Brasil e a Segunda Guerra Mundial: Alianças com EUA ou Alemanha?

Brasil e a Segunda Guerra Mundial: Alianças com EUA ou Alemanha?

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As Relações entre Brasil, Estados Unidos e Alemanha, se iniciaram no inicio do século XX, no momento em que a Grã-Bretanha estava perdendo espaço na América.

Nesse período, os Estados Unidos tinham uma política de “América para os Americanos”, onde o Continente Americano seria dos próprios americanos, não havendo com isso a interferência dos países europeus na América.

Pato Donald e Zé Carioca (símbolo da boa relação dos 2 países)
Pato Donald e Zé Carioca (símbolo da boa relação dos 2 países)

A Alemanha olhava para a América como uma nova oportunidade de novos mercados, pois os outros continentes, já estavam dominados pelas “grandes potências”, e a América Latina era ainda um mercado aberto, ainda mais com o declínio da posição britânica no continente.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha tinha dificuldades em readquirir a força que tinha antes da Grande Guerra na América Latina, assim a Grã-Bretanha aceitou mais facilmente a predominância dos Estados Unidos na região. Em 1930, os norte-americanos, já eram a principal potência política, econômica e em alguns países até cultural no continente.

Num primeiro momento as relações econômicas do Brasil com a Alemanha foram boas, principalmente nos primeiros anos da década de 1930,

As relações do Brasil no governo Vargas, para parte da historiografia brasileira, foram de uma “política de barganha”, e essa imagem, foi mais forte no meados da década de 1930. Nesse período a Alemanha conseguiu um crescimento na participação no comércio exterior do Brasil, sendo um exemplo disso, os Acordos de Compensação de 1934 e 1936, no qual os alemães importavam algodão, café, laranja, couro, tabaco e carne enlatada em grandes quantidades, e o Brasil importava da Alemanha produtos manufaturados.

Participação da Inglaterra e dos Estados Unidos nas Importações do Brasil (1901-1950)
Participação da Inglaterra e dos Estados Unidos nas Importações do Brasil (1901-1950)

Além disso, existia um encanto pela Wermarcht (Forças Armadas da Alemanha) por parte de Eurico Gaspar Dutra (Ministro da Guerra, 1936-1945) e Góes Monteiro (Comandante do Estado-Maior de Exército, 1937-1943), mas em nenhum momento havia simpatia por parte deles em relação à ideologia alemã. Os simpatizantes da Alemanha eram minoria no governo, enquanto os simpatizantes dos Estados Unidos eram maioria, encabeçado por Oswaldo Aranha (Embaixador do Brasil nos EUA, 1934-1937 e Ministro das Relações Exteriores, 1938-1944).

A aproximação com a Alemanha aconteceu devido à sua carência de matérias-primas, que eram necessárias as suas indústrias, e na década de 1930, a situação era difícil, por causa, da crise econômica internacional e do forte controle comercial dos países europeus para com as suas colônias. Assim, a Alemanha e alguns outros países, enxergavam na América uma região dependente do mundo desenvolvido para escoar seus produtos primários.

O grande volume exportado do Brasil para Alemanha fazia parte do excedente comercial feito com os norte-americanos, e os produtos importados da Alemanha para o Brasil, eram produtos que não competiam com os dos Estados Unidos.

As relações do Brasil com a Alemanha foram se tornando mais complicadas com a chegada da guerra, no ano anterior ao inicio da guerra, o Embaixador da Alemanha no Brasil, informa isso em um telegrama ao Ministério das Relações Exteriores, onde ele constata o seguinte,

“É difícil perceber-se por que o Govêrno brasileiro tem levado a efeito nos últimos meses uma campanha contra todos os elementos alemães no Brasil – contra os nacionais alemães e suas organizações, assim como contra os alemães de cidadania brasileira. Não me estou referindo agora aos artigos de propaganda contra a Alemanha, constantemente repetidos em um setor da imprensa brasileira… Estou-me referindo aqui, sobretudo, ao fato de que o próprio Govêrno Federal e vários órgãos estaduais, não só permitem que uma campanha seja feita contra a NSDAP , ou contra membros individuais do Partido, escolas alemães, etc., mas até a aprovam.”

Medidas tomadas por brasileiros tinham a influência dos Estados Unidos, em oposição à Alemanha, pelo fato dos norte-americanos temerem uma possível influência dos integralistas no governo brasileiro.

A discórdia entre Alemanha e o Brasil, se desenvolveu, a partir do posicionamento dos alemães e de descendentes de alemães que moravam no sul do Brasil. Muitos deles nascidos no Brasil, se consideravam mais alemães que brasileiros, o que agradava a Alemanha, e isso fazia com que muitas vezes o governo brasileiro pedisse explicações ao governo alemão.

A política entre alemães e brasileiros teve um dos grandes desgastes, em 1938, com as prisões de cidadãos alemães no país e a proibição do funcionamento Partido Nazista, que funcionava no Brasil desde 1928. A tentativa de golpe da AIB (Ação Integralista Brasileira), também serviu para dificultar as relações entre os dois países.

Crianças alemães da cidade de Presidente Bernardes (SP) fazendo saudação a Hitler
Crianças alemães da cidade de Presidente Bernardes (SP) fazendo saudação a Hitler

Nesse mesmo ano, o Brasil tomava medidas que consideravam importantes de cunho nacionalista, mas que estremecia suas relações com vários países, onde se dizia o seguinte:

“Os estrangeiros foram proibidos de participar, criar e manter agremiações, fundações e partidos políticos; de hastear ou usar os símbolos da sua pátria; de manter jornais ou outras publicações e, além disso, eram obrigados a falar português. Os professores deveriam ser de nacionalidade brasileira e as escolas existentes nas colônias deveriam ministrar a geografia e a história do Brasil.”

A crise entre Alemanha e Brasil teve como um dos momentos mais difíceis o ano de 1938, onde o Brasil intensificou uma postura nacionalista, na qual os estrangeiros tiveram varias restrições em demonstrar qual seria a sua nacionalidade e seus métodos de vida, na relação com o Embaixador alemão (Karl Ritter), já que o Brasil não desejava a sua permanência no país e nas prisões de alemães em campos de concentrações.

Curiosamente, as relações entre essas duas nações ficaram mais difíceis, no período menos democrático no Brasil, onde foi instaurado o Estado Novo, pois até esse período o país não tinha uma posição clara em relação aos alemães.

As relações do Brasil com os Estados Unidos no governo de Getúlio Vargas dão continuidade as relações na década de 1920, onde houve um grande crescimento entre os dois países. Na década de 1930, mesmo havendo períodos de estremecimento das relações, a afinidade entre eles sempre foi mantida.

A confirmação dessas boas relações acontece com os acordos comerciais do início dos anos de 1930 e a aliança no período da Segunda Guerra Mundial, onde o Brasil concede aos Estados Unidos bases aeronavais em lugares estratégicos para o envio de tropas para o Continente Africano e posteriormente a Europa e para o patrulhamento no Atlântico Sul.

Vargas e Roosevelt visitando Base no RN
Vargas e Roosevelt visitando Base no RN

Enquanto os norte-americanos ajudariam no reequipamento dos militares brasileiros e na construção da Indústria Siderúrgica Nacional. A Entrada da FEB (Força Expedicionária Brasileira) na Guerra, também fez parte desses acordos entre Brasil e os Estados Unidos, pois o Brasil foi o único país da América do Sul a enviar tropas para a Europa.

O Brasil na década de 1930 esperava das relações com os Estados Unidos e a Alemanha o máximo de acordos econômicos com as duas nações. O governo brasileiro desejava aproveitar ao máximo esse período de crise e de dificuldades das Guerras, pois a Alemanha ainda sofria com a Primeira Guerra Mundial e ainda tinha a Crise de 1929, onde todas as nações passavam por dificuldades, para conseguir aumentar favoravelmente sua balança comercial.

O país não desejava em nenhum momento um aumento das relações políticas com a Alemanha, e buscava uma maior autonomia com os Estados Unidos.

Assim, as relações do Brasil com a Alemanha e os Estados Unidos, não podem ser considerada uma “política de barganha”, pois as relações políticas e militares com os Estados Unidos em nenhum momento sofreram risco, ou até mesmo diminuíram a ponto de outra nação superá-la, a condição de principal parceiro do Brasil pelos Estados Unidos nunca esteve ameaçada. O Brasil nunca esteve perto de participar da Segunda Guerra Mundial do lado do Eixo, mas aproveitou-se das condições que estavam sendo colocadas na década de 1930, para conseguir buscar novos parceiros comerciais.

Soldados alemães se rendendo da 232º e 148º Batalhão de Infantaria aos soldados da FEB
Soldados alemães se rendendo da 232º e 148º Batalhão de Infantaria aos soldados da FEB