Adolf Hitler mencionou o bombardeiro Heinkel He 177 Greif (Grifo) pela primeira vez a seu alto comando em 1 de fevereiro de 1943.

Em diálogo com o Generaloberst (Coronel) Hans Jeschonnek, o chefe de gabinete da Luftwaffe, como parte de uma reunião sobre tanques e aviões, o Führer disse:

“Eu não preciso dizer mais de uma vez que: eu considero todo o modelo 177 um equívoco por que já foi comprovado durante a Grande Guerra que usar dois motores em um eixo é algo de extrema dificuldade, e que gerara uma série de problemas recorrentes.”

Talvez o He 177 não tenha sido o grande erro de de Hitler – existe uma lista vasta de candidatos –  mas foi um erro total do time de engenheiros de aeronaves da Ernst Heinkel e da Luftwaffe. Ele é a personificação da falha durante os tempos em que a Alemanha tentava se armar com bombardeiros de longo alcance.

O desenvolvimento era secreto e foi classificado como “plano de bombardeiro pesado”. A promessa era criar uma aeronave de performance superior à qualquer aeronave no mundo (na época), armado com duas toneladas de bombas para atingir alvos em até 2300 km dentro do território inimigo a uma velocidade de 360 kph. Ele permitiria que a Luftwaffe chegasse aos comboios aliados no Atlântico e instalações soviéticas além dos Montes Urais.

Protótipo do bombardeiro pesado Heinkel He 177 V5 em vôo, 1942/43. Foto da marinha americana.
Protótipo do bombardeiro pesado Heinkel He 177 V5 em vôo, 1942/43. Foto da marinha americana.

Ao invés de melhorar a força ofensiva da Luftwaffe, o He 177 ficou conhecido pelas falhas estruturais, problemas de motor (incluíndo frequentes problemas de aquecimento e incêndios nos motores) e no geral a falta de confiabilidade. A superfície da cauda teve de ser redesenhada e alargada. Haviam problemas constantes não apenas com os motores gêmeos mas com o complexo sistema de hélices de quatro pás de quatro metros e meio por oito polegadas de espessura.

Especificações e grandes expectativas

Desenvolvido no início de 1939, o He 177 foi desenhado mediante a uma especificação do Ministério de Aviação Alemão, que solicitava um bombardeiro pesado com capacidade para duas toneladas de bombas. Enquanto ainda estava se preparando para seu primeiro vôo, o Generaloberst Ernst Udet, talvez um dos pilotos mais famosos da Luftwaffe, decretou que todos os aviões de combate alemães deveriam ter a capacidade de efetuar bombardeios de mergulho da mesma forma que faziam os Junkers Ju 87 Stuka. Jeschonnek (seu sucessor) continuou esta política após a morte de Udet em 1941. Esta nova regra, que era impossível para um bombardeio pesado, criou a necessidade da engenharia de motores gêmeos que se tornaram o coração de todos os problemas do Grifo.

Os motores foram colocados em duas nacelas tornando-o um avião quadrimotor – ou algo parecido. O conceito foi criado em cima dos motores Daimler Benz DB 606, que somavam dois DB 601A-1/B-1 invertidos de 1350 cavalos de potência cada, instalados lado a lado com cilindros internos quase verticais, formando um W. Os motores estavam fadados ao superaquecimento e incêndios durante o vôo eram quase certos. Seis dos oito aviões originalmente criados foram perdidos, a maioria por problemas de incêndio, e muitos dos 35 primeiros (produzidos inicialmente pela Arado) também tiveram o mesmo destino.

O protótipo He 177V-1 fez seu vôo inaugural em 9 de novembro de 1939, pelo Tenente Carl Francke, chefe do Centro de Testes de Rechlin. O vôo terminou abruptamente após 12 minutos de superaquecimento nos motores. Fracke elogiou a manobrabilidade mas reclamou da vibração nos eixos propulsores, superfícies inadequadas na cauda, e a trepidação constante que afetava a posição dos profundores, algo de perigo extremo.

Manutenção nos motores problemáticos de um He 177. Foto Bundesarchive
Manutenção nos motores problemáticos de um He 177. Foto Bundesarchive

Este era o começo de uma longa série de incêndios, acidentes e quedas. Em junho de 1942, o inspetor da Luftwaffe, o Marechal de Campo Erhard Milch e o Ministro de Armamento, Albert Speer visitavam a base por um outro propósito e viram, por acaso, o novo He 177 decolar com o compartimento de bombas lotado. Após sumir do campo de visão, quando estava há 150 metros (500 pés) de altitude o Grifo guinou abruptamente e deslizou de lado em direção ao solo, matando todos que estavam à bordo. Só após este ocorrido, Milch veio a ser informado sobre outros acidentes fatais que não eram de seu conhecimento até então.

No livro The Rise and Fall of the Luftwaffe, a biografia de Milch, o autor David Irving escreve sobre o Reichsmarschall Hermann Göring reclamando da regra de Jeschonnek à respeito dos aviões com capacidade para bombardeio de mergulho. “É uma idiotice sem tamanho criar bombardeiros quadrimotores pesados com capacidade de mergulho,” disse Göring. “Se eu tivesse sido informado sobre isso à tempo, eu teria dito logo de início: que tipo de maluquice é essa?” Mas o projeto já havia sido enviado, e, como disse Göring, “agora já está aí, temos que engolir.”

Irving cita a crítica de Milch, “Para que serve o melhor avião do mundo se ele desmonta enquanto no ar?”

Mudanças nas configurações

Enquanto os motores eram constantemente redesenhados no He 177, novas versões do bombardeiro foram criadas, e que mais tarde foram também modificadas. Armeiros da linha de frente em Stalingrado, que receberam meia-dúzia de He 177A usados como transporte, instalaram canhões BK-5 anti-carro de 50mm debaixo do nariz. Uma outra tentativa para instalar canhões de 70mm criou novos problemas aerodinâmicos e foram cancelados após cinco He 177A-3/R-5 receberem as armas.

He 177A  em um mergulho raso. O He 177 foi desenhado para possuir a capacidade de efetuar bombardeios de mergulho, uma solicitação ridícula para um bombardeiro quadrimotor. Foto: Bundesarchiv
He 177A em um mergulho raso. O He 177 foi desenhado para possuir a capacidade de efetuar bombardeios de mergulho, uma solicitação ridícula para um bombardeiro quadrimotor. Foto: Bundesarchiv

Nenhuma das mudanças criaram grandes avanços mediante aos problemas do He 177, incluíndo uma grande tendência a guinadas nas decolagens. “Isqueiro voador” era o apelido dado ao Grifo pelos homens da Luftwaffe.

Até a interrupção das linhas de produção de todas as aeronaves que não fossem caças ocorrida em outubro de 1944, a Heinkel e a Arado produziram aproximadamente 1100 He 177s, incluíndo outros 826 exemplares do modelo He 177A-5, que foi amplamente melhorado se comparado a versões anteriores. A utilidade do bombardeiro nunca foi acreditada. Em uma ocasião, Göring assistiu catorze aeronaves decolarem em missões de ataque a Londres. Treze decolaram. Oito retornaram imediatamente com superaquecimento nos motores, um caiu em algum lugar e apenas quatro conseguiram completar seus objetivos, mas nenhum foi derrubado.

 

O He 177 foi o maior avião alemão operado sobre a Inglaterra durante a guerra.

Heinkel-he177

O arqueólogo de aeronaves Julian Evan-Hart escavou o local de queda de um He 177 que foi derrubado por um De Havilland Mosquito da Força Aérea Real em 1944 próximo à cidade de Saffron.