Authors Posts by Denis Gasco

Denis Gasco

4 POSTS 0 COMMENTS
Denis Gascó é formado em História pela UNESP-Assis e Especialista em Artes Visuais, Intermeios e Educação pela UNICAMP/Extecamp e atua como professor de História para o Ensino Fundamental II e Médio, assim como mantém um site especializado em história e curisosidades: PALEONERD.COM.BR

“a curved and narrow blade, which glittered not like the swords of the Franks, but was, on the contrary, of a dull blue colour, marked with ten millions of meandering lines…”.

[“uma lâmina curvada e estreita, que não brilhava como as espadas dos francos, mas foi, pelo contrário, de uma cor azul rústica, marcada com dez milhões de linhas sinuosas …”]

Foi com esta demonstração de armas entre os dois reis, que Sir Walter Scott´s, recriou a cena de outrubro de 1192, quando Ricardo “Coração de Leão” da Inglaterra e Saladino “O Sarraceno” chegaram ao fim da 3ª Cruzada, em seu romance histórico “The Talisman” (O Talismã). Neste sentido, Ricardo empunharia uma boa Espada inglesa, enquanto Saladino teria, em suas mãos uma cimitarra de aço de damasco.

Esta tecnologia ficou conhecida na Europa quando os Cruzados chegaram ao Oriente Médio, no começo do século XI. Eles descobriram que as espadas confeccionadas utilizando esta técnica podiam cortar uma pena em pleno ar, e ainda manterem-se impecavelmente afiadas mesmo após muitas batalhas.

A tecnologia do aço de Damasco intimidou os cruzados e fez com que ferreiros da Europa realizassem tentativas de reproduzir este material por meio da técnica de camadas alternadas de aço e ferro, dobrando e torcendo o metal durante todo o processo. Mas este padrão de técnica de soldagem já era utilizado por celtas, no século VI, Vikings do século XI, ferreiros japoneses do século XIII e não era capaz de oferecer o mesmo resultado das forjas sarracenas. Por esta razão, os ferreiros da Europa gravavam a lâmina ou cobriam a superfície da espada com filigranas (técnica que envolvia amassar o metal até virar uma fina camada) de prata ou cobre para imitar o aspecto das lâminas do aço de Damasco.

Aspecto "ondulado" das lâminas de Aço de Damasco.
Aspecto “ondulado” das lâminas de aço de Damasco.

 

Segundos alguns estudiosos, este tipo de experimento no desenvolvimento do material – realizado por medievais na tentativa de descobrir o processo de criação deste material – pode ser considerado como a origem da ciência dos materiais. Entretanto, estes “pesquisadores” medievos jamais conseguiram replicar este processo, cujos segredo terminou por se perder na História.

Através dos séculos – talvez ainda na época de Alexandre o Grande no quarto século antes de cristo – os ferreiros que desenvolviam as espadas, escudos e armaduras feitas deste material mantinham esta tecnologia em absoluto sigilo. Com o advento das armas de fogo, esta técnica foi perdida e nunca descoberta apesar dos esforços de homens como Pavel Anossoff, o metalúrgico russo, que conhecia o aço como “Bulat”.

Em 1841, Anossoff declarou: “Nossos soldados logo estarão armados com lâminas Bulat, nossos agricultores irão abrir o solo com enxadas bulat… O Bulat irá superar todo o aço usado nos dias de hoje para fabricar artigos com afiação especial e de resistência.”

No entanto, seus esforços ao longo da vida para cumprir esse sonho foram em vão.

Aço “Wootz” e as espadas Sarracenas

O termo sarraceno foi uma adaptação latina da palavra grega “sarakenoi” que, por sua vez, foi uma flexão da palavra árabe “sharquiyin” (“orientais”) e foi utilizada pelos cristãos medievais desde o século XIII como uma forma pejorativa de se referirem aos povos islâmicos que viviam nas regiões do Leste Europeu, Oriente Médio e África. Para entender melhor em que consiste a religiosidade islâmica, você pode acessar o site Paleonerd.com.br que, de forma descontraída trata acerca deste assunto. Também é possível conhecer uma pouco mais sobre o processo de invasões muçulmanas na Europa, a partir do texto “A Bombarda Turca”, que temos em nosso acervo.

Atualmente, os pesquisadores sabem que o verdadeiro (ou “oriental”) aço de damasco era constituído por uma matéria prima que os pesquisadores denominaram de “aço wootz”, o qual era formado por um grau excepcional de minério de ferro. Desta maneira, os intelectuais especulam estas armas teriam sido criadas pela primeira vez no Sul e Sudeste da Índia e Sri Lanka durante a primeira metade do século IV d.C.. O “wootz” era extraído a partir do minério de ferro e transformado com auxílio de um cadinho (objeto no qual o ferro era derretido), no qual o material era derretido, limpo de impurezas e recebia a adição de outros ingredientes que incluíam alta quantidade de carbono (aproximadamente 1,5%, segundo um cálculo baseado no peso do ferro, o qual costuma ter apenas 1% deste minério).

Para entender melhor um pouco sobre forma como este material é no processo de forja contemporâneo, você pode assistir ao seguinte vídeo:

A alta concentração de carbono é o elemento chave no processo de manufatura do aço de damasco, da mesma forma que o problema destas armas. Isto porque a alta concentração de carbono permite o aperfeiçoamento do corte desta lâmina e torna sua durabilidade maior, todavia controlar a quantidade, presente na mistura é QUASE IMPOSSÍVEL!

Pouco carbono resultaria em um ferro demasiado maleável para estes propósitos, mas, carbono demais daria início ao processo de fundição, que é inútil para a confecção de armas; se o processo não desse certo, resultaria em placas de cementite, que é extremamente frágil. Todavia, de alguma maneira os metalúrgicos islâmicos foram capazes de controlar a concentração deste material e fazer armas de combate fantásticas, mas toda esta técnica se perdeu em meados do século XVIII.

Não faz sentido o fato destes ferreiros terem “perdido” tal tecnologia tão útil e muitos pesquisadores tentativas de reencontrar esta técnica. Em artigo recente para a revista Nature o pesquisador da Universidade de Dresden, Peter Paufler, desenvolveu uma hipótese para explicar a mecânica por meio da qual o aço com alta concentração de carbono foi criado e por que motivo desapareceu. Para tanto, este pesquisador buscou auxílio da nanotecnologia como forma de entender melhor este processo.

Segundo artigo da National Geographic, ao colocar este material em análise com auxílio de um microscópio eletrônico, Paufler e seus colegas encontraram nanotubos de carbono nestas espadas. Estes nanotubos são muito fortes e estão presentes no aço mais suave das lâminas, tornando-as mais resistentes. Sobre Paufler afirma: “É um princípio geral da natureza. Materiais que são suaves podem ser fortalecidos com a inclusão de fios mais resistentes.”

Estrutura do Aço de Damasco onde é possível notar a existência dos nanotubos de carbono.
Estrutura do aço de Damasco onde é possível notar a existência dos nanotubos de carbono.

Para comprovar sua teoria, este pesquisador e sua equipe foram capazes de construir uma liga de aço mais poderosa, baseada na introdução de cementita, durante o processo de resfriamento – que é conhecido como têmpera. Entretanto outros pesquisadores permanecem céticos acerca de Paufler e sua equipe terem conseguido descobrir o segredo do aço de damasco. Como é o caso do especialista em metalurgia da Universidade Estadual do Iowa (EUA), John Verhoeven, o qual afirma que nanoestruturas tubulares podem ser encontradas também em espadas feitas com aço comum.

No denso artigo “The Key Role of Impurities in Ancient Damascus Steel Blades” (O papel central das impurezas nas antigas espadas de aço de Damasco) que escreveu junto com mestre em cutelaria e gerente geral aposentado da Nucor Steel Corporation para o site The Minerals, Metals and Materials Society (TMS), Verhoeven afirma que:

“…o lingote wootz teria que ter vindo de um depósito de minério que forneceu níveis significativos de determinados oligoelementos, nomeadamente, Cr, Mo, Nb, Mn, ou V. Essa idéia é consistente com a teoria de alguns autores que acreditam que as lâminas com bons padrões só foram produzidas a partir de lingotes wootz feitas no sul da Índia, aparentemente em torno de Hyderabad. Em segundo lugar […era necessário] o conhecimento anterior de que wootz lâminas Damasco com bons padrões são caracterizados por um nível de fósforo elevado.”

Característico padrão "orgânico" nas lâminas de aço de Damasco
Característico padrão “orgânico” nas lâminas de aço de Damasco

Para estes especialistas consideram pertinente a hipótese, na qual a produção deste metal teria sido interrompida, não pela perda da técnica, mas sim por causa do esgotamento da fonte do minério adequado para a produção destas armas. Quando foi encontrado um novo corpo de minério que apresentava as propriedades necessárias para a produção do aço de damasco, os ferreiros que conheciam o processo de extração e forja já teriam falecido, sem terem passado à frente o conhecimento aos seus aprendizes.

Os estudos das propriedades nanomateriais ainda estão nos primeiros passos de seu desenvolvimento e, provavelmente, ainda precisaremos esperar mais alguns anos até uma conclusão que seja reconhecida como um consenso entre os pesquisadores.

ori_1910_1716003591_1141700_islamic_sword_11 204-208

0 2857

Dezembro de 1812

Pés trôpegos cambaleiam sobre a neve fofa, acompanhados pelo desesperado resfôlego de milhares de pulmões exasperados, movidos somente pela adrenalina da luta por sobreviver. O exército de mais de meio milhão de soldados, que antes fora denominado como a Grande Armada (Grande Armée) napoleônica, segue uma longa caminhada na vã tentativa de fugir das doenças, fome e da certeza iminente da morte por hipotermia. Este foi o resultado da tática de enfrentamento russa contra o ataque destruidor das tropas francesas, a qual ficou conhecida como “Terra Arrasada”.

Mas que motivos teriam levado tais potências do século XIX a se enfrentarem desta maneira?

O Bloqueio Continental (1806)

No ano de 1806, após a inquestionável derrota francesa na Batalha marítima de Trafalgar, Napoleão decidiu estabelecer o que ficou conhecido como o Bloqueio Continental à Inglaterra, com objetivo de neutralizar o poderio econômico deste rival ao privá-lo de manter relações comerciais com o mercado europeu, ao promover a ameaça de invasão à qualquer país que tivesse a ousadia de ignorar suas ordens.  Esta tática se tornou efetiva após a derrota dos exércitos da quarta e quinta Coligações – entre os anos de 1807 e 1809 – de forma a determinar o poder invencível da ágil mobilidade dos exércitos franceses em terra e culminou na adesão russa, por meio do Tratado de Tilsit.

Fuga da Família Real ao Brasil.
Fuga da Família Real ao Brasil.

Entretanto, a incapacidade francesa em suprir as necessidades deste mercado de proporções continentais resultou em uma profunda crise econômica por todos os países participantes do bloqueio. Tal fato levou Portugal, em 1808, a desobedecer às ordens do então Imperador Napoleão e sofrer a tão temida invasão de seu território, enquanto a família real portuguesa seguia a caminho da colônia brasileira, acompanhada por uma escolta de navios ingleses.

Caricatura atribuída ao inglês George Moutard Woodward, de novembro de 1807, que satiriza a situação dos dois países, em meio ao Bloqueio Continental.
Caricatura atribuída ao inglês George Moutard Woodward, de novembro de 1807, que satiriza a situação dos dois países, em meio ao Bloqueio Continental.

A partir de então, Napoleão passou a ter de lidar com diversos grupos insurretos que encontraram na estratégia de guerrilha, uma forma eficiente de se colocarem contra as imposições do império francês – muitas vezes com apoio militar e econômico dos britânicos. Isto porque, nenhum dos dois grandes impérios se daria por feliz com menos que uma vitória total sobre seu adversário.

Com isso, passa a ter um sentido bem claro o fato de Alexandre I, da Rússia, ter decidido romper com o Tratado de Tilsit no ano de 1812, assim como a prepotente reação de Napoleão que, ao decidir impor rápida rendição ao império russo, almejava uma forma de legitimar sua autoridade sobre o território europeu como um líder que agia de forma benevolente com seus adversários. Contudo, Napoleão tinha uma crença tão forte em uma rápida vitória, que pareceu não levar em consideração a possibilidade de um conflito de longa duração em território inimigo; algo que foi decisivo em sua derrota.

As Invasões Napoleônicas

Em julho de 1812, Napoleão pôs em marcha um exército com aproximadamente 600.000 homens, 50.000 cavalos e carroças carregadas com suprimentos previsto para trinta dias, tomado pela certeza de obter a rendição adversária em apenas vinte dias. Entretanto, para seguir com a tática responsável por suas vitórias pela Europa central – baseada na rápida movimentação de seus exércitos por todo o front – era necessário um terreno estável e com boa rede de estradas, além de boas áreas cultivadas para obter alimentos de maneira prática, já que as carroças de suprimentos não eram capazes de acompanhar a velocidade de movimentação da infantaria.

Todavia, a estratégia de Napoleão, além de não considerar as péssimas condições das estreitas estradas russas e a pobre agricultura nos campos que cercavam o espaço, subestimou a capacidade de observação do veterano russo, General Kutuzov (1745-1813). Com 68 anos, este militar serviu na batalha da Criméia e foi fundamental na obtenção da vitória cossaca na Guerra Russo-Turca, na Moldávia – de onde guardava a amarga lembrança de um olho inutilizado em batalha – além de ter sido capaz de promover retirada de seu exército intacto em meio a conhecida Batalha de Ulm (1905), em Dürrenstein.

Império Napoleônico
Império Napoleônico

Consciente da superioridade numérica e militar de seus inimigos, Kutuzov decidiu aplicar um complexo sistema de batalhas, acompanhadas de retiradas estratégicas. Denominado “Terra Arrasada” este sistema consistiu em incendiar os campos e contaminar as fontes de água durante o processo de retração do front de batalha, atraindo seus adversários em direção ao interior do país. Três meses depois, Napoleão encontrou Moscou incendiada, após inconclusiva a inconclusiva batalha de Borodino, com cerca de 200.000 homens mortos ou hospitalizados, devido doenças e exaustão. O rigoroso inverno chegou e levou Napoleão a bater em desesperada retirada, com os russos ao seu encalço e relatos de soldados revelavam os horrores sofridos por esta fatigada multidão, acossada pelo frio, fome, tifo, infestações de piolhos e diarreia em acampamentos precários que favoreciam a contaminação pelas fezes destes milhões de homens.

A teoria da alteração da estrutura do microcristalino no chumbo

Neste ponto, nos deparamos com a inusitada hipótese desenvolvida pelos autores do livro “Os Botões de Napoleão” (2003) que, na introdução de seu trabalho, apontam uma teoria que sugere que o fato dos botões dos uniformes dos destacamentos napoleônicos serem feitos em estanho poderia ter contribuído para o enorme número de mortos neste processo de retirada. Isto porque o estanho, a partir dos -30ºC, sofre um processo de transição alotrópica – ou seja, passa por mudanças no ordenamento de sua microestrutura cristalina – de forma a se transformar em pó, como é possível vermos no timelapse gravado pela equipe da periodictabe.ru.

Ademais a curiosidade desta possibilidade, os próprios autores questionam esta possibilidade pois este processo resulta razoavelmente lento, inclusive nas extremas temperaturas atingidas em meio ao inverno russo. Tanto que o processo apresentado no vídeo levou cerca de vinte horas a uma temperatura controlada de -40ºC. Teoria que é uma vez mais enfraquecida pelo artigo de uma equipe de químicos da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, os quais apontam que o achado arqueológico de uma cova coletiva de soldados membros do exército francês na Lituânia, durante o ano de 2002, permitiu aos pesquisadores comprovarem que, na verdade, os botões do uniforme francês eram compostos por uma liga de estanho e cobre.

Botões presentes em uma reconstrução da túnica utilizada pelo 53º Regimento de Infantaria da Guarda Imperial de Napoleão
Botões presentes em uma reconstrução da túnica utilizada pelo 53º Regimento de Infantaria da Guarda Imperial de Napoleão
Botões encontrados na cova coletiva, na Lituânia, junto com uma moeda de prata que revela a face de Napoleão
Botões encontrados na cova coletiva, na Lituânia, junto com uma moeda de prata que revela a face de Napoleão

Conclusão

Apesar de interessantíssima, a hipótese do “esfarelar” dos botões presentes nas fardas do exército napoleônico, permanece um mito e a derrota que marcou o início do declínio do império napoleônico se mantém atribuída à péssima logística e à fraca disciplina instituídas no exército francês que, ao se transformar em uma turba acéfala durante a retirada, ficou ainda mais suscetível às doenças e intempéries da região.

Certamente o frio congelante e a exaustiva marcha em meio a neve fofa marcaram a derrocada de centenas de milhares de homens e no retorno de cerca de 1/6 de todo o contingente, fato que ofereceu enorme impacto sobre as fileiras de combatentes. Contudo, a final derrocada de Napoleão somente veio na famigerada Batalha de Waterloo, onde o imperador seria derrotado pela 7ª Coligação e forçado a viver em exílio na ilha de Santa Helena, onde faleceu em condições controversas.

Casa onde Napoleão passou seus últimos dias, na Ilha de Santa Helena.
Casa onde Napoleão passou seus últimos dias, na Ilha de Santa Helena.

 

 

0 1958
A bombarda de Mehmed

Constantinopla, 29 de maio de 1453.

Pela primeira vez, em centenas de anos, a parede externa da grande muralha treme enfraquecida diante da onda de choque resultante do impacto de 300 kg de granito.

A 1.500 metros de distância jaz, envolta em fumaça, a Bombarda turca com suas dezesseis toneladas de bronze fundido e calibre de 635mm. Na boca de seu cano esfumaçado permanece a inscrição: “Ajude ó Deus. O Sultão Mohammed Jhan, filho de Murad. O trabalho de Kamina Ali, no mês de Rejeb. No ano de 868[1].”

A bombarda de Mehmed
A bombarda de Mehmed

No outro lado da massa de pedra e tijolos, o centro econômico e político do Império Romano se encontrava sob cerco, com sua população a admirar, horrorizada, o poder destrutivo e o brado avassalador de uma arma que jamais imaginaram existir. Sem a menor ideia de como reagir a tal tipo de ataque, tudo que lhes resta é ajoelhar em oração e aguardar que a bondade de seu deus intervenha a seu favor.

Neste ano o Ocidente tinha, pela primeira vez, contato com uma completamente nova forma de batalha, baseada no uso da pólvora.

Mehmed II se aproxima de Constantinopla
Mehmed II se aproxima de Constantinopla

O Império Romano do Oriente

De forma errônea. As pessoas costumam pensar que a história do Império Romano termina aproximadamente, quando as invasões germânicas terminam por conquistar a cidade de Roma. Contudo, este poderoso império já havia transposto sua capital muito antes de sofrer o ataque dos vândalos, em 476 d.C. sob ordens de Constantino I, o qual foi também responsável por retirar da ilegalidade os cristãos e estabelecer uma política mais tolerante com os seguidores desta religião – em uma caminho bem diferente de seu percussores. Fato que não só dava espaço à este grupo que crescia de forma impressionante, mas atendia a demanda, inclusive, de famílias de patrícios, que já haviam sidos convertidos nesta nova fé.

Esta reorganização do Império Romano foi resultado de uma série de fatores que marcaram um processo de crise (econômica, política e social) a partir do século I, quando Otávio Augusto minimizou a prática imperialista de expansão territorial e se dedicou a consolidar as fronteiras, em um período que ficou denominado como a Pax Romana. Fato que terminou por desencadear uma série crise da mão-de obra escrava que, por dar sustento ao ordenamento econômico romano, desencadeou um processo inflacionário de produtos e imóveis.

Além disso, a enorme corrupção e a luta entre generais pelo poder dividia espaço com a expansão da fé cristã por toda a região, enfraquecendo os pilares que sustentavam esta poderosa civilização. Por fim, o processo migratório das comunidades germânicas, a partir do século III, e sua evolução para uma sequência de invasões em meio aos séculos IV e V contribuíram para que o Império romano fosse dividido em Império Romano do Ocidente (com Capital em Roma) e Império Romano do Oriente – com capital estabelecida na antiga cidade grega de Bizâncio. Iniciativa tomada por Teodósio I, o Grande (379-395) e foi acompanhada do início da construção de uma enorme muralha.

Em meados do Século V, com a tomada de Roma, Constantinopla (nome então conferido à cidade pelo Imperador Constantino I – 306-337) foi transformada no grande centro econômico, político e cultural do que restou de um enorme império, que ia do Norte da Escócia até a região da Índia. Neste lugar, os romanos (pois ainda se definiam pelo termo latino romanoi) deram início a uma prática inovadora de associação entre poder político e religioso que ficou conhecida como cesaropapismo e serviu de base para toda a organização de poder da Era Medieval.

Baseada na produção agrícola em larga escala – com uma organização de trabalho diversa, que se pautava em camponeses livres, servos e escravos – os romanos souberam utilizar a favorável localização de sua capital como um eixo das rotas comerciais para desenvolver um efusivo comércio de tecidos, minérios, escravos, grãos, especiarias, pedras preciosas, rebanhos, entre outros. Cabe apontar um especial valor dado por eles ao comércio de azeite, que era utilizado como importante fonte de luz.

A constante presença de povos com as mais diversas etnias, os romanos desenvolveram um completamente novo estilo arquitetônico que miscigenava a arte greco-romana com culturas de povos orientais e temas que amalgamavam a religiosidade e política. Fato que deu origem à criação das Basílicas (palavra de origem grega que significa a “casa do rei”), além de enormes construções como o Aqueduto de Valente, a Basílica de Hagia Sophia e o Hypódromo que eram adornados de forma rica e cuidadosa com afrescos e mosaicos.

As muralhas de Constantinopla permaneceram intocáveis por cerca de 1000 anos, tanto que passou a figurar dentre as lendas populares como o resultado da organização de um poderoso império, ungido pela bondade de Deus.

Domínio Bizantino em 1452.
Domínio Bizantino em 1452.

 

As Muralhas de Teodósio II

Construída entre 412 e 447, esta obra foi fruto do trabalho de milhares de construtores godos e grupos “bárbaros” de diversos lugares, chegando a atingir mais de 6km de comprimento de uma defesa tripla, que incluía duas muralhas e um fosso com aproximadamente 20 metros de largura que contava com barricadas por toda sua extensão – pelas quais os inimigos deveriam passar sob intensa saraivada de flechas, lanças e balas lançadas por balestras.

Caso o adversário fosse capaz de transpor o fosso, precisaria atravessar uma faixa de área desprotegida com 15m para poder atingir a primeira linha de muralhas, a qual era composta por muros de 2m de largura, 8m de altura e provida com cerca de 80 torres de vigília, dispostas de maneira estratégica por toda sua extensão.

Havia um corredor aberto com cerca de 18m de largura os levaria em direção à última muralha que, por sua vez, contava com 5m de largura, 13m de altura e 100 torres de defesa que chegavam a ter 15m de altura. Este verdadeiro abatedouro era recoberto por pequenos cubos de pedras e tijolos que eram reforçados com linhas de tijolos pontiagudos. Por fim,as regiões costeiras eram dotadas de muralhas de 12m, que se estendiam por 13km, onde estavam situados os enormes portões denominados Porta Aurea – também chamados de Portões Dourados por alguns historiadores. Contudo, segundo os autores do site da biblioteca virtual do instituto Miguel de Cervantes, a magnitude desta construção resultava um preocupante problema, já que haviam apenas 8.000 homens disponíveis para realizar o patrulhamento e defesa da muralha, durante o ano de 1453.

De qualquer forma, na época da invasão dos exércitos muçulmanos, Constantinopla já não contava mais com a enorme frota para defender seu portão no estreito do “Chifre de Ouro”, o qual foi burlado por pelas tropas de Mehmed II de forma muito criativa. Os soldados realizaram o enorme esforço de carregar os barcos numa travessia terrestre pela região próxima à torre de Gálata e, com isso, dar a volta nas gigantes correntes que impediam sua entrada e adentrar novamente no estreito do Chifre de Ouro.

The-restored-Gate-of-Charisius-or-Adrianople-Gate-where-Sultan-Mehmed-II-entered-the-city.
O Portão restaurado de Charisius ou Portão de Adrianópolis , onde sultão Mehmed II entrou na cidade.
The-Second-Military-Gate-or-Gate-of-Belgrade
O segundo Portão Militar ou Portão de Belgrado
Theodosian-Walls
Seção da muralha de teodosio
Theodosianische_Landmauer_in_Istanbul
Seção da muralha de teodosio
Representação-esquemática-das-paredes-Theodosian-duplas-de-Constantinopla-e-do-fosso-exterior-adicionados-mais-tarde
Representação esquemática das paredes Theodosias duplas de Constantinopla e do fosso exterior adicionados mais tarde

A invasão à Constantinopla

Os motivos que levaram os membros do Império Otomano a agirem no intuito de conquistar esta cidade estão relacionados aos interesses pelo controle econômico, político e religioso desta região, entendida como uma das mais ricas de toda a região. Neste sentido, este grupo – que passava a agregar para si a definição de turcos – passava por um enorme processo de expansão territorial, por meio do qual haviam conquistado todas as terras a leste e oeste de Constantinopla, fato que fazia deste lugar o último reduto cristão do leste europeu.

Além disso, devemos ter em mente que o islã é uma religião por natureza expansionista, já que o conceito de jihad envolvia a busca por obter o máximo de tribos convertidas à sua crença por meio de diálogos diplomáticos constantes e, em último caso, por meio de uma expansão militarista. Contudo, a tolerância religiosa sempre foi uma grande marca de seus seguidores que, uma vez que conquistassem a região, permitiam a realização de cultos diferentes, em troca de taxa de impostos mais alta a serem pagas pelos grupos dominados. Como foi o caso do Califado de Córdoba, que agregava no interior de seus muros muçulmanos, judeus, cristãos, budistas e outros grupos religiosos menores.

Entretanto, o sultão turco Mehmed II tinha um enorme desafio à frente pois, além de precisar realizar o impossível (transpor muralhas que há mais de 1000 anos não eram vencidas) tinha necessidade de constituir uma imagem sobre si que fosse capaz de sobrepor a incredulidade conferida à sua juventude – já que tinha apenas 21 anos de idade na época – e levar consternação aos seus adversários.

Em artigo publicado na revista History Today, o professor adjunto em Estudos Otomanos da Universidade de Birmigham, e autor do livro Ottoman Warfare, 1500-1700, Rhoads Murphey ao procurar entender as diversas perspectivas existentes na época sobre a personalidade do jovem sultão. Autor compara documentos com fatos, como o documento endereçado à comunidade genovesa, na época da conquista, que oferecia privilégios na tentativa de obter auxílio de residentes de Constantinopla, com linguagem confidencial e inspiradora.

Este documento consiste em uma carta, enviada ao Duque de Veneza, em maio de 1471, na qual lhe é proposto o fim da guerra (em curso desde 1463) de maneira diplomática, por meio de demandas moderadas à Veneza, em troca de concessões otomanas. Neste documento, o sultão acenava com a devolução da ilha de Lemnos, em contrapartida ao pedido de evacuação dos territórios de “Modon “e “Coron”, situados no extremo sul do Peloponeso. Em análise do material, Murphey, por fim, afirma que Mehmed II, acenava com grande respeito pelo conhecimento. Algo que se fazia muito presente com respeito às técnicas manufatureitas de armamentos e armaduras, o qual se

Caracterizado como de ações categóricas e temperamento explosivo, este rapaz parecia (apesar de tudo) ser capaz de controlar tais características, e apresentar um discurso moderado e construtivo quando a situação assim exigia. Ademais, Mehmed II aparentava ser dotado de grande habilidade estratégica e recusava lançar seus exércitos em batalhas que não tivessem algum tipo de garantia da vitória.

Mehmed II por Fausto Zonaro
Mehmed II por Fausto Zonaro
Retrato do Sultão Mehmed II, pintado em 1479, pelo pintor italiano Gentile Bellini
Retrato do Sultão Mehmed II, pintado em 1479, pelo pintor italiano Gentile Bellini

De qualquer forma, rumores contribuíram para envolver este personagem histórico em uma névoa de mistério que o colocavam como um líder obcecado pela reputação de suas proezas militares e que ganhava ainda mais força quando sua vitória sobre o Império Bizantino passa a ser relacionada com uma profecia de Maomé a respeito da vitória muçulmana sobre o antigo reino cristão. Todavia, o sultão não fazia a menor questão de contradizer tais boatos e chegava, inclusive, a incentivar as perspectivas errôneas como maneira de confundir seus adversários. Neste sentido, como forma de incutir maior medo e insegurança, assim como de garantir sua vitória contra os cristãos, o sultão do Império Otomano decidiu criar uma arma poderosa; a Bombarda Turca.

Em um artigo científico para o site Muslim Heritage, o pesquisador sênior da Foundation for Science, Technology and Civilisation, Dr. Salim Ayduz, faz uma interessante análise sobre a bombarda de Mehmed II e afirma que este foi o resultado de trabalho de habilidosos engenheiros e arquitetos como Saruca Usta e Muslihidin Usta, além de contar até mesmo com Urbano – um romano que se revelava insatisfeito com o governo bizantino – para a elaboração deste complexo armamento.

Construído com moldes duplos, o canhão era composto por duas partes, feitas em bronze maciço, que eram rosqueadas para formar a maior Bombarda do mundo, cujas peças possibilitavam encaixes transversais cruzados para a inserção de alavancas que permitissem aos soldados girar os canos, de forma a rosquear o carregador de pólvora ao cano de disparo.

cannon_mehmed_ii_03

muslim_rocket_technology_06
A Bombarda Turca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Existem relatos da época que falam sobre o clima no dia do primeiro teste, em meio ao campo, quando todos foram avisados do enorme barulho que seria feito com o estouro da arma, para que nenhuma pessoa doente ou mulheres grávidas fossem surpreendidas pelo som, desavisados. Fato que aponta um segundo aspecto, de caráter psicológico, do uso desta arma como forma de intimidar os inimigos com seu enorme tamanho e estrondo realizado pelo disparo. Isto porque toda vez que era disparado, o enorme estrondo e a névoa de fumaça poderiam ser percebidos de longa distância. Algo que foi apontado pelo relato do cronista grego Kristovolous, que dedica suas palavras ao amedrontador rugido desta arma, capaz de fazer a terra tremer.

Caso haja interesse dos leitores, é possível vermos um vídeo que demonstra o teste realizado por um grupo de cientistas, para o programa Ancient Discoverys, com uma réplica do canhão cuja poderosa explosão gerava medo entre seus próprios atiradores – que temiam a fragmentação do cano de disparo – com a intensidade da detonação, que gerou a velocidade de 200m/s do projétil. Uma força que supera a velocidade das balas dos canhões modernos!

Conclusão

Segundo tudo que vimos até agora, podemos concluir que a superioridade estratégica de Mehmed II foi fundamental para a vitória contra os cristãos. Neste sentido, o poder bélico de um enorme exército, associado ao uso de uma arma com fantástico poder de destruição, não só serviram para as batalhas, mas contaram também como arma psicológica, capaz de incutir o terror entre soldados e moradores de Constantinopla.

Desta maneira, a cidade foi tomada em apenas oito semanas de batalhas, algo que para a época poderia ser considerado um tempo extremamente curto, já que os cercos em guerras costumavam levar diversos meses – até que os suprimentos básicos da cidade cercada chegassem ao fim. Fato que levou ao fim o último reduto cristão em meio aos domínios do Império Otomano e, ao mesmo tempo, apresentou ao Ocidente o impressionante poder de destruição de um completamente novo tipo de armamento.

Com isso, as armas de fogo viriam a ser introduzidas progressivamente nas práticas militares europeias e, durante o século XVI, seriam um fator crucial na conquista da América. Mas este é assunto para outro momento, nesta história militar.

A tumba do Sultão Fatih ("O Conquistador") Mehmed II, na cidade de Istambul.
A tumba do Sultão Fatih (“O Conquistador”) Mehmed II, na cidade de Istambul.
Moeda de bronze com o busto de Mehmed o Conquistador, 1480 D.C
Moeda de bronze com o busto de Mehmed o Conquistador, 1480 D.C

[1] Este ano corresponde ao calendário muçulmano.

Durante o ano de 2004, investigadores alemães encontraram um machado mesopotâmico ao apreenderem um negociante, conhecido por vender antiguidades no mercado negro. A arma foi reconhecida como parte do sítio arqueológico da cidade-estado de Ur – atual cidade de Tell el-Mukayyar, no sudeste do Iraque.

Sobre a Mesopotâmia

A Mesopotâmia compreende a região situada entre os rios Tigre e Eufrates, no Oriente Médio, e constam entre as mais antigas organizações de Estado conhecidas pelos historiadores.  Uma região que, há milhares de anos, era marcada pela ocorrência de terras férteis, favorecidas pelas abundantes cheias sazonais destes complexos hídricos – por este motivo, a região recebeu esta denominação que pode ser traduzida do grego arcaico como “[terra] entre dois rios”.

Com suas nascentes situadas na região que compreende o atual Estado da Turquia, estas fontes de vida atravessam o Oriente Médio (para ser mais exato a Síria, Iraque e Iran) e desembocam no Golfo Pérsico. Fato que possibilitou o desenvolvimento de civilizações complexas, pautadas na agricultura irrigada e em uma intensa rede de comércio; conforme podemos ver no mapa baixo.

mesopotamia_trade

Formada pelo agrupamento de cidades-estado – dotadas de autonomia política e econômica – esta reginão é considerada o berço de toda cultura do homem, uma vez que situam-se os mais antigos registros da escrita (pautada na caligrafia cuneiforme), assim como de histórias como a famosa “Epopéia de Gilgamesh”. Dentre as principais civilizações, podemos citar os Sumérios que foram responsáveis pela construção dos primeiros Zigurattes da região , há cerca de 5000 anos atrás.

Com uma cultura muito bem organizada, os sumérios eram governados por um líder militar e religioso denominado Patesi, que eram entendido como representante das divindades naturais e se mantinham nessas enormes construções, de onde governavam com o apoio de uma elite sacerdotal. Neste sentido, os Zigurates, terminavam por configurar como o centro religioso, político, administrativo e financeiro de cidades como Ur, Uruk, Nippur e Lagash.

Perspectiva panorâmica do Zigurate de Ur, em uma fotografia apresentada pela Enciclopédia Irânica.
Perspectiva panorâmica do Zigurate de Ur, em uma fotografia apresentada pela Enciclopédia Irânica.

Destes lugares esta elite enviava ordens e se comunicava por meio de pequenas tabuletas de argila com símbolos que variavam entre risco e cunhas. Esta forma de comunicação era utilizada, inclusive, para pequenos envios de recados e convites entre populares e, por este motivo, revela que a disseminação de informações era muito mais abrangente e refinada do que se costuma pensar, quando se trata a respeito deste período.

“Carta” envidada pelo alto sacerdote Lu´enna ao rei da cidade-estado de Lagash, informando-o da morte de seu filho (o príncipe) em combate. Datado de 2.400 a.C., este material foi encontrado em Telloh (atual Girsu), no Iraque, em uma escavação supervisionada por Gaston Cros, de 1904. Hoje a “carta” se encontra no Departamento de Antiguidades Orientais do Museu do Louvre. Fotografia por Marie-Lan Nguyen, disponível na Wikimedia Commons.
“Carta” envidada pelo alto sacerdote Lu´enna ao rei da cidade-estado de Lagash, informando-o da morte de seu filho (o príncipe) em combate. Datado de 2.400 a.C., este material foi encontrado em Telloh (atual Girsu), no Iraque, em uma escavação supervisionada por Gaston Cros, de 1904. Hoje a “carta” se encontra no Departamento de Antiguidades Orientais do Museu do Louvre. Fotografia por Marie-Lan Nguyen, disponível na Wikimedia Commons.

Entretanto, diferente do que muitos podem pensar, esta região estava longe de ser um paraíso pacífico, mas sim entrevado palco de batalhas constantes, no qual diversos povos – como os Acadianos, Assírios, Babilônicos e Persas – lutaram por obter o controle político e econômico da região; prática que recebeu a denominação de IMPERIALISMO e, marca a existência humana até os dias de hoje.

Por este motivo, as escavações arqueológicas costumam encontrar armas e armaduras construídas com a tecnologia do bronze em meio a enorme quantidade de potes de cerâmica, selos comerciais, esculturas, sementes e ossos. Pode parecer incoerente, mas a análise do material orgânico fossilizado nos sítios arqueológicos, apesar de muito trabalhosa, tem sido a maior fonte para o entendimento a respeito do clima e mudanças ocorridas no território, durante este período tão distante.

Uma cultura refinada

Para que possamos entender o como a cultura destes povos era refinada, deixo abaixo, a imagem de um selo que era utilizado para lacrar os potes de cerâmica, comercializado pelos povos. A marca do selo em um pote ou vaso apontava quem era o comerciante proprietário do material contido e, às vezes apontava o destinatário do produto.

ps179976_l

Selo acadiano (acompanhado da impressão em argila) que apresenta, no centro o deus-sol Shamash (Utu para os sumérios) nascendo no horizonte ao leste, com raios saindo de seus ombros. Ele segura uma serra na mão para cortar as montanhas – ou como simbolismo ao seu papel de juiz . à esquerda de Shamash está Ishtar (ou Inanna, para os sumérios) ao lado de uma árvore e, possivelmente, o herói Gilgamesh com seu arco e um leão. Na parte superior esquerda de Shamash podemos ver um pássaro (talvez Anzu que, de acordo com um conto, roubou a Tabuleta do Destino) e Ea (em sumério Enki), cuja natureza ligada à água é indicada pelos peixes que escorrem de seus ombros. Por fim, à direita de Ea está o mensageiro divino de duas faces Isimud e, na parte superior esquerda o nome e título da pessoa que seria o proprietário do selo, em escrita cuneiforme. Fonte: British Museum
Selo acadiano (acompanhado da impressão em argila) que apresenta, no centro o deus-sol Shamash (Utu para os sumérios) nascendo no horizonte ao leste, com raios saindo de seus ombros. Ele segura uma serra na mão para cortar as montanhas – ou como simbolismo ao seu papel de juiz . à esquerda de Shamash está Ishtar (ou Inanna, para os sumérios) ao lado de uma árvore e, possivelmente, o herói Gilgamesh com seu arco e um leão. Na parte superior esquerda de Shamash podemos ver um pássaro (talvez Anzu que, de acordo com um conto, roubou a Tabuleta do Destino) e Ea (em sumério Enki), cuja natureza ligada à água é indicada pelos peixes que escorrem de seus ombros. Por fim, à direita de Ea está o mensageiro divino de duas faces Isimud e, na parte superior esquerda o nome e título da pessoa que seria o proprietário do selo, em escrita cuneiforme. Fonte: British Museum

Arqueologia e Guerra

Segundo a agência de notícias Reuters, o material foi entregue aos pesquisadores do Roman-Germanic Central Museum (RGZM), os quais perceberam evidências que sugerem que esta arma foi roubada de um museu ou de sítio de escavação.

A explicação mais plausível para este fato está relacionada com o enorme caos gerado pela invasão norte-americana no Iraque (em 2003), movida pelo desejo de retaliação aos atentados terroristas de World Trade Center, assim como pelo enorme interesse econômico dos EUA sobre as reservas de petróleo presentes na região. Neste sentido, esta situação favoreceu a ocorrência de uma enorme quantidade de saques destas antiguidades, que eram retiradas dos museus e sítios arqueológicos para serem entregues em mãos de colecionadores dispostos a pagar verdadeiras fortunas por estes objetos no mercado negro.

Soldados norte-americanos sobem as escadarias do Zigurate de Ur.
Soldados norte-americanos sobem as escadarias do Zigurate de Ur.

O caso destes objetos arqueológicos chamou a atenção dos investigadores alemães, quando um antigo vaso de ouro foi colocado para leilão por uma tradicional casa, chamada Gerhard Hirsch Nachfolger, como pertencente à Idade do Ferro, em Roma. Tal fato gerou um debate entre especialista que, após analisarem o objeto, concluíram ser, na verdade, mesopotâmico.

Segundo o ex embaixador do Iraque na Alemanha Alaa Al-Hashimy, em 2009 para o jornal especializado The Art Newspaper,  a Alemanha acabou por se transformar em um centro receptor de todo este material ilegal que, por apresentar uma engessada legislação, torna muito difícil que estes objetos sejam reconhecidos como roubados e devolvidos à nação de origem. De qualquer forma, após o início do processo judicial pelo retorno do vaso de ouro, surgiram indícios de que outros 28 artefatos da Mesopotâmia foram contrabandeados do Iraque para a Alemanha.

Foto do sítio arqueológico da Babilônia, retirada por membros do exército norte-americano quando invadiram uma das casas do ditador Saddam Hussein. A foto foi tirada desde a sacada da casa de Hussein e, na parte inferior, podemos ver um Humvee
Foto do sítio arqueológico da Babilônia, retirada por membros do exército norte-americano quando invadiram uma das casas do ditador Saddam Hussein. A foto foi tirada desde a sacada da casa de Hussein e, na parte inferior, podemos ver um Humvee
Soldado norte-americano, com fragmento de pedra marcado por inscrições em escrita cuneiforme. Fonte: The Iraq War & Archaeology
Soldado norte-americano, com fragmento de pedra marcado por inscrições em escrita cuneiforme. Fonte: The Iraq War & Archaeology

Todavia, segundo o blog The History Blog, foram necessários 7 anos de trâmites burocráticos para que, finalmente, o machado apontado no início do texto fosse entregue nas mãos do, então embaixado do Iraque em Berlin, Hussain M. Fadhlalla al-Khateeb. Já, no ano de 2012, o jarro de ouro e outras 44 relíquias mesopotâmicas foram devolvidas ao Iraque em uma cerimônia oficial, no Ministério de Assuntos Externos da Alemanha.

Algo que é pequena parte, perto dos milhares de objetos que foram roubados do Museu Nacional do Iraque – 10.000, segundo afirma o diretor geral do museu, Amira Eidan – e se encontram espalhados por países como Grã-Bretanha, Estados Unidos e Canada. Algo que não será deixado de lado, conforme afirma o chefe do departamento de recuperação de artefatos históricos do Iraque Abbas al-Quraishi:

“We are heading in coming months to retrieve Iraqi artifacts from Britain, from the United States of America, and Canada … we will follow Iraq’s antiquities wherever they are,”

RANDOM POSTS

0 236
  Passados 3 meses desde o lançamento do filme (12 de Julho de 2017), creio que todos os nossos leitores provavelmente já assistiram este nostálgico...