A Guerra do Paraguai (1864-1870) foi uma das mais violentas guerras no Continente Americano, que teve como integrantes a Tríplice Aliança, que era composta por Argentina, Brasil e Uruguai contra o Paraguai. O Brasil entrou na guerra depois que teve o navio Marquês de Olinda aprisionado no Rio Paraguai e a invasão das tropas do Paraguai no Mato Grosso, enquanto a Argentina declarou guerra aos paraguaios, depois da invasão dos mesmos na região de Corrientes.

As causas para a Guerra de acordo com a nova historiografia, não é mais por causa do Imperialismo da Inglaterra, e sim devido ao processo regional no Continente, onde o aspecto geopolítico e econômico são importantes para o entendimento para o conflito.

A visão sobre o aspecto geopolítico tem início na política interna do Uruguai, onde no momento o Partido Blanco estava no poder, e o Brasil que tinha uma parceria com o Partido Colorado, se prepara para uma intervenção na sua antiga colônia Cisplatina, conquistou a independência sobre o Brasil em 1828, para reconduzir o Partido Colorado ao poder. O Partido Blanco, através do apoio brasileiro aos Colorados, busca apoio dos paraguaios, para tentarem se manter no poder. O Paraguai enxergava na relação Brasil, Argentina e Uruguai (Partido Colorado), um isolamento político na região e através disso, a necessidade de demonstrar sua força aos países vizinhos.

Em relação ao aspecto econômico, a questão no Uruguai também é o causador, devido o Paraguai desejar ter acesso ao mar. Para isso, havia a necessidade de utilizar os portos da região, como o Porto de Buenos Aires era difícil, devido às relações ruins entre a burguesia mercantil da Capital Argentina e os paraguaios, o Porto de Montevidéu era de grande valor para integrar o Paraguai ao comércio mundial.

O início da guerra aconteceu quando o Paraguai invade as regiões do Mato Grosso e do Rio Grande do Sul no Brasil e a de Corrientes na Argentina, desencadeando o Tratado da Tríplice Aliança (1865), entre Brasil, Argentina e Uruguai, que após um conflito no País, com a ajuda do Brasil, colocou de volta ao poder o Partido Colorado (Venancio Flores).

A Guerra do Paraguai, chamada também de Guerra da Tríplice Aliança, principalmente na Argentina e Uruguai, teve depois das invasões do Paraguai, um momento de conquistas da Tríplice Fronteira até 1866, com a saída das forças paraguaias do Brasil e da Argentina e com as vitórias de Riachuelo e Tuiuti, uma das grandes vitórias dos aliados.

Passagem de Humaitá
Passagem de Humaitá

Os anos de 1866 e 1867 foram de algumas derrotas e estagnações das posições das forças dos Aliados, no qual somente no segundo semestre de 1867 e no ano seguinte as tropas dos Aliados conseguiram ultrapassar as Fortalezas de Curupaiti e Humaitá respectivamente. Esta última fortaleza que foi de difícil acesso às forças aliadas, tinha como uma das principais defesas a Bateria Londres, no qual contava com o canhão de guerra “El Cristiano” (O Cristão), que pesava 12 toneladas e que tinha sido fundido com o bronze de sinos de igrejas do Paraguai, motivo do nome dado ao canhão.

Bateria de Londres em Humaitá
Bateria de Londres em Humaitá

Com o fim da Guerra do Paraguai e a vitória dos Aliados, as Forças Armadas do Brasil trouxeram alguns espólios de guerra, como documentos, troféus, bandeiras, espadas e o canhão El Cristiano, isso é uma prática comum existente desde o início das guerras. No Paraguai também existem armas e o navio brasileiro Anhabahy, nos museus desta nação.

No período da construção da hidrelétrica de Itaipu, muito desses materiais trazidos para o Brasil, foram devolvidos pelo governo brasileiro, como uma demonstração de boa vontade, além do perdão da dívida dos paraguaios com o País, porém o canhão El Cristiano, foi um das poucas heranças da guerra mantidas no Brasil, no Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro. Em 1998, todo o acervo do Museu foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), sendo declarados patrimônio nacional pelo decreto-lei nº25 de 30/11/1937.

El Cristiano
El Cristiano

Depois que o acervo é tombado, somente o Presidente da República tem autoridade para reverter o ato de tombamento, e nos últimos anos, é o que está sendo discutido, em 2010, o então Vice-Presidente do Paraguai, Federico Franco, exigiu que o canhão El Cristiano, fosse devolvido ao Paraguai, e três anos depois, enquanto Presidente voltou a falar sobre o assunto: “Não haverá paz, nem entre os soldados, nem entre a sociedade paraguaia, enquanto não for recuperado o canhão El Cristiano”.

O Presidente Lula em resposta a Franco em 2010, chegou a pedir ao Ministério da Cultura que providenciasse à volta do canhão ao Paraguai, o Ministério da Cultura, naquele ano “sugeriu que a devolução está sendo reconsiderada, para que o canhão faça parte de ações de cooperação de interesse para os dois países, como a criação de um museu”.

Com a revolta de historiadores e militares, que não aceitam a devolução de um patrimônio histórico nacional, o canhão não foi devolvido, no entanto, ainda hoje, o governo Paraguaio continua reivindicando a posse do canhão El Cristiano. Os questionamentos que ficam são; Será que outros países, que tem diversos espólios de guerra espalhados pelos seus museus, devolveriam esse material? Será que o Paraguai devolverá as armas e o navio Anhabahy? Será que a devolução do canhão provocará o fortalecimento nas relações entre Brasil e Paraguai?

Essas são as perguntas para aqueles que acreditam que a devolução de um patrimônio histórico nacional deve ser devolvido.