Favoritos do H.M.O

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Matt Damon foi o único ator que não precisou passar pelo árduo treinamento militar antes das filmagens. Damon foi poupado para que os outros atores sentissem uma certa inveja ou ressentimento e que isso ficasse nítido durante as gravações

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Aproximadamente 40 barris de sangue falso foram usados para recriar a sangrenta invasão na praia Omaha para a abertura do filme.

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Um dos atores na versão do filme dublada em alemão, era na verdade um veterano alemão que combateu na Normandia no fatídico 6 de junho de 1944. Ele teve de ser dispensado das dublagens devido ao realismo do filme.

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Neil Patrick Harris chegou a ser cogitado para o papel de Ryan.

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Antes de Tom Hanks ser escolhido para o papel de Capitão John Miller, Spielberg considerou Mel Gibson e Harrison Ford para o papel principal.

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Tom Sizemore travava uma batalha contra o vício em drogas durante o período das filmagens. Spielberg deu a ele um ultimato onde ele deveria fazer exames de sangue todos os dias, e se falhasse em um deles, ele seria substituído e suas cenas refilmadas, mesmo que o filme já tivesse em suas últimas etapas de gravação.

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Quando Matt Damon foi escolhido para o papel de Ryan, Spielberg buscava na época um ator relativamente desconhecido. Não deu muito certo quando o filme Gênio Indomável foi lançado e fez de Damon um astro da noite para o dia pouco antes do filme de Spielberg ser lançado mundialmente.

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As salas de cinema do mundo todo foram orientadas as aumentar o volume durante a projeção do filme, isto devia-se ao aspecto crucial de recriar o ambiente de guerra enquanto o filme era assistido.

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Os sons de disparos das armas usadas no filme foram gravadas utilizando armas originais de época com munição real.

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Em antecipação a todos os veteranos que por ventura traumatizariam-se ao assistir o filme, o Departamento de Assuntos Militars aos Veteranos disponibilizaram uma espécie de 0800 para dar suporte a casos críticos ocasionados pelo filme.

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Em meio aos exercícios incrivelmente difíceis durante o treinamento militar, os atores tiveram de passar por testes em situações onde a chuva era intensa permanecendo totalmente encharcados, e tendo de chamarem entre si apenas pelos nomes de seus personagens, ainda tendo que aturar o instrutor os chamando de “cocôs” o tempo todo.

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A Batalha de Omaha Beach foi filmada em sequência durante um período de quatro semanas, levando a ação da praia até o alto da orla sendo filmada dia após dia. Steven Spielberg alega que nada do planejamento foi colocado no storyboard em antecipação. Tudo “na raça”.

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A cena de Omaha Beach custou 11 milhões e envolveu até 1000 figurantes, alguns deles eram membros da Reserva do Exército Irlandês. Destes figurantes, 20-30 deles eram amputados empregados usando próteses para simular seus membros sendo arrancados e explodidos nas cenas.

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As tremulações de câmera nas explosões aconteciam pelo fato de que Steve Spielberg usou uma espécie de dispositivo que vibrava a câmera, que eram ligados quando necessário. Durante as gravações usando este efeito, o diretor de fotografia avisou Spielberg que um “tremedor” de lentes já existia. Spielberg disse numa entrevista que achava que ele havia inventado esta nova ferramenta para o filme.

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Dois dos LCV usados para desembarcar os soldados nas cenas da praia foram usados durante a Segunda Guerra Mundial.

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Durante cena inicial no mar, as munições usadas pelos atores eram cenográficas e feitas de madeira, já que as réplicas de metal eram muito pesadas.

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Interessantemente, durante a marca de 45 minutos do filme, Paul Giamatti diz “As estradas estão calmas há 45 minutos”.

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Algumas pessoas reclamaram que a cena em que os Rangers estão disparando morteiros manualmente sobre os soldados alemães não tinha precisão histórica. Na verdade, Charles Kelly, que recebeu a Medalha de Honra, fez exatamente o mesmo processo de disparo durante uma batalha na Itália em 1943.

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Spielberg foi parabenizado pela autenticidade do filme. O ator James Doohan, que atuou em Star Trek, foi especialmente gentil. Doohan perdeu o dedo do meio de sua mão direita e foi ferido durante a guerra. Não obstante, ele participou da Invasão da Normandia em 6 de junho de 1944, na Praia Juno, onde a 3ª Divisão de Infantaria Canadense liderou o ataque. Ele apoiou e parabenizou Spielberg por seu filme ao não poupar esforços para recriar os detalhes mais grotescos.

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Na Índia, o filme foi censurado por conter muita violência. O país solicitou cortes, recusados por Spielberg e ao invés disso, ele decidiu não lançar o filme na Índia. Então, um dos ministros do governo indiano assistiu o filme, e impressionado, soltou uma nota para que o liberassem sem cortes.

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Os dois soldados “alemães” que foram fuzilados tentando renderem-se, na verdade eram Tchecos. Eles diziam, “Por favor não atire em mim, eu não sou alemão, eu sou tcheco, eu não matei ninguém, eu sou tcheco!”. Muitos cidadãos tchecos e poloneses foram forçados a combaterem do lado alemão durante guerra pelo fato de que seus países haviam sido ocupados pela Alemanha durante as fases iniciais da guerra.

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Ao usar o rádio na cena da praia, Capt. Miller dizia ‘CATF’, o que significa que estava falando com o comandante e solicitando: “Força Tarefa Anfíbia” (Amphibious Task Force).

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Matt Damon improvisou a estória que ele conta, ao final do filme, sobre espionar seu irmão no celeiro com a garota feia. O discurso foi chocante e particularmente não foi engraçado ou interessante, mas a direção decidiu que por este fato funcionou; era uma verdade contada por um jovem imaturo como Ryan, fadado ao ser o ponto central de uma operação militar. Steven Spielberg gostou tanto que decidiu deixá-la no filme.

Ivan Kozhedub

Família, infância e adolescência

O mais bem sucedido piloto da União Soviética nasceu de uma família pobre em 8 de junho do atribulado ano de 1920 no vilarejo rural de Obrazhiyevka (hoje parte do território ucraniano) próximo à cidade de Shostka na zona oeste da então República Socialista Federativa Soviética Russa (1917-1922), que naquela época, encontrava-se em uma sangrenta guerra civil (Guerra Civil Russa, 1918-1922).

Seu pai foi uma pessoa incomum para seu status social na época, trabalhando em uma fábrica e arando a terra nas horas vagas, mesmo assim ainda encontrava tempo para ler livros e até mesmo compor versos. Ele era religioso, rigoroso e um perseverante tutor.

Certa vez o pai de Ivan, apesar dos protestos de sua esposa, enviou seu filho de cinco anos para guardar sua horta à noite. Mais tarde Ivan perguntara a seu pai o que faria ali, já que ladrões eram raros naquela área e um vigia seria inútil dado o fato da monotonia em suas noites de guarda. Seu pai respondeu – “Estou te acostumando frente às dificuldades“.

Aos seis anos Ivan aprendeu a ler e escrever e logo seguiu seu caminho para a escola.

Nos anos 30, o Komsomol (Liga dos Jovens Comunistas) incentivava a aviação, e naturalmente os jovens tinham muito entusiasmo por ela.

Cartaz de propaganda da "Escolinha do Komsomol"
Cartaz de propaganda da “Escolinha do Komsomol”

Para Ivan, então um jovem de 16 anos o grande ídolo chamava-se Valery Chkalov, um piloto, que havia realizado algumas proezas como por exemplo, voar de Moscou a Udd Island em Kamchatka, numa distância de 9.374 km em 56 horas e 20 minutos num Tupolev ANT-25 em 1936 ou de Moscou a Vancouver no Canadá via Pólo Norte, numa distância de 8.504 km em 63 horas e 16 minutos em 1937.

Valery Chkalov
Valery Chkalov

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Rua batizada em seu nome, Vancouver, Canadá
Rua batizada em seu nome, Vancouver, Canadá

Valery era também piloto de testes, tendo perdido sua vida num desses vôos no dia 15 de dezembro de 1938. Vendo que seria impossível estudar numa escola técnica ao mesmo tempo em que aprendia a voar, preferiu entrar para o aeroclube local. O ano era 1938, e os japoneses haviam violado a fronteira soviética próximo ao Lago Khasan, e esse fato aguçou ainda mais a vontade de Ivan de tornar-se um piloto e ir defender sua pátria. No ano de 1940 graduou-se no Colégio Técnico de Química de Shostka. Agora seu caminho estava livre.

Segunda Guerra Mundial

kozhedub-perfilKozhedub aprendeu a voar no Aeroclube Shostka e alistou-se à Força Aérea Soviética (VVS-RKKA). A escola de aviação mudaria sua vida para sempre. Embora já soubesse o ABC da pilotagem, em Chuguev recebeu as verdadeiras lições de voo bem como sofreu com a disciplina militar. Nesta escola, para se tornar piloto era necessário praticar por 100 horas. Mais tarde, em 1941, graduou-se com altas notas na Escola de Aviação Militar de Chuguev, durante o início da Invasão da União Soviética, mas para sua infelicidade foi retido como instrutor por mais dois anos devido a seu excelente desempenho. Neste período foi responsável pelo treinamento de inúmeros pilotos soviéticos que eram enviados ao front enquanto o jovem Ivan continuava a insistir em sua transferência para a frente de batalha. Neste mesmo ano a escola de aviação foi realocada para o setor asiático do país devido ao início da guerra.

22 de junho de 1941 - o dia em que Hitler e Stalin deixaram de ser aliados - dando início então a Invasão da União Soviética
22 de junho de 1941 – o dia em que Hitler e Stalin deixaram de ser aliados dando início a Invasão da União Soviética

A experiência recebida pela Força Aérea Soviética nos primeiros meses de guerra, fizeram com que fosse necessário algumas mudanças nas táticas e na estrutura organizacional da força. A fórmula adotada passou a ser baseada em quatro fatores: Altitude-Velocidade-Manobrabilidade-Poder de Fogo.  O elemento de duas aeronaves passou a ser a unidade tática básica, abandonando-se a esquadrilha de três aeronaves, utilizando-se então apenas a de quatro aviões. Os esquadrões passaram a formar grupos, cada um com sua missão bem definida (assalto, escolta, interdição, defesa aérea, etc…) O maciço uso da aviação, e sua crescente influência sobre o resultado dos combates e operações, requeria um esforço concentrado nessas principais especialidades.

Unidades aéreas, especialmente dedicadas a esses propósitos, passaram a fazer parte integrada dos exércitos. Centenas de aeronaves participavam das cruciais operações táticas e estratégicas. O arsenal de métodos de combate utilizado pelos ases soviéticos incluía manobras verticais, formações em multi-camadas e outras técnicas. Das 44 mil aeronaves alemãs perdidas no front soviético, 90% foram devidas aos caças.

Ilyushin Il-2, a aeronave soviética mais produzida durante a guerra
Ilyushin Il-2, a aeronave soviética mais produzida durante a guerra

Ao mesmo tempo em que treinava pilotos ele treinava a si mesmo. Ficava orgulhoso quando recebia notícias de seus ex-pupilos sendo bem sucedidos em combate. No final de 1942, foi enviado a treinar uma nova aeronave, o Lavochkin LaG-5. Finalmente em 26 março de 1943, foi enviado ao front recebendo seu La-5 de número 75. Batizado com o nome do herói da União Soviética, Valery Chkalov. Estas aeronaves foram construídas com fundos doados pelo povo soviético.

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Seu avião era um pouco diferente dos demais, com cinco tanques de combustível, em vez de três, fazendo com que ele fosse inicialmente um pouco mais pesado e menos manobrável. O LaG-5 era uma aeronave forte, com bastante potência de motor e dotado de um excelente conjunto de armamento.

Em uma entrevista exclusiva para o jornal "Estrela Real", Kozhedub (à esquerda) encontra seus camaradas para ser parabenizado por seu título de Herói da União Soviética por três vezes, 1945.
Em uma entrevista exclusiva para o jornal “Estrela Real”, Kozhedub (à esquerda) encontra seus camaradas para ser parabenizado por seu título de Herói da União Soviética por três vezes, 1945.

Seu batismo de fogo em Kharkov foi uma experiência emblemática pelo fato de que sua aeronave foi altamente danificada pelos caças alemães e Ivan não conseguiu atingir nenhum inimigo. Uma vivência amarga, mas uma bela lição. Apesar de não alcançarem bons resultados, a moral dos pilotos era elevada. Muitos deles tinham famílias em território ocupado pelos nazistas, como Ivan, o que os fazia sedentos por vingança.

Após agosto de 1943, entretanto, a supremacia aérea finalmente pendeu para o lado soviético, e com a aproximação do final da guerra, cada vez mais, os pilotos alemães iam se tornando jovens e pouco treinados. A celebrada invencibilidade da Luftwaffe de Göring havia se transformado em fumaça.

O potencial de combate dos caças Yak-3, do La-7 e La-9 era indiscutivelmente superior ao dos caças alemães Me-109 e Fw-190, mas a qualidade dos pilotos fazia a diferença.

Os pilotos soviéticos voavam e pilotavam todos os dias, o dia todo, sendo muito comum realizarem três ou quatro missões por dia.

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Combates aéreos e seus primeiros resultados

Durante a Batalha de Kursk, Ivan Kozhedub, então com 23 anos de idade, abria sua contagem de vitórias. No dia 6 de julho de 1943, entrou em combate contra um esquadrão inimigo composto por 12 aeronaves, o jovem piloto fez sua primeira vitória ao derrubar um bombardeiro de mergulho Junkers Ju-87. No dia seguinte ganharia notoriedade ao derrubar mais um Ju-87. Em 9 de julho Ivan derrubou simultaneamente dois caças Messerschmitt Bf-109. tornando-se um ás em apenas três dias.

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A Batalha de Kursk envolveu milhares de aeronaves, com cada lado buscando obter o controle dos céus sobre o campo de batalha. Ivan e seus companheiros realizaram diversos tipos de missões como escolta, caça livre e interdição. A Batalha de Kursk foi um marco do desenvolvimento da forma e dos métodos das táticas operacionais aéreas da aviação soviética na Segunda Guerra Mundial. No primeiro estágio de defesa, os pilotos soviéticos realizaram mais de 70 mil missões, das quais 76% foram de apóio tático, 18%  de ataque a longa distância, restando 6% para defesa, abatendo 1.500 aeronaves alemães e perdendo mil. Durante a contra-ofensiva, os soviéticos realizaram mais de 90 mil missões, com 50% de ataque a tropas, 31% de superioridade aérea. Os alemães perderam 2.200 aeronaves.

Kozhedub e sey LaG-5
Kozhedub e sey LaG-5

O sucesso soviético crescente na guerra aérea foi resultado do treinamento de jovens pilotos na arte de pilotagem e de tiro aéreo, pois se um piloto de caça consegue controlar bem sua aeronave, de modo automático, ele tem condições de realizar manobras extremas, de aproximar-se das aeronaves inimigas, mirar de forma precisa e abate-las. É muito importante ser diligente em qualquer situação. No primeiro estágio de aprendizagem de combate aéreo, aprende-se as táticas da batalha aérea e como abater uma aeronave inimiga. O segundo estágio começa no treinamento antes das batalhas, e Ivan participou de várias batalhas e em cada uma tirou fortes lições.

Ao tornar-se comandante de esquadrão, ele começo a liderar grupos de aeronaves e a direcionar as ações dos pilotos em combate. O próximo estágio que ele passou foi o denominado, operações de lobo solitário. Sendo sub-comandante do regimento a partir do 1º Front da Bielorrússia, ele passou a voar com um ala, em caça livre, em busca de alvos de oportunidade.

Mapa do avanço máximo das forças alemãs em território soviético
Mapa do avanço máximo das forças alemãs em território soviético
Aperfeiçoamento em combate e o La-7

Em meados de outubro de 1943 o experiente Tenente Kozhedub havia completado 146 combates aéreos e abatido 20 aviões inimigos. Naquela época ele já acumulava o mesmo nível de experiência que seus rivais alemães, grandes mestres da aviação de caça tendo acumulado experiência em outras frentes de batalha ao longo da guerra que já se estendia por 4 anos. Koszhedub combinava suas técnicas de pilotagem com sua exímia habilidade de tiro.

Legado de Kozhedub na Segunda Guerra Mundial

Sobre o Dniepre, pilotos do regimento de Kozhedub enfrentaram o Esquadrão Jagdgeschwader 51 (JG 51) Mölders e venceram o duelo. Ivan Kozhedub aumentaria sua contagem naquela oportunidade. Em dias de combate intenso ele derrubou 11 aviões inimigos. Foi então agraciado com a Ordem do Herói da União Soviética em 4 de fevereiro de 1944.

Violento, incansável, bravo e habilidoso, Kozhedub era o caçador ideal. Seu apreço por sua aeronave era como uma religião. Ivan disse certa vez “O motor funciona com precisão. O avião é obediente a cada movimento. Não estou sozinho – meu companheiro de combate está comigo como um único corpo, somos um só.” Para Kozhedub isto não era poesia, exagero ou metáfora, ao se aproximar do cockpit antes de cada voo sempre lhe rendiam palavras carinhosas à sua máquina de combate.

Ivan Kozhedub sobre o cockpit de seu avião, donato pelo fazendeiro V. Konev, 1944.
Ivan Kozhedub sobre o cockpit de seu avião, donato pelo fazendeiro V. Konev, 1944.

Em maio de 1944, Kozhedub foi promovido a capitão e tornou-se comandante de um esquadrão. Com 38 vitórias em sua contagem, ele receberia o novo La-5F – um presente de um fazendeiro chamado Vasily Konev. Konev doou dinheiro ao Exército Vermelho e solicitou que a aeronave levasse o nome de seu sobrinho, o Tenente Coronel Georgy Konev, um piloto de caça que havia morrido em combate. A solicitação foi então atendida e o avião foi transferido a Kozhedub. Obtendo oito vitórias com a nova aeronave em apenas sete dias. Esta aeronave era uma versão simplificada do La-5 desenvolvido em 1942, mas possuía um motor melhorado, com injeção direta de combustível. Dessas oito vitórias, cinco foram contra caças Fw-190.

Na metade do ano 1944 o Capitão da Guarda Ivan Kozhedub havia somado 256 missões de combate e abatido 48 aviões inimigos. Em 19 de agosto de 1944 foi agraciado com a segunda medalha, desta vez a Estrela Dourada de Herói da União Soviética.

Ainda em 1944, tornou-se sub-comandante do 176º Regimento de Caça operando no front da Bielorrússia e voando a aeronave La-7 Nº 27, no qual obteve suas últimas 17 vitórias. Ivan inicialmente não havia gostado deste novo posto, pois acreditava que não poderia mais voar, mas ao descobrir as missões de lobo solitário ficou satisfeito. Realizava essas missões logo pela manhã, e tinha o resto do dia para coordenar as operações do regimento, analisando os resultados obtidos. Às 21 horas, ele juntava o pessoal no cassino de oficiais e comentava os resultados obtidos no dia. Nessa fase da guerra ele voava com seu amigo Dmitry Titarenko.

O regimento realizou 9.450 missões nesse período, das quais 4.016 eram do tipo lobo solitário. Nas missões de lobo solitário foram realizados 750 combates com 389 vitórias.

O La-7 era uma aeronave com excelente desempenho e características de vôo. Era muito obediente ao piloto, e bastante veloz para os padrões da época. Para Ivan o La-7, o La-9 e o Yak-3 eram aeronaves perfeitas, atingindo o máximo possível de uma aeronave à pistão.

Perfil do La-7 pilotado por Kozhedub
Perfil do La-7 pilotado por Kozhedub

O La-7, mesmo sendo uma aeronave de madeira, era robusta e confiável, sendo que a de Nº 27 permaneceu com Ivan por mais de 10 meses de combate. A resposta está na simplicidade dos Lavochkins, e seus projetistas ouviam muito a área operacional. A margem de segurança da aeronave era tanta que os pilotos podiam exceder em muito os limites previstos. Era muito comum Ivan ultrapassar a força G prevista em projeto em mais de duas vezes, chegando a atingir a velocidade de 700 quilômetros por hora ou mais. O La-7 era uma versão melhorada do já bom La-5FN, equipado com um motor M-82FN. Lavochkin modificou as derivas, trocou a posição das entradas de ar e reforçou a parte central das asas.

O encontro com o Me-262

No dia 19 de fevereiro de 1945, durante uma operação militar próxima a Frankfurt (Oder), Kozhedub subiu aos seus com seu ala Dmitry Titorenko, Ivan então avistaria uma aeronave desconhecida voando à uma velocidade inalcançável ao La-7 num altitude de 3500 metros.

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Kozhedub mais tarde descrevera o duelo: “O que é aquilo? Meu parceiro não pestanejou e abriu fogo contra o inimigo! Mas a aeronave começou a mover-se à esquerda, em minha direção mas perdendo velocidade. A distância foi rapidamente reduzida e eu me aproximei do inimigo. Com uma ação quase involuntária eu disparei contra ele. O jato logo guinou em direção ao solo.” Aquele era o recém introduzido Me-262, pilotado popr Kurt Lange, e uma das últimas armas secretas da Luftwaffe que fora utilizada em combate ao fim da guerra, num esforço desesperado para mudar as marés do conflito, inutilmente. Ivan utilizava uma tática de sempre atacar as aeronaves inimigas em curvas, ascendentes ou descendentes, nunca em linha reta.

Abaixo, uma gravação da época durante combate aéreo entre um P-51 Mustang americano e um Messerschmitt Me-262.

Último combate aéreo e o estágios finais da guerra

Seu último combate aconteceu na tarde do dia 17 de abril, numa missão de lobo solitário, sobre os subúrbios de Berlim, acompanhado com o Tenente Titorenko. Eles foram surpreendidos ao encontrar uma formação de quarenta Focke-Wulf Fw-190 com bombas, voando a uma altitude de 3.500 metros em sua direção. Ele subiu com sua aeronave pela esquerda, e posicionou-se nas nuvens por trás da formação inimiga. Ivan não estava em vantagem, mas decidiu atacar de qualquer maneira, já que os caça-bombardeiros dirigiam-se contra as tropas russas. Voando a velocidade máxima, aproximaram-se da parte de trás da formação, tendo o Sol pela retaguarda. Abriu fogo quase a queima roupa, no ala do último par de aeronaves, que caiu em chamas nos subúrbios da cidade. Algumas aeronaves voltaram-se para oeste, abandonando o ataque, mas outras prosseguiram em seu rumo.

Fw-190 - World o Tanks
Fw-190 – World o Tanks

Ivan e seu ala decidiram continuar o ataque, tentando quebrar a formação das aeronaves que dirigiam-se em direção às tropas russas. Realizaram então um mergulho por dentro da formação germânica, confundindo-os. Os caças alemães ejetaram suas bombas e formaram um círculo defensivo e começaram a ataca-los.  Seu ala logo abateu um Fw-190 que perseguia Ivan, mas em seguida eles vislumbraram outros caças russos chegando ao local da batalha e decidiram abandonar o combate. Nessa hora ele vislumbrou um solitário Fw-190 ainda mantendo sua bomba e mergulhando sobre a cidade. Imediatamente Ivan mergulhou seu caça, alcançou o 190 e o abateu. Retornaram a sua base, com os tanques de combustível quase vazios.

Em 18 de agosto de 1945 receberia novamente a medalha de Herói da União Soviética por seus feitos durante o conflito, habilidades e exímia coragem em combate.

Selo comemorativo com a medalha de Herói da União Soviética
Selo comemorativo com a medalha de Herói da União Soviética
Pós-Guerra, carreira militar e seu legado

Após a guerra, Ivan finalmente graduou-se pela Academia Militar e passou a ocupar diversos postos importantes, mas ele sempre lembra com orgulho de sua época como instrutor.

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Foto tirada em 1967, na capital soviética.

Ele sempre preferiu voar no La-7, pois considerava-o o melhor entre os melhores e adorava ir até o Museu de Aeronáutica em Monino, à cerca de 35 km a noroeste de Moscou e sentar na cabine de seu La-7. Ele dizia que entrar na cabine do La-7 sempre o fazia feliz.

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Ivan Kozhedub realizou um total de 330 missões de guerra, com 120 combates aéreos, abatendo 62 aeronaves confirmadas. Seu apelido era Ivan o Terrível. Sempre favoreceu os caças Lavochkin e usou táticas de ataques-surpresa para atingir os inimigos à queima-roupa. A alta velocidade e robusta construção dos Lavochkins permitiram que ele aperfeiçoasse esse tipo de ataque. A maioria de seus oponentes não percebeu que estavam em sua mira até serem alvejados.

Ivan Kozhedub como Coronel-General (em 1985 seria promovido a Marechal do Ar), três vezes Herói da União Soviética, foto de 1980 - RIA Novosti - Vladimir Malyshev
Foto de 1980 – Ivan Kozhedub como Coronel-General (em 1985 seria promovido a Marechal Aviador), três vezes Herói da União Soviética – RIA Novosti – Vladimir Malyshev

Durante a Guerra da Coréia, ele demonstrou excepcional liderança, quando sua unidade abateu 239 aeronaves da ONU sendo 12 delas bombardeiros Boeing B-29 Superfortress, com a perda de apenas vinte e sete MiG-15 e 9 pilotos. Mais tarde, entre 1956 e 1963,  ele tornou-se Inspetor de Treinamento Aéreo da VVS, e em janeiro de 1964 tornou-se Sub-Comandante das Forças de Moscou. Em 1967 foi nomeado Presidente da Federação de Esportes de Aviação e Vice-Presidente da Federação Internacional de Aviação. Mais tarde foi promovido a Marshal Aviatsii (Marechal Aviador) e designado Inspetor do Ministério de Defesa Soviético.

Ele acredita que o número total de suas vitórias é muito maior do que 100, pois muitas não foram confirmadas ou ele creditou a seus alas.

Ivan Kozhedub distribui autógrafos na Praça Vermelha em Moscou durante as comemorações do Nove de Maio - Oleg Ivanov/TASS (Foto por TASS via Getty Images)
Ivan Kozhedub distribui autógrafos na Praça Vermelha em Moscou durante as comemorações do Nove de Maio – Oleg Ivanov/TASS (Foto por TASS via Getty Images)

Kozhedub somava inúmeras condecorações sendo elas as de Herói da União Soviética e a Ordem de Lenin por três vezes (1944, 1944 e 1945), sete Ordem do Estandarte Vermelho, duas Ordem de Alexander Nevsky, duas Ordem da Estrela Vermelha, Ordem da Guerra Patriótica de Primeira Classe, e outras inúmeras medalhas. Foi promovido a Marechal pouco antes de sua aposentadoria.

O Marechal Aviador Ivan Nikitovich Kozhedub morreu em 8 agosto de 1991, aos 71 anos de idade. Em sua honra a Universidade da Força Aérea Kozhedub, localizada em Karkhov, foi batizada em seu nome.

Uma dos últimos registros fotográficos da lenda um ano antes de seu falecimento
Uma dos últimos registros fotográficos da lenda um ano antes de seu falecimento

Quando tropas aliadas desembarcaram nas praias da Normandia no Dia-D, eles o fizeram juntamente com uma vasta variedade de blindados fora do comum designados a executar funções especiais

Os blindados que venceram o Dia-D

Em 19 de agosto de 1942, os aliados faziam seu plano de como invadir a Europa ocupada ao desembarcar tropas nas praias na tentativa de capturar os portos franceses.

Os franceses, à esta altura, já estavam sob o controle alemão por mais de dois anos. Os desembarques em Dieppe (Operação Rutter – Executada pelos ingleses, canadenses, americanos e tropas livres francesas) seriam um teste prático com o objetivo de simular uma invasão aliada com contingente suficiente para quebrar as fortes defesas alemãs.

As defesas das praias da Normandia eram formadas por casamatas, bunkers contendo canhões de grosso calibre, arame farpado e trincheiras.
As defesas das praias da Normandia eram formadas por casamatas, bunkers contendo canhões de grosso calibre, arame farpado e trincheiras.

Os desembarques foram um desastre.

Em menos de 10 horas, mais de 60% dos 6.000 ingleses, canadenses e tropas americanas que desembarcaram nas praias foram mortas, feridas ou capturadas. Todos os 28 blindados que alcançaram as praias com eles – algo essencial se as tropas conseguissem penetrar as defesas alemãs – foram destruídos. Muitos ficaram atolados, impossibilitados de moverem-se no solo arenoso e foram alvos de armas anti-carro alemãs.

O grande fracasso nos desembarques em Dieppe ensinaram muito aos aliados. A tentativa de capturar portos fortemente defendidos foi provada como sendo um fracasso à vista dos comandantes. Tropas tiveram de desembarcar em praias de areia muito fofa, e os blindados foi dada a tarefa de abrir caminho através das praias sobre os bancos de areia e outros obstáculos construídos pelos alemães.

Parecia que, apenas um homem, teria uma solução. E dois anos depois, sua frota altamente especializada – e composta por blindados bizarros – tornaria-se um dos maiores motivos que provariam o Dia-D como sendo uma operação de total sucesso.

O nome era Percy Hobart, um comandante britânico visionário. Durante a Primeira Guerra Mundial ele serviu na França e Mesopotamia (atualmente Iraque) e em 1920 ele já vinha percebendo o grande potencial dos carros de combate nos campos de batalha modernos.

Naquela época os primeiros blindados eram primitivos, designs pioneiros nasciam ao passo de um senhor de 90 anos a passos curtos. Estes blindados viriam a surgir apenas nos últimos dois anos da Grande Guerra, ainda assim, provaram-se como um fator decisivo durante as últimas ofensivas aliadas sobre as trincheiras alemãs. Após a Primeira Guerra Mundial, libertos da Guerra de Trincheiras, os blindados diminuíram de escala, ganharam mais velocidade e mobilidade. Um novo conceito de blindados seriam algo como as cargas de cavalaria do passado mas de cara nova.

David Willey, o curador do Britain’s Tank Museum em Bovington, alega que Hobart tornou-se pioneiro na cavalaria mecanizada com uma incrível rapidez. Em 1934, Hobart tornou-se inspetor do Royal Tank Corps, e encarregado de táticas utilizando estes blindados. Ele foi uma figura tão influente que Heinz Guderian, um dos grandes estrategistas alemães das batalhas de blindados e um grande nome nas primeiras vitórias alemãs na Segunda Guerra Mundial, traduziu seus relatórios e os estudou intensamente, diz Willey.

Hobart baseou suas ágeis colunas de blindados nas estratégias de batalhas dos Mongóis utilizadas durante a Idade Média, e foi um dos primeiros comandantes a prever que aviões poderiam dar cobertura e suprimento muita além das frentes inimigas.

Mas após treinar uma nova unidade no deserto do norte da África, Hobart foi forçado a se aposentar – parte, ao que se entende, devido à sua hostilidade e formas “inconvencionais” de estratégias militares utilizando blindados. Como a Inglaterra já vinha sofrendo ameaças de invasão, seu grande expert foi demovido a patente de cabo, e forçado a servir a Guarda Real numa pequena vila chamada Cotswolds, onde vivia.

“Nós temos aqui no museu o “bastão” que foi lhe presenteado – muito dos equipamentos militares ingleses foram deixados na França, então ao invés de um rifle ele tinha uma espécie de bastão com uma baioneta conectada em uma de suas extremidades. Era isso que ele usaria se os alemães tivessem nos invadido.”

Bernard Montgomery, um dos mais respeitados comandantes britânicos, soube que Hobart havia recebido dispensa; Hobart tinha uma má reputação por ser áspero demais, e tinha uma tendência de tratar pessoas de maneira errada.

O blindado DD, o blindado nadador, visto aqui com sua cortina de lona rebaixada
O blindado DD, o blindado nadador, visto aqui com sua cortina de lona rebaixada

Uma reunião entre Hobart e o Primeiro Ministro Winston Churchill foi então organizada; Willey diz que Hobart perguntou se deveria “guardar seu uniforme de Guarda Real e vestir seu velho uniforme de guerra”. Após a reunião, Hobart foi reintegrado e recebeu a tarefa de utilizar seus conhecimentos para melhorar as táticas e tecnologias da cavalaria blindada inglesa.

Após as ameaças iminentes de uma invasão alemã terem diminuído significativamente após a vitória inglesa na Batalha da Grã-Bretanha, o planejamento estratégico militar voltou-se para como os ingleses fariam um possível desembarque nas praias da Normandia e adentrar em território francês. Os alemães haviam preparado grandes defesas que viriam a ser chamadas de Muro do Atlântico, E estendiam-se desde a fronteira franco-espanhola até o norte da Noruega. Quaisquer praias que pudessem ser usadas como chão seguro para um desembarque era defendida por enormes estruturas de concreto portando grandes canhões, casamatas, trincheiras e valas anti-carro juntamente com extensos campos minados.

Quando os aliados invadiram a França em 6 de junho de 1944, cinco praias da costa da Normandia foram utilizadas. As tropas desembarcaram utilizando uma frota de blindados especializados que Hobart – contando com suas experiências em Dieppe – havia ajudado a desenhar e colocar em funcionamento. Os blindados ficaram conhecidos como “Brinquedos de Hobart”. Eles foram utilizados nas praias invadidas pelos canadenses e britânicos – Gold, Sword, e Juno – e foram um sucesso.

Hobart havia percebido que uma força de invasão precisaria de muito mais suporte de blindados – e seu momento mais vulnerável se dava quando abriam caminho entre as águas e areias da praia e terra firme. A solução foi a criação do Sherman DD (Duplex Drive) – o “blindado nadador”.

O Sherman DD exibido no Museu de Bovington, completo, contendo a cortina de lona em canvas que uma vez estendida, ajudava a fazer com o que o blindado pudesse flutuar em mar aberto. O motor movimentava uma hélice instalada na traseira, que permitia que o DD flutuasse em direção a praia a uma velocidade de 8km/h. A lona foi desenhada para suportar ondas de até 30cm – a tripulação, sem contar o motorista, permanecia do lado de fora, sobre o blindado para que fosse mais fácil de saltar em caso de o blindado afundar.

O plano era desembarcar os blindados à partir de seu transporte naval a alguns quilômetros de distância da praia para reduzir o risco de serem atingidos por disparos de artilharia, testes mostraram que os blindados provavelmente teriam mais chances de sobreviver se fossem lançados mais próximos da praia.

Aqui o Sherman Açoitador limpando campos minados e cercas de arame farpado
Aqui o Sherman Açoitador limpando campos minados e cercas de arame farpado

Durante o Dia-D, a maioria dos DDs combatendo ao lado dos ingleses e canadenses – nas praias Gold, Sword e Juno – foram lançados bem próximos a praia; o mar estava mais bravio do que o esperado, e os comandantes decidiram trazer os navios mais próximos da praia para dar uma chance de sucesso maior aos blindados.

Porém, durante os desembarques americanos – praias de codinome Utah e Omaha – os DDs foram um fracasso. Os comandantes americanos mantiveram o plano inicial de lançar seus blindados de até 3km de distância das praias. Em Omaha, a maioria dos DDs afundaram com as ondas.

Alguns destes DDs desembarcaram nas outras praias, utilizando sua cortina de lona, e assim, capazes de combater como um blindado convencional. Em sua retaguarda vinham as invenções únicas criadas por Hobart, cada uma delas com uma tarefa em particular.

Em meio aos mais bizarros estava o “Caranguejo” (Crab). Um Sherman portando uma sequência açoites (boleadeiras) – um grande tambor com correntes que golpeavam o solo a 140 rpm. O impacto serviria para detonar quaisquer minas enterradas à frente, e outros blindados poderiam então manobrar na retaguarda livres de ameaças.

O Sherman Crab abriria caminho através do campo minado, e faria o mesmo através de arame farpado. Os tripulantes eram informados de que se eles deixassem qualquer buraco para trás, a grande invasão ocorrendo em sua retaguarda iria falhar.

Não eram apenas as defesas alemãs que poderiam causar problemas – a praia em si poderia ser um grande fardo. Parte das preparações para o Dia-D foi feita por unidades de reconhecimento que foram secretamente às praias para coletar areia, e concluir se o solo era firme o suficiente para os blindados.

“Durante seu treinamento, eles tentaram encontrar praias contendo a mesma topografia geográfica,” diz o curador do Museu de Guerra, Paul Cornish. “E lá eles encontraram um certo tipo de areia, que chamaram de argila azul, cuja densidade causou o atolamento de vários veículos. Era um novo desafio.”

Muitas das invenções de Hobart foram feitas utilizando blindados modelo Churchill
Muitas das invenções de Hobart foram feitas utilizando blindados modelo Churchill

Novamente, Hobart e sua equipe encontraram uma solução; o Churchill Bobbin (bobina). Uma modificação do carro de combate inglês contendo duas hastes carregando uma grande bobina enrolada com uma esteira de tecido. Enquanto o blindado movia-se para a frente, a bobina desenrolaria o tecido sobre o solo, criando um carpete para que os blindados pudessem mover-se sem entraves. Este carpete possuía 3m de largura por 60m de comprimento.

“Este foi um dos mais extraordinários inventos em veículos de toda a guerra,” diz Cornish. “Se você pudesse imaginar a expressão dos alemães ao verem esta máquina movendo-se na praia. Eles devem ter ficado totalmente impressionados com o que estavam assistindo em sua frente.”

Outros Churchills receberam variações, um deles era o Churchill AVRE (Armoured Vehicle Royal Engineers), que carregava um grande morteiro feito para esfacelar concreto. Eles não haviam sido desenhados para combater outros blindados, mas para disparar contra os bunkers ou até mesmo muros de concreto, criando grandes crateras onde tropas e outros blindados pudessem fluir através delas.

O efeito dos AVRE era mais do que físico. Este morteiro gigante que disparava cargas do tamanho de lixeiras. As explosões eram enormes. Havia um fator psicológico crucial resultantes dos disparos destes blindados. Os AVREs tornaram-se ainda mais valiosos em terra firme, com seu morteiro provando-se ainda mais eficiente em áreas urbanas.

A engenhosidade dos veículos de Hobart ainda não terminou. Muitos Churchills caminharam sobre as praias da Normandia carregando toras e gravetos – um grande monte de madeira que seria despejado em uma vala para permitir que blindados pudessem atravessá-las. Alguns blindados já utilizavam esta técnica durante a Primeira Guerra Mundial, mas o conceito não contava com nada de novo – esta técnica usada para tapar valas remonta desde a Era Romana.

O morteiro gigante do AVRE podia disparar cargas de até 20kg do tamanho de lixeiras
O morteiro gigante do AVRE podia disparar cargas de até 20kg do tamanho de lixeiras

Por muitas vezes, estes problemas eram resolvidos como sendo problemas diferentes, mas as técnicas eram as mesmas. A genialidade de Hobart era sua habilidade em criar ideias – e mesmo usando velhas técnicas, elas poderiam ser melhoradas para adequarem-se às necessidades da guerra moderna.

Dentre os “brinquedos” também incluíam grandes blindados carregando pontes – alguns Churchills continham estruturas removíveis que poderiam ser posicionadas sobre largas valas, riachos ou para repor pontes que haviam sido destruídas durante batalhas. E eram resistentes o suficiente para carregarem os mais pesados blindados.

Para os grandes bancos de areia haviam os Churchill Ark. O Ark não possuía torre, e era equipado com rampas na parte frontal e traseira de sua carcaça. Ele era posicionado próximo a um banco de areia ou um grande obstáculo para que outros blindados pudessem transpor estes obstáculos.

Outros blindados eram apenas tratores dirigidos por engenheiros, que poderiam remover blindados destruídos ou fazer a limpeza de estradas em meio aos destroços. Eles também eram capazes de instalar cargas de explosivos sobre obstáculos e detoná-los de uma distância segura.

Alguns Churchills foram apelidados de “Crocodilos” (Crocodile), e portavam lança-chamas. Assim como os AVREs, estes blindados eram capazes de abrir caminho entre as tropas inimigas evitando um número significativo de baixas aliadas – a sensação de ser queimado vivo era sempre um medo constante para os defensores alemães. Em alguns casos os crocodilos movendo-se em direção a orla testavam seus lança-chamas desferindo alguns jatos, e grupos de alemães rendiam-se imediatamente sem que outro disparo fosse feito.

O Churchill Crocodilo era armado com lança-chamas, algo assustador para o inimigo
O Churchill Crocodilo era armado com lança-chamas, algo assustador para o inimigo

Armas como o AVRE e o Crocodilo parecem algo barbárico demais, mas Hobart estava ciente de que o emprego destas armas salvaria vidas em ambos os lados. Na época em que os desembarques aconteceram, a Inglaterra já estava em guerra por nove anos. Durante os preparativos da invasão, Montgomery, o comandante supremo inglês, teve de fundir várias unidades pelo fato de que as forças armadas inglesas já estavam ficando sem combatentes suficientes.

Para os “brinquedos”, o Dia-D era apenas o começo. Muitos dos veículos provaram sua exímia eficiência durante a Batalha de Villers-Bocage, que ocorreu nas vias estreitas cercadas por vegetação nas áreas adjacentes as praias da Normandia. Forças americanas, que inicialmente julgaram que as invenções de Hobart eram bizarras e ineficientes demais para o combate, acabaram por usá-las tanto quanto os britânicos mais tarde.

Ao final da guerra, a 79ª Divisão Blindada – a unidade encarregada de utilizar os “brinquedos” – foi a maior unidade mecanizada da Europa. Os blindados bizarros foram posteriormente empregados em pequenos grupos onde via-se sua necessidade, uma estratégia flexível que ampliava o alcance e a eficiência destas unidades.

A outra grande vantagem destes blindados era que, fora seus motoristas, eles eram tripulados por engenheiros. Estes sim eram os experts. Uma das grandes forças do Exército Real Britânico na Normandia era constituída por estes engenheiros especialistas em remover ou atravessar obstáculos com exímia rapidez.

O Ark era usado como rampa para que outros blindados pudessem transpor obstáculos grandes no meio do campo de batalha
O Ark era usado como rampa para que outros blindados pudessem transpor obstáculos grandes no meio do campo de batalha

Hobart foi um homem que fazia as coisas acontecerem. Era o homem certo na hora certa. E era muito determinado.

Haviam muitas histórias sobre ele entrando em seu carro e dirigindo a velocidades perigosíssimas à noite rumo a algum lugar onde havia algo sendo testado – “Teremos isto funcionando à todo vapor pela manhã, certo?” Dizia Hobart impondo sua fala sobre os encarregados.

Ele era também um homem que poderia extrair ou melhorar uma boa ideia à partir da fala de qualquer um. Não importava se fosse um cabo, um major aposentado, ou um cientista. Se você tivesse uma boa ideia, ele iria ouvi-la.

Setenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a maioria dos exércitos no mundo usam blindados especiais que não criariam uma imagem bizarra se compusessem a força de blindados de Hobart naquela época. Os “brinquedos de Hobart” afinal, não tinham nada de brinquedos.

Fonte: BBC

 

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O Brasil, durante todo o século XX esteve presente nas discussões sobre a Paz no Mundo. O País fez parte da criação da Liga das Nações, após a Primeira Guerra Mundial, e como a organização não foi capaz de impedir a Segunda Guerra Mundial, ao término do conflito, foi criada a ONU (Organização das Nações Unidas), no qual, o Brasil foi um dos membros fundadores.

As Operações de Paz da ONU tinham como objetivo inicial, garantir a ordem, e buscar o cessar-fogos em territórios em conflito. Esses interesses, eram algo que não havia sido criado com as missões, desde a criação da Liga das Nações e depois com a ONU, entendia-se que as maiores potências militares deveriam intervir para garantir a paz e evitar que os conflitos tomassem grandes proporções.

As Operações de Paz da ONU, com uma quantidade de contingente para a resolução de um conflito começou em 1948, quando foi criada a UNTSO, Organização de Supervisão de Trégua das Nações Unidas, que tinha como objetivo, o cessar-fogo na Guerra da Israel-Palestina. O Brasil iniciou sua participação em 1956, através da UNEF (Força de Emergência das Nações Unidas), com o chamado “Batalhão de Suez”, que visava contribuir para a manutenção da paz no conflito entre egípcios e israelenses, depois na nacionalização do Canal de Suez.

Soldados do 13º contingente brasileiro do Batalhão de Suez.
Soldados do 13º contingente brasileiro do Batalhão de Suez.

A participação do Brasil nessas missões acontece de acordo com o artigo 4º da Constituição Brasileira, que determina que a “República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: I – independência nacional; II – prevalência dos direitos humanos; III – autodeterminação dos povos; IV – não-intervenção; V – igualdade entre os Estados; VI – defesa da paz; VII – solução pacífica dos conflitos; VIII – repúdio ao terrorismo e ao racismo; IX – cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; X – concessão de asilo político”, assim para o Brasil fazer parte de uma Operação de Paz, deve existir uma aceitação da nação envolvida em um conflito, da presença de estrangeiras em seu território.

Nesse contexto, o Brasil considera as Operações de Paz como um instrumento importante para solucionar conflitos, ajudando a promover negociações político-diplomáticas. As missões devem ter os princípios da imparcialidade, promovendo negociações com todas as partes envolvidas, aplicando o mínimo de força necessária e depois de esgotadas as tentativas diplomáticas.

Soldado brasileiro no Haiti, Cité Soleil.
Soldado brasileiro no Haiti, Cité Soleil.

As polícias militares também fazem parte da história da participação do Brasil nas Operações de Paz, desde a década de 1990, os policiais brasileiros integraram as missões na Angola (1991), e contribuem até hoje com as forças da nação.

Operação Especial Anjo, Cidade de Deus, Porto Príncipe.
Operação Especial Anjo, Cidade de Deus, Porto Príncipe.

O papel da mulher nas operações de paz também merece ser destacado. No Brasil, a participação feminina nas três forças armadas é recente, década de 1980, com a criação do Corpo Auxiliar Feminino da Reserva, que objetivava atuar na área técnica e administrativa. Nas missões de paz, a primeira militar brasileira a participar de uma missão foi uma capitão médica, que foi para o Timor-Leste em 2003.

No Haiti, as mulheres se incorporaram as tropas brasileiras em 2006, e até esse momento, 124 mulheres do Exército (62 praças e 62 oficiais) estiveram naquele país como médicas, dentistas, enfermeiras, tradutoras e engenheiras.

O Brasil não integra somente as Missões de Paz da ONU, desde a criação da Força Interamericana de Paz da OEA (Organização dos Estados Americanos), o Brasil participa das forças de paz, integrando-se ao primeiro contingente em 1965 na República Dominicana.

O Brasil já participou de mais de 30 missões de paz das Nações Unidas, desde a sua criação, enviando mais de 27 mil militares, e atualmente, as Forças Armadas Brasileiras estão em 9 Missões de Paz das Nações Unidas e 1 da OEA, com mais de 1700 militares brasileiros. Nos últimos anos, a responsabilidade do Brasil aumentou com o comando das tropas da ONU no Haiti a partir de 2004 (MINUSTAH), no Congo em 2012 (MONUSCO) e no Lìbano (UNIFIL), com o comando das Forças Navais em 2011.

Tropas brasileiras na Operação MONUSCO, na República Democrática do Congo
Tropas brasileiras na Operação MONUSCO, na República Democrática do Congo

Em 2010, o Brasil criou o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), que homenageou o Diplomata Sérgio Vieira de Mello, dando o seu nome para o CCOPAB, um local de preparação das forças armadas, brasileiras e estrangeiras, que irão integrar as missões de paz das Nações Unidas.

Mapa das missões de paz Brasileiras em andamento.
Infográfico das missões de paz Brasileiras em andamento.

No entanto, apesar da participação brasileira ter crescido a partir da MINUSTAH em 2004, todo esse processo está longe de ser um atributo essencial para o reconhecimento do Brasil no cenário mundial, pois membros do Conselho de Segurança da ONU e países com as maiores economias do mundo, não tem um procedimento padrão, devido determinados países enviam mais militares que o Brasil, como Índia e China, e outros enviam algumas dezenas, como os EUA e a Rússia.

País 2009 2010 2011 2012 2013 2014 Total
Alemanha 296 294 288 200 193 259 4980
Brasil 1335 2248 2260 2447 2205 1748 17694
China 2146 2136 2044 1904 1860 2177 19109
França 2544 1738 1471 1266 950 958 15155
Índia 8631 8765 8657 8134 7812 7923 91965
Japão 39 231 260 499 271 271 3108
Reino Unido 301 283 283 285 298 357 5050
Rússia 347 366 255 109 103 107 3458
EUA 100 88 91 131 118 120 3794

Nesse sentido, a participação do Brasil nas Forças de Paz da ONU, não proporciona a nação ambicionar ter maior relevância nas decisões da ONU e nem de fazer parte como membro permanente do Conselho de Segurança.

Logo após o fim da guerra, Berlim jazia em ruínas. Imagens feitas por correspondentes soviéticos mostram a extensão da destruição. 70 anos depois o fotógrafo Fabrizio Bensch visitou os mesmos lugares novamente.

Samariter / Rua Riga (Friedrichshain)
Reichstag (Tiergarten)
Alexandrinenstraße (Kreuzberg)
Auguststraße (centro)
Vista lateral do Reichstag (Tiergarten)
Borsigstraße (centro)
Vista da Marie-Elisabeth-Lueders-Haus (Tiergarten)
Frankfurter Allee (Friedrichshain)
Voßstraße (centro)
Rua Kadiner (Friedrichshain)
De volta no tempo.

Em 1945, o correspondente soviético Georgiy Samsonov juntamente com o 5ª Exército sob o comando do General Coronel Berzarin estavam em Berlim. Sua câmera estava carregada com filme e pronta para fotografar. Uma réplica soviética sem a licença da empresa Leica II foi capaz de capturar imagens impressionantes da cidade em ruínas. Alguns soldados soviéticos são vistos em situações hostis. Se isto ocorrera com fins de propaganda, isso ninguém sabe. 70 anos depois o fotógrafo berlinense Fabrizio Bensch foi aos lugares em que Samsonov esteve e os fotografou novamente. O que não foi fácil: Seu colega soviético deixou quase nenhuma informação ou referência sobre os lugares.

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Bensch adquiriu velhos mapas das ruas, fotografias aéreas e deixou agendas de telefone ao alcance das mãos para conseguir localizar as cenas. Um trabalho de detetive.
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Relato do correspondente Joel Silveira sobre a conquista do monte italiano realizada pela FEB, em fevereiro de 1945.

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Na véspera do dia 21 eu havia pedido um jipe ao Major Souza Júnior, encarregado dos correspondentes, para ir a Nápoles esperar o quarto escalão de tropas brasileiras que chegaria no dia 23. O major, então, me perguntou:

– Você prefere esperar o escalão ou uma coisa melhor?

A “coisa melhor” era a ofensiva brasileira do dia 21 sobre o Monte Castelo. Manhã cedo, no QG recuado, fomos avisados de que a nossa artilharia abrira fogo cerrado, naquela noite, contra posições defensivas inimigas nas montanhas que há três meses nos barravam o caminho. Tomamos um café apressado, enchemos os bolsos de chocolate e chicle, e soltamos nossas viaturas até o QG avançado. Os jipes necessários já esperavam os correspondentes, e cada qual subia no seu e procurou, na frente, o melhor lugar para uma observação total da luta. Creio que a sorte me protegeu, que meu jipe andou mais depressa, não sei: o certo é que tomei de assalto o PO avançado do General Cordeiro de Faria e lá me instalei por todo o dia. Eram 8h da manhã quando o general me cedeu seu lugar diante da luneta binocular e me disse:

O brasileiro que aprendeu a guerrear na guerra

– Começamos a atacar às 6 da manhã. As tropas em ofensiva constituem o 1º Regimento de Infantaria, o Sampaio. Os seus três batalhões avançam na seguinte ordem: o 1º comandado pelo Major Olívio Godim de Uzeda, segue pela esquerda; o 2º comandado pelo Major Sizeno Sarmento, vai pelo centro; e o 3º, comandado pelo Tenente Coronel Emílio Rodrigues Franklin, partirá da direita. Nossa intenção é envolver todo o morro e, em coordenação com a ofensiva americana que já conquistou Belvedere, arrancá-lo das mãos nazistas até o fim da tarde de hoje.

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Vejo, através da luneta, os nossos pracinhas agachados lá na frente, grupos aqui e ali rastejando na direção do cume de onde atiram, com suas curtas e sinistras gargalhadas, as terríveis “lurdinhas” alemãs. Agora mesmo um deles encostou-se num pedaço de muro destruído e aponta sua Thompson para qualquer lugar lá em cima. 24_fab-na-segunda-guerra-p47-em-voo-de-combateOs morteiros nazistas rebentam nas faldas do sul, mas nossa artilharia reinicia seu canhoneio sistemático e certeiro, como fizera toda à noite. Escuto os silvos das granadas sobre nós, vejo-as explodirem lá adiante, numa coroa de fumaça que cai sobre o Castelo como uma auréola de chumbo. Uma de nossas baterias parece que perdeu a mira, e seis tiros caem muito aquém, quase num determinado setor brasileiro.
O General Cordeiro dá ordens secas e rápidas, e durante alguns minutos seus ajudantes-de-ordens procuram, através dos cinco telefones de campanha e dos dois rádios, localizar o canhão amalucado. Finalmente o Capitão Durval de Alvarenga Souto Maior, comandante da 1ª Bateria do 1º Grupo, descobre que o canhão pertence à sua unidade. Há uma ordem rápida pelo rádio, e os tiros agora estão perfeitamente ajustados no eficiente conjunto de toda a artilharia. À esquerda, sobre posições americanas além de Belvedere, cinco ou seis Thunderbolts descem em picada, rápidos como um peso despencado de cima, e metralham impiedosamente os nazistas em defensiva.

Marcas do Nazismo em fazendas do interior de São Paulo

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Quando cheguei ao Posto de Observação do General Cordeiro, duas ou três horas depois de iniciada a ofensiva, a situação era mais ou menos esta: os batalhões avançaram, com exceção do 2º, comandado pelo Major Sizeno, que partiria às 11h 35min de Gaggio Montano. Os nazistas tentavam impedir a progressão dos brasileiros com um fogo concentrado de morteiros. Eu sabia que a conquista de Castelo só seria efetuada depois que os americanos, que partiram de Belvedere, houvessem se apoderado de Toraccia, um pico que, atrás, dominava certa parte do morro sobre o qual avançavam nossos homens.

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O ataque americano, que começara na noite anterior, estava sendo efetuado por toda uma divisão especializada, a 10ª de Montanha, recentemente chegada a este setor. Naquele momento, 10 da manhã, os norte-americanos se encontravam em determinado ponto além de Menzacona, meio caminho entre Belvedere e Toraccia. Menzacona ficara em poder de um dos batalhões de brasileiros, com o qual os americanos haviam-se encontrado pela manhã. Então a ofensiva combinada, no lado direito, tomou o seguinte aspecto: os brasileiros deixaram alguns homens em Menzacona e seguiram em direção a Castelo, pela esquerda e comandados pelo Major Uzeda: os americanos foram à frente, em direção a Toraccia.

Monte-Castelo
Daí por diante, os acontecimentos se sucederam nesta ordem, conforme me dizem os quase indecifráveis apontamentos que fui tomando às carreiras, entre uma olhada de binóculo e uma informação dos rádios:

– Ao meio dia, o General Clark, comandante da frente italiana, o General Truscott, comandante do V Exército, o General Crittenberger e o comandante-chefe das forças aéreas do Mediterrâneo estiveram em visita ao General Mascarenhas de Moraes, no seu posto de observação precisamente três quilômetros à direita do PO do General Cordeiro.

– Às 12h 30min, o Major Uzeda, que avança pela esquerda, pede proteção de artilharia para que possa alcançar um ponto na sua frente, e o General Cordeiro ordena às baterias: “Cinco rajadas de morteiro sobre 813.”

José Dequech: À serviço da artilharia da FEB

– Às 13h 55min, um dos batalhões avisa que foram avistados reforços alemães que começam a chegar a Castelo. Ao lado direito, o Coronel Franklin está detido com o seu 3º Batalhão. O Major Uzeda previne pelo rádio que tentará envolver Castelo pela esquerda.

– Às 14h 20min, o Major Uzeda avisa que vai atacar 920, penúltimo ponto antes da crista de Castelo. Pede mais tiro ao General Cordeiro, que transmite, através de seus auxiliares (o Coronel Miranda Correia e o Capitão Souto Maior são dois deles), ordens às baterias. O Major Uzeda se encontra precisamente a cinco quilômetros do PO, tendo realizado já uma progressão de dois quilômetros. O diálogo entre Alma I, Alma II e Alma III (observadores junto aos batalhões) e Lata I, Lata II e Lata III (oficiais de ligação em plena luta) se repete de minuto a minuto.

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– Às 15h, o Major Uzeda se encontra firme em 930, mas neutralizado por metralhadoras alemãs. Seu objetivo final será 977, ou seja, o cume de Castelo, onde tenciona chegar depois das 16h 30min. Fica combinado então que, às 16h 20min, quando seu batalhão iniciar a definitiva marcha sobre a crista de Castelo, toda a artilharia divisionária concentrará seus fogos sobre as faldas e o cume do monte. Estamos disparando com canhões de 105, 155 mm e morteiros.

– Às 15h 5min, escuto do General Cordeiro que, até aquele instante, calculava já ter gasto uns 8 milhões de cruzeiros de munição com os disparos da sua artilharia.

– Às 15h 30min o Major Uzeda diz pelo rádio: “Meus homens estão prontos para atacar.” Olho pelo binóculo que me emprestou o Coronel Miranda Correia e vejo, lá em cima, no 930, os soldados em formação de ataque, esparsos pelos pequenos vales e deitados na pouca neve que o sol ainda não conseguira mandar embora.

Entre 15h 30min e 15h 50min há uma relativa calma: somente os morteiros nazistas, os aviões mergulhando nas faldas de Toraccia e um teco-teco brasileiro, plácido como uma asa estendida, que navega solitário sobre o campo de luta. O PO do General Cordeiro de Faria fica localizado numa elevação de terreno – lá embaixo, é o vale que nos separa de Castelo, e aqui atrás, seiscentos metros distante, está localizado um dos grupos de nossa artilharia. Quando suas peças disparam, há um violento estremecimento de toda a casa, e xícaras e copos trepidam na mesa com um barulho cristalino. Os paisanos que aqui residiam, neste chalé amarelo, foram expulsos pela guerra e parece que não tiveram tempo de levar suas coisas. Os móveis estão intactos, há litogravuras nas paredes, um Cristo desalentado e pálido, fotografias de cavalheiros fardados e senhoras em trajes de inverno. Num dos cantos da sala onde o general colocou sua luneta, descubro um ricordo nuziale cercado por uma moldura dourada. Ali se recorda que, no dia 11 de dezembro de 1927, numa igreja de Bolonha, se consorciaram Dino Bettochi e Caterina Cionni. Uma paz distante.

Monte Castello atualmente.
Monte Castello atualmente.

– Às 16h 3min o Coronel Franklin informa pelo rádio que seus homens ocuparam Fornelo, à direita de Castelo e próximo ao seu cume. Tratava-se de um ponto forte inimigo, eriçado de metralhadoras, que foi dominado pelos nossos soldados. Fornelo foi um dos pontos em que foram barrados, em novembro e dezembro últimos, os anteriores ataques brasileiros contra a montanha tão cruel. Continua progredindo o batalhão do Coronel Franklin.

– Sem dúvida alguma, o instante mais sensacional de toda a luta do dia 21 aconteceu às 16h 20min, quando toda a artilharia divisionária concentrou seus fogos sobre Castelo. Já havia lá fora qualquer coisa da noite, e os obuses explodiam em chamas altas, que o binóculo me mostra, tão próximas e reais.

As faldas do monte estão cavadas e lá em cima o cume ficou transformado numa cratera de vulcão em erupção. O Major Uzeda avança protegido pela função dos tiros de fuligem, e nossas metralhadoras estão trabalhando ativamente. Aqui dentro, ninguém diz nada. O general colocou definitivamente os olhos na luneta, e seus dedos – vejo bem – alisam automaticamente um pedaço da mesa. O Coronel Correia diz num fiapo de voz:

– Todo mundo está andando…

– Às 17h 40min os homens do Major Uzeda alcançam Esperança, outro ponte forte nazista no setor 930.

– Às 17h 45min o General Cordeiro de Faria afasta-se das lunetas, vira-se para mim e diz: “Praticamente Castelo está conquistado.” Chegam também informações sobre a situação dos americanos: eles não conseguiram ainda tomar Toraccia, e o avanço brasileiro sobre Castelo terá que ser feito com aquela estratégica posição ainda em mãos dos nazistas.

– Às 17h 50min a voz do Coronel Franklin vem, forte pelo rádio: “Estou no cume do Castelo.” E pede fogos de artilharia sobre pontos inimigos além do monte. “Castelo é nosso”, diz-me o general. Mais três minutos, e as baterias estão canhoneando Caselina, Serra e Bela Vista. Os nazistas respondem com morteiros. Mas nada mais adiantaria, porque, como me diria no dia seguinte o Coronel Franklin, “estamos em Castelo e ninguém mais nos tira daqui.”

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São mais de sete da noite quando seguimos, eu e o fotógrafo Horácio, pela estrada deserta e fria a caminho do nosso jipe que ficou distante. Nossa artilharia continua incansável. O Castelo está bem a nossa frente, mas é agora uma coleção de faldas amansadas. Já não nos domina com suas casamatas, já não vigia implacável nossos caminhos e estradas, já não nos persegue com seus mil olhos nazistas. É um morro brasileiro, e amanhã estarei lá em cima, junto com os pracinhas vitoriosos, passeando pela sua arrogância domada.

O Capitão Vernom Walters canta com os 'Pracinhas' o Hino Brasileiro
O Capitão Vernom Walters canta com os ‘Pracinhas’ o Hino Brasileiro
Inaugurado ao pé do Monte Castello em 21/06/2001, o Monumento ai Caduti Brasiliani, projetado pela brasileira Mary Vieira, homenageia os soldados brasileiros mortos na Itália. Um dos arcos brancos aponta para a terra e simboliza a morte, ao passo que o outro aponta para o céu, isto é, para a transcendência que as mortes dos soldados significaram. Ademais, na concepção do monumento, a escultora Mary Vieira imaginou o movimento contínuo do sol que, ao meio-dia, projeta sobre o solo uma cruz, símbolizando o heroísmo brasileiro.
Inaugurado ao pé do Monte Castello em 21/06/2001, o Monumento ai Caduti Brasiliani, projetado pela brasileira Mary Vieira, homenageia os soldados brasileiros mortos na Itália.
Um dos arcos brancos aponta para a terra e simboliza a morte, ao passo que o outro aponta para o céu, isto é, para a transcendência que as mortes dos soldados significaram.
Ademais, na concepção do monumento, a escultora Mary Vieira imaginou o movimento contínuo do sol que, ao meio-dia, projeta sobre o solo uma cruz, símbolizando o heroísmo brasileiro.

 

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Fonte deste artigo: História de Pracinha – Joel Silveira – Edições de Ouro

Fonte na internet: Grandes Guerras

UM POUCO DA HISTÓRIA

Nas primeiras décadas do século XX, o Brasil não possuía nenhum arsenal ou fábrica de armas, fosse ela privada ou não, capaz da produção em larga escala de equipamentos militares para suprir a demanda do Governo Brasileiro. O armamento aqui empregado, tanto nas Forças Armadas como nas Polícias Militares estaduais era um misto de contratos e importações oriundo, basicamente, da França e da Alemanha.  Já naquela época o mais bem equipado e armado estado da então República dos Estados Unidos do Brasil era São Paulo, cuja milícia denominada de Força Pública, pelo número de homens e quantidade de equipamentos, podia ser comparada a um pequeno exército.

O Governo Brasileiro já havia efetuado vários contratos de importação de armamentos leves, mas o mais importante deles foi a dotação do fuzil Mauser modelo 1893, no ano de 1894, em calibre 7mm X 57mm, para substituir o seu antecessor, o fuzil da comissão alemã G88, que aliás é objeto de um artigo neste site. Posteriormente, em 1908, outra grande aquisição do governo junto à D.W.M. (Deutsche Waffen und Munitionsfabrik) veio se juntar à anterior, mas agora com os novos modelos Mauser 1898, que aqui passaram a ser denominados de modelo 1908. Falaremos disso mais adiante, com mais detalhes.

Com a federalização oriunda após a proclamação da República, os estados possuíam autonomia para adquirirem armamento sem necessitar passar por aprovações dos
federais, de forma que isso facilitou muito a aquisição de armas diretamente dos fornecedores na Europa.

Desta maneira, a Força Pública de São Paulo também adquiriu grande quantidade destes fuzis diretamente da D.W.M. (Deutsche Waffen und Munitionsfabrik, de Berlim , Alemanha. Da França, o Governo do Brasil também importou em razoável quantidade as metralhadoras Hotchkiss, onde se escolheu manter, para essas armas, o calibre padronizado de 7mm X 57mm Mauser, o mesmo dos fuzis importados da Alemanha. Na área das armas curtas, houve aquisições importantes de diversas nações, como o revólver “D’ Ordenance Mdle. 1892”, erroneamente chamado de Lebel, os revólveres do tipo Nagant, oriundos da Bélgica (Pieper) e da Alemanha (Simson & Son) , bem como as pistolas semi-automáticas alemãs Parabellum (Luger), trazidas em um lote de 5.000 peças, em 1906.

Em 16 de julho de 1934 funda-se a Fábrica de Canos e Sabres para Armamento Portátil, na cidade de Itajubá, estado de Minas Gerais, inaugurada em 1935. Paralelamente, em 1939, foi reestruturada a antiga Real Fábrica de Pólvora da Estrela na cidade de Majé, estado do Rio de Janeiro, criada em 1808 na Lagoa Rodrigo de Freitas, pelo imperador D. João VI. Ela funcionou como uma organização militar vinculada ao Ministério do Exército até 1975.

Em 1960 a F.I. chegou a produzir cerca de 50.000 pistolas M1911A1, sob licença da Colt, a fim de suprir demanda do Exército Brasileiro. Em 1975, durante o regime militar, o governo brasileiro funda a IMBEL, Indústria de Material Bélico do Brasil, que mantém sob sua alçada as unidades de Itajubá, Juiz de Fora e de Magé.

Segundo informações da própria Imbel em seu site, há indicativos que a criação desta empresa pública ocorreu em decorrência do rompimento, no ano de 1974, pelo Governo de Ernesto Geisel, do Acordo de Cooperação Militar Brasil – Estados Unidos, firmado durante a 2ª Guerra Mundial.

Fábrica de Itajubá

Com a  sua criação, as Fábricas Militares do Exército foram transferidas para a estatal, e com isso, o setor de defesa, integrado com as demais empresas privadas da época, passou a ser uma atividade estratégica para o país, com uma tecnologia nacional em evolução, que permitiria ao Brasil tornar-se mais independente na produção de equipamentos militares.

Em 1893 atravessou período conturbano financeiramente e acabou cedendo sua fábrica de munições, situada em Realengo, para a CBC. Em 1985 fechou um contrato com a Springfield Armory e produziu diversas variantes da pistola, chegando algumas delas a serem adotadas pelo F.B.I. Pelo menos até o ano de 2004, a Imbel detinha 30% das ações da CBC e mantinha uma joint-venture com as empresas South America Ordnance, a Royal Odnance e a Schahin Participações, essa última de controle nacional.

Entrada da Fábrica de Itajubá, MG

Mas, voltando bastante no tempo, vamos nos posicionar quanto à dotação de armas longas efetuadas pelo Governo Brasileiro após a Guerra de Canudos. Como já explorado em outro artigo neste site, ainda em 1873 o governo havia adotado as carabinas belgas Comblain, que teve uma longa participação ativa nas fileiras militares brasileiras. Somente em 1892 é que começaram a ser substituídas pelos fuzís alemães modelo 88, o “Gewehr 88”, em calibre 7,92X57mm, uma vez que no mundo todo a tendência era a de substituição de armas longas utilizando cartuchos de pólvora negra pelos novos cartuchos de pólvora sem fumaça, em calibres mais baixos e mais velozes.

Os fuzis modelo 88 (veja artigo sobre ele, aqui no site) tiveram uma vida de serviço curta no Brasil, devido a uma série de problemas ocorridos com a arma durante a Revolução Federalista e posteriormente, no conflito de Canudos. Em 1894, a Comissão Técnica Consultiva, que estranhamente já havia deixado de lado a ideia de adotar as carabinas “belgas” da Mauser modelo 1889, em favor dos fuzis 88, voltou a pensar nelas como alternativa.

Mas a essa altura, decidiu-se sabiamente por importar algo mais moderno, um modelo similar ao fuzil que já era utilizado na Espanha, e que chegou por aqui como sendo o Mauser modelo 1893, denominado de mod. 1894 em virtude de que a maioria deles vieram com suas câmaras datadas com este ano. Para complicar ainda mais o detalhe das datas, as carabinas belgas F.N. que chegaram nos primeiros lotes, vieram datadas de 1895.

Fuzil Mauser mod. 1894, em cal. 7X57
Fuzil Mauser mod. 1894, em cal. 7X57

Cerca de 75.000 armas foram entregues ao Governo. Em 1899, um inventário acusou 57.000 delas, só no Rio de Janeiro. Mas, é por volta de 100.000 armas a quantidade estimada da compra desse modelo, que desembarcaram em terras tupiniquins ainda em tempo de participar de diversos conflitos armados tais como a Revolução Federalista, a Revolta da Armada e a Guerra de Canudos, mas ainda convivendo lado a lado com as carabinas belgas Comblain e os fuzís modelo 1888. Como o Exército, na época, contava com um efetivo em tempos de paz de 28.000 homens, e cerca do dobro disso em período de guerra, essa aquisição serviu para substituir todo o estoque de armas antigas existentes, tanto as Comblain como o modelo 1888, e mais ainda, o que restava dos fuzis Kropatcheks e das raras carabinas belgas de 1889 em calibre 7,65mmX53.

As dimensões do fuzil Mod. 1894 eram: Comprimento: 1,231m – Peso: 3,75Kg – Comprimento do cano: 0,741m. O raiamento consistia de 4 raias destrógiras. As carabinas 1894, bem mais raras de se encontrar hoje em dia, mediam 0,949m, cano com 0,457m e peso de 3,103 Kg.

Detalhe da ação Mauser do modelo 1894
Detalhe da ação Mauser do modelo 1894

Em 1908, o governo resolve substituir o modelo 1894 pelo mais moderno e reforçado modelo da Mauser, o 1898, mas ainda em calibre 7X57mm, embora as armas do modelo 1894 continuaram em uso até meados da década de 50. Muitas delas foram equipar as Polícias Militares de alguns estados, como o do Rio de Janeiro, que mesmo nos anos 90 ainda eram vistas nas mãos de integrantes da PM daquele estado. Este fuzil passou a ser denominado aqui como Mauser modelo 1908. O fuzil M1908 media 1,247m, cano com 0,742m e peso de 3,796 Kg.

O fuzil Mauser “brasileiro” Modelo 1908, em calibre 7X57mm, modelo 1898, importado da D.W.M. e conhecido aqui como F.O. 08, Fuzil Ordinário “zero-oito”.
O fuzil Mauser “brasileiro” Modelo 1908, em calibre 7X57mm, modelo 1898, importado da D.W.M. e conhecido aqui como F.O. 08, Fuzil Ordinário “zero-oito”.

O período de maior aquisição de Mausers da D.W.M. feito pelo Governo Brasileiro foi entre 1908 e 1914, quando eclodiu a I Guerra e a D.W.M. não tinha sequer condições de suprir o mercado interno em tempos de guerra. Posteriormente, a aquisição de armas fornecida pela C.Z., da Tchecoslováquia, ocorreu principalmente de 1922 a 1924, com o fuzil conhecido como VZ24. (N.A.: as letras VZ é uma abreviatura da palavra tcheca “vzor”, que significa “modelo”; portanto se trata de uma redundância o costume de alguns autores citarem esse fuzil como “modelo VZ 24”). Um detalhe histórico interessante foi a importação feita pelo governo do Estado de São Paulo, de 15.000 carabinas da C.Z. (Tchecoslováquia), no ano de 1932, para suprir as tropas revolucionárias que se ergueram contra Getúlio Vargas; a chamada Revolução Constitucionalista.

Da Fabrique Nationale D’Armes de Guerre, a F.N. de Herstal, Bélgica, o Exército importou grande quantidade de carabinas, também entre os anos de 1922 a 1924, para uso de tropas de artilharia e cavalaria. A quantidade correta de armas importadas ainda não é devidamente comprovada. A ação era do Mauser 98, em calibre 7mmX57mm, alavanca de ferrolho curvada para baixo e a coronha seguia o estilo “inglês”, sem punho-pistola. A telha era de madeira do tipo inteiriça, apenas com uma abertura, de onde emergia a alça de mira. A braçadeira dianteira era do tipo estreito, não a tradicional em forma de H mais comumente encontrada nos fuzís. As carabinas mediam 1,063 m de comprimento, cano com 0,558 m e peso total de 3,601 Kg.

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As carabinas Mauser de fabricação belga “Fabrique Nationale D’Armes de Guerre”, importadas pelo Exército Brasileiro em 1922, calibre 7mmX57mm. Note que essas carabinas, embora utilizando ação 1898, possuíam a coronha sem punho-pistola e não havia o rebaixo na coronha, sob a manopla do ferrolho.
As carabinas Mauser de fabricação belga “Fabrique Nationale D’Armes de Guerre”, importadas pelo Exército Brasileiro em 1922, calibre 7mmX57mm. Note que essas carabinas, embora utilizando ação 1898, possuíam a coronha sem punho-pistola e não havia o rebaixo na coronha, sob a manopla do ferrolho.

Em 1930, a reviravolta política causada pela ascensão de Getúlio Vargas e a proclamação do “Estado Novo”, sistema modelado em vários aspectos à ditadura fascista de Mussolini, alavancou sobremaneira a re-equipação das Forças Armadas. Além disso, do nordeste do país vinha crescendo a ameaça constante do cangaço. Por essa razão, e com a produção um pouco limitada da Fábrica de Itajubá, o governo aceitou uma proposta da Mauser Werke, da Alemanha, já sob controle do partido nazista, que cultivava uma simpatia discreta com o Governo Getulista.

Acima, Mauser 1908 (M1898) do contrato brasileiro, com a marca B dentro de um círculo (acervo particular)
Acima, Mauser 1908 (M1898) do contrato brasileiro, com a marca B dentro de um círculo (acervo particular)
Mauser 1908, do contrato brasileiro, em calibre 7mmX57, com o ferrolho retirado
Mauser 1908, do contrato brasileiro, em calibre 7mmX57, com o ferrolho retirado

A Mauser, embora ainda  debaixo do Tratado de Versalhes e produzindo “secretamente” armas para equipar o Exército Alemão, ofereceu ao governo brasileiro o preenchimento desta demanda, com o Modelo 1935, em versões de fuzil ou de carabina. Essas armas, uma produção pré-guerra, apresentavam o que de mais perfeito a Mauser podia exibir no que tocava à acabamento e qualidade.

Carabina Mauser modelo 1935, ferrolho reto, em calibre 7mm X 57 Mauser; foi muito utilizada nas campanhas militares contra o cangaço nordestino – a arma acima foi negociada em leilão nos USA, totalmente original e sem uso – note o dispositivo cobre-mira atachado à boca do cano.
Carabina Mauser modelo 1935, ferrolho reto, em calibre 7mm X 57 Mauser; foi muito utilizada nas campanhas militares contra o cangaço nordestino – a arma acima foi negociada em leilão nos USA, totalmente original e sem uso – note o dispositivo cobre-mira atachado à boca do cano.
Detalhe da carabina de fabricação Mauser, mod. 1935, em calibre 7mm X 57.
Detalhe da carabina de fabricação Mauser, mod. 1935, em calibre 7mm X 57.

Na verdade essas armas eram idênticas ao modelo alemão de 1898, aqui adotado como M1908, com exceção da alça de mira tangencial já utilizada neste último modelo, além da incorporação de um rebaixo efetuado na parte frontal da coronha para melhorar a aderência da mão. Desta forma, essa similaridade não apresentava dificuldades maiores para o treinamento dos soldados, já acostumados à arma. Grande parte dessa importação permaneceu em arsenais brasileiros praticamente sem uso até a sua substituição pelo Mosquetão Itajubá, a partir de 1950, com a adoção do calibre .30-06 Springfield pelas Forças Armadas Brasileiras. Acredita-se que grande parte desses Mauser foram posteriormente retrabalhados e transformados no Mosquetão M1949.

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Mauser M1935, fabricação Mauser Werke, na versão longa (fuzil), em cal. 7mm X 57.
Mauser M1935, fabricação Mauser Werke, na versão longa (fuzil), em cal. 7mm X 57.
No alto, detalhe da ação da carabina Mauser 1935 – note o acabamento oxidado de primeira qualidade e o Brasão de Armas do Brasil – em baixo, detalhe lateral da ação e coronha em nogueira européia.
No alto, detalhe da ação da carabina Mauser 1935 – note o acabamento oxidado de primeira qualidade e o Brasão de Armas do Brasil – em baixo, detalhe lateral da ação e coronha em nogueira européia.

O MAUSER “BRASILEIRO”

Devido à grande demanda de fuzis para suprir as Forças Armadas Brasileiras durante a primeira metade do século XX, a Fábrica de Itajubá iniciou a fabricação “em casa” dos Mauser mod. 1908 como alternativa às importações que eram geralmente feitas junto à D.W.M. na Alemanha (Deutsche  Waffen und Munitionsfabrik) e da C.Z. (Ceska Sbrojovka), na então Tchecoslováquia, com a utilização de madeiras locais ao invés das nogueiras européias.  Foi então que a partir de 1934, e como forma de minimizar a dependência de importação de armas, a Fábrica de Itajubá decidiu produzir fuzís e carabinas no Brasil, originando assim o chamado modelo 1908/34, uma versão “nacionalizada” e encurtada, nos moldes das carabinas.

Carabina de cavalaria do modelo 1908/34, fabricado pela Fábrica de Itajubá em calibre. 7X57mm
Carabina de cavalaria do modelo 1908/34, fabricado pela Fábrica de Itajubá em calibre. 7X57mm

Em 1949, após a II Guerra, onde o Brasil participou com a F.E.B. nos campos de batalha da Itália, por influência e acordo militar com o governo norte-americano, o Exército resolveu adotar o calibre .30-06 como regulamentar, embora o 7X57mm continuou ainda, e por muito tempo, presente em algumas unidades do Exército, bem como nos “Tiro de Guerra”. Com essa modificação, a Fábrica de Itajubá começa a produzir uma carabina Mauser, baseada no 08/34 mas em calibre .30-06 Springfield, aqui batizada por Mosquetão Itajubá M1949. Posteriormente, uma segunda série com pequeníssimas mudanças, tais como a boca do cano rosqueada para permitir montagem de lança-granadas e quebra-chamas, foi fabricada em 1954, originando assim 0 Mosquetão Itajubá M954.

Mosquetão F.I. modelo 1949 em calibre .30-06 Springfield, baseado na ação Mauser de 1898
Mosquetão F.I. modelo 1949 em calibre .30-06 Springfield, baseado na ação Mauser de 1898
Uma das páginas interiores do manual, tratando da nomenclatura de algumas peças
Uma das páginas interiores do manual, tratando da nomenclatura de algumas peças
Capa do Manual de Campanha do Mosquetão 1949, edição do M.G. de 1956
Capa do Manual de Campanha do Mosquetão 1949, edição do M.G. de 1956

Em 1964, o Exército Brasileiro resolve adotar o fuzil semi e automático belga, o F.N. denominado F.A.L. (Fuzil Automatique Legère), ou fuzil automático leve, utilizando o cartucho padrão da OTAN, o 7,62mmX51, cartucho baseado no .308 Winchester. Paulatinamente, esse fuzil começou a substituir os mosquetões Itajubá M949 e M954, ainda em calibre .30-06. Em 1967, a fim de reduzir custos e poder padronizar mais rapidamente o calibre utilizado pelo Exército Brasileiro, a Fábrica de Itajubá resolve modificar cerca de 10.000 mosquetões para que pudessem usar o novo cartucho, aproveitando também para aliviar o peso da arma. Assim nascia o M968, apelidado pelo exótico nome de “Mosquefal”.

Acima, o Mosquetão M968 “Mosquefal”, em calibre 7,62mmX51 NATO
Acima, o Mosquetão M968 “Mosquefal”, em calibre 7,62mmX51 NATO

Essa transformação era de natureza simples. Como o culote do cartucho 7,62mmX51 tem exatamente o mesmo diâmetro do .30-06, não houve necessidade de se modificar nada no ferrolho, caixa de culatra e mecanismo de disparo. A alça de mira tipo Mauser foi eliminada, sobre o cano, e a telha de madeira, agora, não tinha mais a abertura superior para ela. Foi desenvolvida uma alça de mira traseira, tipo “peep-sight”, algo semelhante à usada no fuzil norte-americano Enfield 1917. Além disso, foi acrescentada uma massa de mira mais alta e um quebra-chamas, com suporte para possibilitar montagem de um lança-granadas, o mesmo utilizado pelo FAL. Essa arma ainda se encontra em uso até hoje em diversas unidades de “Tiro de Guerra”. Desta forma, foi decretada a “morte” definitiva do cartucho .30-06 Springfield nos quartéis brasileiros.

Durante as décadas de 70 a 80 a Fábrica de Itajubá lançou algumas carabinas baseadas nas ações Mauser de fuzís que eram, progressivamente, sendo recolhidos nas unidades do Exército, além do que ocorria com os leilões organizados pelo E.B. a fim de vender essas armas, ora obsoletas, para militares e colecionadores registrados.

Algumas dessas carabinas, feitas em muito pouca quantidade, foram distribuídas para algumas unidades policiais e para serem usadas em veículos militares. Eram carabinas curtas, chamadas de Officer, talvez uma alusão ao fato de serem utilizadas por oficiais. Segundo meu amigo e expert em fuzis, J. Renato M. Figueira, a intenção era de se fazer uma carabina do tamanho da americana .30M1. Tanto as ações de fuzis Mauser 1894 e 1898 foram utilizadas. Várias dessas armas foram, posteriormente, leiloadas pela Imbel. Conta Figueira que várias dessas peças, em leilão, estavam com suas coronhas tomadas por carunchos. O acabamento era o parquerizado, mais barato e simples de se fazer do que oxidação à quente e eram fornecidos com bandoleiras de lona.

AS ESPINGARDAS

Em meados da década de 60, diversos fuzis remanescentes do modelo 1893 em cal. 7X57mm. se encontravam completamente fora de serviço e espalhados por várias unidades do Exército Brasileiro. Surgiu então a idéia de se reaproveitar esse armamento, a grande maioria deles em perfeito estado; ao invés de serem destruídos, e lançando mão de pouquíssimo investimento, a Fábrica de Itajubá resolve transformá-los em uma arma para venda no comércio, destinada à caça; uma espingarda de alma lisa.

A espingarda Itajubá em calibre 28 – note a coronha sem “pistol grip”, característica dos fuzis Mauser 1893 – foto do autor
A espingarda Itajubá em calibre 28 – note a coronha sem “pistol grip”, característica dos fuzis Mauser 1893 – foto do autor

Da grande quantidade de armas recuperadas dos quartéis e depois de passarem por uma triagem, aproveitava-se a coronha com a soleira de metal, a ação completa (caixa de culatra com mecanismo de disparo, ferrolho e armação do carregador) e os acessórios da coronha como anilhos e presilhas de bandoleira. O cano, bem como as miras,  eram removidos e em seu lugar entrava um novo cano de alma lisa, fabricado na própria Itajubá. Foram escolhidos dois calibres para estabelecerem as duas versões da espingarda; o calibre 28 e o 36. Como não havia mais a alça de mira regulável, a nova telha que recobre parte do cano teve que ser feita à parte, por não ser possível a original ser reaproveitada. Note a coronha típica dos Mauser 1893, sem punho-pistola.

De acordo com o leitor Marcos Letro, militar e instrutor de tiro, as primeiras espingardas em calibre 36 foram colocadas à venda em 1962, oferecida para sargentos e oficiais do Exército, na época pelo preço de Cr$ 1.000,00 (Um Mil Cruzeiros ). Os modelos em calibre 28 foram lançadas entre 1965 e 1966, pois ainda havia disponibilidade de muitas peças em estoque. A esta altura, as espingardas já se encontravam à venda nas lojas de caça e pesca do país. O autor adquiriu uma calibre 28 no final de 1965, ao preço de Cr$ 45.500,00. Os pistolões, mais difíceis de serem encontrados hoje em dia, em calibre 36, foram os últimos a serem fabricados, pois não havia mais disponibilidade de coronhas, diz o leitor colaborador.

Detalhe da culatra aberta mostrando um cartucho “Velox” da CBC calibre 28
Detalhe da culatra aberta mostrando um cartucho “Velox” da CBC calibre 28

A escolha desses dois calibres não foi feita tão somente pelo fato de serem, na época, muito populares para caças pequenas e de aves. O fato é que, no caso do calibre 28, havia uma feliz coincidência de que os cartuchos podiam se encaixar corretamente, de ambos os lados, nas abas do carregador, mas somente em número de dois, um em cima do outro. Havia a possibilidade de se colocar mais um cartucho diretamente na câmara, o que fazia a arma comportar tres cartuchos.

A Itajubá em calibre 36 – o autor supõe que, neste calibre, foi mantido o cano original da carabina Mauser, aberto para o calibre 36, uma vez que até a massa de mira foi mantida.
A Itajubá em calibre 36 – o autor supõe que, neste calibre, foi mantido o cano original da carabina Mauser, aberto para o calibre 36, uma vez que até a massa de mira foi mantida.

No caso do calibre 36, a coisa era mais fácil de se adaptar; nem foi necessário o uso de uma lâmina de transporte dos cartuchos de forma plana, como no caso da 28; podia-se usar a mesma lâmina original do fuzil, com a nervura de divisão central, visto que os cartuchos podiam ser carregados de forma bifilar tal como os originais calibre 7X57mm.

Culatra da Itajubá 28, aberta – note a inscrição “Full-Choke” sobre a câmara e a lâmina (lisa) levantadora dos cartuchos.
Culatra da Itajubá 28, aberta – note a inscrição “Full-Choke” sobre a câmara e a lâmina (lisa) levantadora dos cartuchos.

Infelizmente nos faltam dados sobre a produção e vendas dessas duas espingardas, bem como até que ano foram produzidas;  depois de várias tentativas de contato com a Imbel, não obtivemos resposta e colaboração dela neste sentido. Talvez, se um dia recebermos essas informações, elas serão sem dúvida adicionadas aqui. Mas, pode-se afirmar sem medo de errar que essas espingardas foram bem vendidas. O preço era convidadivo, custando um pouco mais que uma espingarda da Amadeo Rossi ou da CBC, modelos de um cano, de cão externo, armas bem mais simples.

Detalhe da ação Mauser 1893 usada na espingarda Itajubá calibre 28
Detalhe da ação Mauser 1893 usada na espingarda Itajubá calibre 28
Além de uma pequena diferença na usinagem da cabeça do ferrolho, na ação do modelo em calibre 36 não se nota mais nenhuma diferença em relação à calibre 28
Além de uma pequena diferença na usinagem da cabeça do ferrolho, na ação do modelo em calibre 36 não se nota mais nenhuma diferença em relação à calibre 28

Os modelos eram fornecidos com canos em “full-choke“, ou seja, com um certo estrangulamento, característica que aliada ao grande comprimento do cano (740 mm), permitia um alcance considerável para o calibre. O autor fez testes do tipo “pattern” na espingarda de calibre 28, em alvo de papel, para se avaliar a densidade de chumbos. A 1o metros de distância, o diâmetro da chumbada de número 7 estava em torno de 40 centímetros, o que mostra uma concentração muito grande.

Ferrolho completo da ação 1893 – a única alteração feita no desenho original foi a usinagem da parte dianteira, eliminando-se o rebaixo existente que comportava o culote dos cartuchos 7X57mm
Ferrolho completo da ação 1893 – a única alteração feita no desenho original foi a usinagem da parte dianteira, eliminando-se o rebaixo existente que comportava o culote dos cartuchos 7X57mm

Além disso, a confiabilidade era muito boa, pois mesmo se tratando de uma adaptação de um fuzil para uso com cartuchos de caça, a arma muito dificilmente dava problemas de alimentação e de ejeção. Porém, os cartuchos tinham que ser do tipo com boca rebordada, de papelão ou plástico. Cartuchos de metal, do tipo “Presidente” produzido pela CBC, em virtude de terem a boca em canto vivo, enroscavam na alimentação. Outro fator importante era a qualidade do produto e sua durabilidade, pois com excessão do cano, se tratava de um fuzil fabricado na Alemanha com os melhores materiais de que se dispunha na época. Sem dúvida, uma arma que duraria por várias dezenas de anos, se convenientemente bem tratada.

Na espingarda Itajubá em calibre 28, a lâmina transportadora do carregador dos cartuchos teve a sua nervura central aplainada, para poder comportar um cartucho de cada vez
Na espingarda Itajubá em calibre 28, a lâmina transportadora do carregador dos cartuchos teve a sua nervura central aplainada, para poder comportar um cartucho de cada vez
Culatra aberta do modelo em calibre 36 – nota-se a nervura existente na lâmina levantadora de cartuchos, que possibilita o posicionamento de 4 cartuchos, intercalados dois a dois.
Culatra aberta do modelo em calibre 36 – nota-se a nervura existente na lâmina levantadora de cartuchos, que possibilita o posicionamento de 4 cartuchos, intercalados dois a dois.

Uma variante bem mais rara, derivada do mesmo projeto, foi uma espécie de pistolão, lançado no calibre 36 nos finais da produção, por ainda possuírem em estoque o mecanismo da ação, mas não mais dispondo mais de coronhas. O pistolão usava uma coronha tipo pistola, com a empunhadura posicionada logo abaixo da culatra e um pequeno fuste colocado na parte anterior, sob o cano, que tinha pouco mais de 30 cm. de comprimento. Era um pouco desconfortável o manuseio da ação por ferrolho, uma vez que a mão esquerda deveria estar empunhando a arma enquanto a direita abria o ferrolho. Esse pistolão foi bem menos disponibilizado no mercado do que as espingardas.

Acima, o pistolão Itajubá, utilizando ação Mauser do tipo 1898 (gentileza de um leitor)
Acima, o pistolão Itajubá, utilizando ação Mauser do tipo 1898 (gentileza de um leitor)

Os últimos exemplares produzidos, já com a empresa utilizando seu novo nome, Imbel, usavam ações do Mauser tipo 1898, provavelmente oriundas de fuzis remanescentes do Contrato Brasileiro de 1908. Acredita-se que essas últimas saíram de linha no final dos anos 70. Mesmo nos fuzis Mauser, a ação modelo 1898 tem uma diferença marcante em relação à modelo 1893, dentre outras visando maior segurança: na ação 1898, o simples fato de se erguer a alavanca do ferrolho e baixá-la novamente, já arma o percussor. Na ação 1893, após a alavanca erguida, o ferrolho tem que ser puxado um pouco para trás para se proceder ao engatilhamento.

Espingarda Imbel calibre 28, últimas séries, já utilizando ação do fuzil Mauser 1908 – repare a coronha utilizada, original do fuzil 1908, com punho-pistola e agora sem a telha superior – (Foto cortesia de D.A.N.)
Espingarda Imbel calibre 28, últimas séries, já utilizando ação do fuzil Mauser 1908 – repare a coronha utilizada, original do fuzil 1908, com punho-pistola e agora sem a telha superior – (Foto cortesia de D.A.N.)
Detalhe da estampa da Imbel, gravada sobre a câmara e dados do calibre (Foto cortezia de D.A.N.)
Detalhe da estampa da Imbel, gravada sobre a câmara e dados do calibre (Foto cortezia de D.A.N.)
Detalhe do ferrolho aberto da Imbel calibre 28, onde se nota claramente as características da ação Mauser tipo 98, como a orelha lisa da trava de segurança, mais um dente de trancamento traseiro e o trilho/guia superior no cilindro do ferrolho. Note bem no centro da foto, fixada à armação via um parafuso, a alavanca de trava do ferrolho, utilizada para a retirada do mesmo e também como alojamento do ejetor de cartuchos. (Foto cortezia de D.A.N.)
Detalhe do ferrolho aberto da Imbel calibre 28, onde se nota claramente as características da ação Mauser tipo 98, como a orelha lisa da trava de segurança, mais um dente de trancamento traseiro e o trilho/guia superior no cilindro do ferrolho. Note bem no centro da foto, fixada à armação via um parafuso, a alavanca de trava do ferrolho, utilizada para a retirada do mesmo e também como alojamento do ejetor de cartuchos. (Foto cortezia de D.A.N.)

DETALHES DE FUNCIONAMENTO

De maneira análoga ao manuseio do fuzil Mauser, abre-se a culatra puxando-se o ferrolho totalmente para trás. Insere-se dois cartuchos no carregador (cal. 28), por cima, de forma que o último fique retido pelas abas traseiras. Um terceiro cartucho pode ser inserido diretamente na câmara. Neste caso, antes de fechar o ferrolho, exerce-se uma pequena pressão para baixo no último cartucho para que o ferrolho passe por cima dele e tranque sobre o cartucho existente na câmara.

Marca de fábrica do lado esquerdo da culatra na espingarda calibre 36
Marca de fábrica do lado esquerdo da culatra na espingarda calibre 36

Após cada disparo, o ferrolho necessita ser aberto até o final de seu curso, ejetando o cartucho vazio; fecha-se novamente o ferrolho, quando o cartucho seguinte no carregador se solta das abas, para ser alimentado. Em relação aos cartuchos utilizados, dever-se tomar o cuidado de se usar os designados para câmaras de 65mm e não os de 70mm, que poderá ocasionar problemas sérios.

O mecanismo de gatilho, mantido exatamente como o original, não é particularmente muito duro, mas tem a característica típica dos fuzis Mauser, que são os dois estágios bem definidos e com curso bem longo. De qualquer forma, mesmo se tratando se arma derivada de um fuzil militar, o acionamento do gatilho é macio.

A trava de segurança, que é de uma eficácia a toda prova pois impede de forma muito consistente o movimento do percussor, funciona da seguinte maneira:

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À esquerda, ferrolho destravado e desengatilhado; no centro, arma engatilhada e travada (o ferrolho pode ser manuseado desta forma com total segurança); à direita, trava total acionada, que não permite nem a abertura do ferrolho para manuseio.

Detalhe da desmontagem parcial do ferrolho, para limpeza interna e lubrificação – com a trava de segurança na posição intermediária, basta desatarrachar o conjunto traseiro do corpo cilíndrico do ferrolho. Em cima, o cilindro com alavanca de manejo e lâmina do extrator. Abaixo, conjunto do percussor com sua mola, guia e trava de segurança.
Detalhe da desmontagem parcial do ferrolho, para limpeza interna e lubrificação – com a trava de segurança na posição intermediária, basta desatarrachar o conjunto traseiro do corpo cilíndrico do ferrolho. Em cima, o cilindro com alavanca de manejo e lâmina do extrator. Abaixo, conjunto do percussor com sua mola, guia e trava de segurança.

O ferrolho pode ser retirado da arma com muita facilidade. Do lado esquerdo da culatra há um retém, articulado em um pino, com um ressalto serrilhado na parte superior. Abre-se o ferrolho até o final do curso, abre-se esse retém para fora, puxando-o para a esquerda e retira-se o ferrolho. Ao recolocar o ferrolho na arma, não é necessário se mover o retém, mas atenção com o posionamento correto da lâmina do extrator.

O funcionamento da calibre 36 era mais garantido do que na 28. Nesta última, o autor teve a oportunidade de usar várias delas, a extração nem sempre ocorria de forma adequada. Interessante citar que cartuchos carregados eram extraídos com mais eficiência do que os vazios. Muitas vezes, esses eram corretamente extraídos da câmara mas por questão de ajustes, eram “largados” pelo extrator no meio do percurso, antes de atingirem o ejetor, que fica localizado na trava do ferrolho, lado esquerdo da caixa da culatra.

CONCLUSÃO

Trata-se de uma arma curiosa, tanto nos aspectos técnicos como da forma como foi idealizada. No Brasil da década de 60, com pouquíssimos fabricantes concorrentes e nenhuma espingarda com padrões altos de qualidade, diga-se de passagem, a Fábrica de Itajubá teve a chance e a idéia interessante de reaproveitar armas militares, cujo destino certo seria a destruição, e lançar uma espingarda no mercado, com investimento baixíssimo e praticamente nenhum custo de desenvolvimento.

Mesmo se tratando de uma adaptação, a arma tinha suas virtudes como extrema resistência, qualidade dos materiais e robustez a toda prova. Sua semelhança com os fuzis Mauser de repetição podem ter inclusive, ajudado nas vendas pois era uma arma atraente e muito mais vistosa que as simples espingardas de um tiro e de um cano existentes na época.

À esquerda, caçador em ação com a Itajubá 28 na década de 60

A desvantagem ficava por conta do tamanho avantajado, embora os modelos em calibre 36 tiveram uma opção que utilizava canos mais curtos; em relação ao transporte, elas eram realmente um tanto incovenientes e chamavam muito a atenção, pois não tinham o recurso comum nas espingardas tradicionais de se separar o cano do resto da arma, inclusive sem uso de ferramentas.

O acabamento é muito bom, de modo geral, com o madeiramento bem conservado e envernizado brilhante, e peças em aço com oxidação negra brilhante. O ferrolho foi mantido em aço puro, sem acabamento algum. Estéticamente a arma peca um pouco pela parte dianteira onde, com a retirada do prolongamento do fuste do fuzil, a coronha termina de forma um tanto abrupta.

A ITAJUBÁ ATÉ 2010

Hoje, a fábrica de Itajubá é parte do complexo fabril da Imbel, fornecedora de armamento bélico para as forças armadas, incluindo aí o fuzil FAL M964, a carabina MD97, as pistolas baseadas no projeto 1911 M973 bem como armas para uso de civís e atiradores na categoria “Tiro Prático” (I.P.S.C.) como o modelo GC45. Além disso ainda produz munição de uso militar e vários tipos de pólvora destinados aos atiradores que se dedicam à recarga de cartuchos. A carabina MD1 em calibre .22LR é outra arma destinada ao público atirador esportivo, conforme nos mostra o material promocional abaixo.

Esta arma é a substituta de outra carabina no mesmo calibre, lançada pela Fábrica de Itajubá nas décadas de 70 a 80, com o intuito de competir no mercado com suas rivais da CBC e da Rossi. Era uma carabina com carregador destacável de 5 cartuchos, de repetição por ferrolho, muito bem construída com materiais de primeira linha. Em sua época, provou ser uma das mais agradáveis e precisas carabinas nacionais.

Detalhe do ferrolho aberto da carabina Itajubá em calibre .22 LR. Essa era a posição do ferrolho quando ele poderia ser retirado para limpeza.
Detalhe do ferrolho aberto da carabina Itajubá em calibre .22 LR. Essa era a posição do ferrolho quando ele poderia ser retirado para limpeza.

DADOS RESUMIDOS DA ESPINGARDA 28 E 36

  • Data de fabricação: entre 1965 a 1975 (estimado)
  • Calibre: 28 e 36
  • Capacidade: 28 (3 cartuchos) e 36 (5 cartuchos) incluindo um câmara
  • Acabamento: oxidada
  • Comprimento total: 125 cm (28) e 107 cm (36)
  • Comprimento do cano: 74mm (28) e 56mm (36)
  • Pêso: 2,500 Kg descarregada (28) e 2,325 Kg (36)

 

 

 

Fonte: Armas Online

José Ricardo Rosa, 55, conhecido como “Tatão” segurando um tijolo com a suástica nazista; após herdar a fazenda Cruzeiro do Sul na cidade de Campina do Monte Alegre ele encontrou por acaso tijolos com o sinal nazista usados na construção -Fonte Folha de São Paulo – Carlos Cecconello

Escombros de fazenda no interior paulista revelam passado de admiração ao nazismo

Os tijolos que hoje se desprendem de uma velha capelinha da fazenda Cruzeiro do Sul, servem como pistas para rastrear como um integrante de um abastado clã do Rio de Janeiro transformou sua propriedade num testemunho de admiração ao nazismo nos anos 1930.

Nessa fazenda, os blocos de barro eram feitos com uma suástica estampada.

Alguns desses tijolos viraram material para pesquisadores, assim como fotografias de bois marcados a ferro quente com o símbolo nazista, bandeiras e uma série de outros documentos encontrados na propriedade.

José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista – Folha de São Paulo – Carlos Cecconello
José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista – Folha de São Paulo – Carlos Cecconello

No início do século 20, a família carioca Rocha Miranda adquire uma extensa área de terra no interior do estado de São Paulo. Os Rocha Miranda eram na época proprietários do Hotel Glória, da Casa Bancária Rocha Miranda e da companhia de aviação Panair, entre outras empresas do Rio de Janeiro, então capital da República. Ao lado dos Guinle e dos Leal, eram uma das famílias mais ricas do Brasil.

A exploração dessas áreas do interior paulista teve início no fim do Império. Elas foram parte do presente de D. Pedro I (1798-1834) ao brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar (1794 – 1857), fundador da Polícia Militar de São Paulo, por seu casamento com a Marquesa de Santos (1797 – 1867), oficializado em 1842. Em 1906, o brigadeiro as vendeu para Luis Rocha Miranda.

José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista – Carlos Cecconello/Folhapress
José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista – Carlos Cecconello/Folhapress

As terras abarcavam as fazendas Santa Albertina, Cruzeiro do Sul, Retiro Feliz, Mandaçaia, Cavalinho e Sobradinho, em uma área de 40 mil hectares na região de Buri. É dentro dessas terras que se encontra a Guatambu, fazenda-sede da Agropecuária Guatambu Ltda.

As terras teriam sido compradas para a prática da caça a perdizes, aves características daqueles campos. Contam-se muitas histórias sobre as caçadas que os Rocha Miranda realizavam ali, junto aos numerosos amigos que traziam do Rio de Janeiro em composições fretadas da Estrada de Ferro Sorocabana. Integradas por carros-dormitório, carro-restaurante e carro-sala de estar, especialmente decoradas, essas composições permaneciam em uma estação construída pelos Rocha Miranda e hoje conhecida como Estação Hermilo, em Angatuba (SP). Terminada a temporada de caça, o luxuoso trem os levava de volta para o Rio de Janeiro.

Em 1934 a família Rocha Miranda dá início, nessas terras, à criação e seleção de gado Nelore. Com a morte do patriarca seus três filhos, Sérgio, Oswaldo e Renato Rocha Miranda, tomam posse das propriedades.

Aloysio Silva, 89, foi uma das crianças trazidas de um orfanato do Rio de Janeiro na decada de 30 para trabalhar na Fazenda Santa Albertina de propriedade de Oswaldo Rocha Miranda; ele afirma ter sido submetido a normas e costumes escravagistas – Carlos Cecconello/Folhapress
Aloysio Silva, 89, foi uma das crianças trazidas de um orfanato do Rio de Janeiro na decada de 30 para trabalhar na Fazenda Santa Albertina de propriedade de Oswaldo Rocha Miranda; ele afirma ter sido submetido a normas e costumes escravagistas – Carlos Cecconello/Folhapress

Sérgio Rocha Miranda cuidava da fazenda Cruzeiro do Sul. A propriedade vizinha, a Santa Albertina, ficava sob os cuidados de seu irmão, Oswaldo Rocha Miranda. Nela, funcionava uma espécie de fazenda-orfanato para 50 meninos mantidos em um regime quase escravo.

Com idades entre 9 e 12 anos, esses garotos (somente dois deles brancos) foram entregues a Oswaldo em 1933 e 1934, após decisão judicial.

Todos haviam sido abandonados no orfanato católico Educandário Romão de Mattos Duarte, no Rio, e foram retirados de lá por Oswaldo com a promessa de terem uma vida melhor, segundo Aloysio Silva, 89, o “menino número 23″ da lista de 50.

“Era uma vida diferente da prometida. Era castigo por tudo, trabalhava muito, até de fazer a mão sangrar”, conta Aloysio, o número 23.

Quero saber da minha mãe, pai e irmãos antes de morrer. É muito triste ficar velho sem saber quem é nossa família. Como não conheci ninguém, sou assim meio revoltado. Dá um negócio assim…Uma revolta danada daquela vida na fazenda.

Dessa forma, Aloysio Silva, 89, pai de sete filhos e morador de Campina do Monte Alegre (SP), reage sobre os quase dez anos vividos na Fazenda Santa Albertina.

Silva foi transferido do Educandário Romão de Mattos Duarte, no Rio, para a Santa Albertina em 1933. Lá, por dez anos, deixou de ser Aloysio para ser o “23”.

Aloysio Silva foi uma das 50 crianças trazidas para trabalhar na fazenda, todas atendiam por números e não pelos nomes, Aloysio era o número 23 – Carlos Cecconello/Folhapress
Aloysio Silva foi uma das 50 crianças trazidas para trabalhar na fazenda, todas atendiam por números e não pelos nomes, Aloysio era o número 23 – Carlos Cecconello/Folhapress

“Os bichos tinham documento e nome na fazenda. E nós éramos tudo número, como se nós fôssemos gado”, diz ele. “O cumprimento na fazenda era sempre ‘Heil Hitler’ ou ‘Anauê’ [saudação dos integralistas], mas a gente nem sabia o que era esse negócio de nazismo.”

Segundo os documentos do orfanato, Silva foi abandonado pela mãe, Maria Augusta da Silva, quando tinha três anos. O local era conhecido como “Casa da Roda”: do lado de fora, familiares colocavam bebês e crianças em uma portinhola que girava até as freiras, do lado de dentro.

Além do nome da mãe, Silva também sabe o de uma irmã, Judith, mas nunca conseguiu localizá-las. “A família vivia ali por onde hoje é o aterro do Flamengo. Só sei disso, mas queria achar alguém.”

Na fazenda, Silva se notabilizou por ser um corajoso “domador de bois, cavalos e burros bravos” e como um dos melhores jogadores de futebol do time dos Rocha Miranda.

A vida na fazenda era sofrida demais. Tinha castigo por tudo. (…) As traquinagens de moleque sempre terminavam com castigo. Era no silo [tanque de armazenamento de cereais] que eles deixavam a gente, como se fosse cadeia“, relembra. “A palmatória tinha uns buracos. Quando batia na mão da gente, sugava tudo. Doía muito.

Reprodução de foto encontrada nas fazenda da família Rocha Miranda em Campina do Monte Alegre interior de São Paulo, em que gados eram marcados com a suástica nazista
Reprodução de foto encontrada nas fazenda da família Rocha Miranda em Campina do Monte Alegre interior de São Paulo, em que gados eram marcados com a suástica nazista

Já os irmãos Maurício e Ângela Rocha Miranda, herdeiros de parte da fazenda Santa Albertina, contestam as versões que colocam seus tios-avôs como simpatizantes de práticas nazistas nas fazendas da família.

Segundo Maurício, o apoio de Sérgio Rocha Miranda ao nazismo durou somente até o momento em que descobriu as reais intenções de Adolf Hitler, por volta de 1934.

Sérgio era um homem viajado, que gostava da boa vida. Era, sim, simpatizante do nazismo no início da década de 1930, como diversas pessoas na sociedade brasileira também eram. Havia um partido nazista no Brasil.”

Parte da fazenda Cruzeiro do Sul está em ruína. (Foto: Divulgação)
Parte da fazenda Cruzeiro do Sul está em ruína. (Foto: Divulgação)

No entanto, diz Maurício, no fim de 1934, com a ascensão de Hitler ao poder, Sérgio deixou de flertar com o nazismo e eliminou a suástica como símbolo da fazenda.

Sobre os 50 meninos trazidos do orfanato por Oswaldo Rocha Miranda, ele afirma que o tio-avô o fez, “com aval do governo da época“, para atender o pedido de sua mulher de “dar escola, educação e profissão aos órfãos”.

Era uma fazenda aberta e eles tinham de ser controlados, mas jamais foram castigados, punidos ou escravizados“, afirma.

Maurício e Ângela captam em vídeo depoimentos de ex-funcionários e de frequentadores das fazendas para mostrar como os Rocha Miranda são bem conceituados nas cidades que se desenvolveram ao lado de suas terras.

Ainda segundo Maurício, o historiador Sidney Aguilar Filho nunca procurou ouvir a versão da família para sua tese de doutorado. Sidney disse não ter conseguido contato com os Rocha Miranda.

Tijolos com a suastica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul – Carlos Cecconello/Folhapress
Tijolos com a suastica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul – Carlos Cecconello/Folhapress

As fazendas, que se espalhavam por área que hoje alcança três municípios. As primeiras marcas do nazismo foram descobertas em 1997 pelo tropeiro José Ricardo Rosa Maciel, 55, o Tatão. Dono de espessa barba branca, ele narra a descoberta.

Teve uma briga da porcada, que derrubou a parede do chiqueiro. Quando vi o estrago, achei os tijolos com a marca nazista. Passaram anos me chamando de louco, mas agora tá tudo comprovado pelos estudos do doutor Sidney.

Tatão se refere ao historiador Sidney Aguilar Filho, 45. Em 1998, ele dava aula para a enteada de Tatão quando ela revelou que, na fazenda onde vivia, havia tijolos com aquele “símbolo alemão” das aulas de história. Sidney investigou por mais de uma década e, em 2011, apresentou sua tese de doutorado na Unicamp sobre a exploração do trabalho e a violência à infância no país no período de 1930 a 1945.

Por muitos anos, aqueles meninos foram submetidos a um regime de trabalho como se fossem adultos, sem remuneração, sem liberdade de ir e vir e estudando pouco. Mas aquilo era aceito pela sociedade”, diz ele.

Anos mais tarde, o tenente da Força Aérea Brasileira Renato Rocha Miranda Filho viria a tornar-se o único herdeiro de todo o patrimônio.

A professora Ana Maria Dietrich, doutora em história, fala que a maior célula nazista no Brasil ficava no estado de São Paulo. “A principal organização era na capital, mas outros núcleos existiram em Santo André, Santos, Campinas, Jundiaí, Presidente Bernardes, Presidente Venceslau e Assis”, fala.

Tijolos com a suástica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul de propriedade de Sergio Rocha Miranda, que era simpatizante do nazismo durante a década de 30 e 40 – Carlos Cecconello/Folhapress
Tijolos com a suástica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul de propriedade de Sergio Rocha Miranda, que era simpatizante do nazismo durante a década de 30 e 40 – Carlos Cecconello/Folhapress

Apesar dessa presença marcante com esses núcleos, Dietrich explica que a pior parte da ideologia nazista não atravessou o oceano Atlântico. “No Brasil só existia o fascínio. Não tinha o terror que acontecia na Alemanha”, finaliza.

A partir de material coletado através de reportagem produzida pelo jornalista ANDRÉ CARAMANTE

Fontes:

http://tokdehistoria.com.br/

http://www.folhadedourados.com.br/noticias/brasil-mundo/escombros-de-fazenda-revelam-passado-de-admiracao-ao-nazismo

http://www.guatambu.com.br/historia.html

http://www.controversia.com.br/blog/marcas-do-nazismo-chamam-a-atencao-no-interior-de-sao-paulo/

1066 – Húskalar, Batalha de Hastings

‘O guerreiro anglo-saxão de Hastings talvez não seja tão diferente do “Tommy” britânico das trincheiras’ disse o fotógrafo Thom Atkinson. Na Batalha de Hastings, a escolha do soldado em termos de armamento era bem extensiva. Dentre as diversas batalhas nas quais estes guerreiros ferozes participaram, provavelmente a mais famosa é a de Hastings. Liderados por Harold Godwinson ou Haroldo II da Inglaterra, chefe dos ingleses, lutaram contra William II da Normandia, que comandava a coalizão dos franceses e normandos. Apesar da derrota sofrida contra os normandos, os húskarlar mostraram-se extremamente úteis em combate.

Guardas de Elite

Os húskarlar foram utilizados como guardas de elite pessoal dos vários nobres da Europa. Dentre os mais famosos corpos de guardas, está a elite militar de Canuto, rei da Inglaterra, que governou o país no século XII d.C. Através da Lex Castrensis, Canuto estabeleceu que sua guarda particular seria composta de guerreiros húskarlar. O guerreiro huskarl era um dos poucos que tinha o privilégio de permanecer no salão real nas festividades e comer na mesa do rei juntamente com ele. Mas, com os privilégios, vieram também as obrigações do dever: traição e ações consideradas graves eram punidas com o exílio ou a morte. Estes guerreiros eram submetidos a um código militar muito mais severo do que os seus companheiros de armas de patentes mais baixas. Até mesmo seus julgamentos eram realizados por um tribunal específico: o Huskarlesteffne, cujas decisões eram assistidas pelo próprio soberano.

Aqui neste kit podemos ver a forte presença da cota de malha utilizada até a chegada das armas de pólvora e o conhecido elmo nasal em forma de cuia com a haste para proteger o nariz do soldado.

1066 – Húskalar, Batalha de Hastings

1244 – Cavaleiro montado, Cerco de Jerusalém

O Cerco de Jerusalém de 1244 aconteceu durante a Sexta Cruzada, quando os Corásmios (a convite dos Aiúbidas) conquistaram a cidade sobre Frederico II da Germânia em 15 de julho de 1244.

Aqui já podemos notar o uso da maça medieval, uma evolução do primitivo porrete mas com uma cabeça de metal facetado. A maça foi inventada por volta de 12 000 a.C. e, rapidamente, tornou-se uma arma importante. Essas primeiras maças de madeira, com pedra sílex ou obsidiana encravadas, tornaram-se menos populares devido ao aprimoramento das armaduras de couro curtido que podiam absorver grande parte do impacto. Algumas maças tinham a cabeça inteira de pedra, mas eram muito mais pesadas e de difícil manejo. Maças eram muito utilizadas na idade do Bronze no Oriente Próximo.

A adaga vista aqui neste kit também, era um item multiuso, mas principalmente utilizado fora das batalhas como ferramenta de corte universal, tanto para a alimentação quanto para o corte de madeira fina e outros materiais mais simples.

1244 – Cavaleiro montado, Cerco de Jerusalém

1415 – Arqueiro combatente ou arqueiro de arco longo, Batalha de Azincourt

Batalha de Azincourt foi uma batalha decisiva ocorrida na Guerra dos Cem Anos. Acontecida em 25 de outubro de 1415 (Dia de São Crispim), no norte da França, resultou em uma das maiores vitórias inglesas durante a guerra.

Um detalhe muito importante nesta batalha foi o emprego dos arcos longos (na foto, o item de madeira clara com um adorno escuro no centro), estes que foram eficazmente utilizados pelos ingleses contra os franceses ao longo de séculos. O arco longo inglês pode ser considerado uma das armas mais letais e importantes da história. Foi usado principalmente na Idade Média, e era o maior causador de baixas se usado corretamente. No exército inglês o arco longo já se encontrava intrinsecamente ligado à sua cultura, pois os jovens aprendiam seu manuseio desde cedo para caçar e mais tarde, combater.

1415 – Arqueiro combatente ou arqueiro de arco longo, Batalha de Azincourt

1485 – ‘Homem de armas’ iorquino, Batalha de Bosworth Field

‘Homem de armas’ foi um termo usado desde os períodos da alta Idade Média até o Renascimento para descrever um soldado, quase sempre um guerreiro profissional no sentido de serem bem-treinados no uso de armas, que servia como um cavaleiro pesado totalmente armado. Também podia referir-se a cavaleiros ou nobres, e aos membros das suas comitivas ou mercenários. Os termos cavaleiro e homem de armas são muitas vezes usados como sinônimos, mas ao mesmo tempo todos os cavaleiros equipados para a guerra, certamente, eram homens de armas, mas nem todos os homens de armas eram cavaleiros.

As guerras eram responsabilidades exclusiva dos nobres, segundo a lógica do Feudalismo, portanto esses comandantes eram de famílias nobres, o que permitia a eles o acesso a equipamentos que para a época eram muito caros. A cavalaria era uma arma que criava espaço apenas para membros da nobreza, e isso perdurou até a Primeira Guerra Mundial onde os pilotos de aviões eram normalmente membros da cavalaria, algo visível pelo aspecto de sua indumentária, onde era normal o uso de botas e calças de montaria.

Estas armaduras, ao contrário do que se diz e do que muitos pensam, eram feitas para serem leves e permitirem com que o soldado pudesse se movimentar sem grandes problemas. Tal fato alegando que os soldados que sofriam quaisquer quedas de costas vestindo uma armadura destas o impediria de se levantar, são apenas boatos.

1485 – ‘Homem de armas’ iorquino, Batalha de Bosworth Field

1588 – Caliveiro miliciano, Tilbury

O Arcabuz é uma antiga arma de fogo portátil, espécie de bacamarte. Era chamada vulgarmente de espingarda nas crônicas portuguesas do século XVI. O Caliver (arma da foto) nada mais era do que um arcabuz improvisado, de menor porte e utilizado pelas milícias especialmente na Europa, sendo mais presente na Inglaterra. O Arcabuz e o Caliver foram os predecessores do mosquete, todos estes eram carregados diretamente pelo cano e possuíam o característico fecho de mecha para realizar a ignição da pólvora e assim, concluir o disparo.

Note também o Capacete Morrião ou chamado apenas por Morrião, o popular capacete de conquistador, usado entre os séculos XVI e XVII.

1588 – Caliveiro miliciano, Tilbury

1645 – Mosqueteiro do exército, Primeira Guerra Civil Inglesa

A Batalha de Naseby foi a batalha decisiva durante a Primeira Guerra Civil Inglesa, onde o exército do Rei Carlos I foi dizimado pelo Exército Novo dos cabeças redondas comandados por Sir Thomas Fairfax e Oliver Cromwell.

O Exército Novo foi formado em 1645 pelo Parlamento e dissolvido em 1660 após a Restauração. Era diferente dos demais exércitos à época, uma vez que foi concebido como uma força responsável pelo serviço em todo o país, ao invés de estar circunscrito a uma única área ou guarnição. Como tal, era constituído por soldados em tempo integral, ao invés da milícia usual à época. Além disso, possuía militares de carreira, não tendo assento em qualquer das Casas (dos Lordes ou dos Comuns) e, portanto, não eram ligados a nenhuma facção política ou religiosa entre os parlamentares.

Oliver Cromwell remodelou o exército e, a frente dele, venceu várias batalhas, os soldados passaram a ser promovidos com base na competência e não mais pelo nascimento em uma família de prestigio. Ou seja, o critério de nascimento foi substituído pelo de merecimento, este novo exército (New Model Army) venceu o exército do rei na Batalha de Naseby, que pôs fim à luta. O Rei Carlos Ι foi condenado à morte e executado. A república foi proclamada e Oliver Cromwell assumiu o governo do seu país.

É possível notar o cinto de carregadores (centro direito da foto), onde os pequenos cilindros de madeira carregavam pequenas quantidades específicas de pólvora para auxiliar no recarregamento ágil do mosquete após cada disparo. Também a bolsa de couro com biqueira, algo similar ao que mais tarde chamaríamos de cantil, o pequeno punhal para uso universal e o baralho, o conhecido jogo de cartas com figuras popularizado no sul da Europa à partir do século XIV.

1645 – Mosqueteiro do exército, Primeira Guerra Civil Inglesa

1709 – Sentinela, Batalha de Malplaquet

A Batalha de Malplaquet se deu no dia 11 de setembro de 1709 no marco da Guerra de Sucessão Espanhola. Tropas da França foram vencidas pelas tropas da Aliança – composta pela Áustria, Inglaterra e Holanda – comandadas pelo Duque de Marlborough e pelo Príncipe Eugênio de Saboya. Às 8 da manhã do dia 11 de setembro, o Duque de Marlboroug, à direita do Príncipe Eugênio, cujo exército constava de soldados imperiais e dinamarqueses, avançou para atacar pelo flanco, sem ser bem-sucedido. A infantaria prussiana e holandesa, comandada pelo Príncipe de Orange e o Barão Nagel, encontrou também uma intensa resistência francesa pelo flanco esquerdo.

Depois de serem rejeitados dois ataques, o Príncipe Eugênio dirigiu pessoalmente o terceiro. Suas tropas romperam as linhas francesas e as expulsaram do território de Malplaquet (França). Os aliados perderam 25.000 homens e os franceses sofreram 11.000 baixas e sofreram a derrota definitiva neste confronto. A Batalha de Malplaquet foi uma das batalhas mais sangrentas da Guerra de Sucessão Espanhola.

Aqui já é evidente o uso da baioneta, uma lâmina que podia ser instalada na ponta do cano do mosquete. Algo que se demonstra eficiente até os dias de hoje. A origem do uso da “baioneta” é incerto, mas há registros que alegam que esta arma era utilizada durante a caça, após um tiro mal-sucedido sobre o alvo, onde possibilitava ao caçador a desferir um golpe de lâmina sobre o animal à curta distância. Na França, a baioneta foi introduzida pelo General Jean Martinet e foi comumente utilizada na grande maioria dos exércitos europeus após a década de 1660.

Podemos ver o característico chapéu tricorne (três pontas) no topo à esquerda e uma pequena bíblia no canto inferior esquerdo.

1709 – Sentinela, Batalha de Malplaquet

1815 – Soldado raso, Batalha de Waterloo

O mosquete com pederneira modelo Brown Bess foi desenvolvido em 1722 e usado na época da expansão do Império Britânico. Adquiriu importância simbólica, pelo menos, tão importante quanto a sua importância física. Ele estava em uso há mais de cem anos, com muitas mudanças incrementais no seu design. Estas versões incluem o Long Land Pattern, Short Land Pattern, India Pattern, New Land Pattern Musket, Sea Service Musket e outros. Um soldado bem treinado podia efetuar quatro disparos dentro de um minuto utilizando um mosquete com pederneira.

A origem do nome “Brown Bess” ainda é incerto mas pode ser uma derivação do alemão ou holandês para “marrom” e “cano.” (Os primeiros ferreiros de armas aplicavam uma camada de verniz sobre o metal e a coronha de armas de fogo)

Um detalhe interessante é que neste kit pode-se notar a inclusão da caneca de estanho e o caderno de anotações. Também vale ressaltar a presença de kits de jogos para a distração como xadrez e damas. É visível também, mudança do chapéu Tricorne para o Chacó, esta espécie de quepe comprido com a insígnia em sua face frontal. O cantil veio a se tornar parte do equipamento padrão ao invés de cuias e copos para coletar água de fontes comuns ou rios e lagos. E por fim, o retorno dos calçados com cadarços.

1815 – Soldado raso, Batalha de Waterloo

1854 – Soldado raso da brigada de rifles, Batalha de Alma

A Batalha de Alma foi uma batalha da Guerra da Crimeia, travada entre o Império Russo e a coligação anglofrancootomana. Foi travada em 20 de setembro de 1854, na margem do Rio Alma, hoje em território da Ucrânia. Foi o primeiro grande confronto durante este conflito (1854 – 1856). A coligação aliada derrotou os russos, que perderam cerca de seis milhares de homens. É em memória desta batalha que uma das pontes de Paris recebeu o seu nome: a Ponte de Alma.

A importância da camuflagem já detinha uma certa atenção dentro do âmbito militar nesta época. Com a sofisticação dos rifles militares e sua precisão, a necessidade de o soldado permanecer oculto nos campos de batalha começara a aumentar exponencialmente.

1854 – Soldado raso da brigada de rifles, Batalha de Alma

1916 – Soldado raso, Batalha do Somme

Enquanto a Primeira Guerra Mundial foi a primeira guerra moderna, assim como ilustrado no grupo de itens abaixo, este ainda é considerado um kit primitivo. Juntamente com a máscara de gás, o soldado era equipado com uma espécie de “maça de trincheira”, algo que lembra uma arma medieval.

Durante a a Grande Guerra a camuflagem já era uma estratégia militar levada em conta por vários fatores, além da existência dos vôos de reconhecimento após a inclusão do avião como uma arma de guerra e também pela evolução dos rifles de precisão. Os sobrevoos eram usados para mapear as posições inimigas com o intuito de criar uma condição favorável para os rivais ao possibilitar cercos de artilharia, com isso, a camuflagem passou a ser parte essencial do estudo no desenvolvimento industrial dos novos uniformes militares.

O rifle presente neste kit é o Lee-Enfield, derivado do antigo Lee–Metford que já aplicava um novo método de ação de ferrolho. O Lee-Enfield foi utilizado pelo exército britânico durante as duas grandes guerras e entrou em serviço em 1895, permanecendo até 1957. Disparava de 20 a 30 vezes por minuto com um alcance de aproximadamente 500 metros.

O uso da pá de combate também era algo essencial na época devido à estratégia militar adotada por praticamente todas as nações na época, a guerra de trincheiras.

Nesta época também foi introduzida pela primeira vez o que era chamado de “Rações de Provisão”, que eram nada mais que comida empacotada para ser facilmente preparada e consumida pelas tropas no campo de batalha. Consistiam em três tipos, Ração Reserva, Ração de Trincheira e Ração de Emergência. O uso de rações de combate não era regra para todas as nações envolvidas na guerra, na época. Atualmente as rações de previsão recebem várias nomenclaturas dependendo de sua composição.

Assim como o amplo uso de lanternas portáteis na Segunda Guerra Mundial, algo relativamente novo para o ocidente naquela época eram as Dog Tags ou chapas de identificação. Elas foram introduzidas pelos chineses no século XIX e não demoraram a serem adotadas como instrumento de identificação por quase todas as nações algum tempo depois. A versão da Dog Tag da Primeira Guerra Mundial está logo acima da maça de trincheira, no centro esquerdo da imagem.

Outras inovações da época eram o kit de bandagens de primeiros socorros individual e o relógio de bolso.

1916 – Soldado raso, Batalha do Somme

1944 – Lance corporal, Brigada de Paraquedistas, Batalha de Arnhem

Batalha de Arnhem foi um grande combate travado entre as forças do Exército Alemão e das tropas Aliadas nas cidades holandesas de Arnhem, Oosterbeek, Wolfheze, Driel e no interior do país de 17 a 26 de setembro de 1944. Ela foi parte da Operação Market Garden, uma operação mal sucedida que aconteceu em parte dos territórios da Holanda e Alemanha e que tinha como objetivo principal de expulsar os alemães dos Países Baixos e garantir o avanço livre das tropas aliadas para dentro do território alemão. Ela também foi a maior operação envolvendo tropas aerotransportadas da história.

Nesta imagem notamos que a sofisticação e o número de itens dentro do equipamento militar já aumentara consideravelmente desde o kit do húskarlar da Batalha de Hastings. Para viabilizar um salto com o mínimo de peso possível, os paraquedistas necessitavam de um kit compacto. Sendo assim, foram desenvolvidos inúmeros instrumentos e itens menores que pudessem ser agrupados nas mochilas e bolsas com o objetivo de permitir que o soldado conseguisse saltar sem grandes complicações. Armas menores ou portáteis com coronha retrátil, calças repletas de bolsos e sistemas de fechos inteligentes criaram uma condição em que o equipamento pudesse ser rapidamente desatado do corpo do soldado permitindo uma maior mobilidade, e mesmo assim, os equipamentos de hoje se demonstram mais eficientes contando com apenas um ou dois fechos que se desconectados, liberam todo o equipamento carregado pelo soldado paraquedista.

A comida enlatada era algo amplamente utilizado durante a Segunda Guerra Mundial, uma vez que os soldados iriam percorrer grandes distâncias, isso criava a necessidade de alimentos duráveis para reduzir a necessidade do apoio logístico por parte do fornecimento de alimentos vindos de seus países de origem.

Uma grande mudança ocorrida nesta época foi o uso do chocolate como fonte de energia para os soldados, sendo ele incluído como parte íntegra do kit de rações.

1944 – Lance corporal, Brigada de Paraquedistas, Batalha de Arnhem

1982 – Royal Marine Commando, Guerra das Malvinas

A Guerra das Malvinas foi um conflito ocorrido nas Ilhas Malvinas (em inglês Falklands), Geórgia do Sul e Sandwich do Sul entre os dias 2 de abril e 14 de junho de 1982 pela soberania sobre estes arquipélagos austrais reivindicados em 1833 e dominados a partir de então pelo Reino Unido. Porém, a Argentina reclamou como parte integral e indivisível de seu território, considerando que elas encontram “ocupadas ilegalmente por uma potência invasora” e as incluem como partes da província da Terra do Fogo, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul.

O saldo final da guerra foi a recuperação do arquipélago pelo Reino Unido e a morte de 649 soldados argentinos, 255 britânicos e 3 civis das ilhas.

Aqui já é possível vermos o esquema de camuflagem moderno com padrões de formas e de cores derivadas do verde, e também os itens portáteis como câmera fotográfica e rádio.

1982 – Royal Marine Commando, Guerra das Malvinas

2014 – Sapador de apoio, Royal Engineers, Província de Helmland

A evolução da tecnologia que emergiu nesta série de fotografias foi um processo que recebeu um grande avanço no último século. O relógio de bolso hoje é à prova d’água e possui visor digital; o Lee-Enfield de ação de ferrolho foi substituído por carabinas com mira a laser; os coletes camuflados de Kevlar tomaram o lugar das túnicas de lã.

A sofisticação do equipamento do soldado é gigantesca se formos comparar a primeira e esta última fotografia. Passamos de um equipamento pesado e rígido para a mobilidade, para um armamento mais eficiente, preciso e resistente. Saímos da espada para o arco, mosquete e no final, o rifle de precisão que pode atingir o alvo a 1km de distância. Hoje temos uma preocupação maior em manter o soldado vivo do que empregar “buchas de canhão” no campo de batalha com o intuito de ganhar tempo antes de enviar a carga de cavalaria. Aprendemos o quão importante é manter o soldado oculto por camuflagem e a orientação por mapas em território hostil.

A pergunta que fica é: se nos últimos 1000 anos a evolução do armamento militar acelerou-se gradativamente no decorrer dos séculos, o que nos espera nos próximos 50 anos?

2014 – Sapador de apoio, Royal Engineers, Província de Helmland

Fotografias: Thom Atkinson

Uma das maiores preocupações das tropas britânicas durante o combate contra a resistência alemã não foi a bomba V-1, que ameaçava os soldados e até mesmo suas famílias, nem o constante fracasso em capturar o porto de Cherbourg. A maior preocupação deles, acreditem, era a falta de cerveja!

No dia 20 de junho de 1944, duas semanas depois do Dia D, um correspondente especial da Reuters, na França, escreveu para os jornais no Reino Unido que tudo o que estava disponível nas tabernas recém-liberadas, a algumas milhas para o interior das praias, era uma cidra local. Aquela notícia entristeceu todos que estavam ali. Era possível ver os britânicos encomendando uma garrafa de cidra de uma forma bem melancólica.

Graças a todos os soldados, no dia 12 de julho daquele mesmo ano, a Royal British Beer chegou oficialmente até as tropas que lutavam na Normandia, e mesmo assim, a quantidade foi suficiente para apenas um litro por pessoa – o que não era nada! Muito antes disso, algumas tropas se empenharam a usar pilotos da RAF e USAAF para transportar cerveja para o Norte da França.

Pelas tropas, essas aeronaves receberam o apelido de “pubs voadores”. Para se entender a grande importância para a guerra que tal bebida possui, os militares desenvolveram rolhas especiais para as garrafas que seriam entregues aos soldados, evitando que o produto fosse perdido. Ainda foi emitida uma nota, pedindo que evitassem perder as tampas das garrafas, já que isso impactaria o fornecimento rápido por parte dos fornecedores.

pubs voadores“Um país não pode ser um país de verdade se não tiver, ao menos, uma cerveja e uma empresa aérea. Ajuda se tiver armas nucleares, mas o mais importante é a cerveja.”. E realmente, essa frase é exatamente o que os militares da RAF e USAF passaram naquele momento, ainda mais por conta do transporte ser tão imprevisível.As primeiras tentativas para levar cerveja sobre o Canal da Mancha, depois do Dia D, foram feitas com aeronaves como o Spitfire e Typhoon, com os tanques totalmente cheios e ainda com tanques extras, para que atingissem grandes distâncias correr o risco de perder a carga que transportavam.

Esses esforços parecem ter sidos semi-oficiais. O Ministério da Aeronáutica distribuiu uma fotografia aos jornais, que mostrava um Spitfire norueguês do Esquadrão Tangmere em um aeródromo em Sussex. Enquanto o piloto relaxava sobre a asa, o Spitfire estava equipado com um recipiente adaptado, enquanto dois tonéis de madeira com capacidade para 45 litros cada enchiam o recipiente, fornecido pela Chichester.

Pubs voadoresNo total, foram 270 litros de cerveja fornecidos naquele recipiente de forma aerodinâmica, transportados sob três Spitfire Mk IXbs de Tangmere para um aeródromo em Bény-Sur-Mer, na Normandia, cerca de 110 km ao sul da Inglaterra e a três quilômetros do mar.

Durante essas missões, no dia 17 de junho de 1944 – quatro dias após o desembarque em Berryman, e onze dias após ter começado a invasão – um Spitfire do 416º esquadrão da Royal Canadian Air Force sobrevoou a Inglaterra, indo para um aeródromo construído recentemente em Bazenville. Lá, ele “presenteou” os infantes ingleses ao soltar um barril cheio de cerveja, que estava pendurado sob sua fuselagem. Mesmo com o tanque lavado a vapor, para o azar de todos, a cerveja tinha sabor de combustível de avião.
Pubs voadores
Esses transportes se mostraram eficientes, mas problemáticos para as cervejas dentro dos tanques adaptados. Em uma tentativa com um Typhoon de atravessar o Canal da Mancha com dois tanques sob as asas, após depositar o produto, o pessoal da RAF, ansioso por beber tal cerveja que chegaria, percebeu outro problema: as cervejas estavam com um sabor metálico, estragando novamente a bebida.

Os americanos, pelo contrário, para que não tivessem toda a cerveja perdida, sobrevoaram o Canal a 15.000 pés ou mais, utilizando fibra de papel vulcanizado dentro dos tanques. Os P-47 transportavam as cervejas geladas até em estado de congelamento, mas em perfeitas condições, mostrando não ser improvável um transporte sem estragar a cerveja. Essa técnica pode ter sido tirada a partir dos navios da Marinha dos EUA.

Além dos problemas da perda de toda a cerveja, ou alterações no sabor com os tanques adaptados para o transporte, outro problema ainda maior estava ocorrendo durante os transportes “emergentes” para as tropas no Canal da Mancha, e também para outras bases mais afastadas pelo continente.

Os Typhoon eram facilmente confundidos com os Focke-Wulf Fw 190 alemães, por parte dos pilotos inexperientes. Com isso, durante as entregas realizadas com os Typhoon, estes eram atacados pelos pilotos mais inexperientes, equipados com o P-47. Às vezes, ocorriam até dois ataques no mesmo dia, forçando os pilotos britânicos a abandonarem os tanques carregados no Canal.

Segundo o comandante das tropas britânicas, cerveja custava muito dinheiro a eles, e os dois primeiros ataques no mesmo dia custaram muito caro. Os voos tiveram que ser interrompidos subitamente. Os poucos que ainda eram feitos não continham mais cerveja pura. Eram misturados com champagne e outras coisas que barateassem os custos. A tropa tinha que gostar dessa bebida.

Uma das cartas e relatos resgatados da Segunda Guerra dizia: “A utilização de tanques de combustível auxiliares, acoplados à parte inferior dos aviões de combate na Segunda Guerra Mundial para aumentar sua autonomia, foi muito utilizada na invasão da Normandia em 1944.

Equipes terrestres britânicas corriam pela pista de pouso em meio à poeira e o calor da província francesa, o que deixava todos com sede. A queixa de todos com relação à sede pode ter sido ouvida. Typhoons vindos da Inglaterra, a caminho dos alvos alemães, realizavam um pouso não previsto para a retirada de seus tanques de combustível extras, cheios de cerveja.

Os primeiros tanques chegavam com um sabor horrível, por causa dos revestimentos internos. Antes da segunda viagem, os tanques foram tratados quimicamente, e a bebida foi recolocada de uma forma mais sofisticada, tornando a cerveja bem mais consumível, mesmo que com um leve sabor ruim.”

Pubs voadoresOutro método utilizado pela RAF para aliviar os sabores estranhos, que afetavam a cerveja, eram barris. A aeronave utilizada foi o Spitfire Mk IXs, que equipava as unidades de caças-bombardeiros. No lugar das bombas, barris de cervejas ficavam presos sob as asas.

Os pilotos desse esquadrão afirmaram ter criado uma nova ideia, as “bombas de cerveja”, usando barris caseiros em forma de cone, mas feitos da forma mais simples possível. No dia 03 de agosto de 1944, um Spitfire voou da Inglaterra para o aeródromo de Plamentot, perto de Caen, e começou um “bombardeio de cerveja”.

Pubs voadoresA missão foi feita em benefício da humanidade com sede. Como os barris eram simples, isso implicava na sua integridade durante a entrega, que era basicamente um bombardeio de forma bem “cuidadosa”. Para os militares que estavam no aeródromo de Plumentot, nunca bombas haviam sido tão bem-vindas.

Em novembro de 1944, o governo britânico decidiu que o fornecimento de cerveja para as tropas no exterior deveria ser igual a cinco por cento da produção total nacional. Ou seja, todas as cervejas mais fortes em exportação, todas as cervejas que poderiam ser pasteurizadas, deveriam ser colocadas nas mãos dos serviços de restauração das forças de infantaria.

Algumas das fabricantes de cervejas culparam a falta de mão de obra suficiente. Diziam que as mulheres trabalhadoras, que tinham substituído os homens convocados para as forças, haviam sido evacuadas com os seus filhos, por conta do aumento das ameaças das bombas alemãs V1 e V2.

Em alguns pubs, houve uma espécie de surto de “pânico potável”. Os clientes bebiam suas cervejas e gritavam, com medo de que os suprimentos dos bares acabassem por causa dos militares. Ao mesmo tempo, em alguns distritos, era comercializada cerveja de baixa qualidade. As melhores foram destinadas para as tropas.

A Segunda Guerra trouxe diversos problemas no fornecimento de cervejas para a população britânica, prejudicando algumas pousadas que não eram mais capazes de comercializar a bebida para seus clientes. Em troca disso, xícaras de chá foram colocadas no lugar das cervejas, algo muito desanimador para qualquer hóspede!

Fonte: Canal Piloto

 

 

 

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