquecida pelo artigo de uma equipe de químicos da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, os quais apontam que o achado arqueológico de uma cova coletiva de soldados membros do exército francês na Lituânia, durante o ano de 2002, permitiu aos pesquisadores comprovarem que, na verdade, os botões do uniforme francês eram compostos por uma liga de estanho e cobre.

Botões presentes em uma reconstrução da túnica utilizada pelo 53º Regimento de Infantaria da Guarda Imperial de Napoleão
Botões presentes em uma reconstrução da túnica utilizada pelo 53º Regimento de Infantaria da Guarda Imperial de Napoleão
Botões encontrados na cova coletiva, na Lituânia, junto com uma moeda de prata que revela a face de Napoleão
Botões encontrados na cova coletiva, na Lituânia, junto com uma moeda de prata que revela a face de Napoleão

Conclusão

Apesar de interessantíssima, a hipótese do “esfarelar” dos botões presentes nas fardas do exército napoleônico, permanece um mito e a derrota que marcou o início do declínio do império napoleônico se mantém atribuída à péssima logística e à fraca disciplina instituídas no exército francês que, ao se transformar em uma turba acéfala durante a retirada, ficou ainda mais suscetível às doenças e intempéries da região.

Certamente o frio congelante e a exaustiva marcha em meio a neve fofa marcaram a derrocada de centenas de milhares de homens e no retorno de cerca de 1/6 de todo o contingente, fato que ofereceu enorme impacto sobre as fileiras de combatentes. Contudo, a final derrocada de Napoleão somente veio na famigerada Batalha de Waterloo, onde o imperador seria derrotado pela 7ª Coligação e forçado a viver em exílio na ilha de Santa Helena, onde faleceu em condições controversas.

Casa onde Napoleão passou seus últimos dias, na Ilha de Santa Helena.
Casa onde Napoleão passou seus últimos dias, na Ilha de Santa Helena.

 

 

67,527FãsCurtir

MAIS POPULARES

0 71621
As geleiras dos Alpes Italianos estão derretendo, revelando lentamente e os horrores da Grande Guerra preservados por quase um século. À primeira vista, Peio é...