Constantinopla, 29 de maio de 1453.

Pela primeira vez, em centenas de anos, a parede externa da grande muralha treme enfraquecida diante da onda de choque resultante do impacto de 300 kg de granito.

A 1.500 metros de distância jaz, envolta em fumaça, a Bombarda turca com suas dezesseis toneladas de bronze fundido e calibre de 635mm. Na boca de seu cano esfumaçado permanece a inscrição: “Ajude ó Deus. O Sultão Mohammed Jhan, filho de Murad. O trabalho de Kamina Ali, no mês de Rejeb. No ano de 868[1].”

A bombarda de Mehmed
A bombarda de Mehmed

No outro lado da massa de pedra e tijolos, o centro econômico e político do Império Romano se encontrava sob cerco, com sua população a admirar, horrorizada, o poder destrutivo e o brado avassalador de uma arma que jamais imaginaram existir. Sem a menor ideia de como reagir a tal tipo de ataque, tudo que lhes resta é ajoelhar em oração e aguardar que a bondade de seu deus intervenha a seu favor.

Neste ano o Ocidente tinha, pela primeira vez, contato com uma completamente nova forma de batalha, baseada no uso da pólvora.

Mehmed II se aproxima de Constantinopla
Mehmed II se aproxima de Constantinopla

O Império Romano do Oriente

De forma errônea. As pessoas costumam pensar que a história do Império Romano termina aproximadamente, quando as invasões germânicas terminam por conquistar a cidade de Roma. Contudo, este poderoso império já havia transposto sua capital muito antes de sofrer o ataque dos vândalos, em 476 d.C. sob ordens de Constantino I, o qual foi também responsável por retirar da ilegalidade os cristãos e estabelecer uma política mais tolerante com os seguidores desta religião – em uma caminho bem diferente de seu percussores. Fato que não só dava espaço à este grupo que crescia de forma impressionante, mas atendia a demanda, inclusive, de famílias de patrícios, que já haviam sidos convertidos nesta nova fé.

Esta reorganização do Império Romano foi resultado de uma série de fatores que marcaram um processo de crise (econômica, política e social) a partir do século I, quando Otávio Augusto minimizou a prática imperialista de expansão territorial e se dedicou a consolidar as fronteiras, em um período que ficou denominado como a Pax Romana. Fato que terminou por desencadear uma série crise da mão-de obra escrava que, por dar sustento ao ordenamento econômico romano, desencadeou um processo inflacionário de produtos e imóveis.

Além disso, a enorme corrupção e a luta entre generais pelo poder dividia espaço com a expansão da fé cristã por toda a região, enfraquecendo os pilares que sustentavam esta poderosa civilização. Por fim, o processo migratório das comunidades germânicas, a partir do século III, e sua evolução para uma sequência de invasões em meio aos séculos IV e V contribuíram para que o Império romano fosse dividido em Império Romano do Ocidente (com Capital em Roma) e Império Romano do Oriente – com capital estabelecida na antiga cidade grega de Bizâncio. Iniciativa tomada por Teodósio I, o Grande (379-395) e foi acompanhada do início da construção de uma enorme muralha.

Em meados do Século V, com a tomada de Roma, Constantinopla (nome então conferido à cidade pelo Imperador Constantino I – 306-337) foi transformada no grande centro econômico, político e cultural do que restou de um enorme império, que ia do Norte da Escócia até a região da Índia. Neste lugar, os romanos (pois ainda se definiam pelo termo latino romanoi) deram início a uma prática inovadora de associação entre poder político e religioso que ficou conhecida como cesaropapismo e serviu de base para toda a organização de poder da Era Medieval.

Baseada na produção agrícola em larga escala – com uma organização de trabalho diversa, que se pautava em camponeses livres, servos e escravos – os romanos souberam utilizar a favorável localização de sua capital como um eixo das rotas comerciais para desenvolver um efusivo comércio de tecidos, minérios, escravos, grãos, especiarias, pedras preciosas, rebanhos, entre outros. Cabe apontar um especial valor dado por eles ao comércio de azeite, que era utilizado como importante fonte de luz.

A constante presença de povos com as mais diversas etnias, os romanos desenvolveram um completamente novo estilo arquitetônico que miscigenava a arte greco-romana com culturas de povos orientais e temas que amalgamavam a religiosidade e política. Fato que deu origem à criação das Basílicas (palavra de origem grega que significa a “casa do rei”), além de enormes construções como o Aqueduto de Valente, a Basílica de Hagia Sophia e o Hypódromo que eram adornados de forma rica e cuidadosa com afrescos e mosaicos.

As muralhas de Constantinopla permaneceram intocáveis por cerca de 1000 anos, tanto que passou a figurar dentre as lendas populares como o resultado da organização de um poderoso império, ungido pela bondade de Deus.

Domínio Bizantino em 1452.
Domínio Bizantino em 1452.

 

As Muralhas de Teodósio II

Construída entre 412 e 447, esta obra foi fruto do trabalho de milhares de construtores godos e grupos “bárbaros” de diversos lugares, chegando a atingir mais de 6km de comprimento de uma defesa tripla, que incluía duas muralhas e um fosso com aproximadamente 20 metros de largura que contava com barricadas por toda sua extensão – pelas quais os inimigos deveriam passar sob intensa saraivada de flechas, lanças e balas lançadas por balestras.

Caso o adversário fosse capaz de transpor o fosso, precisaria atravessar uma faixa de área desprotegida com 15m para poder atingir a primeira linha de muralhas, a qual era composta por muros de 2m de largura, 8m de altura e provida com cerca de 80 torres de vigília, dispostas de maneira estratégica por toda sua extensão.

Havia um corredor aberto com cerca de 18m de largura os levaria em direção à última muralha que, por sua vez, contava com 5m de largura, 13m de altura e 100 torres de defesa que chegavam a ter 15m de altura. Este verdadeiro abatedouro era recoberto por pequenos cubos de pedras e tijolos que eram reforçados com linhas de tijolos pontiagudos. Por fim,as regiões costeiras eram dotadas de muralhas de 12m, que se estendiam por 13km, onde estavam situados os enormes portões denominados Porta Aurea – também chamados de Portões Dourados por alguns historiadores. Contudo, segundo os autores do site da biblioteca virtual do instituto Miguel de Cervantes, a magnitude desta construção resultava um preocupante problema, já que haviam apenas 8.000 homens disponíveis para realizar o patrulhamento e defesa da muralha, durante o ano de 1453.

De qualquer forma, na época da invasão dos exércitos muçulmanos, Constantinopla já não contava mais com a enorme frota para defender seu portão no estreito do “Chifre de Ouro”, o qual foi burlado por pelas tropas de Mehmed II de forma muito criativa. Os soldados realizaram o enorme esforço de carregar os barcos numa travessia terrestre pela região próxima à torre de Gálata e, com isso, dar a volta nas gigantes correntes que impediam sua entrada e adentrar novamente no estreito do Chifre de Ouro.

The-restored-Gate-of-Charisius-or-Adrianople-Gate-where-Sultan-Mehmed-II-entered-the-city.
O Portão restaurado de Charisius ou Portão de Adrianópolis , onde sultão Mehmed II entrou na cidade.
The-Second-Military-Gate-or-Gate-of-Belgrade
O segundo Portão Militar ou Portão de Belgrado
Theodosian-Walls
Seção da muralha de teodosio
Theodosianische_Landmauer_in_Istanbul
Seção da muralha de teodosio
Representação-esquemática-das-paredes-Theodosian-duplas-de-Constantinopla-e-do-fosso-exterior-adicionados-mais-tarde
Representação esquemática das paredes Theodosias duplas de Constantinopla e do fosso exterior adicionados mais tarde

A invasão à Constantinopla

Os motivos que levaram os membros do Império Otomano a agirem no intuito de conquistar esta cidade estão relacionados aos interesses pelo controle econômico, político e religioso desta região, entendida como uma das mais ricas de toda a região. Neste sentido, este grupo – que passava a agregar para si a definição de turcos – passava por um enorme processo de expansão territorial, por meio do qual haviam conquistado todas as terras a leste e oeste de Constantinopla, fato que fazia deste lugar o último reduto cristão do leste europeu.

Além disso, devemos ter em mente que o islã é uma religião por natureza expansionista, já que o conceito de jihad envolvia a busca por obter o máximo de tribos convertidas à sua crença por meio de diálogos diplomáticos constantes e, em último caso, por meio de uma expansão militarista. Contudo, a tolerância religiosa sempre foi uma grande marca de seus seguidores que, uma vez que conquistassem a região, permitiam a realização de cultos diferentes, em troca de taxa de impostos mais alta a serem pagas pelos grupos dominados. Como foi o caso do Califado de Córdoba, que agregava no interior de seus muros muçulmanos, judeus, cristãos, budistas e outros grupos religiosos menores.

Entretanto, o sultão turco Mehmed II tinha um enorme desafio à frente pois, além de precisar realizar o impossível (transpor muralhas que há mais de 1000 anos não eram vencidas) tinha necessidade de constituir uma imagem sobre si que fosse capaz de sobrepor a incredulidade conferida à sua juventude – já que tinha apenas 21 anos de idade na época – e levar consternação aos seus adversários.

Em artigo publicado na revista History Today, o professor adjunto em Estudos Otomanos da Universidade de Birmigham, e autor do livro Ottoman Warfare, 1500-1700, Rhoads Murphey ao procurar entender as diversas perspectivas existentes na época sobre a personalidade do jovem sultão. Autor compara documentos com fatos, como o documento endereçado à comunidade genovesa, na época da conquista, que oferecia privilégios na tentativa de obter auxílio de residentes de Constantinopla, com linguagem confidencial e inspiradora.

Este documento consiste em uma carta, enviada ao Duque de Veneza, em maio de 1471, na qual lhe é proposto o fim da guerra (em curso desde 1463) de maneira diplomática, por meio de demandas moderadas à Veneza, em troca de concessões otomanas. Neste documento, o sultão acenava com a devolução da ilha de Lemnos, em contrapartida ao pedido de evacuação dos territórios de “Modon “e “Coron”, situados no extremo sul do Peloponeso. Em análise do material, Murphey, por fim, afirma que Mehmed II, acenava com grande respeito pelo conhecimento. Algo que se fazia muito presente com respeito às técnicas manufatureitas de armamentos e armaduras, o qual se

Caracterizado como de ações categóricas e temperamento explosivo, este rapaz parecia (apesar de tudo) ser capaz de controlar tais características, e apresentar um discurso moderado e construtivo quando a situação assim exigia. Ademais, Mehmed II aparentava ser dotado de grande habilidade estratégica e recusava lançar seus exércitos em batalhas que não tivessem algum tipo de garantia da vitória.

Mehmed II por Fausto Zonaro
Mehmed II por Fausto Zonaro
Retrato do Sultão Mehmed II, pintado em 1479, pelo pintor italiano Gentile Bellini
Retrato do Sultão Mehmed II, pintado em 1479, pelo pintor italiano Gentile Bellini

De qualquer forma, rumores contribuíram para envolver este personagem histórico em uma névoa de mistério que o colocavam como um líder obcecado pela reputação de suas proezas militares e que ganhava ainda mais força quando sua vitória sobre o Império Bizantino passa a ser relacionada com uma profecia de Maomé a respeito da vitória muçulmana sobre o antigo reino cristão. Todavia, o sultão não fazia a menor questão de contradizer tais boatos e chegava, inclusive, a incentivar as perspectivas errôneas como maneira de confundir seus adversários. Neste sentido, como forma de incutir maior medo e insegurança, assim como de garantir sua vitória contra os cristãos, o sultão do Império Otomano decidiu criar uma arma poderosa; a Bombarda Turca.

Em um artigo científico para o site Muslim Heritage, o pesquisador sênior da Foundation for Science, Technology and Civilisation, Dr. Salim Ayduz, faz uma interessante análise sobre a bombarda de Mehmed II e afirma que este foi o resultado de trabalho de habilidosos engenheiros e arquitetos como Saruca Usta e Muslihidin Usta, além de contar até mesmo com Urbano – um romano que se revelava insatisfeito com o governo bizantino – para a elaboração deste complexo armamento.

Construído com moldes duplos, o canhão era composto por duas partes, feitas em bronze maciço, que eram rosqueadas para formar a maior Bombarda do mundo, cujas peças possibilitavam encaixes transversais cruzados para a inserção de alavancas que permitissem aos soldados girar os canos, de forma a rosquear o carregador de pólvora ao cano de disparo.

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A Bombarda Turca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Existem relatos da época que falam sobre o clima no dia do primeiro teste, em meio ao campo, quando todos foram avisados do enorme barulho que seria feito com o estouro da arma, para que nenhuma pessoa doente ou mulheres grávidas fossem surpreendidas pelo som, desavisados. Fato que aponta um segundo aspecto, de caráter psicológico, do uso desta arma como forma de intimidar os inimigos com seu enorme tamanho e estrondo realizado pelo disparo. Isto porque toda vez que era disparado, o enorme estrondo e a névoa de fumaça poderiam ser percebidos de longa distância. Algo que foi apontado pelo relato do cronista grego Kristovolous, que dedica suas palavras ao amedrontador rugido desta arma, capaz de fazer a terra tremer.

Caso haja interesse dos leitores, é possível vermos um vídeo que demonstra o teste realizado por um grupo de cientistas, para o programa Ancient Discoverys, com uma réplica do canhão cuja poderosa explosão gerava medo entre seus próprios atiradores – que temiam a fragmentação do cano de disparo – com a intensidade da detonação, que gerou a velocidade de 200m/s do projétil. Uma força que supera a velocidade das balas dos canhões modernos!

Conclusão

Segundo tudo que vimos até agora, podemos concluir que a superioridade estratégica de Mehmed II foi fundamental para a vitória contra os cristãos. Neste sentido, o poder bélico de um enorme exército, associado ao uso de uma arma com fantástico poder de destruição, não só serviram para as batalhas, mas contaram também como arma psicológica, capaz de incutir o terror entre soldados e moradores de Constantinopla.

Desta maneira, a cidade foi tomada em apenas oito semanas de batalhas, algo que para a época poderia ser considerado um tempo extremamente curto, já que os cercos em guerras costumavam levar diversos meses – até que os suprimentos básicos da cidade cercada chegassem ao fim. Fato que levou ao fim o último reduto cristão em meio aos domínios do Império Otomano e, ao mesmo tempo, apresentou ao Ocidente o impressionante poder de destruição de um completamente novo tipo de armamento.

Com isso, as armas de fogo viriam a ser introduzidas progressivamente nas práticas militares europeias e, durante o século XVI, seriam um fator crucial na conquista da América. Mas este é assunto para outro momento, nesta história militar.

A tumba do Sultão Fatih ("O Conquistador") Mehmed II, na cidade de Istambul.
A tumba do Sultão Fatih (“O Conquistador”) Mehmed II, na cidade de Istambul.
Moeda de bronze com o busto de Mehmed o Conquistador, 1480 D.C
Moeda de bronze com o busto de Mehmed o Conquistador, 1480 D.C

[1] Este ano corresponde ao calendário muçulmano.