Idade Contemporânea

Ases da Primeira Guerra Mundial
Manfred von Richthofen, o famoso Barão Vermelho, foi o mais condecorado piloto alemão da Primeira Guerra Mundial. No entanto, haviam outros ases tão bons quanto e até melhores e mais habilidosos.
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Max Immelmann

O lendário Max Immelmann foi o primeiro ás alemão de todos os tempos. E também foi o primeiro aviador a ser condecorado com a mais alta comenda de sua nação, a Pour le Merite, que ficou conhecida como “The Blue Max” em sua honra. Nascido em setembro de 1890, Immelman reintegrou-se às forças armadas alemãs como piloto no início da guerra. Ele havia se pré-alistado como cadete aprendiz ainda com 14 anos antes de deixar o exército em 1912 para estudar.

Durante seu primeiro alistamento (ao trabalhar como carregador e mensageiro entre os campos de aviação), Immelmann foi agraciado com a Cruz de Ferro de Segunda Classe, conduzir e pousar seu avião seriamente danificado dentro das linhas alemãs. Sua primeira vitória chegou em 1 de agosto de 1915, quando abateu um dos 10 aviões que fizeram um ataque ao aeródromo alemão de Douai, dando a ele a Cruz de Ferro de Primeira Classe.

Em outubro de 1915, Immelmann defendeu sozinho a cidade de Lille contra os pilotos aliados. Por esta façanha ele foi apelidado pelo povo alemão de “Adler von Lille” (“A Águia de Lille”). Em um de seus grandes feitos nos ares de Lille foi quando entrou em um combate aéreo contra o famoso Capitão O’Hara Wood e Ira Jones em um BE-2c. No entanto, perderam suas armas no início da batalha, e tiveram sorte de escaparem ilesos pois Immelmann ficou sem munição. Em janeiro de 1916, ele tornaria-se o primeiro ás a somar oito vitórias aéreas e ser agraciado com a Pour le Merite.

Em 18 de junho de 1916, A Águia de Lille deparou-se com seu fim. Como muitos ases da época, a causa da morte de Immelmann ainda é uma incógnita. Enquanto os aliados alegam que ele foi abatido pelo Tenente G.R. McCubbin e seu artilheiro, Cabo J.H., em um FE-2, autoridades alemãs constataram que ele foi vítima de fogo anti-aéreo amigo. A contagem final das batalhas de Immelmann somavam 15 vitórias, apesar de algumas fontes afirmarem 17.

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Oswald Boelcke

Durante guerras, poucas pessoas foram reconhecidas em ambos os lados do conflito. Oswald Boelcke foi uma destas durante a Primeira Guerra Mundial. Ele se alistou às vésperas da guerra em 1914 como observador juntamente com seu irmão, Wilhelm. Logo transferiu-se para um esquadrão aéreo, Sessão 62, onde conseguiu sua primeira vitória em agosto de 1915. Tornou-se amigo de Max Immelmann, e juntos criaram um grande espírito competitivo.

Em janeiro de 1916, Boelcke fez sua oitava vitória no mesmo dia que Immelmann, tornando-se o segundo ás alemão. Foram os primeiros pilotos a serem agraciados com a Pour le Merite. Após a morte de Immelmann em junho, Boelcke foi ordenado pelo kaiser a não levantar vôo por um mês para que não corresse o risco de ser morto. Enquanto permaneceu no solo, contribuiu para reformas que resultaram na reorganização do Serviço Aéreo do Exército Imperial. Instituiu o uso da formação de vôo ao invés dos comuns esforços individuais, originando a criação dos Esquadrões Jasta (Jagdstaffel – esquadrão de caça). Como sendo o líder do recém criado Jasta 2, criou o trio de ases composto por Manfred von Richtofen, Hans Reinmann e Erwin Boehme para compor seu esquadrão.

Apesar de Boelcke possuir o sangue de muitos pilotos aliados em suas mãos, ele também ganhou fama de estar entre os poucos homens cavalheiros a zunirem nos céus europeus. Dias após sua primeira vitória, ele salvou um garoto francês de afogar-se em um canal próximo ao aeródromo alemão. Foi agraciado com a Medalha Prussiana do Salva-vidas após todos os esforços do pai do garoto para que recebesse a Medalha de Honra da Legião Francesa. Outro feito heróico e respeitável de Boelcke aconteceu em janeiro de 1916, quando abateu dois pilotos franceses. Enquanto visitava um deles em um hospital em território alemão, o francês o entregou uma carta, Boelcke cumpriu seu favor ao francês e despejou atrás das linhas inimigas apesar do fogo pesado.

Boelcke perdeu sua vida em 28 de outubro de 1916, quando seu avião colidiu com o de Behme. Na época de sua morte, o piloto de 25 anos era o ás de de maior reconhecimento somando 40 vitórias confirmadas. O legado de Boelcke, além de ser o patrono da força aérea alemã (Luftstreitkräfte), incluía sua obra literária chamada Dicta Boelcke, o primeiro livro contendo regras de combate aéreo. Até mesmo depois de sua morte, seus apadrinhados, especialmente o Barão Vermelho, contemplavam esta obra em alta conta.

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Lothar Von Richthofen

Mais lembrado atualmente como sendo o único irmão mais novo do Barão Vermelho, Lothar von Richthofen era ainda um pequeno ás durante a Primeira Guerra Mundial, mas considerado ainda mais temido e mortal do que seu famoso irmão. Nascido dois anos depois de Manfred, Lothar era um oficial de cavalaria antes do início da guerra. Ele então transferiu-se para o Serviço Aéreo Imperial e recebeu sua aeronave em 1915. Ele voou como observador com o Esquadrão Jasta 23 até 1917, quando foi transferido para o Jasta 11, o esquadrão que seu irmão fazia parte na época.

Após sua primeira vitória em 28 de março, o irmão mais novo do Barão saiu rapidamente da sombra de seu irmão ao somar 24 vitórias em um mês e meio. Entre uma destas vitórias havia a imbatível façanha de derrubar o famoso ás inglês, Albert Ball. Foi agraciado com a Pour le Merite em 14 de maio. Reconhecido por seus companheiros por seu estilo agressivo de combate, Lothar passou mais tempo na cama do hospital do que em batalha. Após uma de suas estadias no hospital, Lothar voltou para a guerra por alguns meses antes de ser abatido novamente em 12 de agosto de 1918, encerrando sua guerra.

Após a guerra, Lothar trabalhou por um tempo curto em uma fazenda antes de tornar-se piloto comercial. Perdeu sua vida em um acidente aéreo em julho de 1922. Acreditado com 40 vitórias, o jovem Richthofen talvez tivesse sido tão famoso e respeitado quanto se irmão caso tivesse adotado um método de combate mais seguro.

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Ernst Udet

O trágico fim de Ernst Udet, o maior ás a sobreviver a guerra, teve um grande contraste com sua vida peculiar. Após passar por dificuldades ao alistar-se no exército devido à sua altura, nascido em Frankfurt, Udet juntou-se ao programa de voluntários motociclistas aos 18 anos. Em 1915, conseguiu transferir-se para o Serviço Aéreo Alemão. Como muitos pilotos amadores, começou como observador antes de ser transferido para o Flieger Abteilung 68, onde conseguiu sua primeira vitória sozinho contra 22 aeronaves inimigas em 18 de março de 1916. Foi agraciado com a Cruz de Ferro de Primeira Classe.

No início de 1917, o Flieger Abteilung 68, agora nomeado Jasta 15, ficou estacionado no fronte de Champagne no lado oposto ao Esquadrão Spork, que tinha consigo Georges Guynemer, o grande ás francês. Como ironia do destino, Udet cruzou com Guynemer em uma das mais prolíficas batalhas aéreas da guerra. O ás alemão colocou seu oponente francês em sua mira, mas sua arma emperrou. Guynemer, percebendo a sorte grande que havia tido, simplesmente acenou e poupou o amedrontado ás alemão frente a situação inusitada.

No ano seguinte Udet, recém promovido, liderou diversos esquadrões incluíndo o Circo Voador, aumentando sua contagem de vitórias a 16. Foi então agraciado com a Pour le Merite no início de 1918. Após uma ausência por doença, retornou à guerra como líder do Jasta 4. Recebeu então seu novo avião, um Fokker D VII, pintado com as palavras Lo (em homenagem à sua namorada, Lola Zink) e du doch nicht (“você não”) com o objetivo de provocar os pilotos aliados. Somava 62 batalhas antes do fim da guerra após uma impressionante série de abatimentos que resultaram em 27 aeronaves ao final de setembro.

Após a guerra, Udet viveu o ponto alto de sua vida quando atuou em vários filmes, escreveu uma autobiografia, e fez inúmeros show aéreos ao redor do mundo. Em 1934, teve a infeliz decisão de alistar-se na Luftwaffe e lentamente subiu à patente de Coronel General. Udet sofreu um surto após ser acusado por Hermann Goring de ter sido o principal responsável pela perda de muitas batalhas alemãs. Em 17 de novembro de 1941, suicidou-se com um tiro na cabeça. Foi sepultado como herói pelos nazistas, que alegavam que ele havia sido morto por engano ao testar uma nova arma.

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Erich Lowenhardt

Erich Lowenhardt

Antes de Erich Lowenhardt ter se voluntariado ao Serviço Aéreo Alemão em 1916, foi agraciado com a Cruz de Ferro de Primeira Classe por sua bravura como membro de uma unidade de infantaria um ano antes. Após um tempo curto como observador, foi transferido ao Jasta 10 no início de 1917. Logo, ganhou uma temida reputação entre seus colegas após nomeado líder de seu esquadrão. Em novembro de 1917, Lowenhardt teve sorte de escapar ileso de um sério acidente aéreo quando seu avião foi abatido por fogo anti-aéreo inimigo. Ele foi agraciado com a Pour le Merite após completar 24 vitórias em maio de 1918.

Envolveu-se em uma competição aérea por vitórias juntamente com Ernst Udet e Lothar von Richthofen, foi apontado como líder número um dos circos voadores em junho de 1918. Em agosto, tornaria-se um dos únicos três alemães a somarem mais de 50 vitórias aéreas na guerra. (O Barão Vermelho e Udet eram os outros dois.) Em 10 de agosto, o avião de Lowenhardt chocou-se com o avião de um colega alemão, Alfred Wentz. Lowenhardt saltou, mas seu paraquedas falhou durante a abertura, resultando em sua morte. Wentz sobreviveu. Lowenhardt é visto hoje como um dos melhores pilotos da Primeira Guerra Mundial por suas 54 vitórias confirmadas, sendo metade delas acumuladas seis semanas antes de sua morte.

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Eduard Von Schleich

Eduard Von Schleich

Em 1908, Eduard von Schleich juntou-se às linhas de frente do Exército Alemão. Mais tarde transferiu-se para o serviço aéreo enquanto recuperava-se de um sério ocorrido que o feriu em uma batalha ao final de 1914. Em 1915, juntou-se ao Feldflieger-Abteilung 2b como piloto e logo recebia sua Cruz de Ferro de Primeira Classe, por completar uma missão vital mesmo tendo um de seus braços severamente ferido. Após recuperar-se, von Schleich solicitou e recebeu transferência para o Jasta 21 em março de 1917.

O Jasta 21, que não possuía grandes feitos nos registros de combate entre os esquadrões alemães, evoluiu rapidamente sob o comando de Schleich. Em julho, ele perdia um grande amigo, o Tenente Erich Limpert, fato que mais tarde o levaria a pintar sua aeronave inteiramente de preto em sua honra. Com isto, ele seria então conhecido como “O Cavaleiro Negro”, e seu esquadrão receberia o apelido de “O Esquadrão do Homem Morto”. Em setembro, o Esquadrão do Homem Morto entrava em uma sequência de batalhas com abatimentos bem sucedidos tirando 40 aeronaves inimigas de combate, 17 delas acreditadas ao Cavaleiro Negro.

Após uma breve ausência devido a ferimentos, von Schleich foi transferido ao Jasta 32. O motivo por trás deste realinhamento era uma ordem onde permitia que apenas prussianos liderassem unidades ou esquadrões, pois von Schleich era bávaro. Em dezembro, ele recebia seu Pour le Merite após alcançar 25 vitórias confirmadas. Por um curto período de tempo ele comandou um dos circos voadores o Jagdgruppe Número 8, uma unidade composta por três Jastas (23, 32, e 35), antes do armistício. Von Schleich terminou a guerra com 35 vitórias confirmadas apesar de passar mais de um ano no fronte em terra. Após a guerra, trabalhou na Lufthansa e mais tarde alistou-se na Luftwaffe, onde recebeu a patente de general antes de se aposentar. Ele faleceu em 1947.

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Hans-Joachim Buddecke

Hans-Joachim Buddecke

Em 1904, Hans-Joachim Buddecke seguia os passos de seu pai ao alistar-se no corpo de cadetes do Exército dos Estados Unidos. Nove anos depois, mudou-se para Indianapolis após pedir baixa do serviço militar. Durante o ano seguinte, trabalhou como mecânico de aeronaves e teve a oportunidade de aprender a pilotar. Quando a guerra eclodiu na Europa, Buddecke voltou à Alemanha para entrar para o Serviço Aéreo ao final de 1914. Voou como observador antes de ser transferido para o 23º Esquadrão FFA (Feldflieger Abteilung).

A primeira batalha aérea de Buddecke ocorreu em 19 de setembro de 1915 e rendeu a ele a Cruz de Ferro de Primeira e Segunda Classes, após capturar tripulantes de uma aeronave abatida. Seriam eles o Tenente W.H. Nixon e o Capitão J.N.S. Stott. Em 1916, após uma brilhante atuação na Batalha de Dardanelos, na Turquia, ele foi agraciado com a Pour le Merite ao abater seu oitavo oponente. Tornaria-se então, o terceiro ás alemão, apenas atrás de Immelmann e Boelcke, a receber a Blue Max.

Buddecke foi reconvocado à Europa, onde liderou o Jasta 4 antes de ser transferido ao Jasta 14. E mais tarde seria obrigado a voltar à Turquia, onde liderou com sucesso a campanha de Gallipoli e recebeu a medalha turca Liakat Dourada (algo similar a medalha de honra ao mérito). Os soldados turcos que puderam contemplar as atuações de Buddecke o apelidaram de “El Schahin”, que significa “O Falcão Caçador.”

Mais tarde, e mais uma vez, Buddecke era convocado a atuar na Europa onde comandaria diferentes Jastas antes de ser morto durante um combate em céus franceses no dia 10 de março de 1918, com 27 anos. Buddecke foi acreditado com 13 vitórias confirmadas antes de sua morte.

3

Werner Voss

Pergunte à qualquer um, quem foi o maior ás da Primeira Guerra Mundial e você certamente vai ouvir o nome do Barão Vermelho. No entanto, Werner Voss é tido pelos historiadores como o equivalente a ele ou talvez até melhor. Voss juntou-se ao Exército Alemão para atuar na cavalaria em novembro de 1914 com 17 anos. Mais tarde transferia-se ao Serviço Aéreo e rapidamente já estava voando como observador antes de ser integrado ao Jasta 2 para ser avaliado temporariamente em novembro de 1916.

Suas duas primeiras vitórias ocorreram em 27 de novembro de 1916, dando a ele lugar fixo no Esquadrão Jasta 2. Em maio do mesmo ano, Voss chamou a atenção do Barão Vermelho após sua 28ª vitória, que resultaria na prestigiada Pour le Merite em abril do mesmo ano. O Barão, então, ofereceu sua amizade ao único homem que parecia ameaçar sua fama. A verdade era que Manfred era um bom piloto, não tão espetacular voando, enquanto Voss era altamente eficiente em ambos. Voss foi convidado pelo Barão a juntar-se a um dos circos voadores onde conseguiu mais 14 vitórias antes de ser morto em 23 de setembro de 1917, em uma de suas maiores batalhas aéreas.

Naquele dia, Voss foi atacado por uma esquadrilha de sete aeronaves britânicas. Conseguiu mantê-los ocupados por 10 minutos antes de ser abatido por Arthus Rhys Davids. Voss, que somava 48 vitórias a seu nome na época de sua morte, foi descrito por James McCudden, o grande ás britânico, como o mais bravo piloto alemão que ele já tinha visto combater.

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Josef Jacobs

Josef Jacobs

Josef Jacobs alistou-se no Serviço Aéreo Alemão em 1914. Após uma breve atuação como piloto de reconhecimento, Jacobs conseguiu sua primeira vitória em fevereiro de 1916, mas foi declarada não confirmada devido a falta de testemunhas. Em outubro, foi transferido para o Jasta 22, onde subsequentemente conseguiu sua confirmação de primeira vitória em 23 de janeiro de 1917. Acumulou três vitórias confirmadas e oito não confirmadas com no Jasta 22 antes de ser transferido para o Jasta 7, onde foi designado a comandá-lo em 2 de agosto de 1917.

Jacobs foi agraciado com a Pour le Merit após abater seu 24º oponente em 19 de julho de 1918. Ainda no mesmo esquarão, Josef abateu mais 24 aeronaves entre 13 de setembro e 27 de outubro, onde venceu a sua última batalha aérea da guerra.

Josef viveu o bastante para se tornar o mais antigo recipiente da Pour le Merite. Ele faleceu em 1978. Em uma entrevista reveladora uma década antes de sua morte, Josef confessou que apesar de seu longo tempo de serviço militar no Exército Alemão e sendo o quarto colocado (empatado com Werner Voss) entre os ases alemães, nunca recebeu as pensões por seus feitos por ser apenas um oficial de reserva durante a guerra.

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Rudolf Berthold

Rudolf Berthold

Rudolf Berthold alistou-se no Exército Alemão em 1909 e foi transferido ao Serviço Aéreo Alemão para atuar em missões de reconhecimento quando a guerra eclodiu. Mais tarde transferiu-se a um esquadrão de combate, e no início de 1916, já somava cinco vitórias. Berthold ganhou reputação rapidamente por ser um piloto inconsequente levando a fama de ser facilmente abatido em combate. Após uma atuação breve no Jasta 4, ele foi nomeado comandante do Jasta 14 e logo ganharia sua Pour le Merite após atingir sua 12ª vitória. Em maio de 1917, Berthold sofreria uma fratura no crânio, pelvis e teve seu nariz quebrado após ser derrubado. Apesar de sua carreira parecer ter terminado devido aos ferimentos à aquela altura, Berthold levou apenas três meses para voltar ao combate, apesar de não estar completamente recuperado.

Em seguida, ele foi escolhido para liderar o Jasta 18, onde feriu seu braço direito severamente o deixando aleijado. Berthold, que não era desses que desistiam facilmente, aprendeu a voar com apenas uma mão. Tornou-se líder de um dos circos voadores e conseguiu abater mais 16 aeronaves com total sucesso antes de seu tempo de serviço chegar ao fim em 10 de agosto de 1918, quando foi abatido novamente.

Conhecido como “Homem de Ferro” por seus colegas devido a sua fama de ser quase imortal, Berthold atingiu 44 vitórias antes do fim da guerra. Foi morto em um protesto em solo alemão em 1920 com 29 anos ao receber tiros do mesmo povo que o motivou a entrar na guerra para protegê-los. Algumas fontes alegam falsamente que ele foi estrangulado até a morte com sua própria medalha Pour le Merite. Um fim trágico para um ás dos céus.

 

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Esta fantástica série de fotografias raras coloridas à mão que retratam vários Samurais entre os anos de 1863 e 1900, foram descobertas por Retronaut, estas imagens mostram a última fase da existência desta classe, que culminou com a Restauração Meiji.

No começo da história dos samurais, estes não eram mais que simples servidores do Império, e só no século XII é que estes se elevaram para uma posição de privilégio e dominação política e social sobre a população japonesa.

Esta classe militar e aristocrática do Japão feudal seguia o código de honra que dá pelo nome de Bushido, um rígido código moral influenciado pelo Budismo, Xintoísmo e Confucionismo e que ainda hoje prevalece na cultura japonesa. Coragem, benevolência, sinceridade, lealdade e autocontrolo eram algumas das principais virtudes que regiam a vida destes guerreiros, lado a lado com as artes marciais.

Estas cativantes imagens permitem espreitar em detalhe as intricadas indumentárias destes soldados e até mesmo a sua arte corporal. Com as reformas da Era Meiji no final do século XIX e o fim do feudalismo, a classe dos samurais acabou por ser abolida. O fascínio por esta mítica classe guerreira mantém-se, no entanto, bem presente até aos dias de hoje.

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Tratado Brest-LitovsK

 

Até os dias atuais, sucederam diversos acontecimentos que mudaram a história, porém, todos os grandes fatos que tiveram consequências posteriores para a humanidade, apresentaram alguma relação com crises econômicas.

A intenção desse artigo é indicar que a economia foi sempre um dos principais fatores para as rupturas nas políticas mundiais, é a característica que mais aparece nessas mudanças na política mundial, mas não se pode isolá-la de outras características, que contribuíram para as alterações nas estruturas de diversas nações.

Na Era Moderna e Contemporânea, houveram exemplos de mudanças históricas que foram antecedidas por uma crise econômica. A Era Moderna seria o marco devido o surgimento do capitalismo, no entanto, desde a Antiguidade já havia alterações políticas nas regiões por causa de processos econômicos, como a derrocada das cidades gregas e a vitória de Alexandre o Grande, a queda do Império Romano, as Cruzadas e diversos outros exemplos.

O capitalismo seria o marco, devido à competitividade dos Estados Modernos que propiciou a criação do moderno capitalismo como assinala Max Weber: “Nem o comércio, nem as políticas monetárias dos Estados Modernos […] podem ser compreendidos sem essa singular competição e equilíbrio político entre os Estados” (WEBER, Mas. Wirtschaft und Gesellschaft, 1978. In: ARRIGHI, Giovanni. O Longo Século XX: Dinheiro, Poder e as Origens do nosso tempo, 2012)

Quando alguns países passam por mudanças no seu governo, isso tem como característica períodos de grande crise econômica, onde a insatisfação da população por não terem condições financeiras adequadas, provocam um descontentamento geral e como consequência existe a busca de uma ruptura com a política vigente, e essas mudanças normalmente ocorrem através de guerras.

Essas mudanças normalmente acontecem quando se tem Independências e as chamadas Revoluções, segundo diversos autores, o conceito de Revolução, significa uma mudança nas estruturas, políticas, econômicas e sociais, é nesse contexto que serão analisadas algumas dessas Revoluções, que aconteceram em diferentes períodos da história, mas que tiveram como uma das principais causas a crise econômica.

Nesse sentido, podemos citar diversos exemplos, como, a Independência dos EUA, Independência da América Espanhola, Revolução Francesa, Revolução Cubana, Revolução Chinesa e a Revolução Russa.

Revolução Francesa

A França passava por uma grande crise econômica no final do século XVIII, quando a Inglaterra já tinha iniciado o seu processo industrial, e os franceses ainda mantinham práticas feudais, como o domínio da área rural sobre a urbana, privilégios como o não pagamento de impostos do Clero e Nobreza.

Essa crise se agravou com o problema agrário que a região enfrentava, devido a um clima inadequado para agricultura, uma das principais fontes de renda da população, o povo passava dificuldades com alimentação, pois o preço dos alimentos subiam, e só quem tinha boas condições financeiras conseguia se alimentar.

Outro aspecto dessa crise financeira acontecia por causa das dívidas de guerra que os franceses enfrentaram, como a Guerra dos Sete Anos e a Independência dos EUA, todos esses conflitos provocaram um custo enorme que os franceses em 1789 ainda não tinham se recuperado e que estava pesando ao Estado francês e a população local. A falta de não pagamento de impostos pelo Clero e Nobreza, foi o grande fator para o início da Revolução Francesa, o chamado “Terceiro Estado” (Povo + Burguesia), estavam insatisfeitos com a obrigação de arcar com todas as despesas do País, e nesse aspecto começaram a pressionar o Rei Luís XVIII, para por fim a esses privilégios.

Pirâmide Social da França antes da Revolução
Pirâmide Social da França antes da Revolução

Quando Luís XVIII convocou a Assembleia Geral, órgão que não era convocado desde o início do século XVII, a França discutia os problemas que estavam enfrentando, e nesse momento, o “Terceiro Estado”, aproveitou para pressionar o Rei a por fim os privilégios da Nobreza e Clero, como isso acabou não ocorrendo, Burguesia e Povo se desligaram da Assembleia Geral e iniciou a criação da Assembleia Nacional Constituinte, que pôs fim ao Absolutismo na França, com a Revolução Francesa.

Assembleia dos Estados Gerais
Assembleia dos Estados Gerais

A Revolução Francesa nesse aspecto ocorreu por uma insatisfação popular com a crise econômica que a França vinha passando, devido às guerras, fome e os impostos que provocavam um caos social.

Revolução Russa

A Rússia, no início do século XX, tinha características muito diferentes dos modelos existentes em outros países. Nesse período a Europa lutava pelo expansionismo nos continentes Africanos e Asiáticos, devido o crescimento na produção dos produtos industrializados, que tem como consequência a necessidade de buscar matéria prima e mercado consumidor nessas regiões. A Rússia, mesmo fazendo parte desse processo, era um país com características agrícolas e com poucas indústrias.

Nicolau II Czar da Rússia
Nicolau II Czar da Rússia

Neste período a Rússia, já vinha passando por uma insatisfação popular, que se agravava com o aumento das dificuldades econômicas devido a acontecimentos externos, como a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

A Guerra Russo-Japonesa foi uma das causas do aumento das manifestações, devido o gasto com a guerra e a derrota para os japoneses. A consequência para esses fatos foram uma onda de greves e manifestações da população contra a forma de governo do Czar Nicolau II, que teve como maior acontecimento o Domingo Sangrento, onde diversas pessoas foram mortas, quando se aproximavam do Palácio de Inverno do Czar. Esses acontecimentos serviram de estopim para a Revolução de 1905, que propiciou a criação de uma Monarquia Constitucional no País.

A Rússia entra na Primeira Guerra Mundial após a morte do príncipe herdeiro do Império Austro-húngaro em Sarajevo, e a declaração de guerra do Império contra a Sérvia, no qual a Rússia tinha uma aliança com essa nação.

Atentado em Sarajevo: Estopim de uma Guerra Anunciada
Domingo Sangrento
Domingo Sangrento

A Grande Guerra, que muitos acreditavam na época que teria uma curta duração, durou muito mais tempo que se havia pensando, e isso para a população da Rússia foi motivo de descontentamento, devido o aumento da crise econômica do país, que sofria com a falta de alimentos, e o povo, responsabilizava a manutenção da nação na Guerra como o motivo pelo agravamento da crise econômica.

Através das manifestações populares, em Fevereiro de 1917, acontece a primeira Revolução, pelos Mencheviques, que consegue retirar do poder o Czar Nicolau II, mas que se manteve pouco tempo no poder. Em Outubro de 1917, os Bolcheviques assumem o poder, e retiram a Rússia da Primeira Guerra Mundial, assinando o Tratado Brest-Litovsk com os países da Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Império Austro-húngaro) e transformando a nação em socialista, forma de governo que durou até o fim da URSS em 1991.

Tratado Brest-LitovsK
Tratado Brest-LitovsK

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O Brasil na Grande Guerra

Batalha das Ardenas

A Batalha das Ardenas foi um dos últimos “seja o que Deus quiser” para um ditador que já se encontrara sem muitas opções. Hitler precisava desesperadamente de uma vitória, seja ela no fronte oeste ou leste. Ao lembrar de sua série de vitórias após esgueirar-se na Floresta das Ardenas em 1940, Hitler tentou repetir o mesmo feito em 1944.

31 de dezembro de 1944, tropas aliadas e carros de combate avançam em direção às linhas alemãs nos arredores de Bastogne - foto: US Army
31 de dezembro de 1944, tropas aliadas e carros de combate avançam em direção às linhas alemãs nos arredores de Bastogne – foto: US Army

Em dezembro, 200.000 tropas alemãs e 1.000 carros de combate chocaram-se contra 80.000 tropas aliadas. Aqui estão nove fatos que muitos não sabem sobre o que aconteceu por lá.

1. Os aliados ignoraram vários avisos sobre a iminência de uma grande batalha.

Soldados entrincheiram-se num momento de rotina
Soldados entrincheiram-se num momento de rotina

Uma das grandes vantagens da Alemanha durante a Batalha das Ardenas foi o fato de que os aliados foram pegos de surpresa. Comandantes aliados se oriantavam por intermédio de comunicações feitas lado a lado com um órgão de inteligência britânico chamado “Ultra”, que consistia em decifrar as transmissões de rádio feitas com o uso da conhecida Máquina Enigma. Mas os alemães agiam sob o total sigilo e comunicavam-se tipicamente por linhas telefônicas quando ainda dentro de suas fronteiras. Alguns comandantes americanos submeteram vários relatórios indicando a presença de um grande contingente alemão próximo às Ardenas, enquanto outros debochavam de prisioneiros inimigos durante alegações de que um grande ataque estava por vir. Muitos ainda diziam que os americanos estavam cegos devido ao seu histórico de vitórias pela Europa – colocando os alemães em posições defensivas desde o Dia-D – mas os alto comando americano, além disso, considerava aquela região inóspita e íngreme demais para acomodar o planejamento de um possível contra-ataque alemão. Como resultado, quando a ofensiva alemão finalmente começou, a região possuía poucas defesas e apenas alguns soldados americanos exaustos e inexperientes.

2. Mais de 1 milhão de homens envolveram-se no combate.

Foto: US Army
Foto: US Army

A batalha começou com o ataque de 200.000 alemães contra 80.000 tropas aliadas. Mas, como o 3º Exército de Patton fez a famosa guinada de 90º para atingir o flanco alemão e outras tropas aliadas correram desesperadamente para auxiliar os defensores, 600.000 tropas aliadas expulsaram o contingente alemão que aumentara em mais 500.000 homens ao final da batalha.

3. Inicialmente, as tropas aliadas concentravam-se na região apenas para descanso e treinamento.

Soldado Frank Vukasin de Great Falls, Montana, recarrega seu rifle em Houffalize, Bélgica, em 15 de janeiro de 1945. FOTO: US Army
Soldado Frank Vukasin de Great Falls, Montana, recarrega seu rifle em Houffalize, Bélgica, em 15 de janeiro de 1945. FOTO: US Army

As Ardenas eram usadas como campo de treinamento para soldados inexperientes e para o descanso de tropas que voltavam da linha de frente. Americanos estacionados naquela área eram vistos como soldados que possivelmente iriam morrer ou recuar. Todo o plano estratégico de Hitler baseava-se e dependia crucialmente deste fator.

Ao invés disso, recrutas se tornaram experientes da noite para o dia e veteranos cansados cavavam suas trincheiras para frear o avanço alemão. Esquadrões anti-carro escolhiam pontos chave nas vilas e passagens entre as montanhas, criando barricadas em chamas feitas com blindados alemães abatidos em combate para driblar e frear a Blitzkrieg com o objetivo de manterem as tropas inimigas expostas em locais já conhecidos e explorados pelos aliados.

4. A primeira vez em que o Exército dos EUA uniu soldados afro-descendentes com soldados brancos na 2ª G.M.

Tropas afro-americanas durante a Batalha das Ardenas
Tropas afro-americanas durante a Batalha das Ardenas

As Forças Armadas dos Estados Unidos aboliram oficialmente a segregação racial em suas linhas em 1948, mas a situação desesperada em que se encontravam os aliados durante a Batalha das Ardenas os inspirou a solicitarem o uso de tropas afro-americanas e mais de uma ocasião. Aproximadamente 2.500 soldados afro-descendentes participaram do combate, muitos deles combatendo lado a lado com seus compatriotas brancos. O 333º e o 969º Batalhão de Artilharia era 100% composto por negros, e mais tarde recebeu a uma Citação Presidencial de Unidade – a primeira na história a ser dedicada para soldados negros. Em algum outro lugar do campo de batalha a 578ª Cia de Artilharia agarrou seus rifles para apoiar a 106ª Divisão de Leões Dourados, e uma outra solicitou a ajuda da 761ª dos “Panteras Negras”, que tornou-se a primeira divisão mecanizada composta apenas por negros à ir para o combate sob o comando do General George S. Patton. À medida em que a batalha acabava, os generais Dwight D. Eisenhower e John C.H. Lee solicitaram que tropas negras dessem cobertura à tropas americanas feridas em combate. Milhares destes soldados negros ainda voluntariaram-se até o final do combate.

5. A famosa resposta de McAuliffe ao pedido de rendição incondicional alemão, “NUTS!”, não passou de uma piada feita por paraquedistas entediados.

Gen. Anthony C. McAuliffe e Col. Harry Kinnard II em Bastgone após a Batalha que marcou o fim do ano de 1944. Foto: US Army.
Gen. Anthony C. McAuliffe e Col. Harry Kinnard II em Bastgone após a Batalha que marcou o fim do ano de 1944. Foto: US Army.

Uma das mais famosas “respostas” a uma solicitação de rendição aconteceu durante a batalha. Brig. Gen. Anthony C. McAuliffe respondeu com “NUTS” (loucos) no centro de um pedaço de papel.

McAuliffe havia dito duas vezes, “Nuts,” quando discursou sobre a demanda de rendição, primeiro para o seu encarregado ao acordá-lo e mais tarde para sua guarnição no quartel general. Quando se tratou de escrever a resposta formal, McAuliffe não conseguiu pensar no que escrever. Seus homens, consideraram os comentários engraçados quando encontraram os pedaços de papel rabiscado, e suplicaram a ele uma resposta com aquelas quatro letras.

6. Soldados alemães vestiram uniformes americanos para atacá-los secretamente pela retaguarda.

Dois paraquedistas avançam sobre o terreno coberto de neve em Bastogne.
Dois paraquedistas avançam sobre o terreno coberto de neve em Bastogne.

Liderada pelo comandante das tropas especiais da Waffen-SS, Otto Skorzeny, uma das maiores estratégias ordenadas por Hitler consistia em causar desordem entre as linhas americanas ao inserir tropas especiais fluentes em inglês com o objetivo de implantar planos de sabotagens generalizadas no equipamento aliado. Esta operação foi nomeada de Operação Grifo.

Ela consistia em vestir os soldados com os uniformes, armas, e carros de combate capturados em batalhas anteriores. Os sabotadores mudaram placas, cortaram comunicações e cometeram outros pequenos atos para confundir as tropas americanas na região, mas acabaram por serem mais eficazes ao espalhar a confusão e o terror.

Soldados americanos descobriram rapidamente a identidade dos impostores e iniciaram uma operação que consistia em criar pontos de checagem em determinadas áreas para identificar estas tropas ao indagar perguntas sobre a cultura pop e a vida nos Estados Unidos.

7. Um dos piores crimes de guerra cometidos contra tropas aliadas na 2ª G.M.

O Massacre de Malmédy ocorreu em 17 de dezembro de 1944, quando um grupo de aproximadamente 100 americanos, na grande maioria operadores de artilharia aquartelados com a 285º Batalhão de Artilharia de Observação, foram capturados por tropas da SS que faziam parte do corpo de ataque alemão.

Enquanto os detalhes exatos ainda são discutidos entre os historiadores, aproximadamente 84 soldados americanos mantidos prisioneiros foram mortos quando soldados alemães abriram fogo contra os mesmos. Ao menos 21 outros prisioneiros escaparam e reportaram os assassinatos, mas a evolução da batalha tornou as investigações do caso impossíveis de serem concluídas.

8. A falta de combustível contribuiu para a derrocada da ofensiva alemã

Logística americana na Batalha das Ardenas

As máquinas mais temidas e mortíferas do Terceiro Reich, seus Tigers, Panthers e Panzers bebiam litros de gasolina, e ao final de 1944, a máquina de guerra alemã já aleijada, sofria com as dificuldades com o racionamento do combustível para mantê-los rodando. Os alemães destinaram 5 milhões de galões para a Batalha das Ardenas, mesmo assim, quando as operações deram início, as más condições das estradas e trapalhadas logísticas resultaram em um grande desperdício, e também, em carregamentos que nunca chegaram à seu destino. A infantaria alemã improvisou o uso de 50.000 cavalos para o transporte nas Ardenas, e o alto comando alemão construiu seu plano de batalha em cima de planos cujo o objetivo principal era o de capturar depósitos de combustíveis dos aliados à medida em que avançavam. Forças aliadas evacuaram ou queimaram milhões de galões de gasolina para evitar que caíssem nas mãos do inimigo, no entanto, perto do Natal muitas unidades mecanizadas estavam rodando aos frangalhos. Sem outra alternativa para cruzar o Rio Meuse, o contra-ataque logo desbancou-se. Por volta da segunda quinzena de janeiro de 1945, os aliados haviam finalizado sua vitória na Batalha das Ardenas definitivamente e haviam empurrado os alemães de volta à suas posições iniciais.

Panzerkampfwagen VI Tiger II abandonado ao sul de Bastogne por falta de combustível
Panzerkampfwagen VI Tiger II abandonado ao sul de Bastogne por falta de combustível

9. Generais de Hitler foram totalmente contrários a operação.

Foto: Arquivo Nacional Alemão
Foto: Arquivo Nacional Alemão

Hitler iniciou o agrupamento das tropas necessárias para a ofensiva 4 meses antes, em agosto de 1944, mesmo assim, seus generais acreditavam que as tropas seriam melhor empregadas na luta contra a Rússia no fronte leste. Hitler recusou-se a ouvi-los e continuou com seus planos.

Em seu desfecho, a ofensiva alemã nas Ardenas falhou e os americanos continuaram seu avanço. Com amargas perdas ambas de homens e material bélico, a Alemanha sofreu um grande impacto com a Batalha das Ardenas, e o Terceiro Reich já dava sinais de ter seus dias contados. Hitler viria então a cometer suicídio em 30 de abril de 1945 (ou talvez não) e a Alemanha rendeu-se em 8 de maio do mesmo ano.

UM POUCO DA HISTÓRIA

Nas primeiras décadas do século XX, o Brasil não possuía nenhum arsenal ou fábrica de armas, fosse ela privada ou não, capaz da produção em larga escala de equipamentos militares para suprir a demanda do Governo Brasileiro. O armamento aqui empregado, tanto nas Forças Armadas como nas Polícias Militares estaduais era um misto de contratos e importações oriundo, basicamente, da França e da Alemanha.  Já naquela época o mais bem equipado e armado estado da então República dos Estados Unidos do Brasil era São Paulo, cuja milícia denominada de Força Pública, pelo número de homens e quantidade de equipamentos, podia ser comparada a um pequeno exército.

O Governo Brasileiro já havia efetuado vários contratos de importação de armamentos leves, mas o mais importante deles foi a dotação do fuzil Mauser modelo 1893, no ano de 1894, em calibre 7mm X 57mm, para substituir o seu antecessor, o fuzil da comissão alemã G88, que aliás é objeto de um artigo neste site. Posteriormente, em 1908, outra grande aquisição do governo junto à D.W.M. (Deutsche Waffen und Munitionsfabrik) veio se juntar à anterior, mas agora com os novos modelos Mauser 1898, que aqui passaram a ser denominados de modelo 1908. Falaremos disso mais adiante, com mais detalhes.

Com a federalização oriunda após a proclamação da República, os estados possuíam autonomia para adquirirem armamento sem necessitar passar por aprovações dos
federais, de forma que isso facilitou muito a aquisição de armas diretamente dos fornecedores na Europa.

Desta maneira, a Força Pública de São Paulo também adquiriu grande quantidade destes fuzis diretamente da D.W.M. (Deutsche Waffen und Munitionsfabrik, de Berlim , Alemanha. Da França, o Governo do Brasil também importou em razoável quantidade as metralhadoras Hotchkiss, onde se escolheu manter, para essas armas, o calibre padronizado de 7mm X 57mm Mauser, o mesmo dos fuzis importados da Alemanha. Na área das armas curtas, houve aquisições importantes de diversas nações, como o revólver “D’ Ordenance Mdle. 1892”, erroneamente chamado de Lebel, os revólveres do tipo Nagant, oriundos da Bélgica (Pieper) e da Alemanha (Simson & Son) , bem como as pistolas semi-automáticas alemãs Parabellum (Luger), trazidas em um lote de 5.000 peças, em 1906.

Em 16 de julho de 1934 funda-se a Fábrica de Canos e Sabres para Armamento Portátil, na cidade de Itajubá, estado de Minas Gerais, inaugurada em 1935. Paralelamente, em 1939, foi reestruturada a antiga Real Fábrica de Pólvora da Estrela na cidade de Majé, estado do Rio de Janeiro, criada em 1808 na Lagoa Rodrigo de Freitas, pelo imperador D. João VI. Ela funcionou como uma organização militar vinculada ao Ministério do Exército até 1975.

Em 1960 a F.I. chegou a produzir cerca de 50.000 pistolas M1911A1, sob licença da Colt, a fim de suprir demanda do Exército Brasileiro. Em 1975, durante o regime militar, o governo brasileiro funda a IMBEL, Indústria de Material Bélico do Brasil, que mantém sob sua alçada as unidades de Itajubá, Juiz de Fora e de Magé.

Segundo informações da própria Imbel em seu site, há indicativos que a criação desta empresa pública ocorreu em decorrência do rompimento, no ano de 1974, pelo Governo de Ernesto Geisel, do Acordo de Cooperação Militar Brasil – Estados Unidos, firmado durante a 2ª Guerra Mundial.

Fábrica de Itajubá

Com a  sua criação, as Fábricas Militares do Exército foram transferidas para a estatal, e com isso, o setor de defesa, integrado com as demais empresas privadas da época, passou a ser uma atividade estratégica para o país, com uma tecnologia nacional em evolução, que permitiria ao Brasil tornar-se mais independente na produção de equipamentos militares.

Em 1893 atravessou período conturbano financeiramente e acabou cedendo sua fábrica de munições, situada em Realengo, para a CBC. Em 1985 fechou um contrato com a Springfield Armory e produziu diversas variantes da pistola, chegando algumas delas a serem adotadas pelo F.B.I. Pelo menos até o ano de 2004, a Imbel detinha 30% das ações da CBC e mantinha uma joint-venture com as empresas South America Ordnance, a Royal Odnance e a Schahin Participações, essa última de controle nacional.

Entrada da Fábrica de Itajubá, MG

Mas, voltando bastante no tempo, vamos nos posicionar quanto à dotação de armas longas efetuadas pelo Governo Brasileiro após a Guerra de Canudos. Como já explorado em outro artigo neste site, ainda em 1873 o governo havia adotado as carabinas belgas Comblain, que teve uma longa participação ativa nas fileiras militares brasileiras. Somente em 1892 é que começaram a ser substituídas pelos fuzís alemães modelo 88, o “Gewehr 88”, em calibre 7,92X57mm, uma vez que no mundo todo a tendência era a de substituição de armas longas utilizando cartuchos de pólvora negra pelos novos cartuchos de pólvora sem fumaça, em calibres mais baixos e mais velozes.

Os fuzis modelo 88 (veja artigo sobre ele, aqui no site) tiveram uma vida de serviço curta no Brasil, devido a uma série de problemas ocorridos com a arma durante a Revolução Federalista e posteriormente, no conflito de Canudos. Em 1894, a Comissão Técnica Consultiva, que estranhamente já havia deixado de lado a ideia de adotar as carabinas “belgas” da Mauser modelo 1889, em favor dos fuzis 88, voltou a pensar nelas como alternativa.

Mas a essa altura, decidiu-se sabiamente por importar algo mais moderno, um modelo similar ao fuzil que já era utilizado na Espanha, e que chegou por aqui como sendo o Mauser modelo 1893, denominado de mod. 1894 em virtude de que a maioria deles vieram com suas câmaras datadas com este ano. Para complicar ainda mais o detalhe das datas, as carabinas belgas F.N. que chegaram nos primeiros lotes, vieram datadas de 1895.

Fuzil Mauser mod. 1894, em cal. 7X57
Fuzil Mauser mod. 1894, em cal. 7X57

Cerca de 75.000 armas foram entregues ao Governo. Em 1899, um inventário acusou 57.000 delas, só no Rio de Janeiro. Mas, é por volta de 100.000 armas a quantidade estimada da compra desse modelo, que desembarcaram em terras tupiniquins ainda em tempo de participar de diversos conflitos armados tais como a Revolução Federalista, a Revolta da Armada e a Guerra de Canudos, mas ainda convivendo lado a lado com as carabinas belgas Comblain e os fuzís modelo 1888. Como o Exército, na época, contava com um efetivo em tempos de paz de 28.000 homens, e cerca do dobro disso em período de guerra, essa aquisição serviu para substituir todo o estoque de armas antigas existentes, tanto as Comblain como o modelo 1888, e mais ainda, o que restava dos fuzis Kropatcheks e das raras carabinas belgas de 1889 em calibre 7,65mmX53.

As dimensões do fuzil Mod. 1894 eram: Comprimento: 1,231m – Peso: 3,75Kg – Comprimento do cano: 0,741m. O raiamento consistia de 4 raias destrógiras. As carabinas 1894, bem mais raras de se encontrar hoje em dia, mediam 0,949m, cano com 0,457m e peso de 3,103 Kg.

Detalhe da ação Mauser do modelo 1894
Detalhe da ação Mauser do modelo 1894

Em 1908, o governo resolve substituir o modelo 1894 pelo mais moderno e reforçado modelo da Mauser, o 1898, mas ainda em calibre 7X57mm, embora as armas do modelo 1894 continuaram em uso até meados da década de 50. Muitas delas foram equipar as Polícias Militares de alguns estados, como o do Rio de Janeiro, que mesmo nos anos 90 ainda eram vistas nas mãos de integrantes da PM daquele estado. Este fuzil passou a ser denominado aqui como Mauser modelo 1908. O fuzil M1908 media 1,247m, cano com 0,742m e peso de 3,796 Kg.

O fuzil Mauser “brasileiro” Modelo 1908, em calibre 7X57mm, modelo 1898, importado da D.W.M. e conhecido aqui como F.O. 08, Fuzil Ordinário “zero-oito”.
O fuzil Mauser “brasileiro” Modelo 1908, em calibre 7X57mm, modelo 1898, importado da D.W.M. e conhecido aqui como F.O. 08, Fuzil Ordinário “zero-oito”.

O período de maior aquisição de Mausers da D.W.M. feito pelo Governo Brasileiro foi entre 1908 e 1914, quando eclodiu a I Guerra e a D.W.M. não tinha sequer condições de suprir o mercado interno em tempos de guerra. Posteriormente, a aquisição de armas fornecida pela C.Z., da Tchecoslováquia, ocorreu principalmente de 1922 a 1924, com o fuzil conhecido como VZ24. (N.A.: as letras VZ é uma abreviatura da palavra tcheca “vzor”, que significa “modelo”; portanto se trata de uma redundância o costume de alguns autores citarem esse fuzil como “modelo VZ 24”). Um detalhe histórico interessante foi a importação feita pelo governo do Estado de São Paulo, de 15.000 carabinas da C.Z. (Tchecoslováquia), no ano de 1932, para suprir as tropas revolucionárias que se ergueram contra Getúlio Vargas; a chamada Revolução Constitucionalista.

Da Fabrique Nationale D’Armes de Guerre, a F.N. de Herstal, Bélgica, o Exército importou grande quantidade de carabinas, também entre os anos de 1922 a 1924, para uso de tropas de artilharia e cavalaria. A quantidade correta de armas importadas ainda não é devidamente comprovada. A ação era do Mauser 98, em calibre 7mmX57mm, alavanca de ferrolho curvada para baixo e a coronha seguia o estilo “inglês”, sem punho-pistola. A telha era de madeira do tipo inteiriça, apenas com uma abertura, de onde emergia a alça de mira. A braçadeira dianteira era do tipo estreito, não a tradicional em forma de H mais comumente encontrada nos fuzís. As carabinas mediam 1,063 m de comprimento, cano com 0,558 m e peso total de 3,601 Kg.

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As carabinas Mauser de fabricação belga “Fabrique Nationale D’Armes de Guerre”, importadas pelo Exército Brasileiro em 1922, calibre 7mmX57mm. Note que essas carabinas, embora utilizando ação 1898, possuíam a coronha sem punho-pistola e não havia o rebaixo na coronha, sob a manopla do ferrolho.
As carabinas Mauser de fabricação belga “Fabrique Nationale D’Armes de Guerre”, importadas pelo Exército Brasileiro em 1922, calibre 7mmX57mm. Note que essas carabinas, embora utilizando ação 1898, possuíam a coronha sem punho-pistola e não havia o rebaixo na coronha, sob a manopla do ferrolho.

Em 1930, a reviravolta política causada pela ascensão de Getúlio Vargas e a proclamação do “Estado Novo”, sistema modelado em vários aspectos à ditadura fascista de Mussolini, alavancou sobremaneira a re-equipação das Forças Armadas. Além disso, do nordeste do país vinha crescendo a ameaça constante do cangaço. Por essa razão, e com a produção um pouco limitada da Fábrica de Itajubá, o governo aceitou uma proposta da Mauser Werke, da Alemanha, já sob controle do partido nazista, que cultivava uma simpatia discreta com o Governo Getulista.

Acima, Mauser 1908 (M1898) do contrato brasileiro, com a marca B dentro de um círculo (acervo particular)
Acima, Mauser 1908 (M1898) do contrato brasileiro, com a marca B dentro de um círculo (acervo particular)
Mauser 1908, do contrato brasileiro, em calibre 7mmX57, com o ferrolho retirado
Mauser 1908, do contrato brasileiro, em calibre 7mmX57, com o ferrolho retirado

A Mauser, embora ainda  debaixo do Tratado de Versalhes e produzindo “secretamente” armas para equipar o Exército Alemão, ofereceu ao governo brasileiro o preenchimento desta demanda, com o Modelo 1935, em versões de fuzil ou de carabina. Essas armas, uma produção pré-guerra, apresentavam o que de mais perfeito a Mauser podia exibir no que tocava à acabamento e qualidade.

Carabina Mauser modelo 1935, ferrolho reto, em calibre 7mm X 57 Mauser; foi muito utilizada nas campanhas militares contra o cangaço nordestino – a arma acima foi negociada em leilão nos USA, totalmente original e sem uso – note o dispositivo cobre-mira atachado à boca do cano.
Carabina Mauser modelo 1935, ferrolho reto, em calibre 7mm X 57 Mauser; foi muito utilizada nas campanhas militares contra o cangaço nordestino – a arma acima foi negociada em leilão nos USA, totalmente original e sem uso – note o dispositivo cobre-mira atachado à boca do cano.
Detalhe da carabina de fabricação Mauser, mod. 1935, em calibre 7mm X 57.
Detalhe da carabina de fabricação Mauser, mod. 1935, em calibre 7mm X 57.

Na verdade essas armas eram idênticas ao modelo alemão de 1898, aqui adotado como M1908, com exceção da alça de mira tangencial já utilizada neste último modelo, além da incorporação de um rebaixo efetuado na parte frontal da coronha para melhorar a aderência da mão. Desta forma, essa similaridade não apresentava dificuldades maiores para o treinamento dos soldados, já acostumados à arma. Grande parte dessa importação permaneceu em arsenais brasileiros praticamente sem uso até a sua substituição pelo Mosquetão Itajubá, a partir de 1950, com a adoção do calibre .30-06 Springfield pelas Forças Armadas Brasileiras. Acredita-se que grande parte desses Mauser foram posteriormente retrabalhados e transformados no Mosquetão M1949.

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Mauser M1935, fabricação Mauser Werke, na versão longa (fuzil), em cal. 7mm X 57.
Mauser M1935, fabricação Mauser Werke, na versão longa (fuzil), em cal. 7mm X 57.
No alto, detalhe da ação da carabina Mauser 1935 – note o acabamento oxidado de primeira qualidade e o Brasão de Armas do Brasil – em baixo, detalhe lateral da ação e coronha em nogueira européia.
No alto, detalhe da ação da carabina Mauser 1935 – note o acabamento oxidado de primeira qualidade e o Brasão de Armas do Brasil – em baixo, detalhe lateral da ação e coronha em nogueira européia.

O MAUSER “BRASILEIRO”

Devido à grande demanda de fuzis para suprir as Forças Armadas Brasileiras durante a primeira metade do século XX, a Fábrica de Itajubá iniciou a fabricação “em casa” dos Mauser mod. 1908 como alternativa às importações que eram geralmente feitas junto à D.W.M. na Alemanha (Deutsche  Waffen und Munitionsfabrik) e da C.Z. (Ceska Sbrojovka), na então Tchecoslováquia, com a utilização de madeiras locais ao invés das nogueiras européias.  Foi então que a partir de 1934, e como forma de minimizar a dependência de importação de armas, a Fábrica de Itajubá decidiu produzir fuzís e carabinas no Brasil, originando assim o chamado modelo 1908/34, uma versão “nacionalizada” e encurtada, nos moldes das carabinas.

Carabina de cavalaria do modelo 1908/34, fabricado pela Fábrica de Itajubá em calibre. 7X57mm
Carabina de cavalaria do modelo 1908/34, fabricado pela Fábrica de Itajubá em calibre. 7X57mm

Em 1949, após a II Guerra, onde o Brasil participou com a F.E.B. nos campos de batalha da Itália, por influência e acordo militar com o governo norte-americano, o Exército resolveu adotar o calibre .30-06 como regulamentar, embora o 7X57mm continuou ainda, e por muito tempo, presente em algumas unidades do Exército, bem como nos “Tiro de Guerra”. Com essa modificação, a Fábrica de Itajubá começa a produzir uma carabina Mauser, baseada no 08/34 mas em calibre .30-06 Springfield, aqui batizada por Mosquetão Itajubá M1949. Posteriormente, uma segunda série com pequeníssimas mudanças, tais como a boca do cano rosqueada para permitir montagem de lança-granadas e quebra-chamas, foi fabricada em 1954, originando assim 0 Mosquetão Itajubá M954.

Mosquetão F.I. modelo 1949 em calibre .30-06 Springfield, baseado na ação Mauser de 1898
Mosquetão F.I. modelo 1949 em calibre .30-06 Springfield, baseado na ação Mauser de 1898
Uma das páginas interiores do manual, tratando da nomenclatura de algumas peças
Uma das páginas interiores do manual, tratando da nomenclatura de algumas peças
Capa do Manual de Campanha do Mosquetão 1949, edição do M.G. de 1956
Capa do Manual de Campanha do Mosquetão 1949, edição do M.G. de 1956

Em 1964, o Exército Brasileiro resolve adotar o fuzil semi e automático belga, o F.N. denominado F.A.L. (Fuzil Automatique Legère), ou fuzil automático leve, utilizando o cartucho padrão da OTAN, o 7,62mmX51, cartucho baseado no .308 Winchester. Paulatinamente, esse fuzil começou a substituir os mosquetões Itajubá M949 e M954, ainda em calibre .30-06. Em 1967, a fim de reduzir custos e poder padronizar mais rapidamente o calibre utilizado pelo Exército Brasileiro, a Fábrica de Itajubá resolve modificar cerca de 10.000 mosquetões para que pudessem usar o novo cartucho, aproveitando também para aliviar o peso da arma. Assim nascia o M968, apelidado pelo exótico nome de “Mosquefal”.

Acima, o Mosquetão M968 “Mosquefal”, em calibre 7,62mmX51 NATO
Acima, o Mosquetão M968 “Mosquefal”, em calibre 7,62mmX51 NATO

Essa transformação era de natureza simples. Como o culote do cartucho 7,62mmX51 tem exatamente o mesmo diâmetro do .30-06, não houve necessidade de se modificar nada no ferrolho, caixa de culatra e mecanismo de disparo. A alça de mira tipo Mauser foi eliminada, sobre o cano, e a telha de madeira, agora, não tinha mais a abertura superior para ela. Foi desenvolvida uma alça de mira traseira, tipo “peep-sight”, algo semelhante à usada no fuzil norte-americano Enfield 1917. Além disso, foi acrescentada uma massa de mira mais alta e um quebra-chamas, com suporte para possibilitar montagem de um lança-granadas, o mesmo utilizado pelo FAL. Essa arma ainda se encontra em uso até hoje em diversas unidades de “Tiro de Guerra”. Desta forma, foi decretada a “morte” definitiva do cartucho .30-06 Springfield nos quartéis brasileiros.

Durante as décadas de 70 a 80 a Fábrica de Itajubá lançou algumas carabinas baseadas nas ações Mauser de fuzís que eram, progressivamente, sendo recolhidos nas unidades do Exército, além do que ocorria com os leilões organizados pelo E.B. a fim de vender essas armas, ora obsoletas, para militares e colecionadores registrados.

Algumas dessas carabinas, feitas em muito pouca quantidade, foram distribuídas para algumas unidades policiais e para serem usadas em veículos militares. Eram carabinas curtas, chamadas de Officer, talvez uma alusão ao fato de serem utilizadas por oficiais. Segundo meu amigo e expert em fuzis, J. Renato M. Figueira, a intenção era de se fazer uma carabina do tamanho da americana .30M1. Tanto as ações de fuzis Mauser 1894 e 1898 foram utilizadas. Várias dessas armas foram, posteriormente, leiloadas pela Imbel. Conta Figueira que várias dessas peças, em leilão, estavam com suas coronhas tomadas por carunchos. O acabamento era o parquerizado, mais barato e simples de se fazer do que oxidação à quente e eram fornecidos com bandoleiras de lona.

AS ESPINGARDAS

Em meados da década de 60, diversos fuzis remanescentes do modelo 1893 em cal. 7X57mm. se encontravam completamente fora de serviço e espalhados por várias unidades do Exército Brasileiro. Surgiu então a idéia de se reaproveitar esse armamento, a grande maioria deles em perfeito estado; ao invés de serem destruídos, e lançando mão de pouquíssimo investimento, a Fábrica de Itajubá resolve transformá-los em uma arma para venda no comércio, destinada à caça; uma espingarda de alma lisa.

A espingarda Itajubá em calibre 28 – note a coronha sem “pistol grip”, característica dos fuzis Mauser 1893 – foto do autor
A espingarda Itajubá em calibre 28 – note a coronha sem “pistol grip”, característica dos fuzis Mauser 1893 – foto do autor

Da grande quantidade de armas recuperadas dos quartéis e depois de passarem por uma triagem, aproveitava-se a coronha com a soleira de metal, a ação completa (caixa de culatra com mecanismo de disparo, ferrolho e armação do carregador) e os acessórios da coronha como anilhos e presilhas de bandoleira. O cano, bem como as miras,  eram removidos e em seu lugar entrava um novo cano de alma lisa, fabricado na própria Itajubá. Foram escolhidos dois calibres para estabelecerem as duas versões da espingarda; o calibre 28 e o 36. Como não havia mais a alça de mira regulável, a nova telha que recobre parte do cano teve que ser feita à parte, por não ser possível a original ser reaproveitada. Note a coronha típica dos Mauser 1893, sem punho-pistola.

De acordo com o leitor Marcos Letro, militar e instrutor de tiro, as primeiras espingardas em calibre 36 foram colocadas à venda em 1962, oferecida para sargentos e oficiais do Exército, na época pelo preço de Cr$ 1.000,00 (Um Mil Cruzeiros ). Os modelos em calibre 28 foram lançadas entre 1965 e 1966, pois ainda havia disponibilidade de muitas peças em estoque. A esta altura, as espingardas já se encontravam à venda nas lojas de caça e pesca do país. O autor adquiriu uma calibre 28 no final de 1965, ao preço de Cr$ 45.500,00. Os pistolões, mais difíceis de serem encontrados hoje em dia, em calibre 36, foram os últimos a serem fabricados, pois não havia mais disponibilidade de coronhas, diz o leitor colaborador.

Detalhe da culatra aberta mostrando um cartucho “Velox” da CBC calibre 28
Detalhe da culatra aberta mostrando um cartucho “Velox” da CBC calibre 28

A escolha desses dois calibres não foi feita tão somente pelo fato de serem, na época, muito populares para caças pequenas e de aves. O fato é que, no caso do calibre 28, havia uma feliz coincidência de que os cartuchos podiam se encaixar corretamente, de ambos os lados, nas abas do carregador, mas somente em número de dois, um em cima do outro. Havia a possibilidade de se colocar mais um cartucho diretamente na câmara, o que fazia a arma comportar tres cartuchos.

A Itajubá em calibre 36 – o autor supõe que, neste calibre, foi mantido o cano original da carabina Mauser, aberto para o calibre 36, uma vez que até a massa de mira foi mantida.
A Itajubá em calibre 36 – o autor supõe que, neste calibre, foi mantido o cano original da carabina Mauser, aberto para o calibre 36, uma vez que até a massa de mira foi mantida.

No caso do calibre 36, a coisa era mais fácil de se adaptar; nem foi necessário o uso de uma lâmina de transporte dos cartuchos de forma plana, como no caso da 28; podia-se usar a mesma lâmina original do fuzil, com a nervura de divisão central, visto que os cartuchos podiam ser carregados de forma bifilar tal como os originais calibre 7X57mm.

Culatra da Itajubá 28, aberta – note a inscrição “Full-Choke” sobre a câmara e a lâmina (lisa) levantadora dos cartuchos.
Culatra da Itajubá 28, aberta – note a inscrição “Full-Choke” sobre a câmara e a lâmina (lisa) levantadora dos cartuchos.

Infelizmente nos faltam dados sobre a produção e vendas dessas duas espingardas, bem como até que ano foram produzidas;  depois de várias tentativas de contato com a Imbel, não obtivemos resposta e colaboração dela neste sentido. Talvez, se um dia recebermos essas informações, elas serão sem dúvida adicionadas aqui. Mas, pode-se afirmar sem medo de errar que essas espingardas foram bem vendidas. O preço era convidadivo, custando um pouco mais que uma espingarda da Amadeo Rossi ou da CBC, modelos de um cano, de cão externo, armas bem mais simples.

Detalhe da ação Mauser 1893 usada na espingarda Itajubá calibre 28
Detalhe da ação Mauser 1893 usada na espingarda Itajubá calibre 28
Além de uma pequena diferença na usinagem da cabeça do ferrolho, na ação do modelo em calibre 36 não se nota mais nenhuma diferença em relação à calibre 28
Além de uma pequena diferença na usinagem da cabeça do ferrolho, na ação do modelo em calibre 36 não se nota mais nenhuma diferença em relação à calibre 28

Os modelos eram fornecidos com canos em “full-choke“, ou seja, com um certo estrangulamento, característica que aliada ao grande comprimento do cano (740 mm), permitia um alcance considerável para o calibre. O autor fez testes do tipo “pattern” na espingarda de calibre 28, em alvo de papel, para se avaliar a densidade de chumbos. A 1o metros de distância, o diâmetro da chumbada de número 7 estava em torno de 40 centímetros, o que mostra uma concentração muito grande.

Ferrolho completo da ação 1893 – a única alteração feita no desenho original foi a usinagem da parte dianteira, eliminando-se o rebaixo existente que comportava o culote dos cartuchos 7X57mm
Ferrolho completo da ação 1893 – a única alteração feita no desenho original foi a usinagem da parte dianteira, eliminando-se o rebaixo existente que comportava o culote dos cartuchos 7X57mm

Além disso, a confiabilidade era muito boa, pois mesmo se tratando de uma adaptação de um fuzil para uso com cartuchos de caça, a arma muito dificilmente dava problemas de alimentação e de ejeção. Porém, os cartuchos tinham que ser do tipo com boca rebordada, de papelão ou plástico. Cartuchos de metal, do tipo “Presidente” produzido pela CBC, em virtude de terem a boca em canto vivo, enroscavam na alimentação. Outro fator importante era a qualidade do produto e sua durabilidade, pois com excessão do cano, se tratava de um fuzil fabricado na Alemanha com os melhores materiais de que se dispunha na época. Sem dúvida, uma arma que duraria por várias dezenas de anos, se convenientemente bem tratada.

Na espingarda Itajubá em calibre 28, a lâmina transportadora do carregador dos cartuchos teve a sua nervura central aplainada, para poder comportar um cartucho de cada vez
Na espingarda Itajubá em calibre 28, a lâmina transportadora do carregador dos cartuchos teve a sua nervura central aplainada, para poder comportar um cartucho de cada vez
Culatra aberta do modelo em calibre 36 – nota-se a nervura existente na lâmina levantadora de cartuchos, que possibilita o posicionamento de 4 cartuchos, intercalados dois a dois.
Culatra aberta do modelo em calibre 36 – nota-se a nervura existente na lâmina levantadora de cartuchos, que possibilita o posicionamento de 4 cartuchos, intercalados dois a dois.

Uma variante bem mais rara, derivada do mesmo projeto, foi uma espécie de pistolão, lançado no calibre 36 nos finais da produção, por ainda possuírem em estoque o mecanismo da ação, mas não mais dispondo mais de coronhas. O pistolão usava uma coronha tipo pistola, com a empunhadura posicionada logo abaixo da culatra e um pequeno fuste colocado na parte anterior, sob o cano, que tinha pouco mais de 30 cm. de comprimento. Era um pouco desconfortável o manuseio da ação por ferrolho, uma vez que a mão esquerda deveria estar empunhando a arma enquanto a direita abria o ferrolho. Esse pistolão foi bem menos disponibilizado no mercado do que as espingardas.

Acima, o pistolão Itajubá, utilizando ação Mauser do tipo 1898 (gentileza de um leitor)
Acima, o pistolão Itajubá, utilizando ação Mauser do tipo 1898 (gentileza de um leitor)

Os últimos exemplares produzidos, já com a empresa utilizando seu novo nome, Imbel, usavam ações do Mauser tipo 1898, provavelmente oriundas de fuzis remanescentes do Contrato Brasileiro de 1908. Acredita-se que essas últimas saíram de linha no final dos anos 70. Mesmo nos fuzis Mauser, a ação modelo 1898 tem uma diferença marcante em relação à modelo 1893, dentre outras visando maior segurança: na ação 1898, o simples fato de se erguer a alavanca do ferrolho e baixá-la novamente, já arma o percussor. Na ação 1893, após a alavanca erguida, o ferrolho tem que ser puxado um pouco para trás para se proceder ao engatilhamento.

Espingarda Imbel calibre 28, últimas séries, já utilizando ação do fuzil Mauser 1908 – repare a coronha utilizada, original do fuzil 1908, com punho-pistola e agora sem a telha superior – (Foto cortesia de D.A.N.)
Espingarda Imbel calibre 28, últimas séries, já utilizando ação do fuzil Mauser 1908 – repare a coronha utilizada, original do fuzil 1908, com punho-pistola e agora sem a telha superior – (Foto cortesia de D.A.N.)
Detalhe da estampa da Imbel, gravada sobre a câmara e dados do calibre (Foto cortezia de D.A.N.)
Detalhe da estampa da Imbel, gravada sobre a câmara e dados do calibre (Foto cortezia de D.A.N.)
Detalhe do ferrolho aberto da Imbel calibre 28, onde se nota claramente as características da ação Mauser tipo 98, como a orelha lisa da trava de segurança, mais um dente de trancamento traseiro e o trilho/guia superior no cilindro do ferrolho. Note bem no centro da foto, fixada à armação via um parafuso, a alavanca de trava do ferrolho, utilizada para a retirada do mesmo e também como alojamento do ejetor de cartuchos. (Foto cortezia de D.A.N.)
Detalhe do ferrolho aberto da Imbel calibre 28, onde se nota claramente as características da ação Mauser tipo 98, como a orelha lisa da trava de segurança, mais um dente de trancamento traseiro e o trilho/guia superior no cilindro do ferrolho. Note bem no centro da foto, fixada à armação via um parafuso, a alavanca de trava do ferrolho, utilizada para a retirada do mesmo e também como alojamento do ejetor de cartuchos. (Foto cortezia de D.A.N.)

DETALHES DE FUNCIONAMENTO

De maneira análoga ao manuseio do fuzil Mauser, abre-se a culatra puxando-se o ferrolho totalmente para trás. Insere-se dois cartuchos no carregador (cal. 28), por cima, de forma que o último fique retido pelas abas traseiras. Um terceiro cartucho pode ser inserido diretamente na câmara. Neste caso, antes de fechar o ferrolho, exerce-se uma pequena pressão para baixo no último cartucho para que o ferrolho passe por cima dele e tranque sobre o cartucho existente na câmara.

Marca de fábrica do lado esquerdo da culatra na espingarda calibre 36
Marca de fábrica do lado esquerdo da culatra na espingarda calibre 36

Após cada disparo, o ferrolho necessita ser aberto até o final de seu curso, ejetando o cartucho vazio; fecha-se novamente o ferrolho, quando o cartucho seguinte no carregador se solta das abas, para ser alimentado. Em relação aos cartuchos utilizados, dever-se tomar o cuidado de se usar os designados para câmaras de 65mm e não os de 70mm, que poderá ocasionar problemas sérios.

O mecanismo de gatilho, mantido exatamente como o original, não é particularmente muito duro, mas tem a característica típica dos fuzis Mauser, que são os dois estágios bem definidos e com curso bem longo. De qualquer forma, mesmo se tratando se arma derivada de um fuzil militar, o acionamento do gatilho é macio.

A trava de segurança, que é de uma eficácia a toda prova pois impede de forma muito consistente o movimento do percussor, funciona da seguinte maneira:

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À esquerda, ferrolho destravado e desengatilhado; no centro, arma engatilhada e travada (o ferrolho pode ser manuseado desta forma com total segurança); à direita, trava total acionada, que não permite nem a abertura do ferrolho para manuseio.

Detalhe da desmontagem parcial do ferrolho, para limpeza interna e lubrificação – com a trava de segurança na posição intermediária, basta desatarrachar o conjunto traseiro do corpo cilíndrico do ferrolho. Em cima, o cilindro com alavanca de manejo e lâmina do extrator. Abaixo, conjunto do percussor com sua mola, guia e trava de segurança.
Detalhe da desmontagem parcial do ferrolho, para limpeza interna e lubrificação – com a trava de segurança na posição intermediária, basta desatarrachar o conjunto traseiro do corpo cilíndrico do ferrolho. Em cima, o cilindro com alavanca de manejo e lâmina do extrator. Abaixo, conjunto do percussor com sua mola, guia e trava de segurança.

O ferrolho pode ser retirado da arma com muita facilidade. Do lado esquerdo da culatra há um retém, articulado em um pino, com um ressalto serrilhado na parte superior. Abre-se o ferrolho até o final do curso, abre-se esse retém para fora, puxando-o para a esquerda e retira-se o ferrolho. Ao recolocar o ferrolho na arma, não é necessário se mover o retém, mas atenção com o posionamento correto da lâmina do extrator.

O funcionamento da calibre 36 era mais garantido do que na 28. Nesta última, o autor teve a oportunidade de usar várias delas, a extração nem sempre ocorria de forma adequada. Interessante citar que cartuchos carregados eram extraídos com mais eficiência do que os vazios. Muitas vezes, esses eram corretamente extraídos da câmara mas por questão de ajustes, eram “largados” pelo extrator no meio do percurso, antes de atingirem o ejetor, que fica localizado na trava do ferrolho, lado esquerdo da caixa da culatra.

CONCLUSÃO

Trata-se de uma arma curiosa, tanto nos aspectos técnicos como da forma como foi idealizada. No Brasil da década de 60, com pouquíssimos fabricantes concorrentes e nenhuma espingarda com padrões altos de qualidade, diga-se de passagem, a Fábrica de Itajubá teve a chance e a idéia interessante de reaproveitar armas militares, cujo destino certo seria a destruição, e lançar uma espingarda no mercado, com investimento baixíssimo e praticamente nenhum custo de desenvolvimento.

Mesmo se tratando de uma adaptação, a arma tinha suas virtudes como extrema resistência, qualidade dos materiais e robustez a toda prova. Sua semelhança com os fuzis Mauser de repetição podem ter inclusive, ajudado nas vendas pois era uma arma atraente e muito mais vistosa que as simples espingardas de um tiro e de um cano existentes na época.

À esquerda, caçador em ação com a Itajubá 28 na década de 60

A desvantagem ficava por conta do tamanho avantajado, embora os modelos em calibre 36 tiveram uma opção que utilizava canos mais curtos; em relação ao transporte, elas eram realmente um tanto incovenientes e chamavam muito a atenção, pois não tinham o recurso comum nas espingardas tradicionais de se separar o cano do resto da arma, inclusive sem uso de ferramentas.

O acabamento é muito bom, de modo geral, com o madeiramento bem conservado e envernizado brilhante, e peças em aço com oxidação negra brilhante. O ferrolho foi mantido em aço puro, sem acabamento algum. Estéticamente a arma peca um pouco pela parte dianteira onde, com a retirada do prolongamento do fuste do fuzil, a coronha termina de forma um tanto abrupta.

A ITAJUBÁ ATÉ 2010

Hoje, a fábrica de Itajubá é parte do complexo fabril da Imbel, fornecedora de armamento bélico para as forças armadas, incluindo aí o fuzil FAL M964, a carabina MD97, as pistolas baseadas no projeto 1911 M973 bem como armas para uso de civís e atiradores na categoria “Tiro Prático” (I.P.S.C.) como o modelo GC45. Além disso ainda produz munição de uso militar e vários tipos de pólvora destinados aos atiradores que se dedicam à recarga de cartuchos. A carabina MD1 em calibre .22LR é outra arma destinada ao público atirador esportivo, conforme nos mostra o material promocional abaixo.

Esta arma é a substituta de outra carabina no mesmo calibre, lançada pela Fábrica de Itajubá nas décadas de 70 a 80, com o intuito de competir no mercado com suas rivais da CBC e da Rossi. Era uma carabina com carregador destacável de 5 cartuchos, de repetição por ferrolho, muito bem construída com materiais de primeira linha. Em sua época, provou ser uma das mais agradáveis e precisas carabinas nacionais.

Detalhe do ferrolho aberto da carabina Itajubá em calibre .22 LR. Essa era a posição do ferrolho quando ele poderia ser retirado para limpeza.
Detalhe do ferrolho aberto da carabina Itajubá em calibre .22 LR. Essa era a posição do ferrolho quando ele poderia ser retirado para limpeza.

DADOS RESUMIDOS DA ESPINGARDA 28 E 36

  • Data de fabricação: entre 1965 a 1975 (estimado)
  • Calibre: 28 e 36
  • Capacidade: 28 (3 cartuchos) e 36 (5 cartuchos) incluindo um câmara
  • Acabamento: oxidada
  • Comprimento total: 125 cm (28) e 107 cm (36)
  • Comprimento do cano: 74mm (28) e 56mm (36)
  • Pêso: 2,500 Kg descarregada (28) e 2,325 Kg (36)

 

 

 

Fonte: Armas Online

José Ricardo Rosa, 55, conhecido como “Tatão” segurando um tijolo com a suástica nazista; após herdar a fazenda Cruzeiro do Sul na cidade de Campina do Monte Alegre ele encontrou por acaso tijolos com o sinal nazista usados na construção -Fonte Folha de São Paulo – Carlos Cecconello

Escombros de fazenda no interior paulista revelam passado de admiração ao nazismo

Os tijolos que hoje se desprendem de uma velha capelinha da fazenda Cruzeiro do Sul, servem como pistas para rastrear como um integrante de um abastado clã do Rio de Janeiro transformou sua propriedade num testemunho de admiração ao nazismo nos anos 1930.

Nessa fazenda, os blocos de barro eram feitos com uma suástica estampada.

Alguns desses tijolos viraram material para pesquisadores, assim como fotografias de bois marcados a ferro quente com o símbolo nazista, bandeiras e uma série de outros documentos encontrados na propriedade.

José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista – Folha de São Paulo – Carlos Cecconello
José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista – Folha de São Paulo – Carlos Cecconello

No início do século 20, a família carioca Rocha Miranda adquire uma extensa área de terra no interior do estado de São Paulo. Os Rocha Miranda eram na época proprietários do Hotel Glória, da Casa Bancária Rocha Miranda e da companhia de aviação Panair, entre outras empresas do Rio de Janeiro, então capital da República. Ao lado dos Guinle e dos Leal, eram uma das famílias mais ricas do Brasil.

A exploração dessas áreas do interior paulista teve início no fim do Império. Elas foram parte do presente de D. Pedro I (1798-1834) ao brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar (1794 – 1857), fundador da Polícia Militar de São Paulo, por seu casamento com a Marquesa de Santos (1797 – 1867), oficializado em 1842. Em 1906, o brigadeiro as vendeu para Luis Rocha Miranda.

José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista – Carlos Cecconello/Folhapress
José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista – Carlos Cecconello/Folhapress

As terras abarcavam as fazendas Santa Albertina, Cruzeiro do Sul, Retiro Feliz, Mandaçaia, Cavalinho e Sobradinho, em uma área de 40 mil hectares na região de Buri. É dentro dessas terras que se encontra a Guatambu, fazenda-sede da Agropecuária Guatambu Ltda.

As terras teriam sido compradas para a prática da caça a perdizes, aves características daqueles campos. Contam-se muitas histórias sobre as caçadas que os Rocha Miranda realizavam ali, junto aos numerosos amigos que traziam do Rio de Janeiro em composições fretadas da Estrada de Ferro Sorocabana. Integradas por carros-dormitório, carro-restaurante e carro-sala de estar, especialmente decoradas, essas composições permaneciam em uma estação construída pelos Rocha Miranda e hoje conhecida como Estação Hermilo, em Angatuba (SP). Terminada a temporada de caça, o luxuoso trem os levava de volta para o Rio de Janeiro.

Em 1934 a família Rocha Miranda dá início, nessas terras, à criação e seleção de gado Nelore. Com a morte do patriarca seus três filhos, Sérgio, Oswaldo e Renato Rocha Miranda, tomam posse das propriedades.

Aloysio Silva, 89, foi uma das crianças trazidas de um orfanato do Rio de Janeiro na decada de 30 para trabalhar na Fazenda Santa Albertina de propriedade de Oswaldo Rocha Miranda; ele afirma ter sido submetido a normas e costumes escravagistas – Carlos Cecconello/Folhapress
Aloysio Silva, 89, foi uma das crianças trazidas de um orfanato do Rio de Janeiro na decada de 30 para trabalhar na Fazenda Santa Albertina de propriedade de Oswaldo Rocha Miranda; ele afirma ter sido submetido a normas e costumes escravagistas – Carlos Cecconello/Folhapress

Sérgio Rocha Miranda cuidava da fazenda Cruzeiro do Sul. A propriedade vizinha, a Santa Albertina, ficava sob os cuidados de seu irmão, Oswaldo Rocha Miranda. Nela, funcionava uma espécie de fazenda-orfanato para 50 meninos mantidos em um regime quase escravo.

Com idades entre 9 e 12 anos, esses garotos (somente dois deles brancos) foram entregues a Oswaldo em 1933 e 1934, após decisão judicial.

Todos haviam sido abandonados no orfanato católico Educandário Romão de Mattos Duarte, no Rio, e foram retirados de lá por Oswaldo com a promessa de terem uma vida melhor, segundo Aloysio Silva, 89, o “menino número 23″ da lista de 50.

“Era uma vida diferente da prometida. Era castigo por tudo, trabalhava muito, até de fazer a mão sangrar”, conta Aloysio, o número 23.

Quero saber da minha mãe, pai e irmãos antes de morrer. É muito triste ficar velho sem saber quem é nossa família. Como não conheci ninguém, sou assim meio revoltado. Dá um negócio assim…Uma revolta danada daquela vida na fazenda.

Dessa forma, Aloysio Silva, 89, pai de sete filhos e morador de Campina do Monte Alegre (SP), reage sobre os quase dez anos vividos na Fazenda Santa Albertina.

Silva foi transferido do Educandário Romão de Mattos Duarte, no Rio, para a Santa Albertina em 1933. Lá, por dez anos, deixou de ser Aloysio para ser o “23”.

Aloysio Silva foi uma das 50 crianças trazidas para trabalhar na fazenda, todas atendiam por números e não pelos nomes, Aloysio era o número 23 – Carlos Cecconello/Folhapress
Aloysio Silva foi uma das 50 crianças trazidas para trabalhar na fazenda, todas atendiam por números e não pelos nomes, Aloysio era o número 23 – Carlos Cecconello/Folhapress

“Os bichos tinham documento e nome na fazenda. E nós éramos tudo número, como se nós fôssemos gado”, diz ele. “O cumprimento na fazenda era sempre ‘Heil Hitler’ ou ‘Anauê’ [saudação dos integralistas], mas a gente nem sabia o que era esse negócio de nazismo.”

Segundo os documentos do orfanato, Silva foi abandonado pela mãe, Maria Augusta da Silva, quando tinha três anos. O local era conhecido como “Casa da Roda”: do lado de fora, familiares colocavam bebês e crianças em uma portinhola que girava até as freiras, do lado de dentro.

Além do nome da mãe, Silva também sabe o de uma irmã, Judith, mas nunca conseguiu localizá-las. “A família vivia ali por onde hoje é o aterro do Flamengo. Só sei disso, mas queria achar alguém.”

Na fazenda, Silva se notabilizou por ser um corajoso “domador de bois, cavalos e burros bravos” e como um dos melhores jogadores de futebol do time dos Rocha Miranda.

A vida na fazenda era sofrida demais. Tinha castigo por tudo. (…) As traquinagens de moleque sempre terminavam com castigo. Era no silo [tanque de armazenamento de cereais] que eles deixavam a gente, como se fosse cadeia“, relembra. “A palmatória tinha uns buracos. Quando batia na mão da gente, sugava tudo. Doía muito.

Reprodução de foto encontrada nas fazenda da família Rocha Miranda em Campina do Monte Alegre interior de São Paulo, em que gados eram marcados com a suástica nazista
Reprodução de foto encontrada nas fazenda da família Rocha Miranda em Campina do Monte Alegre interior de São Paulo, em que gados eram marcados com a suástica nazista

Já os irmãos Maurício e Ângela Rocha Miranda, herdeiros de parte da fazenda Santa Albertina, contestam as versões que colocam seus tios-avôs como simpatizantes de práticas nazistas nas fazendas da família.

Segundo Maurício, o apoio de Sérgio Rocha Miranda ao nazismo durou somente até o momento em que descobriu as reais intenções de Adolf Hitler, por volta de 1934.

Sérgio era um homem viajado, que gostava da boa vida. Era, sim, simpatizante do nazismo no início da década de 1930, como diversas pessoas na sociedade brasileira também eram. Havia um partido nazista no Brasil.”

Parte da fazenda Cruzeiro do Sul está em ruína. (Foto: Divulgação)
Parte da fazenda Cruzeiro do Sul está em ruína. (Foto: Divulgação)

No entanto, diz Maurício, no fim de 1934, com a ascensão de Hitler ao poder, Sérgio deixou de flertar com o nazismo e eliminou a suástica como símbolo da fazenda.

Sobre os 50 meninos trazidos do orfanato por Oswaldo Rocha Miranda, ele afirma que o tio-avô o fez, “com aval do governo da época“, para atender o pedido de sua mulher de “dar escola, educação e profissão aos órfãos”.

Era uma fazenda aberta e eles tinham de ser controlados, mas jamais foram castigados, punidos ou escravizados“, afirma.

Maurício e Ângela captam em vídeo depoimentos de ex-funcionários e de frequentadores das fazendas para mostrar como os Rocha Miranda são bem conceituados nas cidades que se desenvolveram ao lado de suas terras.

Ainda segundo Maurício, o historiador Sidney Aguilar Filho nunca procurou ouvir a versão da família para sua tese de doutorado. Sidney disse não ter conseguido contato com os Rocha Miranda.

Tijolos com a suastica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul – Carlos Cecconello/Folhapress
Tijolos com a suastica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul – Carlos Cecconello/Folhapress

As fazendas, que se espalhavam por área que hoje alcança três municípios. As primeiras marcas do nazismo foram descobertas em 1997 pelo tropeiro José Ricardo Rosa Maciel, 55, o Tatão. Dono de espessa barba branca, ele narra a descoberta.

Teve uma briga da porcada, que derrubou a parede do chiqueiro. Quando vi o estrago, achei os tijolos com a marca nazista. Passaram anos me chamando de louco, mas agora tá tudo comprovado pelos estudos do doutor Sidney.

Tatão se refere ao historiador Sidney Aguilar Filho, 45. Em 1998, ele dava aula para a enteada de Tatão quando ela revelou que, na fazenda onde vivia, havia tijolos com aquele “símbolo alemão” das aulas de história. Sidney investigou por mais de uma década e, em 2011, apresentou sua tese de doutorado na Unicamp sobre a exploração do trabalho e a violência à infância no país no período de 1930 a 1945.

Por muitos anos, aqueles meninos foram submetidos a um regime de trabalho como se fossem adultos, sem remuneração, sem liberdade de ir e vir e estudando pouco. Mas aquilo era aceito pela sociedade”, diz ele.

Anos mais tarde, o tenente da Força Aérea Brasileira Renato Rocha Miranda Filho viria a tornar-se o único herdeiro de todo o patrimônio.

A professora Ana Maria Dietrich, doutora em história, fala que a maior célula nazista no Brasil ficava no estado de São Paulo. “A principal organização era na capital, mas outros núcleos existiram em Santo André, Santos, Campinas, Jundiaí, Presidente Bernardes, Presidente Venceslau e Assis”, fala.

Tijolos com a suástica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul de propriedade de Sergio Rocha Miranda, que era simpatizante do nazismo durante a década de 30 e 40 – Carlos Cecconello/Folhapress
Tijolos com a suástica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul de propriedade de Sergio Rocha Miranda, que era simpatizante do nazismo durante a década de 30 e 40 – Carlos Cecconello/Folhapress

Apesar dessa presença marcante com esses núcleos, Dietrich explica que a pior parte da ideologia nazista não atravessou o oceano Atlântico. “No Brasil só existia o fascínio. Não tinha o terror que acontecia na Alemanha”, finaliza.

A partir de material coletado através de reportagem produzida pelo jornalista ANDRÉ CARAMANTE

Fontes:

http://tokdehistoria.com.br/

http://www.folhadedourados.com.br/noticias/brasil-mundo/escombros-de-fazenda-revelam-passado-de-admiracao-ao-nazismo

http://www.guatambu.com.br/historia.html

http://www.controversia.com.br/blog/marcas-do-nazismo-chamam-a-atencao-no-interior-de-sao-paulo/

As estradas do leste da Ucrânia estão repletas de entulhos de guerra: bloqueios, crateras, blindados e caminhões camuflados. Volta e meia, uma camionete Mitsubishi L200 com uma chamativa pintura em padrão geométrico de camuflagem dá as caras. É o polêmico Batalhão Azov. A estampa de guerra, marca registrada do Azov, cobre caminhões e jipes de transporte e anuncia a chegada do batalhão prestes a lutar em carros de combate personalizados e blindados.

No subúrbios de Kiev é onde são construídos os “blindados Mad Max”, como os soldados se referem aos seus transportes militares. (O apelido cinematográfico se deve ao estilo da construção: assim como nos filmes, os membros do grupo erguem seus transportes a partir de sucatas e peças descartadas.)

A linha de montagem dos Azov situa-se em uma antiga fábrica de tratores, onde o Grupo de Engenharia da agremiação mantém uma sede. No andar de cima do galpão da frente, encontram-se um trator enferrujado e uma roda de engrenagem com a foice e martelo estampados. Embaixo, uma grande bandeira do Batalhão Azov.

Um guarda e um amigável pastor alemão nos dão boas vindas. A fábrica de tratores foi abandonada anos atrás. O terreno foi destinado a um desenvolvimento residencial, mas acabou vítima de papelada burocrática e invasores.

Panorama da garagem do Grupo de Engenharia Azov, 9 de setembro de 2015, Kiev, Ucrânia. À esquerda, um chassi invertido de um tanque se encontra em processo de desmontagem, antes de ser reconstruído como um novo veículo, muito semelhante ao “Azovette” (canto superior direito), que passou por construção similar. Créditos: Pete Kiehart
Panorama da garagem do Grupo de Engenharia Azov, 9 de setembro de 2015, Kiev, Ucrânia. À esquerda, um chassi invertido de um blindado se encontra em processo de desmontagem, antes de ser reconstruído como um novo veículo, muito semelhante ao “Azovette” (canto superior direito), que passou por construção similar. Créditos: Pete Kiehart

O membro do Azov e capataz da fábrica, Bogdan Zvarych, conta que o grupo se mudou para o estabelecimento no começo do ano, depois que a polícia pediu a ajuda do batalhão para esvaziá-lo. “Estava cheio de criminosos. Havia pessoas com armas, drogas, fazendo falsas bebidas alcoólicas”, disse. “A polícia comum não conseguia entrar aqui, era muito difícil.”

Ao perceber que tinham esbarrado com a oficina ideal, os Azov assinaram um contrato de aluguel e se instalaram por ali.

“Antes, preparávamos os nossos caminhões em garagens comuns ao redor de Kiev. Esses veículos blindados e foguetes anticarro estavam dando sopa na garagem de um cidadão”, ele ri. “Esta é a nossa realidade, a realidade da Ucrânia.”

O orçamento do exército ucraniano entrou em queda depois que o país deixou a União Soviética, em 1991, tendência que só se reverteu recentemente. Quando as agressões separatistas começaram no leste, em março de 2014, a força de defesa do país totalizava 150 mil membros (dentro de uma população de 45 milhões), dos quais apenas 5 mil estavam prontos para combate.

Para amenizar a lacuna, voluntários se organizaram rapidinho, formaram batalhões e partiram para a frente de guerra.

Membros do Grupo de Engenharia Azov utilizam uma das poucas ferramentas de trabalho disponíveis em um mar de máquinas abandonadas. Este galpão, adjacente à garagem de trabalho, está repleto de fileiras e mais fileiras de maquinaria dilapidada; é um estoque abundante de peças de reposição. Créditos: Pete Kiehart
Membros do Grupo de Engenharia Azov utilizam uma das poucas ferramentas de trabalho disponíveis em um mar de máquinas abandonadas. Este galpão, adjacente à garagem de trabalho, está repleto de fileiras e mais fileiras de maquinaria dilapidada; é um estoque abundante de peças de reposição. Créditos: Pete Kiehart

A maioria dos batalhões voluntários, Azov incluso, foi incorporada à força de defesa ucraniana. Quase todos operam anonimamente com uma estrutura de comando própria — “somos todos irmãos”, afirma Zvarych. Cada grupo possui programas próprios de recrutamento e treinamento e, no caso do Azov, carros de combate próprios.

“Somos o único batalhão voluntário com uma fábrica de viaturas e carros de combate própria”, nos contou Zvarych, de peito estufado.

O Azov tem uma reputação controversa. Em grande parte por causa de seu fundador, um supremacista ariano, e de uma queda por simbologia nazista. A insígnia do batalhão – que muitos membros tatuaram no antebraço – é o símbolo do Wolfsangel modificado sobre outro favorito nazista, o símbolo do Sol Negro. Muitos membros do Azov riem do rótulo de neonazi e enfatizam que a Rússia é o único inimigo. Contudo, a reputação gerou consequências graves para o batalhão, incluindo a exclusão doprograma americano de treinamento militar.

Um membro do Grupo de Engenharia Azov trabalha no “Azovette”, um veículo de combate blindado, construído sobre o chassi de um tanque T-64. Créditos: Pete Kiehart
Um membro do Grupo de Engenharia Azov trabalha no “Azovette”, um veículo de combate blindado, construído sobre o chassi de um MBT T-64. Créditos: Pete Kiehart

O Azov e outros batalhões voluntários até têm blindados fornecidos pelo governo, mas Zvarych deixou claro que eles podem tomá-los de volta a qualquer momento. O mesmo não se aplica aos carros de combate Azov, que pertencem ao batalhão por completo, das esteiras à torre.

Zvarych nos convidou para entrar na oficina, onde uma pequena equipe de soldadores aprendizes, engenheiros e rapazes que trabalhavam lá desde que a fábrica produzia tratores concluíam sua criação mais recente, o “Azovette”.

O batalhão tem uma frota de veículos blindados diversos, inclusive um caminhão de lixo modificado que chamam carinhosamente de “Pechyvo”, termo ucraniano para “biscoito”. Agora eles estão tentando transformar um trator de fazenda – que no passado era um carro de combate – de volta em carro de combate.

Zvarych nos conduziu ao redor da fera metálica. Apontou para as camadas de blindagem, cada uma com 7 centímetros de grossura, repletas de fileiras de explosivos, projetados para dispersar o impacto de qualquer golpe. A maioria dos projéteis capazes de penetrar os 7 cm de blindagem é de mísseis de carga oca, isto é, cones ocos com projéteis de ponta côncava recheados de explosivos.

Quando são detonados, os explosivos atingem o ápice do cone e o impulsionam para frente. O cone então vira do avesso: um jato centralizado de energia explosiva que impulsiona o projétil para frente, de modo a produzir máximo impacto. Os explosivos da blindagem do Azovette servem para contra-atacar a carga oca; conduzem energia na direção oposta e, assim, o cone não vira do avesso e não concentra a explosão.

Um membro do Grupo de Engenharia Azov trabalha no “Azovette”, um veículo de combate blindado, construído sobre o chassi de um tanque T-64. Créditos: Pete Kiehart
Um membro do Grupo de Engenharia Azov trabalha no “Azovette”, um veículo de combate blindado, construído sobre o chassi de um MBT T-64. Créditos: Pete Kiehart

A blindagem é espaçada em camadas. Formam-se câmaras que mantêm os danos contidos em sua camada respectiva. Há sete câmaras na parte frontal e três nas laterais.

“Geralmente os MBTs têm uma blindagem de 10 ou 20 cm na frente, mas colocamos 1,4 m. Esse blindado aguenta de tudo, até mesmo alguns tipos de míssil ar-terra. Aguenta todo tipo de equipamento moderno, de quaisquer forças armadas”, disse Zvarych.

Ele argumenta que o Azovette é o blindado perfeito e compara seu veículo de 50 toneladas e cinco assentos com o Panzer VIII Maus, a super máquina blindada da Alemanha nazista, um golias de 188 toneladas completamente vedado, de proporções mitológicas, que nunca saiu da fase de protótipo.

As esteiras de um carro de combate costumam ser o seu ponto fraco. Os engenheiros do Azov então revestiram a base das esteiras com camadas de blindagem. Segundo Zvarych, projéteis precisariam acertar a base três vezes no mesmo ponto exato para atravessar o veículo.

Cabines de veículos descartadas, modificadas pelo Grupo de Engenharia Azov, em 9 de setembro de 2015, Kieiv, Ucrânia. A cabine amarela, no topo, veio de um tanque que foi transformado em escavadora e agora será transformado em um “Azovette”, um veículo de combate blindado. Créditos: Pete Kiehart
Cabines de veículos descartadas, modificadas pelo Grupo de Engenharia Azov, em 9 de setembro de 2015, Kiev, Ucrânia. A cabine amarela, no topo, veio de um carro de combate que foi transformado em escavadora e agora será transformado em um “Azovette”, um veículo de combate blindado. Créditos: Pete Kiehart

Por baixo de todo a blindagem, está o chassi de um velho carro de combate T-64, o melhor modelo de carro de combate soviético, de acordo com Zvarych.

“Os novos, o T-52 e o T-80, não são tão bons”, disse ele. “Os T-64 foram feitos apenas para a Rússia e a Ucrânia, não foram liberados para exportação, pois são os melhores.”

Ao que parece, é bem fácil encontrar um T-64 na Ucrânia. Durante o período de paz no país – da independência, em 1991, até o conflito atual que começou em março de 2014 – os blindados foram usados para outras coisas.

“A fábrica que fez os blindados os legalizou para uso cotidiano. Fizeram escavadoras e equipamentos agrícolas com as esteiras”, disse Zvarych, apontando para o corpo amarelo de um trator que já fez parte de um T-64 e agora está em construção novamente. “Qualquer pessoa pode comprar um.”

Veículo usado em testes. Um BRDM 2, viatura de reconhecimento leve. Créditos: Pete Kiehart
Veículo usado em testes. Um BRDM 2, viatura anfíbia de patrulha/reconhecimento leve dos tempos da Guerra Fria. Créditos: Pete Kiehart

“Comprar um blindado do governo custa em torno de 2 milhões de dólares, mas este trator custa menos de 50 mil, e com a ajuda dos nossos engenheiros, conseguimos construir um carro de combate muito melhor”, disse ele.

O Grupo de Engenharia Azov contém cerca de dez homens trabalhando sob a direção criativa do “professor maluco” do batalhão, Mykola Stepanov.

Stepanov trabalhou 46 anos na Fábrica Malyshev, como engenheiro e vice-diretor. A fábrica, propriedade do governo, era a maior produtora de carros de combate da URSS e foi o berço do T-64, que agora se encontra na nossa frente.

“Ele consegue criar o blindado que bem entender”, disse Zvarych.

Bogdan Zvarych (à direita), capataz do Grupo de Engenharia Azov, posa para um retrato com Mikael Skillt, conselheiro sueco e sniper do Batalhão Azov. Créditos: Pete Kiehart
Bogdan Zvarych (à direita), capataz do Grupo de Engenharia Azov, posa para um retrato com Mikael Skillt, conselheiro sueco e sniper do Batalhão Azov. Créditos: Pete Kiehart

Stepanov estava na área quando fizemos a visita. Ele ficou o tempo todo de pé em uma estação de trabalho, com os óculos na ponta do nariz, quieto e silencioso, exceto por batidas ocasionais do lápis na planta do projeto.

“Para ele, esse é o trabalho dos sonhos. É o nosso cientista maluco”, disse Zvarchy. “É muito mais fácil construir os blindados que ele quer aqui, porque ele não precisa atender grandes reuniões para definir a instalação de cada parafuso.”

Quando Stepanov coloca uma ideia no papel, os engenheiros e soldadores a transformam em realidade. “Se os russos tentassem fazer algo do tipo, levaria 10 anos. Na Ucrânia, talvez 8 anos. Em Azov, leva cerca de seis meses”, disse Zvarych.

Zvarych acredita que o Azovette ficará pronto nos próximos dois meses.

Um veículo de esteiras anfíbias que foi doado ao batalhão aguarda modificações do lado de fora da garagem do Grupo de Engenharia Azov. Créditos: Pete Kiehart
Um PTS-M (Plavayushij Transportyer – Sryednyij), veículo médio de transporte anfíbio que foi doado ao batalhão aguarda modificações do lado de fora da garagem do Grupo de Engenharia Azov. Créditos: Pete Kiehart

Dois canhões de calibre de 23 mm, de cano duplo, capazes de atirar 3.400 projéteis por minuto cada, serão instalados no blindado, além de um lançador carregado com 8 mísseis. Dentro, a cabine não tem janelas de visualização. No lugar das janelas, a equipe conta com câmeras frontais, traseiras e laterais no carro de combate, e opera a torre e as armas com joysticks.

“Lá dentro é como um videogame”, disse um dos soldados Azov.

Zvarych nos conduziu oficina adentro, rumo a um saguão que aparentava ser um cemitério de máquinas. “Podem até ser um lugar feio, mas há máquinas únicas aqui”, disse.

“Usamos bastante equipamento que foi deixado para trás. Na época da União Soviética, faziam máquinas para durar 50 anos”, disse ele. “Ainda são muito bons e muito precisos. Na URSS, tudo era assim. Um carro simplíssimo funcionava. Dá uns trancos, é feio, mas funciona. E vai funcionar por mais 50 anos.”

Um veículo anfíbio que foi doado ao batalhão aguarda modificações do lado de fora da garagem do Grupo de Engenharia Azov. Créditos: Pete Kiehart
Um veículo anfíbio que foi doado ao batalhão aguarda modificações do lado de fora da garagem do Grupo de Engenharia Azov. Créditos: Pete Kiehart

Além de aproveitar ao máximo máquinas abandonadas, o batalhão vasculhou o estabelecimento atrás de sucatas de metal, e conta com doações de dinheiro e materiais de pessoas físicas e jurídicas ucranianas.

“Temos 1.200 combatentes e cerca de 50 mil pessoas ao nosso redor, trabalhando com o Azov. Há várias pessoas que querem simplesmente nos ajudar”, disse Zvarych. “Todo ucraniano sabe que o governo é inútil. Por isso, as pessoas nos ajudam com mão-de-obra, dinheiro, alimentos e roupas. Elas sabem que, com o Azov, estarão seguras. Com o governo, não.”

Sem dúvidas, a desconfiança em relação ao governo ucraniano é profunda aqui. Em bases militares, cafés e redes sociais, voam enxames de rumores sobre corrupção, incompetência e deslealdade.

“O governo ucraniano não seria capaz de construir esse blindado. Por quê? Porque roubam o dinheiro antes de aplicá-lo”, gracejou Zvarych.

Panorana do exterior da garagem do Grupo de Engenharia Azov, vigiada por um sentinela, 9 de setembro de 2015, Kiev, Ucrânia. Créditos: Pete Kiehart
Panorana do exterior da garagem do Grupo de Engenharia Azov, vigiada por um sentinela, 9 de setembro de 2015, Kiev, Ucrânia. Créditos: Pete Kiehart

Um soldado contou que, uma vez, ele e seus colegas “libertaram” 40 pacotes de óculos de visão noturna de um armázem do governo. Ele disse que os óculos foram doados à Ucrânia pelos EUA e Canadá como parte dos programas de assistência não letais desses países, mas, segundo o soldado, o governo ucraniano os trancafiou em um armazém a 50 km da linha de frente. Ele especula que o governo pretendia vender os óculos, em vez de repassá-los às tropas. A história do soldado não foi confirmada, mas é uma boa ilustração da pouca fé que os ucranianos depositam no governo.

“Sem brincadeira, o nosso governo não quer que este carro de combate ganhe vida”, disse Zvarych. Ele comentou que o governo está mais preocupado com dinheiro do que com o povo, uma postura que o Azov não engole. “A blindagem deste aqui custa 100 mil dólares, mas as cinco pessoas que estão dentro dele valem muito mais.”

Zvarych ecoa um sentimento que já ouvimos antes no discurso de soldados ucranianos: o governo não faz por onde deve. Zvarych disse que, desde que o Azov foi incorporado à força de defesa ucraniana, recebe apoio do governo, inclusive uniformes e armas. Mas, acrescentou, “Geralmente, as armas são uma merda. Tenho uma pistola fabricada em 1960… 1960!” Um soldado de passagem levantou uma pedra e comentou, “isto aqui é melhor”.

Um membro do Grupo de Engenharia Azov trabalha para desmontar um chassi de tanque invertido, 9 de setembro de 2015, Kiev, Ucrânia. O chassi será usado como base para outro veículo de batalha, semelhante ao “Azovette”. Créditos: Pete Kiehart
Um membro do Grupo de Engenharia Azov trabalha para desmontar um chassi invertido, 9 de setembro de 2015, Kiev, Ucrânia. O chassi será usado como base para outro veículo de batalha, semelhante ao “Azovette”. Créditos: Pete Kiehart

A insatisfação do Azov com o governo ucraniano e seus equipamentos é o motivo que os impulsiona a adicionar armas à linha de produção para o futuro próximo. No entanto, apesar do clima Mad Max no estabelecimento, não é uma distopia sem lei, e o Azov ainda pretende derrubar algumas barreiras burocráticas antes de expandir a fabricação de armas.

“Temos muitos especialistas que sabem como uma arma deve ser e funcionar, então quando ´tivermos licença, poderemos fazer nossos próprios tipos de armas”, disse Zvarych.

Então, isso significa que o Azov tem licença para o Azovette e os demais blindados Mad Max?

“Isto é um trator. No que diz respeito à papelada, isto é um trator”, Zvarych disse em um tom ironicamente inocente, “Nós simplesmente acoplamos metais a um trator. Por que precisaríamos de uma licença?”

Fonte: Motherboard Vice

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Aeroporto de Donetsk, Abril, antes de ser ferido em combate. Realizando manutenção na metralhadora DShK 12.7mm.

Do interior do Brasil à República Federativa da Rússia

Nascido no interior de São Paulo, mas hoje dorme de baixo de fogo constante em um acampamento militar no leste da Ucrânia, Rafael é voluntário das forças pró-Rússia na região de Donbass, no extremo leste da Ucrânia.

Sua carreira militar começou na Legião Estrangeira Francesa como paraquedista da Divisão de Montanha 2REP (2eme Régiment de Étranger Parachutistes), ao voltar ao Brasil foi Policial Militar formado na Academia de Oficiais da Polícia Militar Coronel Fontoura no IESP (Pará), atuando na cavalaria, no Regimento Montado Cassulo de Melo até pedir baixa da corporação para integrar as fileiras das forças armadas pro-russas no leste europeu em 2014 alcançando a patente de Tenente numa guerra civil que já matou mais de 5.000 pessoas.

Rafael durante o estágio de BMP-1, no dia seguinte recebeu a medalha Por combate contra forças da OTAN (vermelha) das mãos de seu comandante de batalhão, junta com a medalha por Bravura em comando e combate sob fogo inimigo que recebeu pessoalmente de Igor Strelkov. 20 de Agosto de 2015.
Rafael durante o estágio de BMP-1, no dia seguinte recebeu a medalha por combate contra forças da OTAN (vermelha) das mãos de seu comandante de batalhão, junta com a medalha por Bravura em comando e combate sob fogo inimigo que recebeu pessoalmente de Igor Strelkov. 20 de Agosto de 2015.

Meu nome é Rafael Marques Lusvarghi. Sou militar, oficial do quadro de combatentes, e um muito bom. Comecei minha carreira cedo, me alistando na Legião Estrangeira Francesa como paraquedista na Companhia de Montanha do 2REP on participei de algumas missões, e também fazendo alguns cursos. Fui dispensado por problema de saúde. Recuperado, de volta no Brasil, passei em concurso para Soldado da PM do Estado de São Paulo em fins de 2005.

Rafael e mais dois amigos na Legião Estrangeira Francesa (2006)
Rafael e mais dois amigos na Legião Estrangeira Francesa (2006)
Cavalaria da PMPA Regimento Cassulo de Melo, algum desfile (2009)
Cavalaria da PMPA Regimento Cassulo de Melo, durante desfile (2009)
PMPA após cerimonia do espadim (2007)
PMPA após cerimonia do espadim (2007)

Lá meu serviço foi basicamente interno, com apenas algumas poucas rondas ostensivas e rádio patrulha. Mas mesmo assim aprendi muito sobre funcionamento da área administrativa, e a parte burocrática sem a qual é impossível gerar uma grande força. Apesar de não gostar deste papel, considero indispensável a burocracia e padronização de procedimentos e modos operantes.

Claro que, ambicioso e orgulhoso, quis crescer e me tornar oficial. Passei no concurso para o CFO no Pará, e fui cursar a Academia de Oficiais da Policia Militar Coronel Fontoura no IESP. Tradicionalista, decidi por me aperfeiçoar na cavalaria e estive presente no Regimento Montado Cassulo de Melo.

Em 2010 cometi o grande erro de interromper minha carreira militar, pedindo baixa da corporação. Foi para ir viver na Rússia. Nunca tive paciência com a vida civil, a falta de disciplina e hierarquia, o preto no branco.

De volta ao Brasil em 2014, tomei certas atitudes por motivos que hoje discordo, a maneira como as manifestações se desenrolam no Brasil não é adequado. Gostaria de salientar aqui que sobretudo hoje sou apolítico, até tenho minhas concepções, acima de tudo contra todo esse vitimismo que assola nossa nação, quem quer consegue, quem quer faz, quem chora é fraco, e como dizemos no meio militar, os fracos que se explodam. Logo, me arrependo dos motivos que me levaram as ruas (durante as manifestações da Copa do Mundo no Brasil), mas não me arrependo das lutas que me envolvi. Como cidadão livre e em momento de folga, posso fazer o que bem entender não infringindo a lei. Se eu quiser beber e parar no meio de uma rua sem tráfego, farei, se quiser beber de saia, farei também. E estando certo, luto até a morte pelos meu direitos. Como dizem os US Marines, uma das melhores forças do mundo: Semper Fi, do or die!

Depois de solto retornei ao meu projeto de participar na guerra civil na Ucrânia, do lado pró-Rússia porque… Sou pró-Rússia incondicionalmente. Mas acontece que realmente são os pró-Rússia os certos nessa questão. E aqui me encontro a quase um ano (completo um ano em vinte de setembro). Comecei como simples guerrilheiro, sem sequer minha própria arma. Logo me tornei observador e soldado de reconhecimento, depois artilheiro, caçador, comandante de artilharia Grad BM21, especialista em canhão D-30, canhão 100mm Rapiera, comandante de grupo de reconhecimento, comandante de pelotão de infantaria anti-tanque, comandante de bateria de morteiro 120mm. Atualmente, estou sendo instruído nas especializações de piloto/mecânico/canhoneiro em T-64 e BMP-1 e 2, para, eventualmente, talvez trabalhar com blindados.

HMO – Qual foi sua primeira experiência como soldado e o que isso lhe proporcionou como militar e como pessoa?

Foi como legionário. Não só o treino e táticas, mas a formação psicológica e… digamos espiritual. Disciplina, determinação, organização. O lema a seguir é dos US Marines, uma grande elite também, mas cabe perfeitamente: Improvisar, adaptar e superar. Um homem com propósito e treinamento é quase imbatível.

HMO – O que o levou a se alistar na Legião Estrangeira Francesa?

O desejo de fazer parte de uma das maiores elites do mundo.

HMO – Qual foi o seu maior momento na LEF como paraquedista?

Foi quando, dentro já do Transall C-130, pouco antes de um salto, retirei do bolso uma câmera fotográfica. Quando o mestre de salto notou o que fiz, já era tarde. Porém, claro, uma vez no ponto de chegada, a punição já me aguardava. Mesmo assim, faria de novo.

HMO – O que lhe motivou a sair do Brasil para se juntar às fileiras do Exército pró-Rússia?

  1. Não vou negar, eu gosto de guerra. Além do mais, não é mentira, só vive em paz quem aprende a lutar.
  2. Sou pró-Rússia de carteirinha, foi só isso que me trouxe aqui, absolutamente nenhuma ideologia política.
Alchevsk, Setembro 2014, com instrutor de tiro 'Fix'. A arma é uma PTRS-41, utilizada contra blindados na Segunda Guerra Mundial, hoje utilizada como arma anti-sniper/sniper
Alchevsk, Setembro 2014, com instrutor de tiro ‘Fix’. A arma é uma PTRS-41, utilizada contra blindados na Segunda Guerra Mundial, hoje utilizada como arma anti-sniper/sniper

HMO – Qual função você exerce hoje dentro de sua unidade?

Juntamente com Raul A. (também brasileiro) terminei o curso de comandante/piloto/mecânico/atirador de BMP-1. Porém, continuo comandante de bateria de morteiro 120mm.

HMO – Como foi sua primeira experiência de combate com reais chances de fatalidades em seu tempo na Ucrânia?

Foi logo em outubro de 2014, em Vergulovka. Nem sequer tínhamos armas para todos, era ainda um momento que fazíamos rodízio. Fui para combate portando uma SKS com 5 cartuchos e nada mais. Um colega foi ferido no pé. Mas conseguimos capturar a posição, recolher algumas armas, e bater em retirada.

HMO – Como se sentiu na primeira vez em que um companheiro de combate foi fatalmente ferido ao seu lado?

É uma situação horrível, todas as vezes. Uma das poucas que não consigo ”calejar”. Fico mal durante alguns dias, não tem jeito.

HMO – Como os cidadãos que se inclinam para o lado pró-Ucrânia vivendo em Donbass tratam os combatentes pró-Rússia?

Hoje em dia, nos tratam mal, na cara dura. As punições contra militares tem ficado muito duras… Mas concordo. Já vi, no começo da guerra (dezembro 2014), milicianos espancarem pessoas por eles se posicionarem contra nós. Mas as coisas mudaram, e rápido.

Parte do equipamento do pelotão em qual servia: uma AK-47, banda de munição de metralhadora PKM, primeirs socorros e o tubo do RPG7. Outubro de 2014 em Vergulovka.
Parte do equipamento do pelotão no qual Rafael servia em 2014: uma AK-47, banda de munição de metralhadora PKM, primeiros socorros e o tubo do RPG7. Outubro de 2014 em Vergulovka.

HMO – Como são as folgas e o qual é a rotina do soldado pró-Rússia?

Folga não tem, muito difícil conseguir uma dispensa, especialmente nós no front. Muito cansativo. Se não estamos de dia, ou com algum serviço em especial, normalmente sábados a tarde e domingo repousamos e cuidamos das nossas necessidades pessoais. A rotina, quando não em trincheiras, é a de um exército regular normal. Formatura de manhã, tarde e almoço, revista de tropa, equipamento, manutenção de veículos e arredores do quartel.

HMO – O que é ser um brasileiro em meio aos soldados pró-Rússia?

É completamente natural. Mesmo pros brasileiros que não dominam o idioma, rapidamente se faz parte da unidade, todos passamos por dificuldade… a comida é ruim e pouca pra todos por exemplo, as dificuldades e sacrifícios são feitos passados sempre juntos. Isso aproxima as pessoas, estamos todos no mesmo barco, lutando pelo mesmo objetivo.

HMO – Como foi a aceitação de sua família sobre sua decisão de sair do país para talvez não voltar?

Eles ficaram muito orgulhosos e me apoiaram e ainda apoiam. Claro que ficam preocupados com minha segurança, mas para meus pais e irmãos é um motivo de grande orgulho ter eu aqui honrando o nome da minha família em combate, e depois de quase um ano, com resultados tão grandes.

HMO – Pensa em voltar ao Brasil caso seja criado um estado independente no leste ucraniano?

Penso em voltar mesmo antes. Depois de um ano de combate, e essa guerra sempre caindo em momentos de dura e maçante espera com tantas privações…. Também pra mim já ficou claro que só será vencida e encerrada em uma mesa de negociações distante do front. Já treinei vários novos instrutores e possíveis substitutos. A maioria dos estrangeiros já se foram. Quando eu não for mais indispensável, penso em voltar ao Brasil e tocar minha vida. Minha missão como combatente aqui já esta concluída a muito tempo.

HMO – Quais são seus ideais de vida para o futuro?

Depende das propostas que o futuro aguarda. Nem sai ou sequer anunciei minha saída daqui, já tenho varias propostas de emprego pelo mundo todo. Mas por hora quero voltar ao Brasil, cuidar da minha vida particular, ver minha família.

HMO – O que o Brasil representa para você como cidadão nascido nesta terra?

O Brasil é minha terra natal, onde vivem toda minha família, a maior parte dos meus amigos, a melhor comida do mundo, as praias mais lindas. Adoro meu pais.

Aeroporto de Donetsk, Abril, antes de ser ferido em combate. Realizando manutenção na metralhadora DShK 12.7mm.
Aeroporto de Donetsk, Abril, antes de ser ferido em combate. Realizando manutenção na metralhadora DShK 12.7mm.

Perguntas de nossos leitores da H.M.O. – Facebook e Reddit

Rafael Lemos – Li pelo seu histórico posta aqui que esteve em varias corporações PM, LEF e mais recente no exército pró-Rússia, logo teve varias experiências em combate . Então lhe pergunto, com base no que viveu você acredita que nossas forças armadas possui condições/preparo (equipamentos, treinamento de pessoal, disciplina) para fazer frente em missões no exterior?

Tenho certeza que as forças armadas brasileiras e as auxiliares tem total preparo e organização para fazer frente a qualquer tarefa. Nós temos o mais importante, que é o espirito combativo. Em vários momentos históricos nossas forças e nosso povo já deu mostras disso. Em nossas forças disciplina, comunicação e organização são alicerces presentes. Nosso armamento (que é inclusive exportado para vários países) e nosso tecnologia próprias também fazem inveja a muitas nações de primeiro mundo, e os que não são assim tão modernos, em cenários de conflitos internacionais, se mostram valiosos até os dias de hoje. Vários cursos nossos, como os de Operações Especiais das Policias Militares de São Paulo e do Rio de Janeiro são invejados mundo afora, pra não mencionar o famoso Guerra na Selva do EB e tantos outros da Marinha e Aeronáutica.

Belakamen, junho 2015, em uma das missões de reconhecimento. Arma PKM. Nos realmente não nos importávamos com segurança algumas vezes. A ideia era provocar o inimigo a trocar tiros fazendo com que eles assinalassem suas posições. Luiz Davi, um outro brasileiro que servia comigo, teve que vir prestar reforço e intensificação de fogo em uma situação que a equipe foi avistada e ficamos de baixo de pesado fogo inimigo, tendo que rastejar quase meio quilometro. Nessa mesma missão, decidimos por fogo em toda a vila quando ouve um avanço de carros inimigo em nossa direção.
Belakamen, junho 2015, em uma das missões de reconhecimento. Arma PKM. Nos realmente não nos importávamos com segurança algumas vezes. A ideia era provocar o inimigo a trocar tiros fazendo com que eles assinalassem suas posições. Luiz Davi, um outro brasileiro que servia comigo, teve que vir prestar reforço e intensificação de fogo em uma situação que a equipe foi avistada e ficamos de baixo de pesado fogo inimigo, tendo que rastejar quase meio quilometro. Nessa mesma missão, decidimos por fogo em toda a vila quando ouve um avanço de carros inimigo em nossa direção.

Rafael Pereira – o que acha que vai acontecer nos próximos meses e o que tu queres que aconteça? acredita em um status quo ou vocês continuarão avançando, visto que o Exercito Ucraniano parece dar claros sinais de uma nova ofensiva, uma nova quebra de cessar-fogo, algo que têm feito bastante?

Em primeiro de setembro foi assinado novamente um cessar fogo. O ultimo cessar fogo tinha sido rompido no dia 10 de agosto (2015), com ataques surpresas feitos para testar nossas linhas e bombardeios pesados. Uma ofensiva mais pesada foi tentada em Belakamimka e Novalaspa mas foi detida com perdas pesadas dos dois lados. Após isso, antes de primeiro de setembro, eu pessoalmente fui surpreendido com uma votação em Kiev a favor de mudar o status do Donbass. Hoje (início de setembro de 2015) ouve conversações em Minsk, com forte pressão ocidental na Ucrânia. Tendo em vista o cenário internacional, o novo problema que os europeus enfrentam com os ”refugiados” sírios (e o provável alto número de elementos do Estado Islâmico no meio deles), acredito que finalmente temos grande chances de alcançar a paz, com o Donbass fazendo parte da federação Ucraniana como republica autônoma. E eu espero que assim seja, mesmo que desagrade a muitos, o povo e essa região precisam de paz.

Luiz Saliba – Como ele, Rafael, que já se declarou de “esquerda” em outras ocasiões, consegue conciliar ser comandado por monarquistas de direita como Igor Strelkov, que se declara abertamente Czarista e nacionalista “branco” (em referência ao Exército Branco contrarrevolucionário, não a “raça” branca). E se já houveram rusgas entre as tropas de visão política distinta.

Quando eu me disse stalinista, e me posicionei como de esquerda, a mais de um ano atrás, eu quis dizer que era um admirador, não um portador dessa bandeira. Várias vezes eu deixei claro ser uma pessoa prática, que não compra ideias em pacotes fechados, mas um pouco aqui, um pouco ali. Eu mesmo não carrego nenhuma bandeira, eu penso por mim mesmo, tenho minhas próprias ideias e não sou formador de opinião e nem filósofo. Tenho minhas ideias pra mim, sou prático. Deve ser feito o que for melhor para a nação. Respondendo sua pergunta, não vejo problema em ser comandado por quem quer que seja… manda quem pode, obedece quem tem juízo. Problemas houveram, mas muito poucos e insignificantes. No fim a disciplina sempre reinou.

Arredores de Debaltsevo, fevereiro de 2015. Carro de combate T-74.
Arredores de Debaltsevo, fevereiro de 2015. Carro de combate T-74.

Rafael Lourenço – Existiu ou existe algum preconceito por você ser Brasileiro?

Definitivamente não. Sempre gostaram muito de nós, militares e civis. Nos tratam muito bem.

Rafael Gusmão – Mesmo sendo seguidor da ideologia de esquerda, você acredita em liberdade para os pro Rússia, após esse conflito?

Não sou de esquerda, e nosso combate é justamente para que o governo de Kiev não proíba o idioma e cultura russa no leste do país.

André Carvalho Tatu – Qual foi a maior tecnologia que vc já viu no campo de batalha? seja de armamento comunicação ou ate mesmo logística…

Até agora foram fuzis de ultima geração HK que alguns comandantes tinham, aimpoints e tudo mais. Vi alguns T-80 em Debaltsevo. Em geral tudo data ainda dos tempos da União Soviética.

Stacknov, artilharia, canhões D-30, novembro 2014.
Stacknov, artilharia, canhões D-30, novembro 2014.

Raphael Od – Como foi sua experiência servindo a Legião Estrangeira no 2REP?

Foi uma das mais difíceis da minha vida. Quando terminei a formação básica em Castelnaudary, me garantiram que poderia trabalhar no pelotão de cães do 2REP. Ao completar o curso de paraquedistas e requerer a companhia de apoio, todos caíram na risada. ”Tu vai para a 2Cia, montanha”. Já conhecia a fama dessa companhia… Estava chegando ao inferno. E uma vez no inferno, abraça o capeta.

Fabio Gunkel – O quão polarizado está o ambiente no leste ucraniano? Temos apenas os pró-Rússia e pró-Ucrânia (nisso implico separatistas apoiados pela Rússia e o exército ucraniano)? Ou existem outros grupos envolvidos no conflito também?

Esta bastante polarizado sim. Pelo menos no nosso lado… Em Kiev, parece que o Pravsektor cria problemas, mas apenas como grupos anti-negociações, sendo pró-Ucrânia também.

Estágio de BMP-1 instruções práticas de manutenção de motor turbo-diesel.
Estágio de BMP-1 instruções práticas de manutenção de motor turbo-diesel.

Nomanoid – Você acha que o povo brasileiro já se tornou maduro o suficiente, do ponto de vista da nossa identidade cultural e política e da estabilidade das nossas instituições democráticas, para nos mobilizarmos mais uma vez em prol das Forças Armadas, de modo a reinventá-las e poder inserir o Brasil numa posição mundial de maior destaque, no que diz respeito à Defesa, sem incorrer no ufanismo nacionalista e/ou no risco de um novo Golpe Militar?

Acredito que sim. Nossas forças armadas jamais sujariam as mãos indo contra as instituições democráticas, nem deveriam, e nós brasileiros temos uma republica que já possui todos os meios e órgãos para resolver nossos problemas de forma democrática.

Mgsantos – A estratégia russa na Ucrânia foi descrita como uma inversão da tradicional guerra assimétrica, com um Estado mais forte utilizando guerrilhas para ocupar lentamente um Estado mais fraco militarmente. Quanto disso é verdade e quanto do conflito está mais próximo a um apoio russo externo a forças separatistas ucranianas aliadas, uma estratégia bem mais tradicional?

A guerra aqui é uma guerra aberta e convencional. Temos artilharia, carros de combate e até mesmo 2 aviões em Lugansk. As linhas são bem demarcadas. A Rússia nos apoia principalmente como mediadora nas negociações de paz mas também com ajuda humanitária. Ela é totalmente a favor de nós como republicas autônomas dentro da Ucrânia, e já se posicionou contra nossa independência e também contra uma possível anexação.

Pervomaiska, canhão anti-carro Rapiera 100mm, março de 2015.
Pervomaiska, canhão anti-carro Rapiera 100mm, março de 2015.

Tetizeraz – Se for permitido, qual o seu equipamento?

BMP-1 (carro de combate), Morteiro 120mm, PKM 5.45mm, PM 9mm, granadas à vontade, colete e capacetes nível 5.

Protestor – Você viu voluntários russos junto aos separatistas na Ucrânia? Alguém das forças armadas russas?

Voluntários russos sim, vários. Membros das forças armadas não.

VictorPictor – Como conseguiu servir em exércitos tão diferentes geográfica e ideologicamente em um espaço tão curto de tempo?

  • Legião Estrangeira Francesa – 2002-2005,
  • PMSP 2005-2006,
  • PMPA 2007-2010,
  • Novorossiya 2014-atual

ThalesV000 – Qual foi a experiência mais intensa que você já teve por aí?

Quando dormi com duas garotas ao mesmo tempo, numa folga, antes de ir ao aeroporto de Donetsk.

Montgomery-Cavendish –

  • Como é a rotina de um mercenário trabalhando para as forças separatistas do Leste da Ucrânia

Não sei. Nem conheci nenhum mercenário por aqui.

  • Há alguma rotina de exercícios de preparação para a ação de campo?

Sim, ninguém é enviado a combate ou linha de frente sem o treinamento necessário.

  • O quê que te levou a se interessar pela vida paramilitar e se há algum sentimento de recompensa por participar desse fenômeno político? É uma luta por algum ideal?

Desde criança sempre quis ser combatente, e não vou negar, eu gosto de guerra. Além do mais, não é mentira, só vive em paz quem aprende a lutar.

Thaiane Rampazo – Tendo em vista que não algo comum na nossa cultura um jovem querer estar em luta, principalmente defendendo causas que não pertencem a própria nação, é normal o questionamento sobre quais sentimentos te impulsionaram a querer estar voluntariamente em combate?

  1. Não vou negar, eu gosto de guerra. Além do mais, não é mentira, só vive em paz quem aprende a lutar.
  2. Sou pró-Rússia de carteirinha, foi só isso que me trouxe aqui, absolutamente nenhuma ideologia política.

LeToySoldier –

  • Você acha que o fato da Ucrânia ser uma das democracias mais corruptas que existe contribuiu para o contingente de cidadãos da Crimeia se aliarem aos russos?

A única coisa que pesou para a Crimeia pedir anexação a Rússia foi o caos em que a Ucrânia se mergulhou após o Maidan, as resultantes políticas de perseguição a língua e cultura russas e os crimes perpetrados contra a população russófona (vide a queima de civis inocentes em Odessa e os disparos efetuados contra as manifestações pacificas em Kharkov por exemplo).

  • Com a intervenção militar da Rússia na Síria. Você lutaria contra o ISIS, se possível?

Lutaria, mas veja bem. Aqui luto voluntariamente, sem soldo. Qualquer outro lugar do mundo, só luto mediante pagamento. Meu amado Brasil isento disso, claro.

  • Qual é o seu fuzil favorito?

FAL 7,62mm, sem dúvida.

Até a presente data da criação desta matéria, Rafael Permanece em Donbass. Existe um cessar fogo e as tropas de ambos os lados passam por período de relativa calmaria. A previsão é q de que os territórios separatistas ganhem independência da Ucrânia para se tornarem território da República Federativa da Rússia.

Treinamento de BMP-1

 

 

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Napoleão na Rússia
Retirada de Napoleão de Moscou
Retirada de Napoleão de Moscou

Napoleão Bonaparte chegaria ao poder na França, fazendo parte do processo da Revolução Francesa, quando em um período de instabilidade política devido às disputas pelo poder entre Jacobinos e Girondinos (1789-1799), Bonaparte com o apoio dos Girondinos iria impor o Golpe dos 18 Brumário (9 de Novembro de 1799), nome do mês do Calendário Revolucionário Francês.

O General Bonaparte conseguiria esse feito devido ao seu prestígio com as suas vitórias militares internas, como a Segunda Coalizão (união de algumas regiões do Sacro Império Romano-Germânico, Grã-Bretanha, Rússia) e externas na Itália (1797) e Egito (1799), mesmo não conseguindo a conquista definitiva do Egito, Bonaparte conseguiu vitórias importantes na região, e grande parte do espólio egípcio que se encontra no Museu do Louvre.

Nesse contexto, Bonaparte derruba o Diretório e instaura o Consulado, e governa juntamente com outros dois Consulês (Roger Ducos e Emmanuel Sieyés), e essa forma de governo durará até 1804, quando Napoleão acaba com o Consulado através de um Plebiscito e torna-se Imperador da França.

Coroação de Napoleão Bonaparte como Imperador
Coroação de Napoleão Bonaparte como Imperador

Como Imperador da França, Bonaparte continua com a política expansionista que foi iniciada no final do século XVIII e tenta conquistar grande parte do continente Europeu. O General e agora Imperador consegue diversos êxitos, pois até 1805, quando ele é derrotado na Batalha Marítima de Trafalgar, Bonaparte tinha conseguido grandes vitórias no âmbito terrestre e isso permanecerá até 1812 quando ele terá a sua derrota na Campanha da Rússia.

A Rússia seria invadida depois de os russos não aceitarem mais participarem do Bloqueio Continental, proibição feita as nações europeias que fizessem comércio com a Grã-Bretanha, com o objetivo de enfraquecer a economia britânica e posteriormente sua força militar, e da criação do Grão-Ducado de Varsóvia, que ameaça a segurança dos russos, devido o exército francês estarem junto as suas fronteiras.

A campanha da França na Rússia começava com algumas perdas, como alguns milhares de soldados que seguiram para Portugal, para mais uma invasão ao País, no entanto, o exército francês marchava para Rússia com aproximadamente 680 mil homens.

Na fase de planejamento para o conflito, iniciou-se as primeiras adversidades, pois o exército francês era muito maior do que em campanhas anteriores, o que provocava uma dificuldade na logística para repor os suprimentos, armamento e munições. Nas outras batalhas, as rápidas manobras do exército francês sobre a retaguarda dos inimigos foram necessárias para a captura desses recursos.

Na campanha da Rússia, a tentativa de conseguir esses recursos dentro da nação invadida, era outra dificuldade, devido o território ser pobre, imenso, e pouco povoado para suas dimensões. A logística para o confronto aconteceu através de comboios, o que causava uma dificuldade para a marcha das tropas, pois iria se perder muito tempo. Bonaparte contava com uma guerra rápida e por isso utilizou recursos para uma pequena quantidade de dias, causando mais um erro no seu planejamento para a guerra.

Nesse aspecto, o planejamento da Rússia foi bem sucedida, já que os russos desejavam evitar ao máximo uma batalha decisiva, e para isso, eles estavam dispostos a recuar e entregar seus territórios, provocando uma estratégia de desgaste, o que possibilitou Bonaparte marchar até Moscou, sem grandes batalhas e algo no qual ele não desejava quando projetou sua estratégia.

Napoleão na Rússia
Napoleão na Rússia

Na Rússia, Bonaparte tinha como estratégia dividir os exércitos e combatê-los, mas devido à lentidão dos comboios de suprimentos e das estradas russas, a sua tática não funcionou.

O exército francês já tinha chegado a Moscou, sem uma batalha decisiva e sem conseguir dividir definitivamente o exército russo, nesse momento as tropas já sofriam com as condições climáticas da região e com a dificuldade de conseguir suprimentos, devido os comboios não conseguirem acompanhar a marcha do exército e da quantidade ter sido insuficiente, devido ao planejamento feito por Bonaparte de uma guerra rápida, e de um plano russo, de colocar fogo em tudo que foi deixado para trás por eles e que poderia ser usado pelos franceses na chamada tática da “terra arrasada”.

Napoleão em Moscou
Napoleão em Moscou

As tropas que tinham iniciado a campanha na Rússia, já tinha boa parte se perdido pelo caminho, com pequenas batalhas e principalmente doenças, devido a má alimentação e ao clima instável da região, dos aproximadamente 680 mil homens, que foram enviados para a batalha, menos 100 mil conseguiram sair do território russo.

Napoleão deixando a Rússia
Napoleão deixando a Rússia

Soldados soviéticos em Praga
Acompanhado de unidades de outros países do Pacto de Varsóvia, Exército Vermelho entrou, em 20 de agosto, na República Tcheca. Governo tcheco liberalizara o regime comunista de forma sem precedentes no Leste Europeu.

Rádio Praga: “Na noite de ontem, por volta das 23h, tropas da União Soviética, da República Popular da Polônia, da República Democrática Alemã, da Hungria e da Bulgária ultrapassaram as fronteiras da Tchecoslováquia.”

Em poucas horas, o sonho de um “socialismo com face humana”, que ficou conhecido como a “Primavera de Praga”, se desmanchava sob as esteiras de 7 mil tanques de guerra do Pacto de Varsóvia.

Sob o comando do reformista Alexander Dubcek, 14 milhões de tchecos e eslovacos vinham gozando de maior democracia, sobretudo através da liberdade de imprensa e de opinião. No entanto, a iniciativa isolada do “irmão socialista” deixara o Kremlin em estado de alerta. “É uma contra-revolução”, sentenciou Moscou.

Líderes foram detidos

Naquela noite, o líder do partido comunista Dubcek e seus camaradas foram detidos e o presidente Ludvik Svoboda, colocado sob arresto. Soldados ocuparam pontos estratégicos nas ruas da capital tcheca. As pessoas protegiam-se apenas com as mãos, jogando pedras ou tentando conversar com os militares. Em vão. Tanques já atravessavam a histórica Ponte de Carlos e os soldados davam tiros – a princípio para o alto.

Mas, em pouco tempo, as armas começaram a ser disparadas na direção da multidão. Pessoas caíam vítimas das rajadas de metralhadora. Para muitos, a presença de militares alemães entre os invasores reavivava a memória de 1939, quando as tropas de Hitler marcharam sobre a Tchecoslováquia.

Já nas primeiras horas da manhã, o governo alemão-oriental justificou o episódio através do rádio: “No interesse de sua segurança, no interesse dos povos e da paz mundial, os irmãos socialistas não poderiam permitir que a República Tcheca rompesse com a comunidade dos Estados socialistas. Ao reagir imediatamente ao urgente pedido de ajuda dos patriotas tchecos, os governos de nossos países deram um exemplo claro do internacionalismo socialista”.

Memórias traumáticas

Para a artista judia Lisa Scheuer, que em 1939 fugira dos alemães e sobrevivera a Auschwitz, a cena era inacreditável. “Na noite de 20 de agosto, quando ouvi em meu pequeno rádio que as potências do Pacto de Varsóvia haviam atravessado as fronteiras, fui tomada por um pânico tal que eu só queria escapar.”

prague372Dois dias depois da ocupação, o presidente Svoboda e o líder Dubcek foram levados a Moscou. Levaria quatro dias até voltarem a Praga, derrotados.

O correspondente em Praga, Christian am Ende, relatou as primeiras frases desesperadas de Dubcek:

“Com lágrimas, voz contida e longas pausas, o secretário-geral do partido, Dubcek, declarou: ‘É com muita dificuldade que encontro palavras para agradecer a alta moral que este povo demonstrou. O que acertamos em Moscou não dependeu de nossa vontade.’ Dubcek prosseguiu com seu triste comunicado, informando que as tropas agora iriam se concentrar fora da cidade. Moscou teria prometido retirar gradualmente as unidades do Pacto de Varsóvia do território da República Tcheca.”

Falsas promessas de Moscou

Balanço da operação militar: 72 mortos, 200 feridos graves. A 28 de agosto, Alexander Dubcek anunciou a capitulação final e tentou, em discurso à população, evitar que as esperanças se esvaíssem:

“Nossa vida política chegou a uma encruzilhada. Estamos numa situação em que temos de escolher um caminho. O movimento comunista na República Tcheca tem sua tradição. Pode ser que estejamos num ponto em que talvez caiamos em uma crise atrás da outra. Podemos decidir seguir adiante e tomar mais uma vez o caminho que o partido definiu, ou deixamos a dianteira para forças diversas, correntes diversas. Em todo caso, temos que ponderar, porém, os diversos problemas da situação atual.”

A cínica promessa de Moscou de retirada das tropas e tanques foi cumprida somente 23 anos mais tarde. O último soldado russo deixou o país apenas em 23 de maio de 1991.

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Fonte: DW Brasil

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